Objetivou-se com o presente trabalho avaliar a adaptabilidade e estabilidade de cultivares de soja semeadas em diferentes épocas no município de Maracaju-MS

Autores: BEZERRA, A.R.G.1; GITTI, D.C.1; GRIGOLLI, J.F.J.1; LOURENÇAO, A.L.F.1; MELOTTO, A.M.1

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A interação genótipos x ambientes é o principal desafio enfrentado por melhoristas de plantas durante as fases de seleção do programa de melhoramento e, posteriormente, ao recomendarem cultivares a diferentes ambientes de cultivo. Nesse processo, vários estudos são conduzidos para capitalizar essa interação dos genótipos com cada tipo de ambiente e pautar a tomada de decisão. Na maioria dos casos são realizadas análises de adaptabilidade e estabilidade, pelas quais torna-se possível a identificação de cultivares de comportamento previsível e que sejam responsivas ás variações ambientais (Cruz et al., 2012).

Nesse contexto, objetivou-se com o presente trabalho avaliar a adaptabilidade e estabilidade de cultivares de soja semeadas em diferentes épocas no município de Maracaju-MS. Foram avaliadas dezesseis cultivares (Tabela 1) dentro da rede de validação de cultivares, conduzida pela Fundação MS. As épocas de semeadura foram definidas como sendo 1ª época (20/09 a 05/10), 2ª época (06/10 a 20/10) e 3ª época (21/10 a 05/11).

Tabela 1. Médias de produtividade de grãos (kg ha-1) de 16 cultivares de soja em três épocas de semeadura nas safras 2015/16, 2016/17 e 2017/18 e média geral das cultivares e épocas.

Os experimentos foram conduzidos em três safras (2015/16, 2016/17 e 2017/18), na estação experimental da Fundação MS em Maracaju-MS. O solo da área é classificado como Latossolo Vermelho distroférrico. Todos os ensaios foram semeados sobre palhada de milho, ou seja, em condições características do sistema de plantio direto, prática tradicional no cerrado brasileiro.

Na safra 2015/16 o experimento de 1ª época foi semeado com 420 kg ha-1 da fórmula 02-24-12 no sulco e nas outras duas épocas empregou-se 380 kg ha-1 da fórmula 03-23-23. Na safra 2016/17 todos os experimentos receberam como adubação de base 320 kg ha-1 da fórmula 02-20-20 e em 2017/18 foram 330 kg ha-1 da fórmula 02-23-23).



O delineamento experimental adotado foi de blocos completos ao acaso, com duas repetições. Cada parcela consistiu de 5 linhas de 12 m, espaçadas a 0,5 m. Para avaliação do rendimento de grãos foram colhidas as três linhas centrais e a umidade corrigida para 13%. Todos os demais tratos culturais foram realizados de acordo com as recomendações técnicas regionais aplicadas à cultura (LOURENÇÃO et al., 2017).

O efeito da interação genótipos x ambientes foi estimado via REML/BLUP, utilizando o modelo estatístico 114 do software Selegen-REML/BLUP (Resende, 2007), correspondente aY= Xf + Zg + Qa + Ti + Wt + e, em que y é o vetor de dados, f é o vetor dos efeitos das combinações repetição-local (época)-ano (assumidos como fixos) somados à média geral, g é o vetor dos efeitos genotípicos (assumidos como aleatórios), a é vetor dos efeitos da interação de genótipos com anos (aleatórios), i é o vetor dos efeitos da interação genótipos x locais (épocas), t é o vetor dos efeitos da interação tripla genótipos x locais (épocas) x anos (assumidos como aleatórios) e e é o vetor de erros ou resíduos (aleatórios). As letras maiúsculas representam as matrizes de incidência para os referidos efeitos.

Após a obtenção dos valores genotípicos, por meio do modelo descrito acima, a adaptabilidade e estabilidade foi estudada por meio do método da média harmônica do desempenho relativo dos valores genéticos (MHPRGV), que seleciona simultaneamente genótipos com alta produtividade de grãos, adaptabilidade e estabilidade, embora não informe os ambientes semelhantes (Santos et al., 2015).

De acordo com a análise de deviance houve significância (P<0,01) apenas para a interação tripla genótipos x épocas x anos. Logo, o componente de variância e coeficiente de determinação para o referido efeito foram estatisticamente diferentes de zero, o que demonstra existência de variabilidade genética e possibilidade de ganhos com a seleção.

As cultivares M6410-IPRO, TEC6702-IPRO e BMX-ÍCONE-IPRO obtiveram os maiores valores genotípicos nas três épocas de semeadura e na média de todas as épocas (Tabela 2). Essas cultivares também são as melhores de acordo com o método da média harmônica do desempenho relativo dos valores genéticos (MHPRVG) para a recomendação nas épocas estudadas. A escolha de uma dessas cultivares pode resultar em ganhos de rendimento da ordem de 1,8 a 3,0%, a depender da época de semeadura. Além disso, os valores genotípicos podem, também, ser considerados para a recomendação desses cultivares em outros ambientes com padrão de interação G × A similar ao padrão desta pesquisa, onde o mesmo comportamento das médias genéticas do rendimento de grãos é esperado. Isso só é possível porque o método de modelos mistos penaliza os valores genotípicos preditos (Santos et al., 2016).

Tabela 2. Valores genotípicos, estimativa da adaptabilidade e estabilidade dos valores genotípicos (MHPRVG) preditos pela análise REML/BLUP para a produtividade de grãos (kg ha-1) de 16 cultivares de soja em três épocas de semeadura.


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O método MHPRVG é similar ao método de Linn e Binns (1988), porém no contexto genotípico e não no contexto fenotípico. A quantidade MHPRVG*MG (Tabela 2) refere-se à MGPRVG multiplicada pela média geral de todos os locais. Logo, fornece o valor genotípico médio penalizado pela instabilidade e capitalizado pela adaptabilidade.

Conclui-se que as cultivares M6410-IPRO, TEC6702-IPRO e BMX-ÍCONEIPRO podem ser recomendadas nas três épocas de semeadura em Maracaju-MS, pois apresentam maior produtividade de grãos, adaptabilidade e estabilidade.

Referências

CRUZ, C.D.; REGAZZI, A.J.; CARNEIRO, P.C.S. Modelos biométricos aplicados ao melhoramento genético. v.1, 4 ed. Viçosa: Editora UFV, 2012. 514p.

LIN, C.S.; BINNS, M.R.A superiority measure of cultivar performance for cultivar x location data. Canadian Journal of Plant Science, v.68, p.193-198, 1988.

LOURENÇAO, A.L.F.; BEZERRA, A.R.G.; GRIGOLLI, J.F.J.; GITTI, D.C.; MELOTTO, A.M. (eds.). Tecnologia e Produção: safra 2016/17. Curitiba: Midiograf, 2017. 209p.

RESENDE, M.D.V. Software SELEGENREML/BLUP: sistema estatístico e seleção genética computadorizada via modelos lineares mistos. Colombo: Embrapa Florestas, 2007. 359p.

SANTOS, A.; CECCON, G.; TEODORO, P.E.; CORREA, A.M.; ALVAREZ, R.C.F.; SILVA, J.F.; ALVES, V.B. Adaptability and stability of erect cowpea genotypes via REML/BLUP and GGE Biplot. Bragantia, v. 75 n.3, p.299-306, 2016.

Informações dos autores:  

1Fundação MS para Pesquisa e Difusão de Tecnologias Agropecuárias, Maracaju, MS.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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