Avaliação do estado nutricional para o arroz irrigado em sistema de cultivo pré-germinado

103

O objetivo deste trabalho foi identificar os padrões nutricionais para a cultura do arroz  irrigado cultivado em sistema pré-germinado, em lavouras de Santa Catarina.

Autores: Fabiana Schmidt(1)

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

INTRODUÇÃO

A avaliação do estado nutricional de lavouras de arroz irrigado, baseada na interpretação de resultados de análise foliar é uma das ferramentas para o monitoramento da oferta e do equilíbrio entre os nutrientes. O diagnóstico nutricional das plantas através da análise de suas folhas diagnósticas, no caso do arroz as folhas bandeiras, baseia-se no princípio de existir relação entre o suprimento de nutrientes pelo solo e as suas concentrações na planta, e que aumentos ou decréscimos nesses valores se relacionam com produções mais altas ou mais baixas, respectivamente.

O teor crítico e as faixas de suficiência são os critérios mais utilizados para avaliação e interpretação do estado nutricional das plantas. Entretanto, esses critérios estão sujeitos a algumas limitações devido às interferências de particularidades locais do ambiente, as variações dos sistemas de produção, à idade e origem do tecido da planta amostrada, influência de fatores genéticos da planta e por considerar apenas a concentração isolada do nutriente em um determinado estádio fenológico (GUINDANI et al., 2009).

No estado de SC o cultivo do arroz é predominantemente em sistema pré-germinado com a utilização de cultivares de ciclo longo, esses fatores podem influenciar nas concentrações foliares de nutrientes. No sistema pré-germinado, o solo das lavouras é inundado a partir do preparo permanecendo por um período mais longo em condições de redução, que favorecem o aumento do pH e influenciam na disponibilidade e na absorção de nutrientes pelas plantas de arroz. Por outro lado, os padrões das concentrações de nutrientes nas folhas diagnósticas de cultivares modernas de ciclo longo cultivadas em sistema pré-germinado ainda não são conhecidos para as lavouras de SC.

O objetivo deste trabalho foi identificar os padrões nutricionais para a cultura do arroz irrigado cultivado em sistema pré-germinado, em lavouras de Santa Catarina.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado utilizando-se resultados de análises foliares de arroz irrigado provenientes de sete regiões arrozeiras de SC: 36 amostras da Região de Araranguá (Araranguá, Ermo, Jacinto Machado, Maracajá, Meleiro, Morro Grande, Praia Grande, Sombrio e Turvo); 18 amostras da Região de Criciúma (Forquilhinha, Içara e Nova Veneza); 14 amostras da Região de Tubarão (Imaruí, Jaguaruna e Tubarão); 4 amostras na Região Baixo Vale do Itajaí (Camboriú e Itajaí); 6 amostras do Médio Vale do Itajaí (Gaspar e Ilhota); 6 amostras do Alto Vale do Itajaí (Mirim Doce, Pouso Redondo, Rio do Campo, Rio do Oeste e Taió) e 16 amostras da Região Litoral Norte (Garuva, Guaramirim e Massaranduba).

As amostras foram coletadas na safra 2015/2016, em 100 lavouras comerciais representativas da variabilidade de SC, ou seja, com distintos potenciais de produtividade. As lavouras foram escolhidas e amostradas com apoio dos agentes de extensão rural da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de SC Epagri. As cultivares de arroz amostradas nas lavouras foram: SCS121 CL, SCS118 Marques, SCS117 CL, SCS116 Satoru, SCS114 Andosan, SCSBRS Tio Taka, SCS112, Epagri 109, Epagri 108 e Epagri 106.

A amostragem consistiu na coleta aleatória de 50 folhas-bandeira (folhas diagnósticas) cobrindo a área do talhão da lavoura, com a lavoura apresentando entre 40 e 50% de floração – estádios R2-R3 na escala de Counce et al. (2000). Após a coleta, as folhas foram lavadas com água limpa, secadas para retirar o excesso de água. As amostras de folhas foram secas à 60ºC, em estufa com circulação de ar forçado e posteriormente foram moídas e analisadas as concentrações dos nutrientes segundo metodologia descrita em Tedesco et al. (1995).

Os resultados das análises químicas das amostras foram agrupados por região de origem. As concentrações dos nutrientes foram mensuradas através de parâmetros da estatística descritiva (média aritmética, maior e menor valor e desvio padrão). A estatística descritiva foi calculada em planilha eletrônica Excel.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A interpretação do estado nutricional das lavouras de arroz foi realizada de acordo com valores de referência estabelecidos para as folhas bandeiras do arroz irrigado propostos em Sosbai (2016), podendo o diagnóstico ser de suficiência, de deficiência ou de excesso de nutriente(s).

