Agronegócio precisa direcionar inovações para valorização das marcas

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É consenso entre empresários, especialistas e associações do segmento do agrone­gócio que o Brasil avançou significativamente nos últimos anos e tem grandes chances de se tornar líder mundial do setor. Atualmente, o País possui cerca de 50 milhões de hectares de área plantada. Na década de 1990, esse nú­mero era próximo a 40 milhões. O aumento da produção agrícola se refletiu no PIB do agronegócio que praticamente dobrou, pas­sando de pouco mais de R$ 550 bilhões para quase R$ 1 trilhão, representando 22% da ge­ração de riqueza do País. Além disso, a balança comercial cresceu exponencialmente, saltan­do de US$ 14 bilhões para aproximadamente US$ 80 bilhões em 2012. No entanto, ainda há pouco valor agregado aos produtos e tam­pouco uma política para inverter esse quadro.

Os números otimistas do agronegócio, a começar pela produtividade que passou de 1,5 toneladas por hectare para 3 toneladas por hectare, é explicado pela modernização no campo. A inovação na agricultura tropi­cal em três processos inéditos, entre eles a conquista do cerrado com a superação de plantar em um solo ácido e pobre, o sistema de plantio direto na palha com mais de uma safra por ano e a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) – que promove a recuperação de áreas de pastagens degradadas agregando, na mesma propriedade, diferentes sistemas produtivos – são os fatores apontados por Luiz Antonio Pinazza, responsável pelo de­partamento técnico da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) como uma das parti­cularidades nacionais na inovação no campo. Em sua opinião, a força empreendedora dos agricultores para realizar todas essas ações e os avanços nas políticas públicas, como a concessão de crédito rural para custeio, in­vestimento e comercialização da produção agrícola contribuíram para os bons resulta­dos do agronegócio brasileiro.

Os recursos do crédito rural, destaca Pinazza, passaram de R$ 39,4 bilhões na sa­fra 2004/05 para R$ 156,1 bilhões na safra 2014/15 na agricultura empresarial. Nesse mesmo período, constata-se também que o volume financeiro destinado à agricultura familiar passou de R$ 5,6 bilhões para R$ 24 bilhões. “Em ambos os casos, o crescimento foi expressivo”, afirma Pinazza. Os investi­mentos ajudaram a fazer do País o terceiro maior exportador do mundo, atrás dos Esta­dos Unidos e Europa, com arrecadação anual de divisas na ordem de US$ 100 bilhões.

Maria Eugênia Monteiro Castanheira, professora de Agronegócio no curso de Ad­ministração do Centro Universitário Newton Paiva, com sede em Belo Horizonte (MG), acredita também que os avanços científicos e tecnológicos foram fundamentais para tor­nar a produção agroindustrial brasileira mais eficiente e fazer do País uma referência no agronegócio mundial. A professora comenta ainda que a política de incentivo à produção agrícola, ao longo da história, funcionou em larga escala, priorizando a produção de com­modities e o desenvolvimento de complexos agroindustriais. Porém, na opinião dela, os incentivos à agricultura familiar e às práticas agroecológicas ainda são tímidos, apesar do potencial socioeconômico dessas atividades.

Outro contraponto em relação ao bom desempenho do agronegócio brasileiro vem da análise do engenheiro Luiz Castanheira Polignano, diretor da DM&P – Desenvolvi­mento, Mercado & Produtos, empresa brasi­leira especializada em buscar oportunidades de novos negócios, inovação e reestrutura­ção de organizações. Polignano argumen­ta que é preciso refletir se os indicadores como volume de produção agrícola, PIB do agronegócio, saldo da balança comercial e/ou produtividade por hectare refletem o real desempenho e potencial do segmento. Segundo ele, se for analisar o percentual de produtos industrializados frente ao de commodities agrícolas, é possível perceber que não houve muita evolução. Polignano sustenta essa afirmação ao estudar o caso da cadeia do café. “O Brasil, como o maior pro­dutor de café verde, correspondendo a mais de 30% do volume de grãos produzidos em todo mundo, apresenta participação insigni­ficante no mercado de cafés industrializados ou de lojas de cafés”, destaca.

Norte para o setor

Sobre os incentivos do governo ao setor, Polignano defende que o esforço deveria ser feito em outras direções com a redefi­nição de uma estratégia, avaliando onde o segmento se posiciona e onde quer chegar. Polignano enfatiza também que é preciso reestruturar o ambiente de negócios, dando condições e segurança para empreender e reorganizar o papel dos atores-chaves, en­tre eles, empresas, governo e universidade. Para ele, o fortalecimento dos pilares da ino­vação com educação mais forte e a agenda de pesquisa científica focada nos problemas prioritários também deveriam ser essenciais. “Os incentivos fiscais e financeiros devem ser destinados ao segmento à luz da estra­tégia definida, da capacidade do ambiente empreendedor de gerar negócios e dos gaps dos pilares da inovação e das competências empresariais do setor”, afirma.

