A quarta edição do Boletim Analítico do Mercado da Soja, publicado pelo Núcleo de Pesquisas em Economia do Agronegócio (NPEA), se propõe a analisar a conjuntura do mercado em um período em que variáveis de diferentes campos estão provocando, simultaneamente, alterações no mercado global, nacional e regional de soja em grãos.

Este boletim destaca as variáveis mais significativas, neste período, para entender o comportamento do mercado da soja em nível global, brasileiro e local. Para tanto, está dividido em três seções mais as considerações finais, conforme segue.

1. ANÁLISE DA FORMAÇÃO DO PREÇO DA SOJA NO BRASIL

A partir da análise do comportamento dos preços da soja em grãos na Chicago Board of Trade (CBOT – CME Group) e de informações de mercado, o objetivo desta seção é avaliar a conjuntura do mercado global de soja e seus impactos no Brasil, em especial na Região Noroeste do estado do Rio Grande de Sul.

Nos últimos três meses, os futuros de soja em Chicago foram fortemente impactados pela guerra comercial que se estabeleceu entre Estados Unidos e China. Isto pode ser verificado na análise do comportamento de mercado dos contratos com vencimento em novembro/2018 (ZSX8), que se constituem como driver de formação de preço neste momento por apresentarem o maior volume de negociações (aproximadamente 436,2 mil contratos em aberto).

Neste sentido, observa-se que antes do início da guerra comercial, o mercado operava com forte suporte em US$ 10,00/bu e forte resistência em US$ 10,61/bu. Neste contexto, destaca-se que o mercado iniciou a precificação das tensões comerciais em 29/05/2018, já com fortes especulações sobre a possibilidade de retaliação chinesa, em decorrência da agressiva política estadunidense.

Em 07/06/2018, a média de 10 e 20 dias rompeu o suporte de mercado dado pela média de 100 dias. Poucos dias depois, em 15/06/2018, a média de 50 dias rompeu o suporte de mercado dado pela média de 100 dias, fato que consolidou as pressões baixistas em Chicago.

Neste momento (30/08/2018, 9h10min de Chicago), os futuros de soja com vencimento em novembro (ZSX8) apresentam o mercado encontra um forte suporte em US$ 8,27/bu e uma forte resistência em US$ 9,23/bu, conforme é possível observar na Figura 1.

A partir da metade de junho o mercado tentou uma recuperação, sobretudo influenciado por correções técnicas e expectativas de acordo entre as duas superpotências (China e EUA).

Porém, as estimativas de maiores estoques e produção, apresentadas no reporte WASDE-580, pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, 2018), derrubaram as cotações a partir de 10/08/2018.

Somando-se a isto, a intensificação nas tensões comerciais EUA x China mantiveram o mercado em tendência baixista. Por outro lado, as perdas resultantes das quedas nas cotações dos contratos negociados na Bolsa de Mercadorias e Futuros de Chicago (CBOT/CME Group) foram (parcialmente) compensadas pelas elevações no Prêmio de exportação (remuneração adicional destinada para a soja exportada pelo Brasil).

A partir de 09/04/2018, a soma preço da soja referenciado pelo contrato com maior volume de negociações em Chicago e do Prêmio de Exportação em Rio Grande/RS, ou seja, a cotação da soja no Porto do Rio Grande/RS, em US$/bushel, em Rio Grande/RS, começou a trajetória de queda, oportunidade em que o suporte se consolidou nos US$ 10,00/bu.

Entre 15/06/2018 e 31/07/2018 houve elevação, mas a resistência de mercado se consolidou nos US$ 11,10/bu. Neste período mais recente, o mercado tentou novamente romper com o suporte de US$ 10,00 e está gravitando na faixa de US$ 10,00/bu a US$ 10,50/bu, quando se considera o driver de Chicago mais o prêmio de exportação em Rio Grande/RS.