As concentrações médias de N, K e P em folhas bandeiras do arroz amostradas nas regiões orizícolas de SC foram enquadradas nas faixas adequadas (23-28 g kg-1 de N, 9-14 g kg-1 de K e 1,7-2,5 g kg-1 de P). Apenas 14% das amostras apresentaram concentrações de N inferiores a 23 g kg-1, variando de 20 a 22 g kg-1, ou seja, valores próximos ao limite inferior da classe adequada (Tabela 1). De forma geral, as informações levantadas indicam que a adubação nitrogenada nas lavouras de arroz irrigado de SC está sendo parcelada em 2 ou 3 aplicações de modo a garantir a nutrição de N suficiente às plantas para o período reprodutivo.

Tabela 1. Estatísticas descritivas das concentrações de macronutrientes e micronutrientes nas folhas diagnósticas (folhas bandeiras) do arroz irrigado cultivado no sistema pré germinado em lavouras de SC, safra 2015-2017, estádio R2-R3.

As concentrações de K nas folhas foram classificadas na faixa de suficiência para todas as lavouras amostradas. No caso do P, 18% das amostras apresentaram valores menores que 1,7 g kg-1, considerado o limite inferior da faixa ótima. As concentrações de P mais baixas corresponderam a 1,13 g kg-1 de P e foram verificadas em lavouras localizadas na região de Araranguá (Tabela 1).

Os valores médios de Ca nas folhas diagnósticas foram superiores aos estabelecidos na faixa de concentração adequada para o arroz (2,2 a 3,6 g kg-1). As amostras coletadas nas lavouras de SC apresentaram frequência de 80% dos resultados de concentrações de Ca com valores acima do limite superior da faixa adequada. Entretanto, os valores médios observados nas regiões arrozeiras de SC (de 3,6 a 4,9 g kg-1) foram inferiores aos valores médios observados nas lavouras arrozeiras do RS que variaram de 4,6 g kg-1 na Planície Costeira Externa até 8,3 g kg-1 na Fronteira Oeste (GUINDANI, 2007).

Por outro lado, as concentrações médias de Mg estimadas nas lavouras de SC foram mais baixas ou próximas ao limite inferior da faixa de suficiência (Tabela 1). Sendo que, 69% das amostras apresentaram concentrações de Mg <1,2 g kg-1, considerado um estado nutricional de deficiência para a cultura do arroz irrigado.

Resultados oriundos de lavouras de arroz irrigado do Estado do RS mostraram que a concentração média de Mg foi 2,1 g kg-1 nas folhas bandeiras com ocorrência de variações dos valores entre as regiões. A região Sul e Depressão Central apresentaram concentrações médias de 1,6 e 1,7; as regiões da Campanha e Planície Costeira Externa de 2,1 e 2,2 e a Região da Fronteira Oeste de 4,4 g kg-1 de Mg (GUINDANI, 2007).

Com relação as concentrações de S nas folhas bandeiras, se for considerado os valores estabelecidos pela Sosbai (2016) para a faixa de suficiência (S entre 1,4 e 2,0 g kg-1) somente para uma lavoura amostrada haveria suficiência do nutriente (Tabela 1). Cabe destacar, que dentre as lavouras amostradas haviam solos com teores de S variando de 0,5 a 104,6 mg dm3 e as produtividades variaram de 4.030 a 12.400 kg ha-1.

No entanto, considerando as concentrações críticas de S nas folhas bandeira requeridas para a obtenção da produção máxima como 1,0 g kg-1 e para 50% da produção máxima como 0,5 g kg-1 estabelecidos por Yoshida & Chaudhry (1979), a interpretação dos dados deste estudo indica que as concentrações de S nas folhas diagnósticas somente foram consideradas adequadas em 8% das lavouras amostradas.

As concentrações de S verificadas nas folhas bandeira do arroz, em 87% das amostras enquadraram-se na faixa de 0,5-1,0 g kg-1, podendo ser considerada a zona de deficiência leve. A concentração crítica do nutriente é definida como o ponto de transição entre as zonas de deficiência e adequada da curva de resposta, ou seja, é a concentração mínima de nutrientes nos tecidos que se relaciona com a produtividade máxima. Entretanto, vários pesquisadores têm optado por estabelecer o nível crítico como a concentração do nutriente na folha associado à 90 ou 95% da produção máxima da cultura, em resposta a doses crescentes de dado nutriente admitindo-se representar a máxima eficiência econômica.

Assim, verifica-se a necessidade de estudos relacionados a definição de faixas de interpretação das concentrações de S para a cultura do arroz irrigado e a verificação da resposta do fornecimento desse nutriente através de adubação e sua influência no estado nutricional das plantas e produtividade, em virtude de, em ambos os casos, existir pouco suporte de pesquisa. Além disso, estudos realizados em lavouras de arroz da região da Depressão Central do RS também verificaram que mesmo com a adição de doses de adubo sulfatado as concentrações de S nas folhas bandeira não atingiram a faixa de suficiência estabelecida para a avaliação do estado nutricional em uso no Brasil (CARMONA et al, 2009).

