O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da aplicação superficial de alta dose de calcário nas características químicas do solo e na produtividade de milho.

Autores: Anderson Lange(1) e Marlus Eduardo Chapla(2)

Introdução

No Brasil, a necessidade de calagem tem sido estimada por vários métodos, contudo, nos solos do Cerrado são utilizados principalmente o método de saturação por bases, o qual consiste em elevar os valores de saturação por bases (V%) da CTC a pH 7,0, a valores desejados de acordo com a cultura de interesse, que na maioria dos casos é para 50% no sistema de sequeiro e o método da neutralização do alumínio trocável e da elevação dos teores de cálcio e de magnésio (Sousa & Lobato, 2004).

Embora haja preferência dos técnicos pelo método da saturação por bases, devido ao melhor embasamento cientifico no que se refere às propriedades físico-químicas do solo (poder tampão), às exigências das culturas e às características do corretivo, esse método tem aparentemente subestimado a quantidade ideal de calcário exigida pelas culturas, conforme apontam estudos de Morelli et al. (1992) e Natale et al. (2007). Recentemente foi conduzido em Sinop – MT um estudo em casa de vegetação utilizando solos em vasos, em que doses crescentes de calcário calcítico e dolomítico (0 até 12,0 t ha-1) foram adicionadas ao solo. Verificou-se nesse estudo que realmente as doses de calcário aplicadas não atingiram ao V% estimado pela equação, ficando muito aquém do realmente estipulado (Ribeiro, 2015).

Outra informação que leva o produtor a usar menos calcário que o necessário em solos mato-grossenses são os resultados pioneiros de pesquisa sobre uso de calcário em sistema de plantio direto (SPD) conduzidos no Sul (Sá, 1996), os quais recomendam não aplicar mais que 2,0 e 2,5 t ha-1 em superfície para solo arenoso e argiloso, respectivamente, devido às possíveis deficiências de micronutrientes, decorrente da alcalinização da camada superficial. Reforçando essa ideia, o boletim de Minas Gerais (CFSEMG, 1999) cita que as doses de calcário podem ser reduzidas a um terço, quando a amostragem for feita na camada de 0 a 20 cm, e à metade, quando a amostragem for feita na camada de 0 a 10 cm, utilizando-se um calcário de granulometria mais fina.

Como princípio, a calagem no SPD deve ser feita com pequenas doses anuais, ao invés de altas doses a cada três ou quatro anos, como no sistema convencional. Nessa situação, muitos produtores preferem aplicar doses menores do que as que realmente deveriam e “não se atrevem” a aplicar altas doses na superfície do solo, por acreditarem que um V% próximo a 50 é suficiente e para um cálculo maior, a dose pode passar do limite acima sugerido.

O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da aplicação superficial de alta dose de calcário nas características químicas do solo e na produtividade de milho.

Material e Métodos

O experimento foi instalado em área de lavoura comercial, cultivada sob SPD há 15 anos, no município de Sinop – MT, em Latossolo Vermelho Distrófico. O clima da região é o Aw, caracterizado como tropical úmido com estação chuvosa no verão e seca no inverno, com precipitação média anual de 2.200 mm e temperatura média de 30 °C. Seguem abaixo as precipitações que ocorreram durante a condução do estudo (Figura 1).

Figura 1. Precipitação durante a condução do estudo (setembro de 2014 a maio de 2017).

Antes da instalação do experimento, procedeu-se a amostragem da camada superficial do solo na camada de 0 a 20 cm para fins de avaliação da fertilidade: pH (H2O) = 5,94; P (Mehlich 1) = 2,87 mg dm-3; K = 0,07 cmolc dm-3; Ca = 2,75 cmolc dm-3; Mg = 0,81 cmolc dm-3; Al = 0,0 cmolc dm-3; H+Al = 6,73 cmolc dm-3; CTC potencial = 10,36 cmolc dm-3; saturação por bases (V) = 34,97 % e argila = 510 g kg-1.

