Flutuação populacional de Diatraea saccharalis em arroz irrigado na fronteira oeste do Rio Grande do Sul

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Objetivou-se com o presente trabalho avaliar a infestação de D. saccharalis em lavouras de arroz irrigado ao longo do ciclo da cultura.

Autores: Nelson Cristiano Weber¹; Eloá Matos dos Santos²; Fernando Mateus Werner²; Fernando Felisberto da Silva³; Luiza Rodrigues Redaelli4

Trabalho disponível nos Anais do Evento e publicado com o consentimento dos autores.

 Palavras-chave: Dinâmica populacional; Broca-do-colmo; Oryza sativa; Crambidae

INTRODUÇÃO

A região Sul do Brasil é responsável por 81,71% da produção nacional de arroz. O Rio Grande do Sul (RS) é o maior produtor, com 7,520 milhões de toneladas, representa 70,5% do total produzido no País (CONAB, 2016). Neste cenário, cerca de 2,66 milhões de toneladas são oriundos da Fronteira Oeste (FO) do RS, produzidos basicamente em sistema de cultivo convencional e mínimo (IRGA, 2016).

A cultura do arroz irrigado, embora alcance elevados índices de produtividade, está sujeita a inúmeros fatores que comprometem sua produção, como oscilações de temperatura, precipitações pluviométricas elevadas, doenças, plantas daninhas e insetos-pragas (Reunião, 2014). Estes últimos são responsáveis por perdas de produtividade que podem variar de 15 a 30% (Martins et al., 2009).

Dentre os insetos-pragas da cultura, Diatraea saccharalis (Fabr., 1794) (Lepidoptera: Crambidae), comumente conhecida como broca-do-colmo, é referenciada na literatura como de ocorrência esporádica nos estados de Santa Catarina e RS, sendo normalmente encontrada nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil (Ferreira & Barrigossi, 2002; Reunião, 2014). Entretanto, Botta & Martins (2015) já indicaram a ocorrência deste herbívoro na região de Pelotas/RS.

A lagarta de D. saccharalis perfura as plantas próximo à base do colmo, onde penetra formando galerias, sendo possível observar uma massa composta de resíduos vegetais e fecais próximo ao orifício de entrada. A fase larval é completada dentro do colmo, sendo que a pupa permanece na base interna destes até a emergência dos adultos (Embrapa, 2017).

As plantas infestadas na fase vegetativa, apresentam sintomas conhecidos como coração morto, enquanto que na fase reprodutiva, pode acarretar na formação de panículas brancas (Ferreira & Barrigossi, 2002; Reunião, 2014).

Considerando o potencial de dano desta espécie, principalmente em uma importante região produtora de arroz como a FO, objetivou-se com o presente trabalho avaliar a infestação de D. saccharalis em lavouras de arroz irrigado ao longo do ciclo da cultura.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em três lavouras comerciais de arroz localizadas no município de Itaqui (29° 07’ 31’’S e 56° 33’ 11’O), na região da Fronteira Oeste do RS. O clima da região é classificado como “Cfa”, subtropical, temperado quente, com chuvas distribuídas e estações bem definidas, segundo Köppen-Geiger. O tipo de solo predominante é o Plintossolo argilúvico eutrófico, com declividade média de 3,5% e altitude média de 57 m (Gass et al., 2015).

Nas áreas 1 e 2 foi utilizada a cultivar IRGA 424 RI e na área 3 a cultivar IRGA 429. As áreas foram semeadas (60 kg/ha) em 29 de setembro de 2016, em sistema convencional e

em desnível, utilizando 400 kg/ha da formulação 5-20-25 N-P-K . No estádio V3/V4 foram aplicados 72 kg/ha de N em cobertura, O controle de plantas daninhas foi realizado com aplicação de herbicidas benzotiadiazinona (1,6 L/ha) e isoxazolidinonas (1,2 L/ha), seguindo as recomendações técnicas para a cultura do arroz irrigado (REUNIÃO, 2014). Para o controle de insetos-pragas foi utilizado um inseticida piretroide (40 ml/ha) aplicado em 10/01/17 e 16/02/17 nas áreas 1 e 2 e em 23/01/17 e 16/02/17 na área 3.

