Armazenamento da calda associada a adjuvante afeta no controle de Digitaria insularis resistente a glifosato?

3691

O objetivo deste trabalho foi avaliar a eficácia da associação do herbicida com adjuvante em diferentes tempos de armazenamento de calda no controle de D. insularis resistente a glifosato.

Autores: CÍCERO A. M. SANTOS1, RENATA T. S. SANTOS2, FABIANO GRIESANG3, MARIA B. B. SOARES4, JAQUELINE F. D. VECHIA5, MARCELO C. FERREIRA6

Trabalho disponível nos Anais do Evento e publicado com o consentimento dos autores.

RESUMO

O armazenamento de caldas para posterior aplicação vem ocorrendo com frequência no campo, justificado pelas condições ambientais não favoráveis. Diante disso, objetivou-se avaliar a eficiência de calda composta por Clomazona + Ametrina e adjuvante condicionado a tempos de armazenamento no controle de Digitaria insularis resistente a glifosato.

Para tanto, foram realizadas avaliações de intoxicação visual das plantas pulverizadas com os estratos inferior, médio e superior de caldas compostas por Clomazona + Ametrina associado ao adjuvante Agral, armazenadas por zero, 24, 48 e 72 horas.

A calda constituída pelo herbicida adicionado de adjuvante tem sua eficiência reduzida para o controle de capim amargoso decorrente do tempo de armazenamento. O tempo de armazenamento sem agitação influencia na eficácia do herbicida obtido dos diferentes estratos do reservatório para o controle de D. insularis em pós-emergência tardia.

PALAVRAS–CHAVE: calda pronta, capim amargoso, clomazona + ametrina

DOES THE STORAGE OF SPRAYING LIQUID ASSOCIATED WITH ADJUVANT AFFECT THE CONTROL OF Digitaria insularis RESISTANT TO GLYPHOSATE?

ABSTRACT

Storing spraying liquids for subsequent application is occurring frequently on the field, justified by unfavorable environmental conditions. The aim of this study was to evaluate the efficiency of the herbicide composed of Clomazone + Amethrin and adjuvant conditioned to storage times on the control of glyphosate resistant Digitaria insularis.

For this, it were performed visual poisoning evaluations of the sprayed plants with different strata of Clomazone + Amethrin spraying liquid associated with the Agral adhesive agent, stored at zero, 24, 48 and 72 hours. The herbicide in admixture with adjuvant has its efficiency reduced for the control of bitter grass due to the storage time. The storage time without agitation influences the effectiveness of the herbicide obtained from he different strata of the reservoir for the control of D. insularis in late post-emergence.

KEYWORDS: Bittergrass, Clomazone + amethrin, Pesticide storage

INTRODUÇÃO

O capim-amargoso (Digitaria insularis) tem ampla distribuição no Brasil, infestando áreas de produção agrícola e causando perdas na produtividade (CORREIA et al., 2015). A principal forma de controle desta planta é o controle químico e, historicamente, o glifosato é o herbicida mais utilizado para o seu controle (BUENO et al., 2013).

Entretanto, o surgimento espécies resistentes ao glifosato vem fomentando o uso de herbicidas que atuem em outros sítios de ação, como inibidores do fotossistema II e inibidores da biossíntese de carotenóides, alcançados com o uso da combinação Clomazona+ametrina.

Aliado a disso, adjuvantes que favoreçam o espalhamento e a absorção dos produtos pela superfície foliar (IOST; RAETANO, 2010) são adicionados para melhorar a eficiência da aplicação e do controle. A aquisição de pulverizadores tem grande participação nos custos atrelados ao tratamento fitossanitário e tê-los funcionando na maior parte do tempo é imprescindível para viabilizar a atividade.

O sistema de “calda pronta” é utilizado no intuito de se reduzir tempos gastos em reabastecimento. Entretanto, esse sistema de “calda pronta” pode levar à necessidade de um armazenamento prolongado da calda nos tanques ou no veículo abastecedor,  principalmente na ocorrência de condições ambientais inadequadas para a aplicação (RAMOS; DURIGAN, 1998). Isto pode ocasionar problemas como incompatibilidade e redução da atividade do herbicida (PETTER et al., 2012).

