Deposição de calda na cultura da soja influenciada pelo sentido de aplicação

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O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito do sentido da aplicação de produtos fitossanitários na deposição de calda, na cultura da soja

Autores: Thales C. ALVES1, João Paulo A. R. da CUNHA2, Sérgio M. SILVA3, Guilherme S. ALVES1, Thiago N. LANDIM4, Matheus G. MARQUES5

RESUMO

A soja, Glycine max (L.) Merrill, apresenta inúmeros desafios para uma produção comqualidade e produtividade, e, dentre estes, está o manejo eficaz, principalmente de doenças foliares fúngicas, na qual demandam duas, ou mais aplicações. Portanto, o presente trabalho teve como objetivo avaliar o efeito do sentido da aplicação de produtos fitossanitários na deposição de calda na cultura da soja. Avaliou-se, após a aplicação de calda com traçador, a deposição nas partes inferior e superior do dossel da cultura, por meio de espectrofotometria. O ensaio foi conduzido em delineamento em blocos ao acaso, com quatro repetições e seis tratamentos. Os tratamentos foram dispostos em esquema fatorial 3 x 2, sendo os fatores os sentidos de aplicação (longitudinalmente, transversalmente e diagonalmente em relação às linhas de cultivo) e as pontas de pulverização jato leque simples (XR110015 e TT110015). Os resultados mostraram que a ponta de jato leque simples XR proporcionou maiores depósitos de calda, tanto em folhas superiores quanto em folhas inferiores na cultura da soja, em comparação com a ponta de jato leque simples TT. No entanto, este maior depósito de calda no dossel das plantas de soja não refletiu em maiores ganhos de massa de grãos. A produtividade não foi afetada pelo uso de diferentes pontas de pulverização. O sentido de aplicação diagonal possibilita maiores ganhos de produtividade.

PALAVRAS–CHAVE: Tecnologia de aplicação, proteção de plantas, Glycine max.

 SPRAY DEPOSITION ON SOYBEAN CROP AS AFFECTED BY SPRAY LINE DIRECTION

ABSTRACT

There were many challenges in soybean [Glycine max (L.) Merrill] production, looking for higher quality and yield and among these the effective management, mainly of fungal foliar diseases, that request two or more applications. Thus, the objective of this work was to evaluate the effect of spray line direction of pesticide application over the spray deposition in soybean. Before the spray application with tracer was evaluated the spray deposition in lower parts and the higher part of the canopy of the crop, by spectrophotometry. The experiment was conducted in a randomized blocks design, with 4 replications and 6 treatments. The treatments were done in factorial design 3×2, being the spray line direction (longitudinal, transverse and diagonal to the cultivation lines) and flat spray nozzles (XR110015 and TT110015). The XR flat fan nozzle provided higher spray deposit, both on higher and lower leaves in comparison with the TT flat fan nozzle. However, this higher deposit over the canopy did not reflected in higher grain mass. The use of different spraying nozzles did not affect the grain yield. The diagonal spray line direction enable higher grain yield.

KEYWORDS: Spraying technology, plant protection, Glycine max.

INTRODUÇÃO

A soja, Glycine max (L.) Merrill, caracteriza-se mundialmente como cultura de grande importância econômica, segundo Sampaio et al. (2012). Trata-se de uma cultura que apresenta 284 inúmeros desafios para uma produção com qualidade e produtividade, e, dentre estes, está o manejo eficaz de pragas e, principalmente, doenças foliares fúngicas, na qual demandam duas, três ou mais aplicações (CUNHA et al., 2011).

A aplicação de produtos fitossanitários na agricultura apresenta como objetivo a proteção de plantas contra agentes entomo-fitopatogênicos e a manutenção do potencial genético da cultura. No entanto, essa ferramenta têm sido alvo crescente de preocupação, em virtude de seu potencial de risco ambiental, caso seja usada inadequadamente (ROMÁN, et al., 2009).