Por outro lado, ao observar as cotações em R$/saca de 60kg, representadas pela linha azul da Figura 2, a tendência de crescimento é clara, principalmente após o mês de maio/2018, o que mostra a importância da valorização do dólar (aumento na taxa de câmbio) para a manutenção das cotações em patamares elevados no Brasil.

Portanto, a conclusão que se tira deste cenário é de que apesar das turbulências internacionais, as cotações ainda se mantêm em patamares superiores a dez dólares por bushel. As possibilidades de alterações significativas nos preços atuais estão diretamente atreladas às condições de lavoura e expectativa de safra nos EUA e variações cambiais.

Neste aspecto, também as regras de exportação de produtos agropecuários na Argentina são importantes e positivas para o produtor brasileiro, uma vez que o imposto incidente sobre as exportações de soja votou a aumentar.

Também, nos próximos meses as expectativas quanto as condições climáticas da américa latina, para a safra de verão 2018/2019, tendem a estimular alterações nos preços praticados no mundo e no Brasil.

Neste momento, não se pode afirmar com certeza, mas os modelos climáticos internacionais apontam para a possibilidade de ocorrência de El Niño, conforme destaca Mauro Costa Beber no Box 1.

BOX 1 – Análise Climática, por Mauro Costa Beber
Chegamos ao final do mês de agosto com as chuvas mais concentradas na segunda quinzena do mês. Chuvas irregulares na distribuição espacial no estado, com precipitações abaixo da média para o mês no norte do estado. Choveu aqui na Brasitália, município de Condor/RS, 100 mm, média do mês é de 125 mm, a média dos anos análogos nos últimos 29 anos foi de 93 mm. Para setembro, estamos com neutralidade nos oceanos. Nos anos parecidos do passado, choveu uma média de 136 mm e a média do mês em 29 anos é de 186 mm. A previsão do IRI (modelo americano mais confiável, ao nosso ver) é de chuvas dentro da média para todo o estado e temperatura um pouco acima da média. Podemos ter ondas de frio neste mês alternadas com calor, o que eleva o risco de tempestades, que é característica da primavera. Para o verão os modelos internacionais mostram para a ocorrência de El Niño, com probabilidade estatística de 70%. Se o oceano Atlântico aquecer na costa do RS e SC, poderemos ter boas chuvas no verão em todo estado. Recomendo cautela quanto a isso pois são raros os anos que começam com La Niña como este e terminam com El Niño, que é a previsão deste ano. Contudo, destacamos que neste momento não se pode dar certeza disso.

 

Diante disto, a conjuntura macroeconômica brasileira, chinesa e estadunidense são importantes, bem como o cenário pré-eleitoral no Brasil e as condições políticas entre as principais potências globais, pois espera-se que seja esta a matriz multifatorial que determinará a tendência para a taxa de câmbio nos próximos meses.

Neste contexto, observar-se forte valorização do dólar frente ao Real nas últimas semanas. Através da análise gráfica identificou-se que as médias de 26 semanas (linha amarela) e de 52 semanas (linha preta) estão situadas em R$ 3,6695/US$ e R$ 3,4478/US$ respectivamente.

Ambas em trajetória crescente (Figura 3). Neste momento (11:47h do dia 29/08/2018), a taxa de câmbio está operando em R$ 4,1380/US$ e a média de quatro semanas está em US$ 3,9882/U$, com o mercado sendo fortemente impactado pelo ambiente pré-eleitoral no Brasil e pelas condições do cenário econômico e político internacional, o que confirma as projeções contidas no Boletim Analítico do Mercado da Soja dos meses de fevereiro, abril e maio (COSTA, 2018a; 2018b).

Considerando que o ambiente político no Brasil está indefinido e que a possibilidade de um candidato não reformista crescer no primeiro ou segundo turno das eleições presidenciais é real, a taxa de câmbio pode ser ainda mais impactada.

