Danos ocasionados por Spodoptera frugiperda e Dichelops melacanthus em híbridos de milho safrinha no Estado de São Paulo

1854

Objetivou-se neste trabalho avaliar os danos ocasionados pela lagarta do-cartucho e do percevejo barriga-verde em diferentes híbridos convencionais e transgênicos de milho na safrinha na região norte do estado de São Paulo

Autores: Marcos Doniseti Michelotto(1), Maycon Ferraz(2), Cíntia Michele Ferreira Mendes(2), Antonio Lucio Mello Martins(1), Rodolfo da Silveira Pivaro(2) e Aildson Pereira Duarte(3)

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Introdução

Apesar dos avanços com a liberação de híbridos de milho geneticamente modificados contendo proteínas inseticidas, as pragas ainda estão entre os principais fatores que podem afetar negativamente a produtividade na cultura do milho.

A lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda (Smith), considerada a principal praga da cultura do milho no Brasil, quando em condições favoráveis, aumenta sua população, destruindo folhas e cartucho e comprometendo a produção de grãos (Mendes et al., 2011).

Devido a uma série de modificações no sistema de produção como adoção do sistema de plantio direto e a sucessão de culturas, o percevejo barriga-verde, Dichelops melacanthus (Dallas) (Hemiptera: Pentatomidae) vem causando sérios prejuízos nesse sistema de produção, atuando como praga inicial nos cultivos de milho (Chocorosqui, 2001).

Dessa forma, objetivou-se neste trabalho avaliar os danos ocasionados pela lagarta do-cartucho e do percevejo barriga-verde em diferentes híbridos convencionais e transgênicos de milho na safrinha na região norte do estado de São Paulo.

Material e Métodos

Os experimentos foram realizados nas safrinhas de 2016 e de 2017, na APTA Regional, Polo Centro Norte vinculado a Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócio, localizada no município de Pindorama – SP. A área experimental tem solo caracterizado como Argissolo Eutrófico. Os experimentos foram instalados nos dias 16 de março de 2016 e 09 de março de 2017, empregando 250 kg ha-1 da formulação NPK 08-28-16 em ambos os experimentos.

Aos 10 dias após a emergência, procedeu-se o desbaste, a fim de ajustar a população inicial para 52.500 plantas ha-1, e adubou-se em cobertura na dose de 300 kg ha-1 do formulado 20-05-20 em 2016 e 60 kg ha-1 de N na forma de sulfato de amônio em 2017.

Estes experimentos fazem parte da rede de competição de cultivares de milho IAC/APTA/CATI/Empresas do estado de São Paulo. Foi utilizado o delineamento experimental de blocos casualizados, com os 30 tratamentos em 2016 e 40 tratamentos correspondendo às cultivares e híbridos. As parcelas foram constituídas de quatro linhas de 5,0 m de comprimento, sendo as avaliações realizadas nas duas linhas centrais, descartando-se 0,5 m iniciais e finais de cada linha. Em 2017, para tentar evitar o aparecimento de enfezamento e molicutes foramrealizadas três aplicações do inseticida EngeoTM Pleno (tiametoxam + lambda-cialotrina) na dosagem 250 mL ha-1, utilizando pulverizador tratorizado de barras devidamente calibrado para a vazão de 300 L ha-1. Além disso, todas as sementes foram tratadas com inseticida do grupo dos neonicotinoides.

Para a avaliação dos danos ocasionados pela lagarta-do-cartucho, aos 40 dias após a semeadura foi realizada a amostragem ao acaso de 20 plantas por parcela e através de uma escala de notas visuais, atribuiu-se notas de sintomas visuais de ataque da lagarta que variaram de 0 (sem dano) a 9 (cartucho totalmente destruído) de acordo com Davis et al. (1992) para verificar a intensidade dos danos foliares.

Na mesma data, em 2017 foi avaliado também o número de plantas com algum sintoma de ataque do percevejo barriga-verde: pontuações presentes nas folhas fora do cartucho; ou orifícios nas folhas e redução no crescimento; ou plantas com orifícios de ataque nas folhas e perfilhamento lateral; ou plantas com sintomas descritos anteriormente, “encharutamento” e morte da haste principal. Para a determinação da produtividade foram colhidas as duas linhas centrais, obtido o peso em kg ha-1 e corrigido para 13% de umidade dos grãos.

Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância pelo teste F e as médias agrupadas pelo teste de Kruskal-Wallis a 5% de probabilidade em cada ano. Por fim, procedeu-se uma análise de correlação (Pearson) entre a produtividade e os danos ocasionados pela lagarta-do-cartucho e o percentual de plantas com sintomas de ataque do percevejo barriga-verde.