As concentrações médias de Fe nas regiões orizícolas se mantiveram na faixa de suficiência (70-220 mg kg-1), mas variaram entre as regiões, sendo verificados os valores mais baixos (60 a 80 mg kg-1) nas regiões de Tubarão, Araranguá e Alto Vale do Itajaí e os valores mais altos (300 a 373 mg kg-1) nas regiões Litoral Norte e Baixo Vale do Itajaí.

As concentrações de Mn apresentaram as maiores dispersões de valores estimados pelo desvio padrão (DP). O Mn apresentou deficiência em 65% das amostras (Mn < 450 mg kg-1). Já na região do Alto Vale do Itajaí a concentração média foi classificada como excessiva, e valores máximos de 1.736 mg kg-1 de Mn nas folhas. Entretanto, não foram verificados sintomas visuais de toxidez por Mn nas lavouras da região devido à alta tolerância da planta do arroz às concentrações excessivas de Mn na folha, que ocorre devido ao efeito do alagamento. As elevadas concentrações de Mn nas folhas do arroz das regiões do Alto e Médio Vale do Itajaí e Litoral Norte relaciona-se ao fato dos solos dessas regiões possuírem teores de óxidos de Mn mais elevados no solo.

Os dados mostraram que 80% das amostras foram diagnosticadas com deficiência de B (<6 mg kg-1 de B), 68% das amostras com deficiência de Cu (<3,7 mg kg-1 de Cu) e 66% das amostras com deficiência de Zn (<15 mg kg-1 de Zn). Os valores mais baixos desses micronutrientes nas folhas de arroz das lavouras cultivadas em sistema prégerminado provavelmente estão associadas ao fato das concentrações de B, Zn e Cu tenderem a diminuir com o alagamento, pois esses nutrientes tem facilidade de formar compostos de baixa solubilidade com o aumento do pH.

Embora os resultados deste trabalho mostrem um diagnóstico de deficiência de alguns nutrientes, como Mg, S, Mn, B, Cu e Zn, em amostras de lavouras de arroz irrigado de SC, esse fato não pode ser generalizado, já que os padrões estabelecidos na literatura não foram desenvolvidos para as condições do estudo. Assim, não se pode afirmar, a partir desses resultados, que adubações com estes nutrientes sejam recomendadas para a cultura do arroz, pois esse é um tema que necessita de pesquisas específicas no sentido de sua constatação ou não. A avaliação do estado nutricional do arroz irrigado em SC feita neste trabalho, constitui-se em uma forma de diagnóstico pontual e não em uma recomendação. Há necessidade de realização de estudos posteriores a este trabalho, para que se possa testar e comprovar ou não esse diagnóstico.

CONCLUSÕES

As concentrações médias de N, K, P, Ca e Fe estimadas nas folhas diagnósticas do arroz foram agrupadas na faixa de suficiência ou acima desta.

As concentrações médias de Mg, S, Mn, Zn, Cu e B não atingiram a faixa de suficiência pela interpretação do seu estado nutricional em uso no Brasil, mesmo com altas produtividade de grãos.

REFERÊNCIAS

Carmona FC, Conte O, Fraga TI, Barros T, Pulver E, Anghinoni I. Disponibilidade no solo, estado nutricional e recomendação de enxofre para o arroz irrigado. R. Bras Ci Solo. 2009; 33:345-355.

Counce P, Keisling TC, Mitchell AJ. A uniform, objective, and adaptive system for expressing rice development. Crop Sci. 2000; 40:436-443.

Guindani RHP, Anghinoni I, Nachtigall GR. DRIS na avaliação do estado nutricional do arroz irrigado por inundação. R. Bras Ci Solo. 2009; 33:109-118.

Sosbai. Arroz irrigado – Recomendações Técnicas da Pesquisa para o Sul do Brasil. Pelotas: SOSBAI, 2016. 200 p.

Tedesco MJ, Gianello C, Bissani CA, Bohnen H, Volkweiss SJ. Análises de solo, plantas e outros materiais. 2a ed. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 1995. (Boletim técnico, 5).

Yoshida S, Chaudhry MR. Sulfur nutrition of rice. Soil Sci and Plant Nutr. 1979; 25: 121-134.

Informações dos autores:

(1)Pesquisadora, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, BR 282, Km 338,2 – S/N, Campos Novos-SC, CEP 89620-000.

Disponível em: Anais da XII Reunião Sul-Brasileira de Ciência do Solo. Xanxerê – SC, Brasil.

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.