Este trabalho tem por objetivo avaliar o efeito da aplicação de fungicidas no estádio vegetativo da soja sobre o complexo de doenças de final de ciclo e sobre a produtividade da cultura.

Autores:  LEAL T.S.; CARNEIRO L.C.1; MOREIRA H.J.R.; MATTOS C.G.O.; AIMI, M.

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A soja é uma das mais importantes culturas no mundo, tendo uma extensa cadeia produtiva que gera empregos e movimenta enormes montantes de dinheiro, tanto ao nível nacional quanto internacional. Apesar de ser uma cultura estudada e cultivada intensivamente, a soja ainda sofre com alguns entraves no manejo fitossanitário. Apesar da Ferrugem-asiática, ser a principal doença da cultura da soja, o Complexo de doenças do final do ciclo (DFC), vem causando preocupação aos agricultores, devido à maior incidência e severidade que vem sendo observado nas variedades mais recentemente lançadas no Centro-Oeste. Os patógenos envolvidos no DFC se instalam nos estádios iniciais de desenvolvimento e, devido ao período longo de latência, os sintomas serão visíveis apenas nos estádios finais da cultura. Doenças de final de ciclo como a cercosporiose (Cercospora kikuchii), a mancha parda (Septoria glycines) e mancha-alvo (Corynespora cassiicola), reduzem a eficiência fotossintética, prejudicando o enchimento de grãos e reduzindo a produtividade (TESTON; FAVERO; MADALOSSO, 2017).

O emprego de fungicidas para o controle eficiente de doenças de plantas é feito de forma preventiva. Na cultura da soja na região de Jataí, GO, as pulverizações para controle da Ferrugem-asiática e das DFCs são iniciadas cerca de 50 dias após a semeadura, quando as plantas atingem os estádios R1/R2 de desenvolvimento. Nos últimos dois anos, em palestras técnicas proferidas na região, vêm sendo sugerido aos agricultores, que as pulverizações de fungicidas sejam iniciadas nos estádios vegetativos da cultura, como uma forma de “construção” da sanidade das plantas para os estádios subsequentes de desenvolvimento. Há dúvida entre os agricultores sobre os benefícios dessa prática na produtividade da cultura. Este trabalho tem por objetivo avaliar o efeito da aplicação de fungicidas no estádio vegetativo da soja sobre o complexo de doenças de final de ciclo e sobre a produtividade da cultura.

O ensaio foi conduzido na Fazenda Escola da Regional Jataí da UFG, localizada no município de Jataí-GO, à margem da rodovia BR-364, km 192, com coordenadas 17°52’53” Sul e 51°42’52” Oeste. A semeadura foi realizada no dia 24 de Novembro de 2017 com a cultivar Brasmax Flecha®(6266RSF IPRO), com espaçamento entre linhas de 0,45 m sobre palhada de Brachiaria ruziziensis, adubação na base, com dose de 420 kg ha-1 da fórmula 02-20-18. Cada parcela experimental foi constituída por cinco linhas de plantas com seis metros de comprimento, totalizando 13,5 m² por parcela, considerando como área útil para coleta dos dados, cinco metros das três linhas centrais. O delineamento experimental foi o de blocos casualizados, com quatro repetições. As aplicações de fungicidas foram realizadas com pulverizador costal pressurizado por CO2, equipado com uma barra de dois metros de comprimento e quatro bicos de pulverização, com pontas modelo jato leque XR 11002 , pressão de serviço de três bar e volume de calda de 200 L ha-1.

Foram realizadas quatro aplicações no decorrer do ciclo da cultura, sendo a primeira no estádio vegetativo V6, no dia 21/12/2017, com os tratamentos descritos na Tabela 1. A segunda aplicação foi realizada no dia 09/01/2018, no estádio reprodutivo R1 com o produto Elatus®+Aureo® (200g ha-1 + 0,25% v/v), a terceira aplicação foi realizada 23/01/2018, no estádio reprodutivo R3 com o fungicida Aproach Prima®+Aureo® (300 ml ha-1+0,25% v/v) e a quarta aplicação com Fox®+Aureo® (400ml ha-1 + 0,25% v/v), no dia 06/02/2018, quando a soja encontrava-se no estádio reprodutivo R5.5. Nos tratamentos em que não houve aplicação no estádio vegetativo, foram realizadas apenas 3 pulverizações, iniciadas no dia 23/01/2018.