Também importante, as questões de natureza geopolítica internacional, podem trazer oportunidades para uma desvalorização ainda maior do Real. Nesta perspectiva de múltiplas fontes de tensão cambial, é importante destacar que, em valores reais, a taxa de câmbio R$/US$ (deflacionada pelo Consumer Price Index EUA) já operou em R$ 5,3701/US$ (setembro/2002, oportunidade em que a taxa nominal foi R$ 3,8949/US$).

Considerando estes aspectos e o comportamento da análise gráfica, a possibilidade de desvalorização ainda maior do Real não pode ser descartada, assim como um revés neste processo, pois o momento atual apresenta vários focos de incertezas.

Este fato reforça a necessidade de fazer a gestão de risco do empreendimento: recomenda se ao sojicultor que adquiriu seus insumos com uma taxa de câmbio elevada que tome os devidos cuidados no sentido de pensar na possibilidade de travar o preço de uma parte da safra nova para pagar o custeio.

Se um candidato reformista ganhar as eleições no Brasil e as tensões comerciais e geopolíticas internacionais se amenizarem, a tendência é de valorização do Real frente ao dólar e, por consequência, impactos negativos sobre o preço pago ao produtor brasileiro.

Dito isto, passamos a analisar o cenário macroeconômico e político para buscar elementos que permitam entender as tendências cambiais para os próximos meses.

2. A MACROECONOMIA E SEUS IMPACTOS NA TAXA DE CÂMBIO

Nas últimas semanas, as informações de conjuntura macroeconômica foram relevantes, sobretudo em função da revisão da expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto Brasileiro para baixo.

Também, a taxa de câmbio aumentou consideravelmente, em função de um conjunto de variáveis que envolve o cenário eleitoral doméstico, comercial e geopolítico internacional, fato que forçou o Banco Central do Brasil a intervir no mercado para conter a escalada do dólar.

A seguir, destacam-se os elementos conjunturais da economia brasileira, estadunidense e chinesa.

2.1. ANÁLISE DA CONJUNTURA MACROECONÔMICA NO BRASIL
Nível de Atividade Econômica:

Nas últimas semanas, a paralização dos caminhoneiros contribuiu para reduzir a atividade econômica, mas após o seu término, o cenário de recuperação ganhou força.

A Pesquisa Industrial Mensal (IBGE, 2018b) do mês de junho/2018 mostrou crescimento industrial de 13,1% em relação ao mês de maio/2018. Este foi um fato positivo e que colabora para o crescimento do PIB.

Mesmo assim, o último relatório de Mercado – Focus (BACEN, 2018a) apresentou uma revisão para baixo na expectativa de crescimento da economia brasileira, que passou a ser de crescimento de 1,47% para o final de 2018, ante uma expetativa que chegou a ser de 2,7% em meses anteriores.

Em consonância com esta percepção, os números apresentados pelo IBGE (2018d) para o PIB do segundo semestre de 2018, mostram crescimento de 1% em relação ao mesmo período do ano anterior e 1,1% ao longo do ano (também em relação ao mesmo período do ano anterior).

Considerando-se ao acumulado de quatro trimestres, o crescimento econômico brasileiro foi de 1,4% (IBGE, 2018d).

Isto revela que, mesmo com as adversidades provocadas pela crise fiscal, a economia brasileira está em processo de recuperação, com indicadores melhores, trimestre a trimestre, desde 2016.

Neste cenário, ainda de baixo crescimento e de recuperação gradual, a tendência da Selic é de manutenção nos níveis atuais, desde que a inflação não saia do controle.

Nível geral de preços:

A expectativa de inflação para o final de 2018, considerando-se o IPCA e IGP-M, é de 4,17% e 7,89% (BACEN, 2018a).

A Figura 5 mostra o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor – Amplo) acumulado de 12 meses. Nela, é possível observar que até mai/18, o acumulado de 12 meses foi 2,85%. Em jun/2018, o acumulado passou para 4,39% e jul/2018 para 4,48%.

