Autor: Bianchi, M.A. – Engenheiro Agrônomo, Doutor. Pesquisador da CCGL Tecnologia / Professor da Universidade de Cruz Alta. Rodovia RS 342 km 149, Cx. Postal 10. CEP 98005-970. Cruz Alta (RS). E-mail: mario.bianchi@ccgl.com.br

RESUMO

Falhas no controle de azevém (Lolium multiflorium) são frequentes na lavoura de trigo (Triticum aestivum) e tem diferentes origens. Podem se originar de escapes da dessecação devido a estratégia inadequada e/ou a ocorrência de biótipos resistentes. Podem ainda ser originadas de aplicações de herbicidas em condições meteorológicas inadequadas ou de aplicações em estádio muito avançado de desenvolvimento do azevém.

É importante identificar corretamente as causas dessas falhas para tomar as medidas apropriadas, antecipando-se ao problema.

ABSTRACT

Failures in ryegrass (Lolium multiflorium) are frequent in wheat (Triticum aestivum) farming and have different origins. They may originate from desiccation leaks due to inadequate strategy and /or the occurrence of resistant biotypes.

They may also originate from herbicide applications under inadequate weather or from applications at a very advanced stage of ryegrass development. It is important to correctly identify the causes of these failures to take appropriate action in anticipation of the problem.

INTRODUÇÃO

Competição com plantas daninhas reduz a produtividade de grãos de trigo. Essa perda progride com o aumento da densidade de espécies daninhas e com o crescimento das mesmas. Assim, lavouras com alta densidade de plantas daninhas combinadas com plantas que sobraram da dessecação ou que emergiram antes da emergência da cultura, produzirão menos grãos que lavouras com baixa densidade, sem sobras de dessecação e com plantas daninhas que emergiram após o estabelecimento da cultura.

A eficiência do controle de azevém após o estabelecimento da cultura do trigo está estreitamente relacionada com o resultado da dessecação em pré- semeadura. Sobras de plantas da dessecação comprometem a eficiência dos herbicidas seletivos aplicados em pós-emergência da cultura e do azevém.

Além disso, as condições ambientais e o estádio de desenvolvimento das plantas de azevém emergidas após a semeadura do trigo contribuem de forma decisiva para o sucesso do controle pelos herbicidas seletivos (clodinafope, iodosulfurom ou piroxsulam).

A resistência do azevém aos herbicidas pode ser apontada como outra causa importante para as falhas de controle, tanto antes da semeadura (dessecação) como após a emergência do trigo (pós-emergência). Desde 2003 convive-se com biótipos de azevém resistentes a herbicidas inibidores da EPSPS (glifosato) e, mais recentemente, com biótipos resistentes a herbicidas inibidores da ALS, inibidores da ACCase+EPSPS, ACCase+ALS e AACase+EPSPS.

CONTROLE DE BIÓTIPOS DE AZEVÉM RESISTENTES A HERBICIDAS

Existem sete mecanismos de ação que contém herbicidas para controle de azevém na cultura do trigo, dos quais três já possuem biótipos resistentes (Tabela 1). Para a dessecação que antecede a semeadura do trigo existem quatro mecanismos de ação e sete herbicidas, sendo que para dois mecanismos de ação (inibidores de ACCase e inibidores de EPSPS) existem biótipos resistentes (Tabela 2).

Quanto aos sete herbicidas seletivos à cultura, não há caso de resistência para aqueles cujo alvo é o solo (inibidores da síntese detubulina e inibidores da síntese de ácidos graxos de cadeia muito longa), contudo existem biótipos resistentes àqueles aplicados na folhagem (inibidores da ACCase e inibidores da ALS) (Tabela 2).

Os casos de resistência múltipla biótipos BR3, BR4 e BR5 (Tabela 1), restringem as opções de controle (Tabela 1 e Tabela 2). No caso do BR3 (resistente a inibidores da ACCase+EPSPS), restariam somente herbicidas imóveis para uso na dessecação que antecede a semeadura do trigo, limitando a obtenção de controle eficaz a aplicação nos estádios iniciais de desenvolvimento do azevém (antes do afilhamento).

No caso do BR4 (resistente a inibidores da ACCase+ALS), perde-se os herbicidas seletivos aplicados na folhagem (clodinafope, pinoxadem, iodosulfurom e piroxsulam), restando como alternativa apenas os herbicidas pendimetalina e piroxsasulfone.

A resistência tem como consequências o aumento do custo do controle, a redução das opções de controle com herbicidas, torna o controle químico mais complexo e aumenta a probabilidade de perdas de produção decorrentes dos escapes de controle. A identificação precoce dos biótipos resistentes permite intervir pontualmente com herbicidas alternativos, reduzindo o impacto sobre o custo final da lavoura e as perdas de produção.