Já no tratamento testemunha não foi realizada nenhuma aplicação de fungicidas. Ao longo do desenvolvimento das plantas foram realizadas duas avaliações da severidade das manchas foliares, a primeira quando soja se encontrava no estádio R4 e a segunda, no estádio R6. Para a estimativa da severidade das manchas foliares levou-se em consideração a condição geral da parcela (desfolha e distribuição das manchas foliares), por meio da amostragem em cinco pontos aleatórios dentro de cada parcela. Em cada ponto, foram atribuídas notas que variavam de 0 a 5. Os valores próximos de 0 indicaram baixo nível de desfolha e manchas foliares ausentes ou em baixa severidade, concentradas no terço inferior das plantas. Os valores mais próximos de 5 indicaram extrema desfolha e presença de manchas foliares em toda a planta, tomando maior parte da área foliar.

Tabela 1. Fungicidas empregados nas pulverizações no estádio vegetativo (V5) da soja, ingredientes ativos e dosagem. Experimentos para a avaliação da aplicação de fungicidas no estádio vegetativo da soja e seus efeitos sobre as doenças de final de ciclo (DFC) durante a safra 2017/2018. Jataí, GO.

A produtividade foi obtida por meio da pesagem dos grãos provenientes da área útil de cada parcela experimental. A massa de mil grãos foi obtida de acordo com as Regras para Análise de Sementes (Brasil, 2009). A umidade dos grãos foi determinada por meio do equipamento portátil, procedendo-se posteriormente, a correção para padronização a 13% de umidade. Os dados de produtividade e massa de 1000 grãos foram submetidos à análise de variância e as médias foram comparadas pelo teste de Tukey a 1% utilizando o programa SISVAR 5.6 (Ferreira, 2011).


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Os tratamentos sem aplicação de fungicidas no estádio vegetativo e a testemunha não pulverizada apresentaram maior severidade de manchas foliares, e consequente desfolha precoce do terço inferior (Tabela 2). Nesses tratamentos também foi observada maior incidência de mancha-alvo (Corynespora cassiicola) e cercoporiose (Cercospora kikuchii) no terço médio. No tratamento em que foi empregado o fungicida Carbomax 500 SC® (carbendazim) observou-se a presença de sintomas típicos de antracnose (Colletotrichum trucata). No final do ciclo da cultura observou-se aumento da severidade das manchas foliares em todos os tratamentos, igualando-os, mas cabe relatar que aplicações no estádio vegetativo apresentaram menor desfolha e menor severidade de manchas no terço superior das plantas. A Ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi) foi detectada na área experimental quando as plantas estavam em R6, em baixíssima severidade.

Tabela 2. Notas médias de severidade e desfolha, valores médios de produtividade (kg ha-1) massa de mil grãos (g). Experimentos para a avaliação da aplicação de fungicidas no estádio vegetativo da soja e seus efeitos sobre as doenças de final de ciclo (DFC) durante a safra 2017/2018. Jataí, GO.

Não houve diferença estatística entre os tratamentos para a variável produtividade (Tabela 2), demonstrando que neste ano agrícola, a variedade Brasmax Flecha®, sem a aplicação de fungicidas, apresentou a mesma produtividade do que quando recebeu fungicidas a partir do estádio vegetativo ou apenas a partir do estádio reprodutivo. Para a variável massa de mil grãos, apenas os tratamentos com Sphere Max® e Carbomax 500 SC® no estádio vegetativo apresentaram diferença estatística da testemunha sem aplicação de fungicida. Contudo a maior massa de mil grãos observada para esses tratamentos não interferiu na produtividade.

Os resultados deste trabalho sugerem que na ausência de pressão da Ferrugem-asiática, a decisão do uso de fungicidas na cultura da soja, principalmente nos estádios vegetativos, deve ser tomada localmente e com base em critérios técnicos, não devendo ser uma recomendação generalizada.

Referências

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de sementes. Brasília: MAPA/ACS, 2009. 365 p. FERREIRA, D.F. Sisvar: a computer statistical analysis system. Ciência e Agrotecnologia (UFLA), v. 35, n.6, p. 1039-1042, 2011.

 TESTON, R.; FAVERO, F.; MADALOSSO, T. Influência da aplicação de fungicida no estádio vegetativo no complexo de doenças (Phakopsora pachyrhizi, Corynespora cassiicola e Cercopora kikuchii) na cultura da soja na região do Oeste do Paraná, safra 2016/207. In: BALBINOT A.A.; JUNIOR F.A.H.; LEITE R. M.V.B.C. (Ed) Resumos expandidos da XXXVI Reunião de Pesquisa de Soja. Anais…Londrina-PR: Embrapa Soja, 2017.

Informações dos autores:  

1Universidade Federal de Goiás – UFG, Regional Jataí, Unidade Acadêmica Especial de Ciências Agrárias, Campus Jatobá, Jataí, GO.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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