Controle biológico

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A agricultura brasileira apresenta algumas características particulares, que a diferencia dos demais países: as áreas de cultivo são muito extensas e estão localizadas em regiões quentes onde se cultiva durante todo o ano, propiciando o aparecimento e o ataque de pragas e doenças. Em alguns locais, as perdas podem chegar a 40%. Essa situação é uma grande ameaça à liderança brasileira no setor do agronegócio, pois o Brasil se tornou extremamente dependente de insumos, na maioria importados. Atualmente, o país é líder mundial no consumo de agrotóxicos e, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é responsável por 1/5 do consumo mundial, usando 19% dos agrotóxicos produzidos no mundo. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o consumo de agroquímicos aumentou de 214,7 para 352,31 toneladas, entre 2004/2005 e 2014/2015, ou seja, 64%. A área plantada, nesse intervalo, passou de 49 milhões de hectares para 57,3, portanto, 16,9%, e a produção de grãos de 114,7 milhões de toneladas para 200,7, representando um aumento de 74,9%.

As cifras sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil impressionam e, reconhecidamente, o uso intensivo desses produtos na agricultura causa diversos problemas, como a contaminação dos alimentos, do solo, da água e dos animais; a intoxicação de agricultores; a resistência de pragas a princípios ativos; a intensificação do surgimento de doenças iatrogênicas; o desequilíbrio biológico, alterando a ciclagem de nutrientes e da matéria orgânica; a eliminação de organismos benéficos e a redução da biodiversidade. Esses fatos preocupam os diversos segmentos da sociedade e geraram, pelo menos, duas consequências importantes: (1) mudanças na agenda ambiental de diversos países; e (2) criação de mercados de alimentos certificados quanto à não utilização de agrotóxicos sintéticos ou quanto ao seu uso adequado à exemplo dos produtos orgânicos. Portanto, é crescente a demanda de alternativas para atender às restrições ambientais e às exigências dos consumidores. Dentre tais alternativas, tem-se o controle biológico inserido no manejo integrado de pragas.

O controle biológico de pragas e doenças é definido como o uso de organismos vivos para suprimir a população de uma praga ou doença específica, tornando-a menos abundante ou menos danosa. Trata-se de um fenômeno natural, pois quase todas as espécies têm inimigos naturais que regulam suas populações. Tem sido utilizado desde o século III, quando os chineses observaram que formigas podiam controlar pragas dos citros. Muitos anos mais tarde, em 1888, os Estados Unidos iniciaram o uso de Rodolia cardinalis, um besouro originário da Austrália para controlar o pulgão-branco-dos-citros, Icerya purchasi. O trabalho foi pioneiro e tão bem sucedido que a Califórnia é considerada berço do controle biológico no mundo. No Brasil, a primeira introdução de um agente de controle biológico aconteceu em 1921, quando um parasitoide, a Encarsia berlesei, foi utilizado para controlar a cochonilha-branca-do-pessegueiro, Pseudaulacaspis pentagona. A partir de 1970, o tema controle biológico começou a fazer parte dos estudos de entomologia, e o conceito de manejo integrado de pragas começou a ser implementado. Nessa mesma época, a criação da Embrapa teve um papel marcante no controle biológico. Diversos grupos envolvidos na área estão trabalhando nos diferentes centros de pesquisa, sendo que, na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, se concentra o maior número de pesquisadores. Na Embrapa Meio Ambiente, existe um laboratório de quarentena chamado “Costa Lima” (LQC), que vem desenvolvendo atividades de introduções de agentes exóticos de controle biológico desde seu credenciamento em 1991 pelo Mapa.

