O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da aplicação de diferentes fungicidas no milho safrinha visando o controle de mancha branca

Autores: Tiago Madalosso(1), Renan Teston(2) e Fernando Favero(3)

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Introdução

Com aproximadamente 60% da produção total, Estados Unidos e China são os países com maior produção de milho no mundo. O Brasil aparece na terceira posição, com menos de 10% da produção total (FAO, 2017). Apesar disso, o milho aqui produzido é amplamente utilizado na fabricação de rações que abastece a cadeia produtora de proteína animal, setor esse de grande importância para a economia do país. Dentre as doenças foliares que acometem a cultura do milho no Brasil, a mancha branca é considerada a principal, podendo ocasionar reduções no rendimento de até 60% (Fernandes & Oliveira, 1997).

Ainda não existe consenso sobre a etiologia desta doença. Os primeiros trabalhos descrevem como agente causal o fungo Phaeosphaeria maydis (Fantim, 1994). Recentemente foi descrita a bactéria Pantoea ananatis como o patógeno responsável por ocasionar essa doença (Paccola-Meirelles et al., 2001). As lesões são pequenas entre 0,3 e2 cm, circulares, alongadas ou levemente irregulares. Inicialmente apresentam aspecto aquoso (anasarca) que após se tornam necróticas com coloração palha. Em alta severidade as lesões coalescem (se unem), interrompendo o fluxo de água, nutrientes e fotoassimilados podendo destruir toda a folha (Godoy et al., 2001). Temperaturas diurnas próximas a 25 °C, seguido de noites frias (14 °C), dias nublados, longos períodos com molhamento foliar e umidade relativa acima de 70% são as condições ideais para essa doença.

Como estratégia de sobrevivência, P. ananatis pode permanecer no solo em resíduos da cultura ou infestando outras espécies, como por exemplo capim braquiária, capim colchão, capim colonião (Sauer et al., 2010; Gonçalves et al., 2011). A rotação de culturas e eliminação de plantas hospedeiras são estratégias que auxiliam no controle da mancha branca pela redução do inóculo inicial da doença.

Existe variabilidade genética que confere a resistência/tolerância a mancha branca, sendo essa uma estratégia de manejo altamente eficiente que pode ser adotada. Porém muitos híbridos que apresentam essa característica, não possuem o potencial produtivo e/ou a precocidade desejada pelos produtores. Assim o manejo químico, quando semeados híbridos sensíveis em locais com histórico de alta pressão de mancha branca, torna-se uma importante estratégia de manejo.

O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da aplicação de diferentes fungicidas no milho safrinha visando o controle de mancha branca.

Material e Métodos

O estudo foi conduzido no Centro de Pesquisa Agrícola da Copacol, localizado em Cafelândia – PR, com altitude de 595 m. O solo da área é caracterizado como Latossolo Vermelho distroférrico de textura argilosa (Embrapa, 2006). A área do ensaio vinha sendo cultivada sob sistema de monocultura com sucessão de soja/milho safrinha nos últimos 4 anos.

O experimento foi instalado na safrinha de inverno de 2017 utilizando o híbrido Formula VIP, caracterizado pela alta sensibilidade a mancha branca. A semeadura ocorreu no dia 06/02/2017, utilizando taxa de semeadura de 60.000 sementes ha-1. Foram aplicados no sulco de semeadura 35, 52,5 e 52,5 kg ha-1 de N, P2O5 e K2O, respectivamente, com complementação de 50 kg ha-1 de N em cobertura no estádio V3. O manejo de pragas e plantas daninhas foi realizado seguindo as indicações técnicas da cultura.


Manejo de doenças? Confira.


O delineamento experimental utilizado foi em blocos casualizados com 15 tratamentos e quatro repetições. Foram avaliados 14 fungicidas e uma testemunha sem aplicação (Tabela 1). Todos os tratamentos receberam duas pulverizações sendo a primeira no estádio V12 (20/03/2017) e a segunda no estádio R2 (10/04/2017). A parcela experimental consistiu de quatro linhas espaçadas de 0,68 m e 6,0 m de comprimento (16,3 m2). As aplicações dos fungicidas foram realizadas com pulverizador costal pressurizado com CO2, com volume de calda de 200 L ha-1, pressão de trabalho de 2 kgf cm-2 e ponta de pulverização XR 110-015.

A severidade de mancha branca foi determinada no estádio R4 (grão farináceo). O rendimento de grãos foi inferido pela colheita das duas linhas centrais da parcela, corrigindo a umidade da massa de grãos para 13%. Os dados foram submetidos ao teste F da análise de variância e as médias quando significativas agrupadas pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade de erro. As análises foram realizadas com auxílio do programa estatístico SISVAR (Ferreira, 2011).

Tabela 1. Descrição dos fungicidas e doses utilizadas no experimento.

Resultados e Discussão

Houveram diferenças significativas para o rendimento de grãos e severidade de mancha branca entre os diferentes produtos avaliados. Muitos dos fungicidas que possuem registro para controle de mancha branca não apresentaram boa performance. Na Tabela 2 pode ser verificado o resultado de severidade e controle de mancha branca em função da utilização de 14 diferentes combinações fungicidas em duas aplicações. Segundo a análise estatística realizada, ocorreu a formação de cinco grupos para a severidade. Os níveis de controle no ensaio não ultrapassaram os 70%, demonstrando a dificuldade do manejo químico desta doença. É importante salientar que o híbrido utilizado apresentava alto grau de sensibilidade e as condições ambientais foram favoráveis ao estabelecimento e desenvolvimento da doença. Nessas condições haveria resposta a uma terceira aplicação, já que o ensaio recebeu somente duas pulverizações.