Os tratamentos foram alocados em esquema fatorial 2×2, sendo dois calcários (calcítico: 46% de CaO, 3% de MgO, PRNT= 73%; dolomítico: 29% de CaO, 19% de MgO e PRNT= 75) e duas doses de calcário (1,7 e 5,1 t ha-1), com seis repetições, aplicadas em superfície na safra 2014/2015, sem revolvimento. As parcelas experimentais foram de 100,0 m de comprimento por 12,0 m de largura e a aplicação foi mecanizada. Em agosto de 2016, a área foi subsolada, por opção do produtor, devido à compactação do solo.

O calcário foi aplicado na superfície do solo em 13/08/2014 e nas safras 2014/2015, 2015/2016 e 2016/2017 utilizou-se o sistema soja/milho como culturas. A soja recebeu anualmente entre 10 a 20 kg ha-1 de N, 80-90 kg ha-1 de P2O5 e K2O e o milho entre 60 a 80 kg ha-1 de N e K2O. Os tratos culturais foram realizados conforme a necessidade da cultura.

A colheita do milho foi realizada em 20 m lineares por parcela, sendo após a cultura ter atingido o ponto de maturidade fisiológica em junho de 2015, 2016 e 2017. O solo foi amostrado aos 10 (dados não mostrados), 22 e 34 meses da aplicação (julho de 2016 e de 2017), coletando-se 5 furos por parcela, na profundidade de 0-20 cm, com trado. Os dados obtidos foram submetidos a análise de variância e, quando significativos, comparados com o teste de Tukey a 5% de probabilidade. Também foi realizado o teste de correlação de Pearson em algumas variáveis.

Resultados e Discussão

No primeiro ano de cultivo (safra 2014/2015), no período de 10 meses após a calagem, não houve resposta tanto da soja como do milho em relação aos tratamentos. O milho atingiu média de produtividade de 6,5 t ha-1, mostrando que não houve efeito imediato e de magnitude da calagem logo no primeiro ano da aplicação. Aos 10 meses, o V% da área que recebeu 1,7 t ha-1 foi de 37,7 e da área com 5,1 t ha-1 foi de 43,8 (dados não apresentados).

No ano de 2016 houve efeito significativo dos calcários aplicados, com maiores teores de Ca, maior relação Ca/Mg e maior V% no solo para o calcário calcítico em relação ao dolomítico (Tabela 1) e maior teor de Mg no solo para o uso de calcário dolomítico. A produtividade não foi influenciada em relação aos calcários aplicados, e no tratamento com calcário calcítico a produtividade foi de 122,6 sc ha-1 e 117,7 sc ha-1 para o dolomítico. Um possível motivo do maior valor para o uso de calcítico por ser a melhor relação Ca/Mg no solo, que pode ser vista na Figura 2, em que houve correlação positiva entre os teores de Ca no solo, independente do calcário e da dose usada, e produtividade de grãos (r2= 0,86), o que não aconteceu com os teores de Mg no solo.

Tabela 1. Valores médios de atributos químicos do solo de amostras de solo e produtividade de milho submetidos a doses de calcário calcítico e dolomítico aplicados superficialmente em sistema de semeadura direta, Sinop – MT.

Houve efeito significativo e interação entre doses e calcários para o milho cultivado na safrinha de 2016, em que os teores de Ca no solo foram iguais na menor dose, independente do calcário, e superiores na maior dose para o calcítico (3,9 cmolc dm-3 de Ca) em relação ao dolomítico (3,4 cmolc dm-3de Ca). Para o teor de Mg no solo, para as duas doses houve superioridade para o uso do dolomítico.

A relação Ca/Mg foi superior para o calcário calcítico para as duas doses aplicadas (amostragem de 2016), elevando em ambas a relação para próximo de 3,5:1, o que é indicado pela literatura para cultivo de grandes culturas, sendo que nesta polêmica também se discute, além da relação, os valores absolutos de Ca e Mg (Raij et al., 1997; Sousa & Lobato, 2004).

