O objetivo deste trabalho foi analisar o relacionamento da presença de fitopatógenos em sementes diferentes cultivares comerciais de soja com parâmetros fisiológicos.

Autores: Anderson R. Rietjens1; Natanael Marcos Lemes1, Rafaela Alves Fonseca1, Jakelinny Martins Silva2; Jennifer Decloquement3, Roberto Pereira Castro Junior2, Milton Luiz da Paz-Lima5

Resumo: A análise sanitária e fisiológica de sementes de soja auxilia na compreensão da incidência dos fitopatógenos e seus danos ocasionados a semente no momento do plantio, bem como, as interações varietais no campo. O objetivo deste trabalho foi analisar a presença de fitopatógenos em diferentes cultivares comerciais de soja, e relacionar com parâmetros fisiológicos. Utilizando o DIC, pelo “Blotter Test” foram avaliados 83 cultivares comerciais de soja, 10 repetições (25 sementes/Gerbox) totalizando 250 sementes por cultivar. Avaliou-se a % de germinação (%GER), % de incidência de patógenos (%IP), % incidência de gêneros de fungos (%GEN). Realizou-se o teste F e comparação de médias por Scott Knott. Estatisticamente 28,91 % das cultivares comerciais apresentaram o maior poder germinativo de suas sementes. Estatisticamente a menor %IP foi observada para a cultivar comercial G 850 RR (12,8 %) e 42,2 % das cultivares comerciais apresentam as maiores %IP. Os microrganismos mais incidentes foram Fusarium sp. (63,6%), seguido de Aspergillus sp. (8,5 %) e Alternaria sp. (3,6 %), sendo detectados 21 táxons fúngicos associados. A identificação da associação genética ou ambiental da incidência de agentes possivelmente patogênicos em sementes de cultivares comerciais de soja representa uma importante ferramenta de manejo de incidência de doenças.

INTRODUÇÃO

A soja [Glycine max (L). Merrill – Fabacea], é considerada a principal fonte de proteína para a alimentação animal, tendo a produção crescido de forma suficiente para atender à demanda total por esse produto (PINAZZA, 2007).

Aproximadamente 90 % das culturas utilizadas para alimentação são propagadas por sementes. Dentre essas, a soja é considerada de importância (HENNING, 2005). Em estudos, foram detectados 66 fungos, seis bactérias e oito vírus em sementes de soja. Os microrganismos patogênicos de sementes provocam muitos efeitos adversos sobre as sementes de soja. Eles podem reduzir a germinação das sementes, prejudicar a emergências das plântulas ou causar murchas, manchas foliares e outras doenças importantes em plantas nos estágios pré e pós-emergenciais e adultas (SINCLAIR e SHURTLEFF, 1975). A principal finalidade da análise de sementes é determinar a qualidade de um lote, consequentemente, o seu valor para a semeadura (FRIGERI, 2007).

O uso de sementes de qualidade torna-se uma necessidade imprescindível, pois carrega as características desejáveis para uma condução eficiente das lavouras que resultam em produtividades maiores a cada safra (FRANDOLOSO, 2012). É claro que a certificação de sementes (RENASEM – Registro Nacional de Sementes e Mudas) por entidades credenciadas pelo MAPA e esta certificação além de atestar a conformidade do processo de produção incluindo informações da origem genética e acompanhamento de gerações, permite apropriar o comercio de sementes ao mercado externo (MAPA, 2016). E por fim, relacionar comportamento varietal com a frequência de fitopatógenos em sementes, sua correlação, é pouco estudada em literatura.

O objetivo deste trabalho foi analisar o relacionamento da presença de fitopatógenos em sementes diferentes cultivares comerciais de soja com parâmetros fisiológicos.

MATERIAIS E MÉTODOS

O experimento foi realizado com sementes de soja oriundas do ano agrícola 2015/2016, através da avaliação de diferentes cultivares comerciais, cultivadas na Estação Experimento RC Cruz, Fazenda Esmeralda, (Rodovia BR 050, latitude: 17°29’31.35’’, longitude: 48°12’56.93’’, altitude: 908 m), localizado no município de Ipameri, GO.

Para a condução do experimento foi utilizado sementes de soja de 83 cultivares comerciais. O método escolhido para avaliação foi o “Blotter Test”, tomando para avaliação 250 sementes por cultivar, e implantado 25 sementes por Gerbox contendo papel borrão umedecido, totalizando 10 Gerboxes por cultivar (250 sementes/cultivar), sendo necessário o período de 7 dias de incubação.

