Avaliação de silagem de Avena sativa L. com três cultivares em duas épocas de avaliação e adição de três inoculantes

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O estudo teve como objetivo avaliar a qualidade da silagem de Avena sativa L., em duas épocas de corte, utilizando-se três cultivares e três inoculantes comerciais

Autores: Aline Nunes Bender1, Artur Schoenmeier Woecichoshi2, Emerson André Pereira3, Tamara da Silva Coppetti4, Murilo Hedlund da Silva5, Dagmar Camacho Garcia6, Gerusa Massuquini Conceição7

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Os cultivares de aveia branca (Avena sativa L.) cultivados no sul do Brasil até princípios da década de 1980 eram provenientes do Uruguai e da Argentina, apresentando problemas de adaptação ao ambiente de cultivo. A partir dos anos 1970, programas de melhoramento começaram a desenvolver suas próprias populações, possibilitando o lançamento em escala comercial de dezenas de cultivares (BORÉM, 2017).

O progresso genético é um aspecto de fundamental importância em programas de melhoramento. Sua estimativa fornece uma oportunidade de correlacionar ganhos alcançados com os métodos de melhoramento empregados,  possibilitando a alteração dos objetivos propostos inicialmente (Russell, 1977).

Sabe-se que o Estado do Rio Grande do Sul é um grande produtor pecuário, tanto de corte quanto de leite, e para que se expresse máxima produção dos sistemas, de maneira sustentável, vem se buscando cada vez mais alternativas alimentares que venham a acrescentar ganhos em qualidade do produto final, com custo reduzido.

O ensilamento de gramíneas nos possibilita armazenar e preservar os vegetais para ofertá-los aos ruminantes tornando-se uma alternativa alimentar em períodos de escassez de forragem, os chamados vazis forrageiros ou então em sistema confinado ou utilizando-se como forma de complemento.

Desta forma, o presente estudo teve como objetivo avaliar a qualidade da silagem de Avena sativa L., em duas épocas de corte, utilizando-se três cultivares e três inoculantes comerciais.

O presente estudo foi conduzido no Instituto Regional de Desenvolvimento Rural (IRDeR), pertencente ao Departamento de Estudos Agrários (DEAg/UNIJUÍ), localizado na área rural do município de Augusto Pestana, RS. O solo característico do local é definido como Latossolo Vermelho Distroférrico Típico (EMBRAPA, 2006), possuindo uma evolução muito avançada, homogêneo, bem drenado, fertilidade natural baixa e de boa aptidão agrícola. Clima subtropical (Cfa), precipitação uniforme durante o ano todo, com totais superiores a 1.200 mm. Foram utilizadas três cultivares de Avena sativa L, URS Tarimba, FUNDACEP Fapa 43 e URS F Flete. A semeadura foi realizada no dia 6 de maio do ano de 2016, com uma densidade média de 120 Kg/ha de sementes, com um espaçamento entre linha de 17 cm. As parcelas compreenderam uma área de 15×30 m de cada cultivar, em sistema de manejo de plantio direto, consolidado e sem restrições.

A correção dos nutrientes, ocorreu de acordo com a análise do solo e indicações técnicas, tendo sido aplicada na base uma proporção de 200 Kg/ha do adubo formulado 5-20-20, e uma proporção de 80 Kg/ha de uréia em cobertura.

As parcelas foram avaliadas manualmente, respeitando uma altura de 10 cm de resteva, posteriormente encaminhadas para um triturador de forragens elétrico. Cada cultivar recebeu três tratamentos com distintos inoculantes comerciais e a testemunha (sem inoculante).

Foram utilizados os inoculantes Silobac®, Kerasil® e Biotrato®. Avaliou-se duas épocas de corte, no período de grão leitoso e grão duro. Após a realização dos tratamentos a forragem foi ensilada e compactada manualmente, obtendo duas repetições de cada tratamento, mais a testemunha. Foram utilizados mini silos com dimensões de 30cm de comprimento por 10 cm de diâmetro para a armazenagem dos produtos vegetais.

Após 45 dias, no ato da abertura dos mini silos, foi observada a presença de mofo, posteriormente catalogada a quantidade, e quantos centímetros o mesmo havia se propagado. Parte da silagem foi descartada, e apenas a parte central de cada mini silo pode ser avaliada. Retirou-se 9,0 g de silagem, a qual foi alocada em um béquer com 60 ml de água, para realizar a medição do pH, e deixado em repouso por meia hora, baseando-se no método de SILVA & QUEIROZ (2002). O restante da silagem foi encaminhado para estufa de ar forçado à 55 ºC, permanecendo por 72 horas ou até peso constante. Posteriormente, as amostras foram devidamente moídas em moinho de facas, deixando as partículas com dimensão média de 1 mm.

As amostras foram analisadas pelo método NIRS (Near-infrared spectroscopy) no laboratório de bromatologia da UNIJUÍ. Houve variação entre os fatores Cultivares x Inoculantes x Épocas de corte, nos diferentes caracteres ligados a qualidade bromatológica. Utilizando-se as variáveis bromatológicas Proteína Bruta (PB) e 24h Fibra em Detergente Neutro (FDN).

