O objetivo desse trabalho foi determinar de onde vem o N absorvido pela cultura da soja com diferentes doses e épocas de fornecimento de N no ambiente tropical e subtropical.

Autores: PIEROZAN JUNIOR, C.1; LAGO, B.C.2; OLIVEIRA, S.M.2; OLIVEIRA, F.B.2; ALMEIDA, R.E.M.3; GILABEL, A.P.4; BAPTISTELLA, J.L.C.2; TEIXEIRA, P.P.C.5; CORTESE, D.1; FAVARIN, J.L.2

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Em razão da grande demanda e exportação de nitrogênio (N) pela soja, que é de 80 kg de N para produzir 1 Mg de grãos (Salvagiotti et al., 2008), estudos têm visado a aplicação de fertilizantes nitrogenados em soja para aumento da produtividade. Quando se pretende alcançar altas produtividades, como acima de 4 Mg ha-1, há dúvidas de que a demanda de N pela cultura é atendida pela fixação biológica de nitrogênio (FBN) e pela reserva do nutriente presente no solo.

Um dos obstáculos à fertilização nitrogenada da soja é o antagonismo entre a alta concentração de N no solo, principalmente na forma de nitrato, e a FBN, prejudicando o processo simbiótico (Streeter, 1988), o que é indesejável.

A hipótese desse trabalho é que a aplicação de N pode prejudicar a FBN, o que, certamente, dependerá da dose e da época de aplicação de N. O objetivo desse trabalho foi determinar de onde vem o N absorvido pela cultura da soja com diferentes doses e épocas de fornecimento de N no ambiente tropical e subtropical.

O experimento foi realizado nos municípios de Primavera do Leste – MT, ambiente tropical localizado no bioma do cerrado, e Taquarituba – SP, ambiente subtropical. A semeadura da soja foi realizada no dia 29/10/13 em Primavera do Leste e 20/10/13 em Taquarituba com as cultivares Nidera 7901 RR, Nidera 5909RR e stand de 310.000 e 317.000 plantas ha-1, respectivamente.

O delineamento experimental foi em blocos casualizados com quatro repetições, em esquema fatorial 5×2, em que foram comparadas 5 doses de N em 2 épocas de aplicação. As 5 doses de N utilizadas foram 0, 20, 40, 80 e 120 kg ha-1 aplicadas quando a soja encontrava-se em VE (emergência de plantas) ou quando em R3 (vagens com até 0,5 cm em um dos quatro nós superiores da haste). Cada parcela era constituída de 5 linhas de soja de 10 metros de comprimento cada espaçadas a 0,45 m. O método de aplicação do N foi pela abertura de sulcos na entrelinha de semeadura e a aplicação de ureia sólida.

O fertilizante marcado foi aplicado com ureia enriquecida à abundância isotópica de 2,08% de átomos 15N em cada tratamento. A aplicação da ureia-15N foi realizada em microparcelas localizadas no centro de cada parcela e constituída de 1 linha de 1 metro de comprimento dentro do tratamento correspondente. As datas e o modo de aplicação foram rigorosamente os mesmos realizados com o N não marcado.

A colheita da soja marcada isotopicamente foi realizada em R7 (maturação fisiológica) 28/01/2014 (95 DAE) e 06/02/2014 (102 DAE) em Primavera do Leste e Taquarituba, respectivamente, para evitar a perda de folhas devido à senescência, o que prejudicaria a recuperação do 15N nas plantas de soja. No centro da microparcela coletaram-se duas plantas de cada uma das duas linhas centrais para avaliação da concentração de 15N. Também foram coletadas raízes até a profundidade de 20 cm.

Determinou-se o teor de N-total e a abundância de 15N (% em átomos) em espectrômetro de massa automatizado. Foi determinada a extração de N total da planta (kg ha-1) e o N proveniente do fertilizante (Ndff) na planta (kg ha-1).

A FBN da soja foi mensurada a partir de amostras de hastes e pecíolos de duas plantas. As coletas para a determinação dos ureídeos (Nur), nitrato (Nnit) e aminoácidos (Naa), a fim de estimar abundância relativa de ureídeos (Rur) e o N derivado da atmosfera (Ndfa) na soja, foram realizadas em R5.3-R5.4 em 10/01/14 (67 DAE) em Primavera do Leste, e em 14/01/2014 (79 DAE) em Taquarituba. Posteriormente, foi determinada a porcentagem de N na planta proveniente da fixação de N atmosférico (Ndfa), pelo método dos ureídeos pela equação calibrada por Herridge e Peoples (1990). A partir dos resultados de N total da planta, Ndff e Ndfa calculou-se o N na planta proveniente do solo (Ndfs) em kg ha-1.