Para Pinazza, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), no panorama da modernização e inovação no campo no Brasil, é importante considerar os avanços em pesquisas desempenhado pela Embra­pa, órgãos estaduais e empresas privadas na geração de sementes mais produtivas e resistentes a pragas e doenças. A frota de tratores e colheitadeiras em renovação e a evolução tecnológica registrada há mais de uma década integram os fatores decisivos para o desenvolvimento do agronegócio no País considerados por Pinazza.

Em termos de produtos, por exemplo, Pinazza cita como inovação a área de fertili­zantes, criados para melhorar o desempenho da aplicação convencional de nitrogênio, fós­foro e potássio, como os substratos, condi­cionadores, orgânico minerais e foliares, en­tre outros. Atualmente, ele conta que a maior demanda está em agilizar a liberação de mo­léculas mais específicas, de menor densidade e amigas do ambiente, existentes em outros países, para dar maior competitividade ao agricultor brasileiro. “Essa é uma das grandes demandas do setor produtivo para com o go­verno”, considera. Pinazza acrescenta ainda que na safra 2013/2014 foi criado o programa Inovagro que, via BNDES, distribui recursos para o desenvolvimento de ações nos seto­res de insumos focados no melhoramento genético, princípios ativos, de agroquímicos, processamento de alimentos, aditivos, em­balagens, máquinas e equipamentos para o agronegócio, agropecuária, processamento primário, alimentos e logística. Para ele, esse é o caminho para o Brasil se firmar cada vez mais como um grande player mundial em ali­mentos, fibras e biomassa.

Polignano, diretor da DM&P, concorda que o Brasil tem um importante papel no novo ambiente econômico mundial, princi­palmente porque possui ativos importantes que o credencia para liderar a discussão so­bre temas de importância global, como as novas fontes de energia, biodiversidade, se­gurança alimentar e mudanças climáticas. E todos esses temas possuem estreita relação com o agronegócio. Além disso, no cerne do segmento ainda está a produção de alimen­tos e de matérias-primas renováveis, essen­ciais ao desenvolvimento sustentável da ativi­dade industrial. E essa gigante demanda do setor oferece inúmeras oportunidades para empreender tanto na produção agropecuária quanto nos negócios que envolvem a produ­ção e comercialização de insumos, máquinas agrícolas, consultoria, assistência técnica, pro­dução agroindustrial, armazenamento, logís­tica, distribuição, entre outros.

Mas para o setor de agronegócio avançar ainda mais no País, é preciso, na visão de Po­lignano, superar as deficiências estruturais de estradas, ferrovias, portos, cabotagem, e arma­zenagem; exportar mais produto manufatura­do; explorar mais a diversidade natural e a ter­ra agricultável disponível. O diretor da DM&P avalia ainda que a bioenergia é urgente e o País está engatinhando nesta área. “Ainda nem co­meçamos a converter ciência e engenharia em produtos e tecnologia. E temos boas universi­dades especializadas nesse setor”, considera.

A professora Maria Eugênia também diz que faz coro que é necessário investir em in­fraestrutura. Na avaliação dela, a dificuldade para escoar a produção agroindustrial e a defasagem na capacidade de armazenagem prejudicam o fluxo de suprimento das ca­deias produtivas e comprometem a compe­titividade do setor. A elevada carga tributária também é citada por ela como uma das grandes razões de fragilidade do agrone­gócio diante do mercado internacional. Maria Eugênia afirma que as esferas pú­blicas e privadas têm as respostas para ala­vancar o agronegócio brasileiro, entretan­to não conseguem convertê-las em ações que, de fato, surtam efeito.

Os hábitos de consumo da população em geral estão mudando e a tendência é aumentar a demanda por produtos mais naturais e saudáveis. E nesse nicho, Po­lignano afirma que o Brasil tem poucas opções de produtos. “Ainda não forta­lecemos o Brasil enquanto marca no segmento. Somos tímidos na criação de produtos estilo terroir”, diz. Polignano acredita que o agronegócio brasileiro tem sido mais reativo que propositivo na cria­ção de modelos de negócio e de comer­cialização de produtos agroindustriais. No entanto, argumenta que é só deixar os empreendedores fazerem o que eles sabem – empreender – que, a partir dis­so, surgirão inovações, capazes de elevar substancialmente a sofisticação dos negó­cios no setor. “Se o governo investisse no agronegócio de verdade, seríamos uma potência mundial”, enfatiza.

Por Raquel Rezende (raquel@empreendedor.com.br)

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Texto originalmente publicado em:
Empreendedor
Autor: Raquel Rezende

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