Os estudos nesta linha de pesquisa são imprescindíveis para verificar se o uso de caldas fitossanitárias armazenadas garante a eficácia mínima possibilitada pela calda recém-preparada. Portanto, o objetivo deste trabalho foi avaliar a eficácia da associação do herbicida com adjuvante em diferentes tempos de armazenamento de calda no controle de D. insularis resistente a glifosato.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado no Núcleo de Estudos e Desenvolvimento em Tecnologia de Aplicação (NEDTA), localizado no Departamento de Fitossanidade da FCAV/UNESP, Campus de Jaboticabal, SP. O experimento consistiu em delineamento inteiramente casualizado, no arranjo fatorial 4 x 3, com quatro tempos de preparo de caldas previamente à aplicação (zero, 24, 48 e 72 horas) e três estratos da calda (superior, médio e inferior), compostas pelo herbicida Clomazona + Ametrina (Sinerge®) combinado ao adjuvante (Agral®).

As dosagens dos produtos utilizados respeitaram a recomendação de bula, com 5 L ha-1 e 0,3% v.v. para Sinerge® e Agral®,  respectivamente (Tabela 1). Os tratamentos foram aplicados por meio de pulverizador de ensaio e a avaliação de eficiência de controle foi conduzida em delineamento inteiramente casualizado. As pontas de pulverização utilizadas foram do modelo ADIA 11002, distanciadas entre si em 50 cm, na pressão de trabalho de 3,3 bar, garantida por um conjunto de pulverização pressurizado a CO2, na velocidade de aplicação de 10 km h-1 , com o volume de aplicação de 100 L ha-1 e tamanho mediano volumétrico das gotas de 365μm (gotas grossas).

A distância entre pontas de pulverização em relação ao alvo foi de 50 cm e a aplicação realizada no período da manhã, com temperatura entre 25 e 28 °C, umidade relativa do ar de 55% e velocidade do vento entre 0 e 5 km h-1 . As parcelas experimentais consistiram de vasos com a capacidade de 4 L contendo plantas de D. insularis resistentes ao glifosato em estádio reprodutivo.

Aos 07, 14 e 21 dias após o tratamento (DAT) foram feitas avaliações das porcentagens de controle obtidas por escala visual de 0 a 100%, utilizando-se a escala EWRC (FRANZ, 1972). Os dados obtidos no controle de D. insularis foram submetidos à análise de variância pelo teste F e as médias comparadas pelo de Tukey a 5% de probabilidade.

TABELA 1. Características dos produtos utilizados: nome comercial, composição, classe e grupo químico. Jaboticabal, SP, 2016.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Apesar das injúrias apresentarem incrementos da primeira para a segunda avaliação (Figura 1), os tratamentos foram ineficientes para o controle do capim amargoso, uma vez que as plantas apresentaram recuperação já na terceira avaliação de controle. A ametrina+clomazone é indicada para uma grande diversidade de espécies de plantas daninhas, sendo inclusive bastante utilizado na cultura de cana-de-açúcar para o controle de D. insularis em préemergência, mesmo não havendo indicação registrada para a espécie.

Assim sendo, o controle insatisfatório encontrado neste trabalho pode ser relacionado à fase tardia da planta quando naaplicação do herbicid a. Segundo Machado et al. (2006), o melhor período para o controle de D. insularis é até os 35 dias após a emergência (DAE), quando os rizomas ainda não foram formados.

Ainda que o herbicida utilizado para o controle do capim amargoso não tenha a devida eficácia em pós-emergência tardia, os efeitos dos tempos  e armazenamento e dos estratos da calda herbicida apresentaram efeito sobre a fitotoxidade das plantas de D. insularis, sobretudo na avaliação aos 14 dias após a aplicação, de modo que foi observada uma interação significativa entre os tempos de armazenamento e os estratos da calda herbicida (Tabela 2).

Diferente dos resultados encontrados por Stewart et al. (2009), onde não se encontrou comprometimento na eficiência biológica de caldas herbicidas com o passar de alguns dias, os sintomas de fitotoxidade encontrados neste trabalho diminuem significativamente com o aumento do tempo de armazenamento da calda para D. insularis. Muitas vezes a calda pronta fica armazenada por vários dias antes da aplicação, o que aumenta a hance de problemas físicos e/ou químicos (ANTUNIASSI, 2015).

Em relação aos estratos da calda utilizados na pulverização, aos 14 DAT pode-se notar que o estrato localizado no terço inferior do pulverizador tem menor efeito fitotóxico sobre as plantas de D. insularis. Essa diferença evidencia-se à medida que o tempo de armazenamento da calda aumenta. Essa informação ressalta a importância da eficiente agitação da calda no tanque do pulverizador.

FIGURA 1. Médias de fitotoxidade dos estratos superior, médio e inferior de calda do herbicida atrazina+clomazone armazenada por 0, 24, 48 e 72 horas em genótipos de Digitaria insularis resistente a glyphosate aos 7 e 14 dias após a aplicação dos tratamentos (DAT).