É muito difícil estimar a proporção entre o biótipo suscetível e os biótipos resistentes e, mais difícil ainda, informar qual é ou quais são os biótipos resistentes e sua proporção numa lavoura. O histórico de uso e da eficiência de controle dos herbicidas nos últimos anos auxilia na estimativa desta proporção.

Contudo, é prudente, utilizar estratégias de controle mais robustas, as quais utilizam vários mecanismos de ação e momentos diferentes de aplicação.



CONDIÇÕES AMBIENTAIS E O CONTROLE DE AZEVEM

As condições ambientais são determinantes para o controle eficiente de plantas daninhas. Nas aplicações devem ser consideradas a temperatura do ar, umidade relativa do ar, orvalho, radiação solar e ocorrência de chuvas. Durante a estação fria, indica-se temperatura do ar superior a 10oC, umidade relativa do ar superior a 60%, ausência de orvalho e presença de sol (céu limpo), para o funcionamento adequado dos herbicidas.

Destaca-se que ao terminar a aplicação dos herbicidas inicia o trabalho da planta, ou seja, ela deverá absorver e movimentar o produto até o local de ação. Para que isso ocorra é necessário que as condições ambientais após o término da aplicação continuem dentro dos limites adequados, em geral, por pelo menos duas horas para que se obtenha a eficiência de controle desejada.

Para exemplificar a importância das condições do ambiente serão utilizados os dados meteorológicos dos meses de junho e julho de 2016. Considerou-se adequado para a aplicação de herbicidas quando ocorreram concomitantemente as seguintes condições: temperatura do ar > 10oC, umidade relativa do ar > 50%, radiação solar > 0 kJ/m2 e chuva = 0 mm (Figura 1). Nota-se que ocorrem poucos dias e poucas horas no dia com as condições adequadas ao controle eficiente de plantas daninhas.

Inserindo-se mais duas condições limitantes: presença de orvalho (normalmente presente até as 9hs da manhã) e necessidade média de duas horas de luz após o termino da aplicação do herbicida para que ocorra a absorção do mesmo, o período útil para aplicação fica ainda mais reduzido. Além disso, é necessário considerar que para o melhor desempenho dos herbicidas pós-emergentes seletivos, o azevém deve ter entre duas e quatro folhas expandidas.

O conjunto destes fatores condicionantes restringe muito o período de aplicação. No mês de junho/16 ocorreram seis dias consecutivos com 5hs para aplicação/dia no início do mês e dois dias consecutivos com 6hs para aplicação/dia na metade do mês (Figura 1). Em julho/16, ocorreram quatro dias consecutivos com 7hs para aplicação/dia na primeira quinzena e três dias consecutivos com 6hs para aplicação /dia no final do mês.

Considerando que o estádio ideal do azevém tenha ocorrido na sequência de quatro dias de julho/16 (10, 11 12 e 13/jul), um pulverizador de 800L (velocidade de 5km/h, barra com 12m, tempo de abastecimento de 30min, volume de calda de 75L/ha e 6hs uteis/dia) aplicaria aproximadamente 120 ha nesse período, e um pulverizador auto propelido de 3000L (velocidade de 10km/h, barra com 30m, tempo de abastecimento de 30min, volume de calda de 100L/ha e 6hs uteis/dia) aplicaria em torno de 400 ha nesse período.

Portanto, a questão operacional pode se constituir num fator limitante para o controle eficaz da planta daninha em função do equipamento disponível e do tamanho da área que necessita a aplicação do herbicida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Falhas no controle de azevém são frequentes na lavoura de trigo e tem diferentes origens. Podem se originar de escapes da dessecação devido a estratégia inadequada e/ou a ocorrência de biótipos resistentes, podem ainda ser originadas de aplicações com condições meteorológicas inadequadas ou ao estádio muito avançado de desenvolvimento do azevém.

É importante identificar corretamente as causas dessas falhas para tomar as medidas apropriadas e, se possível, solucionar ainda na safra corrente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGROFIT – Sistemas de agrotóxicos fitossanitários. http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons Acesso em 09 de junho de 2017.

HEAP, I. International survey of herbicide resistant weeds. www.weedsience.org Acesso em 10 de abril de 2017.

LORENZI, H. et al. Manual de identificação e controle de plantas daninhas. 7.ed. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2014. 383p.

Fonte: CCGL, BOLETIM TÉCNICO CCGL TEC, Ano VII – Nº 46 – 2017, ISSN 2317-7934

Texto originalmente publicado em:
Boletim Técnico CCGL TEC
Autor: Mario Antonio Bianchi

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