Com delineamento experimental inteiramente casualizado em esquema tri fatorial 3 x 3 x 2, ou seja, três cultivares, três inoculantes e duas épocas de corte com duas repetições. Os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) e quando estabelecidas diferenças significativas, os fatores foram comparados entre si por meio do teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade, através do Programa SISVAR.

Os valores visualizados foram baixos o que significa que os resultados foram seguros para a avaliação, o único que se excedeu parcialmente ao valor desejado foi o CV referente a PB com 16,8%.

Em relação à época, as variáveis pH, 24h FDN (Fibra em Detergente Neutro) e PB (Proteína Bruta), foram altamente significativos (P<0,01) pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade. Isso demonstra a importância da época de corte e tem influência direta na qualidade da silagem ofertada. Segundo Underwood (1996) e Filho (2016) vários outros minerais, incluindo potássio, sódio, cloro, cobre, cobalto, níquel, zinco e molibdênio, geralmente diminuem com a maturidade das plantas, ou seja, a silagem de grão úmido propicia uma maior conservação dos nutrientes e minerais contidos na planta. Demonstra que há influência positiva no uso de inoculantes quando utilizados para a confecção da silagem.

O efeito cultivar em relação às fontes de variação, apresentam resultados interessantes para a maioria das variáveis. Para as variáveis com efeito significativo a FDN se correlaciona ao teor de fibra contido no alimento a uma medida indireta de qualidade presente, o seu teor energético e a 24h FDN medem a degradabilidade de FDN nas primeiras 24 horas após a ingestão prevê como será o comportamento do alimento no trato ruminal. Nas interações entre cultivar e época, pH, PB e 24h FDN (componente de  degradabilidade FDN) utilizadas como fontes de variação foram muito significativas.

Isso demonstra os cuidados que devem ser tomados ao trabalhar com as cultivares em questão e as épocas em que será confeccionada a silagem, pois esse efeito de interação é muito expressivo na maioria dos componentes avaliados, contribuindo para variações da qualidade bromatológica.

Para os efeitos cultivar e inoculante, houve interação significativa para teor de PB. Ou seja as cultivares e inoculantes vão contribuir para a variação no teor de PB.

A interação época e inoculante foi muito significativa para o pH. Conforme a época do corte da aveia branca para a silagem a ação dos inoculantes sobre o pH apresentaram relação significativa quanto ao estádio fenológico da cultura.

Os inoculantes utilizados são a base de lactobacilos, e propõem aumentar a população de bactérias que vão ser elaboradoras do ácido lático com potencial para competir com pelo substrato disponível na forragem ensilada e que vão diminuir o pH de forma rápida (BERTO e MÜHLBACH, 1997). Silagens de qualidade apresentam um pH na faixa de 3,7 a 4,2, e de baixa qualidade se situam entre 5,0 a 7,0. A boa preservação vai ser dependente da produção de ácido lático que estabiliza os teores de pH e da adequada quantidade de ácidos orgânicos (VAN SOEST, 1994).

A avaliação de significância da interação tripla entre época cultivar não teve nenhum nível de significância.

A Tabela 1 apresenta a interação em relação a cultivar com época, para as variáveis pH, PB e 24h FDN (componente de degradabilidade da fração fibrosa em detergente neutro). Em relação ao pH pode ser observado que na primeira época não  ocorreu diferença significativa entre as cultivares.

TABELA 1. Teores de 24h FDN, PB e pH das silagens de aveia branca nas duas épocas de corte,com e sem uso de inoculantes, IRDeR, UNIJUÍ, 2017.

Na segunda época, há diferença significativa entre as cultivares para a variável pH, pois a cultivar URS Tarimba teve pH superior, assim se sobressaiu das demais cultivares, porém todos os valores de pH obtidos na segunda época são indesejáveis segundo os parâmetros satisfatórios que se encontram entre 3,8 e 4,2 (MARTINS, et al., 2006). É importante salientar que todas as cultivares em estudo obtiveram valores desejáveis apenas na primeira época de corte, ou seja, conservaram melhor suas características ao serem ensiladas com grão úmido.

Para a relação 24h FDN a qual mede a degradabilidade da fibra em detergente neutro pelo ruminante nas primeiras 24 horas, e compreende uma medida do valor energético do volumoso. Determinam os componentes orgânicos do alimento, e do conhecimento dos coeficientes de digestibilidade (RODRIGUES, 2009).

Foi observada a degradabilidade nas primeiras 24h de FDN na silagem de aveia branca, não ocorrendo diferenças significativas entre cultivares e inoculantes. Em relação a segunda época obtivemos valores mais elevados em relação a degradabilidade para as cultivares URS F-Flete e FUNDACEP Fapa 43, se sobressaindo a cultivar URS Tarimba com uma menor degradabilidade em relação às demais mantendo parâmetros semelhantes ao primeiro corte.