Isto mostra uma piora considerável em relação aos outros meses. A explicação desta degradação está associada, principalmente, a paralização no segmento de transporte, a apreciação do dólar frente ao real, ao aumento nos futuros de petróleo e a autorização de reajustes em preços administrados pelo Governo (energia elétrica, transporte público, medicamentos, plano de saúde, entre outros).

Taxa Básica de Juros – Selic:

A média Top-5 das instituições que respondem ao Relatório Focus do Banco Central apontam para a tendência de a Selic terminar 2018 no nível de 6,50%. Em maio, o mercado esperava redução para até 6,20% (BACEN, 2018a).

Para 2019, o esperado é 7,50% ao ano. Apesar da elevação, neste momento a inflação parece não ser o suficiente para fazer com que o Banco Central eleve os juros, sobretudo porque o Brasil está às vésperas de uma eleição presidencial.

Em sua última reunião, além de recomendar política econômica estimulativa, o Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central do Brasil (BACEN) decidiu manter a taxa de juros em 6,5%, o que aponta para o final do ciclo de reduções da Selic, iniciado em 01/09/2016, conforme e possível observar na Figura 6.

A manutenção da taxa Selic em 6,5% a.a. é importante porque, combinadas com as elevações na Federal Funds Rate (taxa de juros dos EUA), exerce pressões para valorizar o dólar, que se reflete em ganhos no preço da soja no Brasil.

Nível de Geral de Emprego no Brasil

“O contingente de pessoas ocupadas foi estimado em aproximadamente 91,7 milhões no trimestre de maio a julho de 2018. Essa estimativa apresentou aumento em relação ao trimestre anterior (fevereiro a abril de 2018) de 1,0%, ou seja, um adicional de 928 mil pessoas. Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (maio a julho de 2017) este indicador apresentou, também, variação positiva (1,1%), quando havia no Brasil 90,7 milhões de pessoas ocupadas” (IBGE, 2018a).

A Figura 7 mostra que existe um processo de recuperação que iniciou em março/2018, momento em que a taxa de desemprego chegou a 13,10%. Na média de mai-jun-jul/18, a taxa situou-se em 12,3% (IBGE, 2018a).

Neste sentido, desde que a inflação continue controlada, a tendência é de manutenção da taxa de Selic nos níveis atuais, sobretudo porque esta é uma estratégia utilizada para aquecer a economia e elevar os níveis de emprego, consumo e renda.

O atual cenário macroeconômico do Brasil apresenta condições para a manutenção da taxa de juros em 6,50% a.a. Por considerar que a taxa de câmbio explica parte significativa do preço pago ao produtor brasileiro, as condições macroeconômicas continuam a atuar como elemento favorável a elevação nos preços de soja no Brasil.

2.2. ANÁLISE DA CONJUNTURA MACROECONÔMICA NOS ESTADOS UNIDOS

A atual conjuntura da economia dos Estados Unidos pode explicar o comportamento da taxa de juros que remunera os títulos públicos norte-americanos e, por consequência, uma parte da variação da taxa de câmbio no Brasil, que é um dos principais determinantes do preço pago ao produtor gaúcho.

Nível de Atividade Econômica nos EUA

A política estimulativa adotada pelo Governo Trump, de redução dos impostos e, em alguns casos, elevações dos gastos públicos tem mostrado efeitos positivos no curto prazo. Neste aspecto, é notória a consistência dos indicadores de atividade econômica nos EUA.

Os principais responsáveis pelo crescimento foram os gastos de consumo pessoal (PCE), exportações, investimentos fixos não-residenciais, gastos do governo federal, gastos dos governos estaduais e locais. Estes amenizaram as quedas no investimento privado e as elevações nas importações (que, no curto prazo, contribuem negativamente para o PIB).

Neste contexto, segundo o U.S. Department of Commerce (2018), no segundo trimestre de 2018 a atividade econômica no EUA apresentou crescimento real de 4,1%, em relação ao trimestre anterior.