Dois acontecimentos foram muito importantes para aumentar a busca e utilização de ferramentas de controle biológico, e são considerados um marco no controle biológico, a introdução de Helicoverpa armigera a partir da safra 2012/2013 e a detecção de populações de Spodoptera frugiperda resistentes a toxinas de Bacillus thuringiensis em cultivos transgênicos em 2014. A partir daí, surgiram muitas iniciativas para melhorar as tecnologias disponíveis e desenvolver e implementar novas tecnologias, citando-se, como exemplo, a melhoria das formulações dos biopesticidas bacterianos, virais e fúngicos e o aperfeiçoamento do sistema de dispersão de parasitoides por utilização de equipamentos sofisticados como o drone. Além disso, o elevado custo de algumas tecnologias resultou na produção on farm de diversos insumos, que estão sendo utilizados para consumo próprio. Estima-se que a área tratada com produtos a base de agentes de controle biológico tenha quadriplicado nos últimos 3 anos, em razão da produção on farm.

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), instituição criada em 2007 para congregar as empresas produtoras e comerciantes de produtos biológicos para controle de pragas, o mercado de biodefensivos no Brasil está estimado em US$ 95,6 milhões (1% do mercado de defensivos agrícolas) e a taxa de crescimento anual prevista é de 20%. Em 2021, o mercado deverá ser de US$ 237,8 milhões. Comparada à indústria de defensivos químicos, a indústria de biocontrole está crescendo 5,3 vezes mais rápido. O Brasil está acompanhando a tendência de mercado mundial, inclusive com o apoio governamental, a exemplo de outros países. Na Comunidade Europeia, em 2009, houve a aprovação de um pacote legislativo para efetiva adoção de programas de manejo integrado de pragas, que gerou uma busca pelo uso sustentável de agrotóxicos e ofereceu oportunidades para maior inserção de agentes de controle biológico. Ações dessa natureza estão ocorrendo no legislativo brasileiro como, por exemplo, o Projeto de Lei do Senado nº 679 de 2011(Art. 21A que criou a Política Nacional de Apoio ao Agrotóxico Natural), e o Decreto nº 7794, de 20/08/2012, que instituiu a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

O perfil atual da indústria de agentes de controle biológico inclui, em sua maioria, pequenas e médias empresas especializadas, poucas estabelecidas há mais de 10 anos. Apesar do predomínio das pequenas e médias empresas, grandes empresas, tradicionalmente líderes no mercado de agrotóxicos sintéticos, estão adquirindo ou reativando divisões relacionadas ao desenvolvimento de biopesticidas, em função da perspectiva de negócios no mercado brasileiro. Frente ao cenário positivo, as pesquisas em controle biológico representam uma oportunidade para a inovação e competitividade na agricultura brasileira, e atendem as perspectivas ambientais e o uso sustentável dos serviços ambientais. Com esse mercado crescente, que se estima irá duplicar ou triplicar mundialmente nos próximos 10 anos, a demanda para aperfeiçoar os processos inerentes ao controle biológico irão aumentar, gerando oportunidades para a pesquisa e parcerias para a inovação neste campo.

Atualmente 132 plantas de produção de agentes de controle biológico estão instaladas no Brasil, sendo que 95 (72%) estão localizadas na região Sudeste. Os produtos podem ser registrados de duas formas, pela via convencional, ou pela via orgânica. Em ambas as situações, o requerimento de registro deve ser entregue, simultaneamente, no Mapa, no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e na Anvisa. Até o ano de 2010, haviam 19 produtos registrados. A partir de 2011, quando o registro via orgânico foi estabelecido, 81 novos produtos foram registrados, enquanto, no mesmo período, 28 foram registrados pela via convencional. Atualmente, portanto, no total, existem 128 produtos registrados. Esses produtos têm como princípio ativo os feromônios, os agentes macrobiológicos (parasitas, parasitoides e predadores) e os agentes microbiológicos (bactérias, fungos e vírus).

Dentre os fatores que podem explicar o rápido crescimento do mercado, deve-se mencionar (1) o custo de desenvolvimento de um produto biológico, estimado em 2 a 10 mil dólares comparado ao químico com custo estimado em 250 mil dólares (Parra, 2016), (2) a especificidade dos agentes de controle biológico que atuam apenas no alvo, (3) a sustentabilidade do método que apresenta menor impacto ambiental e aos seres vivos, além de não ser poluente, (4) a seleção de pragas resistentes aos produtos químicos e aos cultivos transgênicos, (5) a baixa probabilidade de seleção de insetos resistentes aos agentes de controle biológico e (6) a exigência do mercado consumidor, preocupado com os efeitos adversos dos produtos químicos e seus resíduos.