Para a variável PB as cultivares FUNDACEP Fapa 43 e URS F-Flete se sobressaíram, porém não variaram entre si na primeira época. Isso pode ser em função de que a proteína se armazena nas folhas e as cultivares FUNDACEP Fapa 43 e URS F-Flete possuem um maior IAF (Índice de Área Foliar). Em relação a segunda época, não se observou diferença significativa entre as cultivares, porém os valores de PB caíram em função do estádio de maturação mais avançado.

Para a variável pH ocorreu diferença entre inoculantes e épocas o que se pode comparar em relação a segunda época apresentando valores menores em relação a primeira época (Tabela 2). Silagens com o pH elevado podem causar problemas no  trato ruminal do animal, afetando potencial fermentativo, pois os microrganismos benéficos não sobrevivem a ácidez elevada.

TABELA 2.Teor de pH das silagens de aveia branca nas duas épocas de corte, com relação ao uso de inoculantes, IRDeR, UNIJUI, 2017.

Podemos observar que o pH foi pontencialmente reduzido pela ação dos inoculantes Silobac® e Kerasil® em relação a primeira época obtendo os melhores resultados para a variável pH, e se sobressaindo sobre a testemunha. Na segunda época não se observou diferenças significativas devido ao seu estadio fenológico mais avançado.

Como podemos observar na Tabela 3, a URS F-Flete obteve resposta mais evidente, sendo superior as demais. Para o inoculante Silobac® as cultivares não diferiram entre si estatisticamente, porém a cultivar FUNDACEP Fapa 43 demonstrou percentual superior de PB. A medida que comparadas com o inoculante Kerasil®, a URS F-Flete se mostrou novamente superior as outras. Quanto ao inoculante Biotrato® as cultivares FUNDACEP Fapa 43 e URS F-Flete obtiveram maiores percentuais de PB.

TABELA 3. Comportamento da cultivares de aveia branca em função do teor de proteína (%), com relação ao uso de inoculantes, IRDeR, UNIJUI, 2017.

Ao avaliar as cultivares separadamentre com relação ao inoculante, a URS Tarimba apresentou teores de proteína superiores com uso de Silobac e sem adição  de inoculante. A URS F-Flete teve um comportamento superior para o não uso de inoculação numericamente, porém estatisticamente não tem diferenças entre os inoculantes. Para a Fapa 43 os inoculantes Biotrato e Silobac obtiveram melhores resultados.

Todos os inoculantes reduziram o teor do pH significativamente, sendo todos efetivos em relação a testemunha na primeira época.

Em relação ao teor de PB as cultivares URS F-FLETE e FUNDACEP Fapa 43 apresentaram resultados superiores quando comparados a cultivar URS Tarimba.

Referências:

BERTO, J.L.; MÜHLBACH, P.R.F. Silagem de Aveia Preta no Estádio Vegetativo, submetida a ação de Inoculantes e ao efeito de emurchecimento. Revista Brasileira de Zootênia , v. 26, n. 4, p. 651-658, 1997.

BORÉM, A.; MIRANDA, G.V. Melhoramento de plantas. 7ª Ed. Viçosa, MG: Editora UFV, 2017.

EMBRAPA. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 2°. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 2006. 286 p. ISBN ISBN 85-85864-19-2.

FILHO, S. L. A.; Minerais para ruminantes. Uberlândia-MG: Editora EDUFU, 2016.

GRISE, M.M.; MARTINS, A.C.; FERNANDES, P.; ROSSI JUNIOR, R.G. PIAZZETTA. Efeito do uso de inoculantes sobre o pH e a composição bromatológica da silagem de sorgo  (Sorghum bicolor L. Moench). Archives of Veterinary Science, v. 11, n. 2, p. 13-16, 2006. ISSN 1517-784X.

RODRIGUES, R.C. Avaliação Químico Bromatológica de alimentos produzidos em terras baixas para a Nutrição Animal. EMBRAPA: Clima Temperado. Pelótas, p. 28. 2009. (1516-8840).

RUSSELL, W.A. Comparative performance for maize hybrids representing different eras of maize breeding. In: ANNUAL CORN & SORGHUM RESEARCH CONFERENCE, 29.,1977, Chicago. Proceedings. Washington: American Seed Trade Association, 1977. p.81-101.

SILVA, D.J.; QUEIROZ, A.C. Análises de alimentos (métodos químicos e biológicos). Viçosa, MG: Editora UFV, 2002.

VAN SOEST, P.J. Nutritional Ecology of the Ruminant. 2ed. Ithaca: Cornell University Press,  1994. 476 p.

Informações dos autores:  

¹ Estudante de agronomia, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí, RS;

2Estudante de medicina veterinária, UNIJUÍ.;

3Eng. Agr., Doutor, Professor Dep. de Estudos Agrários, UNIJUÍ;

4Eng. Agr., UNIJUÍ;

5Estudante de agronomia, UNIJUI;

6Eng. Agr., Doutor, Professor Dep. de Estudos Agrários, UNIJUÍ;

7Eng. Agr., Doutora, Professora Dep. de Estudos Agrários, UNIJUÍ.

Disponível em: Anais do XXXVIII REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE AVEIA, Ijui – RS, Brasil, 2018.

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