 

TABELA 2. Notas de fitotoxidade (EWRC) de genótipos resistentes a glyphosate de D. insularis, aos 7 e 14 dias após a aplicação dos estratos superior, médio e inferior de caldas dos herbicidas ametrina+clomazone armazenadas por 0,24, 48 e 72 horas.

CONCLUSÕES

A calda constituída do herbicida ametrina+clomazone adicionado do adjuvante tem sua eficiência reduzida para o controle de capim amargoso em pós-emergência tardio decorrente do tempo de armazenamento da calda.

O tempo de armazenamento sem agitação influencia na eficácia do herbicida obtido de diferentes estratos do reservatório.

REFERÊNCIAS

ANTUNIASSI, U.R. Tecnologia dentro do tanque. Revista Plantio Direto, edição 145-146, 2015.

BUENO, M.R.; ALVES, G.S.; PAULA, A.D.M.; CUNHA, J.P.A.R. Volumes de caldas e adjuvantes no controle de plantas daninhas com glifosato. Planta Daninha, v.31, n.3, p.705-713, 2013.

CORREIA, N.M.; ACRA, L.T.; BALIEIRO, G. Chemical control of different Digitaria insularis populations and managementof a glifosato- resistant population. Planta Daninha, v.33, n.1, p.93-101, 2015.

FRANS, R.W. Measuring plant response. In: WILKINSON, R.E. Research methods in weed science. Australian: Southern Weed Science Society, 1972. p.28-41.

IOST, C.A.R.; RAETANO, C.G. Tensão superficial dinâmica e ângulo de contato de soluções aquosas com surfactante em superfícies artificiais e naturais. Engenharia Agrícola, v.30, n.4, p.670-680, 2010.

MACHADO, A.F.L.; FERREIRA, L.R.; FERREIRA, F.A.; FILHO, C.M.T.; TUFFI SANTOS, L.D.;

MACHADO, M.S. Análise de crescimento de Digitaria insularis (L.) Fedde. Planta Daninha, v.24, n.4, p.641-647, 2006.

PETTER, F.A.; SEGATE, D.; PACHECO, L.P.; ALMEIDA, F.A.; ALCANTARA NETO, F. Incompatibilidade física de misturas entre herbicidas e inseticidas. Planta Daninha, v.30, n.2, p.449- 457, 2012.

RAMOS, H.H.; DURIGAN, J.C. Efeito do armazenamento da calda na eficiência de herbicidas aplicados em: I. pós-emergência. Planta Daninha, v.16, n.2, p.175-185, 1998.

Informações do autores :     

1Engenheiro Agrônomo, Doutorando em Agronomia (Entomologia Agrícola), Dep. de Fitossanidade, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP, Jaboticabal/SP– Brasil;

2Engenheira Agrônoma, Mestranda em Agronomia (Produção Vegetal), Departamento de Fitossanidade, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP, Jaboticabal/SP – Brasil;

3Engenheiro Agrônomo, Doutorando em Agronomia (Produção Vegetal), Dep. de Fitossanidade, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP, Jaboticabal/SP– Brasil;

4Engenheira Agrônoma, Doutoranda em Agronomia (Produção Vegetal), Departamento de Fitossanidade, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP, Jaboticabal/SP – Brasil;

5Engenheira Agrônoma, Mestranda em Agronomia (Entomologia Agrícola), Departamento de Fitossanidade, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP, Jaboticabal/SP – Brasil;

6Engenheiro Agrônomo, Professor Adjunto, Dep. de Fitossanidade, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária, UNESP, Jaboticabal/SP –Brasil.

Grupo de pesquisa:

O NEDTA (Núcleo de Estudos e Desenvolvimento em Tecnologia de Aplicação) liderado pelo Prof.° Dr. Marcelo da Costa Ferreira, empreende trabalhos de pesquisa e desenvolvimento, além de atender institutos de pesquisas, outras universidades e iniciativa privada. Também organiza e realiza trabalhos de extensão rural e universitária, através de cursos, palestras, dias de campo e visitas de aprimoramento e de orientação em diversos níveis do setor produtivo e educacional da sociedade. Nosso grupo busca contribuir com o desenvolvimento sustentável da sociedade brasileira, com foco voltado para a área de Tratamento Fitossanitário e Domissanitário, especialmente na área de Tecnologia de Aplicação.

Disponível em: Anais do VIII Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação – SINTAG, Campinas – SP, Brasil.

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.