Resultados e Discussão

Em 2016 não se observou sintomas de enfezamentos nas plantas de milho. Já em  2017, apesar de três aplicações de inseticida para o controle da cigarrinha-do-milho Dalbulus maidis (DeLong & Wolcott), os mesmos não foram eficientes e sintomas severos foram observados após o florescimento das plantas. Com relação ao ataque da lagarta-de-cartucho, houve diferença significativa entre os cultivares avaliados tanto em 2016 quanto em 2017 (Tabela 1). Em 2016 foi observada uma alta infestação da lagarta-do-cartucho no experimento, sendo necessária a aplicação de inseticida na tentativa de reduzir os danos ocasionados pela mesma antes e após a avaliação dos danos. Das cultivares avaliadas, observou-se que os dez convencionais apresentam as maiores notas de sintomas visuais da lagarta, juntamente com o híbrido transgênico, XB 8018 Bt. Entre os menos atacados, foram agrupados nove híbridos sendo um contendo a tecnologia Viptera (Supremo VIP), cinco contendo a tecnologia Powercore (2B610 PW, MG744 PW, 2B633 PW, 2B587 PW e MG652 PW) e três com a tecnologia PRO (AG 7098 PRO2, LG3055 PRO e LG 6033 PRO2), conforme pode ser observado na Tabela 1.

Em 2017 observaram-se quatro grupos, sendo o grupo mais atacado abrangendo todos os cultivares convencionais com notas variando de 6,5 a 7,4. Já entre os menos atacados observou-se dois híbridos que contém a tecnologia Viptera (30S31 VHY e Impacto VIP3) e um contendo a tecnologia Powercore (MG652 PW). Interessante ressaltar que os híbridos das tecnologias Powercore e VTPRO apresentaram alta variação em relação aos danos da lagarta-do-cartucho variando de 2,4 (MG652 PW) a 4,6 (2B810 PW) e de 2,8 (RB 9080 PRO2) a 4,9 (LG 3055 PRO), respectivamente, indicando que os híbridos apresentam diferença em relação ao ataque da lagarta-do-cartucho mesmo apresentando a mesmas proteínas inseticidas (Tabela 1).

Para a percentagem de plantas atacadas pelo percevejo barriga-verde, o teste de agrupamento separou os cultivares em dois grupos (Tabela 1). O grupo que apresentou maior número de plantas com sintomas de ataque do percevejo abrangeu todas os cultivares convencionais variando de 16,3% (IAC 8098 e JM3M51) a 37,5% (AL Bandeirante) com exceção do híbrido JM2M77 que ficou entre os menos atacados sendo agrupados aos híbridos transgênicos.

Em 2016 observou-se uma correlação negativa significativa entre o ataque da lagartado- cartucho e a produtividade (-0,7003**; p<0,001), indicando que as maiores notas de sintomas de ataque da lagarta-do-cartucho proporcionaram as maiores reduções nas produtividades.

Tabela 1. Notas de sintomas de ataque da lagarta-do-cartucho nas safrinhas de 2016 e 2017, e porcentagem de plantas com sintomas de ataque do percevejo barriga-verde na safrinha de 2017.

Em 2017, apesar de altas notas de sintomas de ataque da lagarta-do-cartucho não se observou correlação significativa com a produtividade (-0,0837ns; p=0,2924). O que pode ter contribuído para a baixa produtividade de muitos híbridos aqui avaliados e a não correlação entre a lagarta e a produtividade foi a incidência do enfezamento, com sintomas muito intensos a partir do florescimento das plantas, apesar das aplicações de inseticidas para controle da cigarrinha mencionadas anteriormente. No entanto estes dados não são aqui apresentados.

Com relação ao percevejo barriga-verde observou-se correlação negativa significativa com a produtividade (-0,17413*; p= 0,0276), ou seja, o aumento do ataque do percevejo proporcionou redução na produtividade.

Conclusões

Os cultivares convencionais apresentaram os sintomas mais intensos de ataque da lagarta-do-cartucho. Os híbridos contendo a tecnologia Viptera apresentaram os melhores resultados na diminuição dos sintomas da lagarta-do-cartucho.

A porcentagem de plantas com sintomas de ataque do percevejo Dichelops sp. foi maior nos híbridos convencionais.

Referências

CHOCOROSQUI, V.R. Bioecologia de Dichelops (Diceraeus) melacanthus (Dallas, 1851) (Homoptera: Pentatomidae), danos e controle em soja, milho e trigo no norte do Paraná. 2001. 160f. Tese (Doutorado em Ciências) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2001.

DAVIS, F.M.; WILLIAMS, W.P. Methods used to screen maize for and to determine mechanisms of resistance to the Southwestern corn borer and Fall armyworm. In: INTERNATIONAL SYMPOSIUM ON METHODOLOGIES FOR DEVELOPMENT HOST PLANT RESISTANCE TO MAIZE INSECTS, 1989, México. Proceedings… México: CIMMYT, 1989. p.101-104.

MENDES, S.M.; BOREGAS, K.G.B.; LOPES, M.E.; WAQUIL, M.S.; WAQUIL, J.M. Respostas da lagarta‑do‑cartucho a milho geneticamente modificado expressando a toxina Cry 1A(b). Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v.46, n.3, p.239-244, 2011.

Informações dos autores:  

(1)Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador do Programa Milho e Sorgo, Apta, Polo Centro Norte, Pindorama -SP;

(2)Graduando em Agronomia, Unirp, São José do Rio Preto – SP, Bolsista Fundag;

(3)Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador do Programa Millho e Sorgo, IAC/Apta, Campinas – SP.

Disponível em: Anais do XIV SEMINÁRIO NACIONAL DE MILHO SAFRINHA, Cuiabá – MT, Brasil,2017.

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