Os resultados foram submetidos ao teste de normalidade e homogeneidade de variância, e posteriormente à análise de variância pelo teste F a 5%. Se rejeitada a hipótese de nulidade, foram realizados testes de comparação de médias Fisher (LSD) a p ≤ 0,05 para as épocas e locais, e análise de regressão para doses.

Não houve interação entre locais e a variável dose no N absorvido pela soja (Tabela 1). Independente da dose aplicada, a quantidade de N absorvido pela soja não aumentou. Entre os locais, Taquarituba apresentou maior absorção de N do que em Primavera do Leste (Tabela 1). A absorção de N também variou conforme a épocas de aplicação. Na aplicação em R3, a absorção de N foi maior em ambos os locais (Tabela 1).

Tabela 1. Análise conjunta do nitrogênio da atmosfera (Ndfa), do solo (Ndfs) e do fertilizante (Ndff) em kg ha-1 em plantas de soja submetidas a doses e épocas de aplicação de fertilizante nitrogenado em dois ambientes distintos.

A utilização de ureia ocasionou mudanças na Ndfa, variável que apresentou interação entre local e dose de N (Tabela 1). A interação ocorreu pois em Taquarituba houve redução do Ndfa com o aumento da dose de N, enquanto em Primavera do Leste a Ndfa manteve-se constante (Figura 1 a). Isso mostra que, em Taquarituba, o N derivado da FBN da soja foi substituído por outra fonte de N, visto que a acúmulo total da cultura não foi afetado.

Figura 1. N absorvido pela soja em kg ha-1: a) Ndfa, b) Ndfs e c) Ndff. ns não significativo, * significativo a 5% e *** significativo a menos de 0,1% de probabilidade de erro pelo teste F.

O Ndfs apresentou interação entre local e data da aplicação do fertilizante. Em Primavera do Leste, na aplicação de N em R3, o solo forneceu 32% a mais de N para a planta, quando comparado com aplicação em VE. Em Taquarituba, o comportamento foi o inverso, de modo que, na aplicação em VE, o solo forneceu 24% a mais de N para a planta (Tabela 1). Também houve diferença no Ndfs conforme a dose de N aplicada, com redução de 35% entre a dose 0 e 120 kg ha-1 de N, de modo semelhante entre os dois locais (Figura 1 b).


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O Ndff apresentou diferença apenas entre as doses de N, a qual foi semelhante entre os locais, pois não houve interação entre essas duas variáveis (Tabela 1). Houve aumento significativo linear no Ndff com o aumento da dose de N, com aumento de 11 para 57 kg ha-1 de N entre a menor e a maior dose de N (Figura 1 c).

Em Taquarituba, apesar da maior absorção de N com a aplicação em R3, não houve aumento de produtividade da cultura (dados não apresentados), o que demonstra um consumo de luxo. Em Primavera do Leste, houve maior absorção de N pela soja e aumento da produtividade (dados não apresentados) com a aplicação de N em R3. Entretanto, o aumento do N da planta em Primavera do Leste em R3 não foi proveniente do fertilizante, e sim do solo. Provavelmente nessa localidade houve maior mineralização do N da M.O., com a aplicação de N tanto em VE quanto em R3, mas apenas o N mineralizado em R3 foi aproveitado pela planta, funcionando para aumentar a produtividade (dados não apresentados).

Com base no exposto, a hipótese desse trabalho foi aceita. Conforme o aumento de dose de N, houve maior Ndff na planta, menos Ndfs, e o Ndfa reduziu no ambiente subtropical e se manteve constante no ambiente tropical. A adubação com N em VE ou R3 causou diferenças no Ndfs de modo distinto entre os dois locais de estudo.

Referências

HERRIDGE, D.F.; PEOPLES, M.B. Ureide assay for measuring nitrogen fixation by nodulated soybean calibrated by 15N methods. Plant Physiology, v. 93, n. 2, p. 495503, 1990.

SALVAGIOTTI, F.; CASSMAN, K. G.; SPECHT, J. E.; WALTERS, D. T.; WEISS, A.; DOBERMANN, A. R. Nitrogen uptake, fixation and response to fertilizer N in soybeans: a review. Field Crops Research, v. 108, n. 1, p. 1-3, 2008.

STREETER, J. Inhibition of legume nodule formation and N2 fixation by nitrate. Critical Reviews in Plant Sciences, v. 7, n. 1, p. 1-23, 1988.

Informações dos autores:  

1Instituto Federal do Paraná – IFPR, Campus Palmas, Palmas, PR;

2Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ/USP;

3Embrapa Pesca e Aquicultura;

4UNESP – Botucatu;

5UFV.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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