Este desempenho rompeu com uma série de desaceleração do crescimento que iniciou no terceiro trimestre de 2017, conforme é possível observar na Figura 8.

Apesar de positivo, destaca-se que este crescimento contribuiu para aumentar déficit público norteamericano.

Diante disto, o direcionamento da política monetária dos EUA, bem como as elevações na taxa de juros que remunera os títulos da dívida pública norte americana (Federal Funds Rate) parecem estar diretamente vinculadas aos níveis de inflação.

Nível de Geral de Preços nos EUA

De acordo com as estatísticas divulgadas pelo U.S. DEPARTMENT OF LABOR, (2018a), o Consumer Price Index, um dos principais indicadores de inflação dos EUA, registrou 0,2% de elevação no mês de julho, ante 0,1% em junho.

O acumulado dos últimos 12 meses é 2,9% (Figura 9). Para os padrões estadunidenses esta é uma inflação considerada alta. Em função disto, a hipótese de que a inflação de novas elevações na Federal Funds Rate se fortalece a cada dia.

O Federal Open Market Committee (FOMC) tende a garantir a implementação de uma política monetária restricionista, uma vez que a tendência é de elevação na inflação, que para os padrões norte-americanos já é considerada muito elevada.

Federal Funds Rate – Taxa Básica de Juros dos Estados Unidos

De acordo com o mandato estatutário do Federal Open Market Committee (FOMC), o objetivo da política monetária deve ser promover o máximo emprego e a estabilidade de preços.

A inflação tolerada, neste momento é de até 2%, mas como observado, o indicador está situado em 2,9% e em trajetória de elevação (FOMC, 2018).

Em sua última reunião, o FOMC decidiu por manter a Federal Funds Rate em 1,95% a.a., em vigor a partir de 2 de agosto de 2018 (FOMC, 2018).

Conforme é possível observar na Figura 10, a crescente trajetória de elevação na taxa de juros da Reserva Federal ainda não foi suficiente para amenizar os impactos da inflação.

Esta situação conjuntural nos Estados Unidos é um fato positivo para o cenário de preços da soja no Brasil, pois ao elevar o grau de atratividade dos títulos da dívida pública norte-americana, via elevações na taxa de juros, estimula-se a saída de dólares do Brasil para ingresso nos EUA, fato que tende a fortalecer o processo de valorização do dólar frente ao real.

Dados os bons indicadores de emprego, a expectativa é de que o FOMC determine novas elevações na taxa de juros que remunera os títulos públicos.

Nível de emprego nos EUA

O Mercado de trabalho nos Estados Unidos segue se fortalecendo. Desde outubro/2009, quando a taxa de desemprego chegou a 10%, existe uma queda gradual e consistente.

No último mês de julho, a taxa alcançou o patamar de 3,9% (U.S. DEPARTMENT OF LABOR, 2018b).

Este cenário de fortalecimento do mercado de trabalho, combinado com elevação da inflação reforça a tendência de elevação na Federal Funds Rate (taxa de juros dos títulos públicos norte-americanos).

De acordo com o modelo de tendência polinomial (linha pontilhada em azul do gráfico), parece que a tendência de queda está chegando ao fim e é possível um pequeno aumento no desemprego para os próximos meses.

Considerando que se espera a implementação de elevações na taxa de juros, esta projeção é possível de se concretizar. A conjuntura econômica nos Estados Unidos continua a configurar um cenário de fortalecimento do dólar.

Considerando o cenário atual, a apreciação do dólar frente ao real continua ganhando força, o que é positivo para a manutenção do preço da soja patamares um pouco acima da média histórica recente.

Por outro lado, o câmbio não perdeu a sua natureza volátil e as cotações em Chicago e no Prêmio de Exportações nos portos brasileiros também não.