A aplicação correta de produtos fitossanitários só ocorre quando são empregados os princípios da tecnologia de aplicação. Um dos fatores mais importantes para obter uma aplicação eficiente é a escolha correta das pontas de pulverização. Estas são responsáveis pela qualidade da aplicação, visto que interferirá na vazão, cobertura do alvo e uniformidade de distribuição da calda.

De acordo com CUNHA et al. (2008), a cobertura do dossel da soja, proporcionada pela aplicação de fungicida, em geral, é baixa, principalmente na parte inferior, resultando em controle ineficiente, mesmo com produtos sistêmicos. Ainda de acordo com esses autores, é necessário estudar estratégias que incrementem a deposição de gotas da pulverização na parte inferior do dossel.

Desse modo, a tecnologia de aplicação é uma ferramenta que pode ser usada para maximizar a produtividade quando utilizada de maneira correta. Neste contexto, o objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito do sentido da aplicação de produtos fitossanitários na deposição de calda, na cultura da soja.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado na Fazenda Experimental Capim Branco, pertencente à Universidade Federal de Uberlândia, localizada no Município de Uberlândia, MG, durante a primeira safra do ano de 2017. A área possui uma altitude de 842 metros, com coordenadas geográficas 18°53’23,46″S de latitude e 48°20’27,46″O de longitude, topografia plana e clima do tipo Aw (Tropical úmido com inverno seco).

Implantou-se o experimento com a variedade de soja 7667 IPRO (Nideira Sementes), semeada em linhas de cultivo espaçadas por 0,50 m e densidade populacional de 360 mil plantas ha-1. Na semeadura, realizou-se a adubação na linha de cultivo, com formulado NPK 04-14-08, na dose de 200 kg ha-1, conforme exigência da cultura. O ensaio foi conduzido no delineamento em blocos ao acaso, com 6 tratamentos e 4 repetições, totalizando 24 parcelas, sendo que cada parcela foi constituída de 9 m2. Os tratamentos foram dispostos em esquema fatorial 3 x 2, sendo os fatores: os sentidos de aplicação (longitudinalmente, transversalmente e diagonalmente em relação às linhas de cultivo) e as pontas de pulverização jato leque simples (XR110015 e TT110015). A aplicação ocorreu no estádio fenológico reprodutivo, no dia 10/02 em R3.

A calda fungicida foi composta por Elatus® (Syngenta, Azoxistrobina + Benzovindiflupir) na dose de 200 g ha-1. Para a aplicação foi utilizado um pulverizador costal acionado por pressão constante (CO2), com seis pontas espaçadas entre si por 0,5 m. Foi adotada a pressão de trabalho de 2 bar, vazão de 0,48 L min-1 e taxa de aplicação de 150 L ha-1 (3,8 km h-1). As condições ambientais durante as aplicações foram monitoradas por um termo-higro-anemômetro digital (Kestrel® 4000), sendo registrada temperatura de 27°C, umidade relativa de 65% e velocidade do vento de 5 km h-1.

Para avaliar a deposição de calda nas plantas de soja, adicionou-se à calda de pulverização fúngica, o traçador Azul Brilhante (Duas Rodas, Jaraguá do Sul, Brasil), na concentração de 2000 ppm, fixo para todos os tratamentos, o qual foi detectado por absorbância em espectrofotometria. A área das folhas de soja foi medida com um medidor de bancada (LI-COR 3100C Area Meter, Lincoln, Nebraska, USA).

Logo após as aplicações, coletaram-se ao acaso dez folhas de soja em cada parcela, sendo cinco no terço superior e cinco no terço inferior. Após a coleta, as amostras de folhas foram acondicionadas separadamente em sacos plásticos, mantidas em caixa térmica para posterior manipulação em laboratório. As análises de deposição foram feitas no Laboratório de Mecanização Agrícola (LAMEC), pertencente à UFU. Para isso, adicionou-se 50 mL de água destilada aos sacos plásticos contendo folhas superiores e inferiores.