Em cada área foram marcados 16 pontos georreferenciados, distanciados entre si 50 m, a partir de 5 m da borda da lavoura, perfazendo um quadrante de quatro linhas com quatro pontos, que delimitavam uma área total de 2,25 ha em cada lavoura. As amostragens iniciaram-se em estágio V3 e foram realizadas semanalmente até o momento da colheita (R8) conforme escala proposta por Counce et al. (2000). Cada ponto foi alocado sobre as curvas de nível (taipas). A partir do ponto alocado em cada taipa, delineou-se quatro quadrantes longitudinalmente a esta, a fim de aleatorizar as amostragens e evitar sobreposição de pontos entre as ocasiões. No quadrante sorteado, todas as plantas foram inspecionadas em uma área de 1 m², delimitada por uma estrutura de madeira. As plantas foram vistoriadas de cima para baixo durante 5 minutos na fase vegetativa e por 10 minutos, na reprodutiva. Todos os colmos com sintomas de danos de D. saccharalis foram seccionados para verificação da presença ou ausência das lagartas.

O número de lagartas por metro quadrado e por área foi registrado por ocasião de amostragem. Os dados foram submetidos ao teste de normalidade de Shapiro-Wilk e comparados por Kruskall-Wallis (áreas) e Mann-Whitney (estádios), utilizando o nível de 5% de significância e foram processados pelo software estatístico Assistat (Silva et al., 2016).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O início da infestação se deu aos 57 dias após a semeadura (DAS) (V3-V4) para a área 1, aos 64 DAS (V4) para a área 2 e na área 3, somente a partir dos 97 DAS, quando a cultura já estava no período reprodutivo (Figura 1).

A presença de lagartas foi constatada primeiro na área 1, chegando a uma densidade máxima de 0,625 lagartas/m² aos 70 DAS, (V5) (alongamento do colmo), e reduzindo drasticamente aos 95 DAS (R0). A densidade de insetos foi semelhante entre as áreas 1 e 2 possivelmente, associado ao fato de nas duas a cultivar de arroz ser a mesma (IRGA 424 RI). A antecipação da infestação na área 1 pode ter sido em função de que na borda desta área ocorriam plantas hospedeiras da broca-do-colmo, da mesma família que o arroz, como capim-arroz e arroz vermelho. Beuzelin et al. (2011) avaliando a infestação de D. saccharalis em plantas infestantes em áreas adjacentes à lavoura de arroz no Texas (EUA), indicaram Sorghum halepense (L.) Pers.(capim-massambará) e Paspalum urvillei Steudel como principais hospedeiras, sendo que ambas espécies ocorrem no RS.

Ao longo do ciclo de desenvolvimento da cultura, houve dois picos populacionais de imaturos de D. saccharalis, o primeiro no estádio vegetativo, aos 70 DAS tanto na área 1 como na 2, não sendo constatada a presença da broca-do-colmo na área 3 (IRGA 429). O segundo pico foi registrado no reprodutivo (112 DAS). Nas áreas 1 e 2 neste período verificou-se que as populações da broca-do-colmo foram 30 e 57,1% menores do que no vegetativo, respectivamente (Figura 1).

No período reprodutivo, a área 3 foi a que apresentou maior densidade de imaturos, atingindo 1,25 insetos/m² aos 112 DAS (R3). Tal fato pode estar vinculado à infestação tardia desta área e à elevada infestação de plantas daninhas observada durante a realização das amostragens.

Figura 1. Flutuação populacional de lagartas de Diatraea saccharalis ao longo do ciclo da cultura de arroz irrigado (Oryza sativa) em três áreas em Itaqui/RS, 2017.

Quando analisada a densidade média de lagartas ao longo de todo ciclo de desenvolvimento do arroz, não foi possível verificar diferenças estatísticas entre as três áreas (p > 0,05) (Tabela 1).

Tabela 1. Número médio de lagartas de Diatraea saccharalis por m² (±EP) nos estádios vegetativo (V) e reprodutivo (R) da cultura de arroz irrigado, em três lavouras, em Itaqui/RS, 2017.