Seguindo princípios de gestão de risco, é adequado que parte da safra nova seja comercializada com antecipação para cobrir ao menos os custos de produção, pois apesar de inesperado, uma queda no dólar pode resultar em prejuízos, uma vez que insumos para a safra 2018/2019 estão sendo comercializados a partir de patamares bem elevados, explicados pela alta taxa de câmbio.

2.3. ANÁLISE DA CONJUNTURA MACROECONÔMICA CHINESA

A análise mais recente da economia chinesa (FMI, 2018b), projeta um crescimento de 6,6% do PIB em 2018, atestando que a economia chinesa continua forte.

Nas condições atuais, o país responde por um terço do crescimento global. A quantidade pessoas que saem da linha da pobreza aumentou e aumenta gradualmente, o que já dá ao país o status de renda média alta.

Os riscos, apesar de existentes, não são demasiadamente altos e estão associados as condições do mercado financeiro global e o aumento das tensões comerciais.

Neste caso, conforme destaca o FMI (2018b), existem condições para realizar algumas reformas necessárias neste momento de prosperidade e preparar a economia para um crescimento robusto em longo prazo.

Este é um cenário positivo e, apesar de rebaixar do rebaixamento nas expectativas de crescimento de 6,8% para 6,6%, o país deve ampliar ainda mais o consumo por produtos do agronegócio brasileiro, em especial, do complexo soja, o que corrobora os estudos realizados por Feistel, Hidalgo e Zuchetto (2015) e Costa e Santana (2015).

Em síntese, observa-se que a política macroeconômica tende a continuar contribuindo para uma taxa de câmbio com o dólar mais valorizado do que nos anos anteriores.

3. O AMBIENTE GEOPOLÍTICO INTERNACIONAL, A TAXA DE CÂMBIO E O PREÇO DA SOJA

Altamente impactado pelas questões de natureza geopolítica, em que se destacam o protecionismo estadunidense e a Guerra Comercial Estados Unidos X China, o mercado da soja está vivendo períodos de fortes oscilações.

Agrega-se a este cenário as questões diplomáticas não resolvidas ou em compasso de atenção, entre os Estados Unidos e importantes atores internacionais, principalmente Irã, Rússia, China e Coréia do Norte.

Este cenário deve ser acompanhado, sobretudo por seu potencial de gerar ainda maiores impactos sobre a estabilidade dos mercados e paz mundial.

3.1. GUERRA COMERCIAL EUA X CHINA

As polêmicas decisões de Donald Trump chamam a atenção para fundamentos que ajudam a explicar a importância da geopolítica para o desenvolvimento do agronegócio mundial, em especial, da soja.

Neste sentido, a história mostra que as sucessivas quebras de safras nos Estados Unidos, na década de 1970, associadas a redução na produção de anchovas no Peru (uma importante fonte proteica da época) e a Guerra Fria levaram o então presidente Richard Nixon a decretar o embargo às exportações de grãos norte americanos para a então União Soviética.

Diante da escassez de proteínas e óleos e um vultoso problema de segurança alimentar (nessa época a soja já aparecia como uma das principais fontes de proteína), Japão e Europa buscaram alternativas para diversificar os seus fornecedores e reduzir a dependência pela soja norte americana.

Portanto, o início das exportações Sul-Americanas de soja, na década de 1970, aconteceu por uma reação a uma decisão políticade Richard Nixon, que levou os seus principais clientes a buscar reduzir a dependência da soja norteamericana.

Passados algumas décadas, a América do Sul ultrapassou os EUA neste segmento. Ao promover abertamente uma guerra comercial com a China, em 2018, Donald Trump está forçando a China a acelerar o desenvolvimento da agricultura na savana africana.

Alguns países africanos vão conseguir superar seus desafios culturais, logísticos, políticos e tecnológicos e se tornarem grandes produtores de commodities agrícolas? É provável que sim, em algumas décadas!