Avaliou-se a porcentagem de germinação (%GER), porcentagem de incidência de patógenos (%IP) e porcentagem de gêneros de fungos (%GEN), utilizando da avaliação visual das sementes e uso de microscópio óptico. A media dos dados coletados foram submetidos ao teste F e teste de comparação de médias por Scott Knott (P~0,05).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Foi observado que 28,91 % das cultivares comerciais estudadas apresentaram estatisticamente os maiores valores de percentuais de germinação (%GER), o percentual de incidência de patógenos (%IP) apresentou valores com maior variação, devido fundamentalmente da quantidade de inóculo associada a semente. Segundo NEERGAARD, (1979) e MACHADO, (1988), o inóculo pode ser transportado via semente, na forma de micélio e/ou de esporos, mas a taxa de transmissão do patógeno, entre outros fatores, depende fundamentalmente da quantidade e localização do inóculo na semente, fato que explica a variação na incidência dos patógenos nas sementes.

Dentre as 83 cultivares comerciais estudadas 25 destas, apresentaram estatisticamente os maiores valores de %GER, representando 30,1 % do número total de cultivares estudadas. Dentre essas cultivares foi encontrado uma grande variação no %IP. Estatisticamente o menor percentual encontrado de %IP foi observado para a cultivar comercial G 850 RR© que apresentou 12,8 %, e também um elevado número de 98,4 %  de percentual de germinação, desta forma para essa cultivar não foi observado efeito direto desses patógenos na geminabilidade da semente (Tabela 1). O maior %IP, foi encontrado em 42,2 % das cultivares comerciais, e é claro ao correlacionar com %GER nao é possível correlacionar do efeito direto na germinação pelo “Blotter Test”.

Relacionando os dados obtidos com a variação de táxons de microrganismos detectados nas sementes (Figura 1), foram observados uma totalidade de 21 táxons diferentes Fusarium sp., Aspergillus sp., Alternaria sp., Bacillus sp, Rhizopus sp., Macrophomina phaseolina, Penicillium sp., Verticillium sp., Rhizoctonia solani, Cladosporium sp., Mucor sp., Cercospora kikuchii, Bipollaris sp., Colletotrichum sp, Pythium sp, Phomopsis sp, Curvularia sp, Nigrospora sp, Cephalosporium sp, Semphyllium solani e Pyricularia sp, o microrganismo que apresentou maior incidência foi o  Fusarium sp. com 63,6 % das sementes infectadas, seguido de Aspergillus sp. com 8,5 % e Alternaria sp. com 3,6 % (Tabela 2). Vale ressaltar que desta listagem de microrganismos identificados muitos representam importantes fitopatógenos da cultura da soja e que servem de inoculo inicial em futuras epidemias no campo (SINCLAIR e SHURTLEFF, 1975).

Figura 1. Sinais de fungos incidentes em diferentes sementes de soja. A. Aspergillus niger, B. Fusarium sp., C. Aspergillus favus, D. Sintoma de arroxeamento de Cercospora kikuchii, E. Formação de microescleródios de Macrophomina phaseolina, F. Rhizopus stolonifer.

Segundo HEPPERLY & SINCLAIR, (1978) o Fusarium sp. é associado a podridões de sementes, e como o estudo mostrou, este fungo apresentou alta porcentagem de incidência nas sementes avaliadas, sendo necessário buscar sementes com menor incidência do patógeno.


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Os fungos Aspergillus sp. e Penicillium sp considerados de armazenamento, que também foram encontrados neste estudo, podem provocar a deterioração das sementes com alto teor de água ou armazenadas em ambiente com umidade elevada, e tais características são encontradas no “Blotter Test”, confirmando o que diz HEPPERLY & SINCLAIR, (1978) e MENTEN (1991).

A medida que aumenta a %IP  a %GER das 52 cultivares comerciais de soja ocorre redução da atividade fisiológica em 10,5 %, sendo grandezas inversamente proporcionais. As cultivares próximas a linha de tendência como exemplo NS 7000 IPRO©, CD 2687 RR©, NS 7709 IPRO©, 62 MS 00 RR©, CZ 36 B 31 IPRO© e TMG 7062 IPRO©, possuem sua %GER mais influenciada pela %IP. As cultivares mais distantes da linha de tendência como a BG 4569©, FLECHA IPRO©, CD 2687 RR© e DM 6563 RSF IPRO©, sofrem menor influência  dos patógenos e ligados também a fatores biológicos explicam a maior ou menor germinabilidade das cultivares.