Por outro lado, o controle biológico enfrenta vários desafios: (1) existem poucas empresas especializadas em controle biológico, (2) carência de cursos para formação de profissionais tanto para operar nas empresas quanto para difundir a técnica, (3) baixa disponibilidade de produtos, tanto em qualidade quanto em quantidade, sendo insuficientes para atender a demanda, (4) dificuldade no processo de registro, que está baseado na mesma legislação dos agrotóxicos, que peca por lentidão e ocasiona o uso de produtos clandestinos, (5) poucos programas específicos para o financiamento em incentivos tributários de pesquisa e produção em larga escala de produtos biológicos, (6) excesso de burocracia para viabilizar a transferência de tecnologias do setor público ao privado e (7) estabelecimento de um modelo próprio de utilização de agentes de controle biológico para a região tropical, em grandes extensões.

Ao longo das últimas décadas, a Embrapa gerou expressivo conhecimento básico e aplicado voltado para o controle biológico de pragas. Em função da grande importância do tema, em 2015 foi criado o Portfólio de Controle Biológico da Embrapa, que tem como objetivo principal desenvolver e transferir conhecimentos e tecnologias, em redes sinérgicas internas ou externas, com instituições de ciência e tecnologia nacionais e/ou internacionais, em parcerias público-privadas, que efetivamente contribuam para o uso de agentes de controle biológico e redução do uso de agrotóxicos sintéticos. Suas ações principais são: (1) estimular, no âmbito da Embrapa, a criação de empresas incubadas para o desenvolvimento de agentes de controle biológico, (2) desenvolver, em conjunto com a iniciativa privada, produtos à base de agentes de controle biológico, disponíveis na Embrapa, (3) estimular a implementação do controle biológico no âmbito do manejo integrado de pragas, (4) estimular a utilização de técnicas de manejo cultural e do solo que favoreçam a ação dos agentes de controle biológico introduzidos ou de ocorrência natural, (5) colaborar na formação de profissionais para o desenvolvimento e uso do controle biológico e para a implantação da cultura de utilização dessa tecnologia e (6) colaborar no estabelecimento de políticas públicas para incentivar a utilização de agentes de controle biológico, regulamentação de pesquisa, desenvolvimento e registro de produtos à base desses agentes.

Dessa forma, o tema está bastante alinhado com os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU, colaborando com o futuro da agricultura mundial.

Fonte: Embrapa, olhares para 2030.

Autora: Rose Monnerat

Sobre a autora: É graduada Ciencias Biologicas pela Universidade de Brasília (1984), realizou o doutorado em Agronomia na Ecole Nacionale Agronomique de Montpellier (1995) e pos-doutorado na Universidade de Cardiff (2011). É pesquisadora A da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia uma das unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, onde coordena o Grupo de pesquisas em controle biológico e a Plataforma de Criação de insetos. É presidente do Portfólio de Controle Biológico da Embrapa, professora associada da pós-graduação da Agronomia na Universidade de Brasília e Membro Suplente do Conselho Superior da Fundação de Apoio a Pesquisa do Distrito Federal. Tem experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Bacterologia, atuando principalmente nos seguintes temas: controle biológico, produtos biológicos a base de Bacillus thuringiensis e de Bacillus sphaericus. É responsável pelos projetos de desenvolvimento de bioinseticidas à base de Bacillus thuringiensis e Bacillus sphaericus na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia que originaram produtos para controle de Culex spp., Anopheles spp., Aedes spp., Simulium spp, Anticarsia gemmatalis, Plutella xylostella, Spodoptera spp.

Bibliografia

ABCBio – Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico

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Texto originalmente publicado em:
Embrapa
Autor: Rose Monnerat

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