Qual será o impacto disto para a cadeia produtiva da soja no continente americano? Esta é uma questão em aberta, sobretudo porque é provável que grande parte da possível oferta africana seja consumida no próprio local, ainda carente nas questões que envolvem a segurança alimentar.

Contudo, conforme destacado nas últimas edições do Boletim Analítico do Mercado da Soja, ainda em fevereiro/2018 (COSTA, 2018a;2018b;2018c), os desentendimentos comerciais entre EUA X China foram determinantes para colocar os futuros de soja na CBOT (Chicago Board of Trade – CME Group) numa trajetória baixista, como observado na seção 1.1 deste boletim.

Se um acordo definitivo for fechado, os preços em Chicago tenderão a voltar ao movimento tradicional e os prêmios de exportação nos portos brasileiros tenderão a recuar consideravelmente.

3.2. ACORDO NUCLEAR P5+1 E IRÃ

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã estão gerando protestos do país islâmico, que está buscando reverter as sanções em tribunais internacionais. Este cenário pode resultar em instabilidade na região.

Neste contexto, o clima de tensão no Oriente Médio é latente (está adormecido), mas a qualquer momento pode resultar em impactos sobre a taxa de câmbio, o preço do barril de petróleo e, por consequência, na inflação e preço da soja.

3.3. RENEGOCIAÇÃO DO NAFTA

Após meses de incertezas, as negociações do NAFTA parecem ter encontrado um desfecho, que tende a ser desfavorável para o Brasil, haja vista o acordo fechado entre Estados Unidos e México. Neste momento, as informações são de que o Canadá também está em compasso de fechar acordo com os Estados Unidos.

No caso de confirmação deste cenário, a tendência é de que o Brasil continue a enfrentar problemas para exportar seus excedentes para a América do Norte, o que tenderá a aumentar ainda mais a relação de parceria comercial com Ásia e África, uma vez que a Política Agrícola Comum da União Europeia se traduz em uma barreira consideravelmente forte.

3.4. IMPEACHMENT DE DONALD TRUMP?

Considerando o fato de que as investigações sobre uma possível cooperação entre membros da campanha de Donald Trump e agentes russos está avançando e com novidades desfavoráveis para o atual presidente estadunidense, este é um tema com potencial de entrar no radar do mercado financeiro e de commodities.

Neste momento, o simples risco, mesmo que moderado, de uma possível mudança no comando da maior economia mundial pode resultar em profundas transformações na geopolítica internacional, reverter a tendência de aprofundamento das relações entre América do Sul-Ásia-Rússia de uma lado e América do Norte-Europa de outro. Portanto, remodelando completamente o ambiente geopolítico e, por consequência, de mercado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

1. As tensões comerciais entre Estados Unidos e China derrubaram o suporte de mercado da soja em Chicago;

2. A valorização do dólar e a expectativa de maior produção de soja na safra 2018/2019, no mundo, contribuiu para pressionar para baixo as cotações;

3. No Brasil, as perdas decorrentes de fatores alheios a relação oferta x demanda estão sendo parcialmente minimizadas pelas elevações nos prêmios de exportação;

4. A taxa de câmbio real/dólar será ainda mais determinante para o balizamento do preço pago ao produtor gaúcho;

5. As condições macroeconômicas no Brasil, associadas às condições políticas domésticas e de geopolítica internacional apontam para a manutenção do câmbio em patamares elevados. É possível que o real se desvalorize ainda mais frente ao dólar, o que é positivo para manter o preço da soja em bons patamares no Brasil;

6. Neste cenário, as projeções podem sofrer revezes, uma vez que as condições políticas são sempre voláteis e é justamente este o cenário que mantém o real sobrevalorizado;

7. Portanto, uma boa estratégia para gerenciar o risco de comercialização da safra nova é travar o preço da soja para, pelo menos, pagar os custos de produção.

Fonte: UFSM – NPEA – Prof. Dr. Nilson Luiz Costa

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