Tabela 2. Severidade de mancha branca no milho safrinha em função de duas aplicações de diferentes fungicidas em Cafelândia – PR (safrinha 2017).

Houve correlação entre a severidade de mancha branca e o rendimento de grãos, com R2 de 0,72. O incremento no rendimento de grãos do melhor tratamento em relação a testemunha foi de 24%, demonstrando o elevado potencial na redução do rendimento pela mancha branca. Os produtos com a presença do ativo fluxapiroxade, pertencente ao grupo das carboxamidas (SDHI) foram os mais eficientes para o controle desta doença, com consequente maior rendimento de grãos (Tabela 3). Ainda é possível verificar a melhoria de controle e incremento no rendimento de grãos com a adição do fungicida multissítio mancozeb e a mistura comercial de ciproconazol + azoxistrobina. Além da contribuição em termos de controle e retorno econômico, o uso de fungicidas multissítios na cultura do milho tem grande importância como estratégia de manejo da resistência, visando evitar/retardar o aparecimento de populações de fungos resistentes, como o ocorrido em outros patossistemas, à exemplo da ferrugem asiática na cultura da soja.

Tabela 3. Rendimento de grãos do milho safrinha em função de duas aplicações de diferentes fungicidas em Cafelândia – PR (safrinha 2017).

Cada fungicida apresenta uma resposta diferente para as diferentes doenças. Para cada situação (híbrido x condição climática x doença predominante) existe um fungicida ou combinação de fungicidas que entrega uma melhor resposta. Para isso é importante conhecer a performance dos fungicidas para o controle das diferentes doenças que atacam a cultura, a sensibilidade e/ou resistência do híbrido escolhido e as condições ideais para o desenvolvimento de cada patógeno. Assim respostas diferentes podem ser esperadas com o uso de diferentes materiais genéticos.

Conclusões

Muitos fungicidas registrados para o controle de mancha branca na cultura do milho não apresentam performance satisfatória para essa doença.

Fungicidas com a presença do ativo fluxapiroxade apresentaram os melhores resultados no controle da mancha branca e consequentemente no rendimento de grãos.

Existe incremento do controle com a adição do fungicida mancozebe às misturas de triazóis + estrobilurinas.

Referências

EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Sistema brasileiro de classificação de solos. 2.ed. Brasília: Embrapa-SPI; Rio de Janeiro: Embrapa Solos, 2006. 306p.

FANTIM G.M. Mancha de Phaeosphaeria, doença do milho que vem aumentando sua importância. Biológico, v.56, p.39, 1994.

FAOSTAT. Produção nos principais países produtores de milho. Disponível em: <http://www.fao.org/faostat/en/#data/QC>. Acesso em: 10 set. 2017.

FERNANDES, F.T.; OLIVEIRA, E. Principais doenças na cultura do milho. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 1997. 80p. (Circular Técnica, 26).

FERREIRA, D.F. Sisvar: a computer statistical analysis system. Ciência e Agrotecnologia Lavras, v.35, n.6, p.1039-1042, 2011.

GODOY, C.V.; AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A. Alteração na fotossíntese e na transpiração de folhas de milho infetadas por Phaeosphaeria maydis. Fitopatologia Brasileira, Lavras, v.26, p.209-215, 2001.

GONÇALVES, R.M.; PEDRO, E.S.; PEDRO, F.R.; FIGUEIREDO, J.E.F.; MEIRELLES, W.F.; PACCOLA-MEIRELLES, L.D. Hospedeiros alternativos para Pantoea ananatis, agente causal da mancha branca do milho. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE FITOPATOLOGIA, 44., 2011, Resumos… Bento Gonçalves: Brazilian Phytopathological Society. CD-ROM

PACCOLA-MEIRELLES, L.D.; FERREIRA, A.S.; MEIRELLES, W.F.; MARRIEL, I.E.; CASELA, C.R. Detection of a bacterium associated with a leaf spot disease of maize in Brazil. Journal of Phytopathology, v.79, p.275-279, 2001.

SAUER, A.V.; FIGUEIREDO, J.E.F.; BABA, V.Y.; PEDRO, E.S.; MEIRELLES, W.F.; PACCOLA-MEIRELLES L.D. Sobrevivência de Pantoea ananatis, agente causal da mancha branca do milho, em restos culturais de milho. In: CONGRESSO NACIONAL DE MILHO E SORGO, 28., 2010, Goiânia. Anais… Sete Lagoas: ABMS, 2010. CD-ROM.

Informações dos autores:  

(1)Engenheiro Agrônomo, M.Sc., Pesquisador, Centro de Pesquisa Agrícola Copacol (CPA Copacol), Cafelândia –PR;

(2)Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, CPA Copacol, Cafelândia – PR;

(3)Engenheiro Agrônomo, M.Sc., Gerente Técnico, Copacol, Cafelândia – PR.

Disponível em: Anais do XIV SEMINÁRIO NACIONAL DE MILHO SAFRINHA, Cuiabá – MT, Brasil,2017.

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