A densidade média populacional de D. saccharalis diferiu (p < 0,05) entre os estádios fenológicos, quando as três áreas foram consideradas em conjunto, vegetativo (0,08 ± 0,04) e reprodutivo (0,21 ± 0,07), em média, no período reprodutivo registrou-se cerca de três vezes mais insetos/m² do que o vegetativo.

Ferreira & Barrigossi (2002) apontaram dois momentos críticos do ciclo da cultura no qual o arroz é mais suscetível ao ataque de D. saccharalis, no “alongamento dos colmos” e na “emissão das panículas”, o que é reforçado pelos dados encontrados no presente trabalho. Adicionalmente, Reay-Jones et al. (2007) indicaram que os maiores danos desta broca ocorrem na fase reprodutiva, tendo em vista que a capacidade da cultura em compensar o ataque nesta fase é menor, pois diminui a translocação de fotoassimilados e não ocorre mais a emissão de afilhos, como na fase vegetativa.

CONCLUSÃO

Lagartas D. saccharalis infestam a cultura do arroz a partir do estádio vegetativo V3, alcançando um pico populacional em V5 e outro em R3, sendo a infestação maior na fase reprodutiva do que na vegetativa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BOTTA, R. A.; MARTINS, J. F. S. Índice de infestaçâo da broca-do-colmo em cultivares de arroz.In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ARROZ IRRIGADO, 9.,2015, Botta. Anais… Pelotas, RS, 2015. Resumo 3993 – 344.

COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO (CONAB). Acompanhamento da safra brasileira de grãos. v.3, n.9, Jun. 2016.

COUNCE, P. A.; KEISLING, T. C.; MITCHELL, A. L., A Uniform and adaptative system for expressing rice development. Crop Science, Madison, v.40, p. 436-443, 2000.

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FERREIRA, E.; BARRIGOSSI, J. A. F. Orientação para o controle da Broca-do-colmo em Arroz. Embrapa CNPAF (Comunicado técnico, n. 51), Santo Antonio de Goiás-GO, Dezembro, 2002, 4p.

GASS, S. L. B. et al. Estruturação do banco de dados e caracterização básica do município de Itaqui, RS, Brasil, para fins de seu Zoneamento Ecológico-Econômico. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE SENSORIAMENTO REMOTO (SBSR), 17, João Pessoa-PB. Anais… João Pessoa-PB, 2015. p. 4073-4081.

INSTITUTO RIO GRANDENSE DO ARROZ (IRGA). Evolução da colheita 2016/17. Disponível em: < http://www.irga.rs.gov.br/upload/20170511150840colheita _2016_17.pdf> Acesso em: 13 mai. 2017.

MARTINS, J. F. S. et al. Situação do manejo integrado de insetos-praga na cultura do arroz no Brasil. Pelotas, Embrapa Clima Temperado. (Embrapa Clima Temperado. Documentos, 290), 2009. 40p.

REAY-JONES, F. P. F. et al. Economic assessment of controlling stem borers (Lepidoptera:Crambidae) with insecticides in Texas rice. Crop Protection. v.26, p. 963–970, 2007.

REUNIÃO TÉCNICA DA CULTURA DO ARROZ IRRIGADO. Arroz irrigado: recomendações técnicas da pesquisa para o sul do brasil. Sociedade Sul-Brasileira de Arroz Irrigado, Bento Gonçalves, 2014. 192 p.

SILVA, F. A. S.; AZEVEDO, C. A. V. de. The Assistat Software Version 7.7 and its use in the analysis of experimental data. African Journal of Agricultural Research. v.11, n.39, p.3733-3740, 2016.

Informações dos autores:     

¹Engº Agrº. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia/Sanidade Vegetal – Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS;

²Academico do curso de Agronomia, Universidade Federal do Pampa/Unipampa, Campus Itaqui.

³ Dr. Engº. Agrº. Professor, Universidade Federal do Pampa/Unipampa, Campus Itaqui.

4Dra. Engª.Agrª, Professora, Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS, Porto Alegre.

Disponível em: Anais do  X Congresso Brasileiro de Arroz Irrigado – CBAI, Gramado-RS, Brasil.

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