Para o V% e produtividade na safra 2016, na dose de 5,1 t ha-1 houve benefício para o uso de calcário calcítico, que resultou em maior V%, refletindo também em uma maior produtividade, com um ganho de 10 sacas por hectare em favor do uso de calcário calcítico (Tabela 1). O maior ganho devido ao uso de calcário calcítico na maior dose pode estar relacionado ao teor de Ca no solo, ficando ~ a 4 cmolc dm-3, ao valor de Mg que não foi inferior a 1 cmolc dm-3, o que, com o correto fornecimento de Ca, melhorou o número de grãos por espiga (dados não apresentados), pois sabe-se que o Ca, juntamente com o boro, são responsáveis pela formação do tubo polínico, o que resulta em espigas com mais grãos.

Figura 2. Correlações de Pearson entre a produtividade de grãos (considerando os resultados das safras 2015/2016 e 2016/2017, independente da dose ou fonte aplicada) e os teores no solo de cálcio (cmolc dm-3), de magnésio (cmolc dm-3) e de saturação por bases (V%).

Para o ano de 2017, apenas o V% foi influenciado, sendo superior para o calcário calcítico, em função do maior aporte de bases ao solo, especialmente para Ca. Houve interação entre doses e calcários, com destaque para o calcário calcítico na maior dose, elevando o V% para aproximadamente 60% contra 53% para o dolomítico.

A ausência de significância para a produtividade está relacionada as boas condições climáticas da safra 2016/2017, com chuvas regulares e, além disso, como nos anos anteriores a cultura produziu menos (inclusive a soja) na menor dose de calcário, pode ter havido maior acúmulo de nutrientes no solo pontualmente e isso, aliado a um bom ano de chuvas, pode ter influenciado nos resultados. A maior exportação de nutrientes na maior dose também pode ser comprovada pela igualdade dos demais dados, em que neste terceiro ano os teores de Ca e Mg ficaram muito semelhantes.

Conclusões

Quando a saturação por bases está baixa no solo e se requer uma dose de calcário elevada, próximo a 5,0 t ha-1, para um V% próximo a 70, esta pode ser aplicada em superfície, sem aparente prejuízo à cultura, com incrementos produtivos, em relação a correção tradicional, onde se busca um V% próximo a 50, com aplicação de 2,0 t ha-1.

Referências

COMISSÃO DE FERTILIDADE DO SOLO DO ESTADO DE MINAS GERAIS. Recomendação para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais: 5ª Aproximação. Viçosa – MG: EMBRAPA/UFV/SBCS, 1999.

MORELLI, S.L.; DALBEN, A.E.; ALMEIDA, J.O.C.; DEMATTÊ, J.L.I. Calcário e gesso na produtividade da cana-de-açúcar e nas características químicas de um latossolo de textura média álico. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa – MG, v.16, p.187-194, 1992.

NATALE, W.; PRADO, R.M.; ROZANE, R.E.; ROMUALDO, L.M. Efeitos da calagem na fertilidade do solo e na nutrição e produtividade da goiabeira. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa – MG, v.31, n.6, p.1475-1485, 2007.

RAIJ, B.; CANTARELLA, H.; QUAGGIO, J.A.; FURLANI, A.M.C. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. 2.ed. Campinas: Instituto Agronômico e Fundação IAC (Boletim Técnico, 100), 1996. 285p.

RIBEIRO, R.B. Incubação de um Latossolo vermelho-amarelo distrófico com calcários na região médio Norte de Mato Grosso. 2015. 26f. Monografia (Agronomia). Universidade Federal de Mato Grosso, Sinop, 2015.

SÁ, J.C.M. Calagem em solos sob plantio direto da região dos campos gerais, centro-sul do Paraná. In: CURSO SOBRE MANEJO DO SOLO NO SISTEMA PLANTIO DIRETO, 1996, Castro. Anais… Castro: Fundação ABC para Assistência e Divulgação Técnica Agropecuária, 1996. p.73-107.

SOUSA, D.M.G.; LOBATO, E. (Eds.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2.ed. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2004. 416p.

Informações dos autores:  

(1)Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor e Pesquisador, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus de Sinop. Sinop – MT.;

(2)Engenheiro Agrônomo, M.Sc. Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGA), UFMT, Sinop – MT.

Disponível em: Anais do XIV SEMINÁRIO NACIONAL DE MILHO SAFRINHA, Cuiabá – MT, Brasil,2017.

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