As cultivares localizadas próximas a linha de tendência a sua germinabilidade é mais afetadas com maior proporção pela incidência de patógenos, do que as cultivares mais distantes da tendência (valores discrepantes). Aquelas cultivares mais próximas a linha de tendência e com menores valores de %IP transmitem menos patógenos pelas sementes e possuem maior germinabilidade. Este é uma metodologia de se verificar efeitos diferenciais de cultivares na transmissibilidade de fitopatógenos ou microrganismos associados. Marino et al. (2008) citaram que a presença de patógenos não é o único elemento responsável pela infecção inicial em plântulas, fatores físicos do solo, condições climáticas, tempo de sobrevivência do patógeno na semente, são fatores que precisam ser levados em consideração, e que neste caso, representam os 89.5 % que explica a atividade fisiológica (%GER).

Figura 2. Regressão linear da porcentagem de germinação com a porcentagem de incidência de fitopatógenos em sementes de diferentes cultivares comerciais de soja colhida na safra 2015/2016.

Tabela 1. Médias da porcentagem de germinação (%GER) e porcentagem de incidência de gêneros de patógenos (%IP).

Tabela 2.  Percentual de incidência de gêneros de patógenos (%GP) encontrados em sementes de soja.

CONCLUSÕES

É concluído que a presença de 21 táxons demonstra a grande variabilidade de fitopatógenos que podem ser encontrados em sementes de soja, que podem ocasionar danos e prejudicar a germinação e crescimento da planta e também a necessidade eliminar os focos primários das doenças encontradas na semente de soja.

 A incidência de patógenos no germoplasma de cultivares comerciais afeta em 10 % a germinação das sementes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRANDOLOSO, V. Atributos da qualidade de semente de soja produzida no estado de Santa Catarina, Dissertação de programa de pós-graduação, UFPEL, Pelotas, 2012.

HENNING, A.S. Patologia e tratamento de sementes: noções gerais. Boletim Técnico, Embrapa: Documentos 264, 2005.FRIGERI, T. Interferência de patógenos nos resultados dos testes de vigor em sementes de feijoeiro, Dissertação de Mestrado, Jaboticabal-SP, 2007.

HEPPERLY, P.R.; SINCLAIR, J.B. Quality losses in Phomopsis infected soybean seeds. Phytopathology, v.68, p. 7-1684, 1978.

MACHADO, J.C. Patologia de sementes: fundamentos e aplicações. Lavras: ESAL/FAEPE, p. 107, 1988

MAPA Certificação. Disponível em:< http://www.agricultura.gov.br/vegetal/sementes-mudas/certificacao>, acessado em novembro de 2016.

MARINO, R. H. et al. Incidência de fungos em sementes de Phaseolus vulgaris L. provenientes do Estado de Sergipe. Revista Brasileira de Ciências Agrárias, v.3, n.1, p.26-30, 2008.  – procure todos os autores desta revista

MENTEN, J.O.M. Prejuízos causados por patógenos associados às sementes. In: MENTEN, J.O.M.. Patógenos em sementes: detecção, danos e controle químico. Piracicaba: FEALQ. p. 36-115. 1991

NEERGAARD, P. Seed Pathology. 2 Ed. London: McMillan. p. 1190, 1979.

PINAZZA, A.P. Cadeia produtiva da soja. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria de Política Agrícola, Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura. Brasília: IICA: MAPA/SPA,. 21p. 2007.

SINCLAIR, J.B.; SHURTLEFF, M.C. Compendium of soybean diseases. The American Phytopathological Society. Inc. Minnesota. 69 pp. 1975.

Informações dos autores:  

1Acadêmico(a) do Curso Superior de Bacharelado em Agronomia, IF Goiano Câmpus Urutaí;

2Engenheira Agrônoma (o), Mestranda(o) em Proteção de Plantas, IF Goiano Câmpus Urutaí;

3Graduada em Biologia e Biotecnologia/Valorização dos Recursos Vegetais, Institut Universitaire de Technologie de Béthune, Béthune, France;

4Engenheiro Agrônomo, Doutor em Fitopatologia, Docente no IF Goiano Câmpus Urutaí.

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