Os sacos foram, então, lavados e agitados por 30 segundos, para máxima extração possível do traçador presente nas amostras. Em seguida, o líquido foi retirado e depositado em copos plásticos, os quais foram acondicionados em local refrigerado provido de isolamento luminoso por 24 horas, para posterior leitura de absorbância no espectrofotômetro. Utilizou-se um espectrofotômetro com lâmpada de tungstênio-halogênio (Biospectro, Espectofotrômetro Digital SP-22, Curitiba, PR, Brasil) para realizar as leituras.

A quantificação da coloração foi feita por absorbância em 630 nm. A utilização de curvas de calibração, obtidas por meio de soluções-padrão do traçador, os dados de absorbância foram transformados em concentração (mg L-1). De posse da concentração inicial da calda e do volume de diluição das amostras, determinou se a massa do traçador retida nas folhas de soja coletadas nas parcelas.

O depósito total foi dividido pela área foliar de cada amostra, obtendo-se assim a quantidade em nanograma (ɳg) do traçador por cm2 de folha. Os dados de deposição e produtividade foram primeiramente submetidos aos testes de normalidade de distribuição dos resíduos de Shapiro Wilk, homogeneidade das variâncias de Levene e aditividade de blocos pelo teste de F de Tukey, a 0,01 de significância, utilizando o programa SPSS 20, versão 2011. Quando pertinente, procedeu-se o teste de F por meio da análise de variância e a comparação das médias pelo teste de Tukey a 0,05 de significância.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Não houve interação entre os fatores (sentido de aplicação x ponta de pulverização), em relação à deposição do traçador Azul Brilhante nas folhas do dossel (superior e inferior) e nem na produtividade, indicando que esses dois fatores apresentam uma relação de não dependência, estão apresentados nas Tabela 1 e 2, respectivamente.

TABELA 1. Deposição do traçador Azul Brilhante no dossel superior e inferior da cultura da soja, em ɳg cm-2, na aplicação de produtos fitossanitários, no manejo da ferrugem asiática da soja.

O uso de fungicidas sistêmicos no manejo de doenças, em geral, é eficaz em condições de menor cobertura em comparação aos de ação de contato. No entanto, deve-se levar em conta que, mesmo denominados sistêmicos, costumam apresentar apenas movimento translaminar em várias culturas, reforçando a importância da tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários (BOLLER et al., 2008).

No dossel superior, não ocorreu interação significativa entre os fatores (sentido de aplicação x ponta de pulverização), em relação a deposição do traçador, na aplicação de calda fúngica. Dessa forma, a ponta XR proporcionou maior depósito em comparação a ponta TT, independentemente do sentido de pulverização da calda. A maior deposição promovida pela ponta XR, possivelmente, está associada à geração de gotas de menor tamanho.

Embora mais sujeitas à deriva, as gotas finas apresentam capacidade de penetração superior no dossel das plantas. Ressalta-se que as folhas foram coletadas no interior no terço superior e não no topo das plantas. Nascimento et al. (2009), estudando o controle de ferrugem asiática da soja, promovido por diferentes pontas de pulverização, apontaram a eficiência de penetração de gotas finas, demonstrada pelo menor número de urédias no terço inferior da cultura, após as aplicações de fungicida. Neste estudo, as condições climáticas não foram favoráveis à deriva,  o que pode ter auxiliado no bom resultado das gotas finas. Por isso, não se deve generalizar a recomendação de gotas finas, visto a problemática da deriva.

CUNHA et al. (2006),avaliando a deposição promovida por diferentes pontas de pulverização em aplicação terrestre, constataram maior cobertura do dossel da cultura da soja quando se empregaram pontas que geram gotas com tamanho menor. Dois itens importantes a serem considerados na recomendação de pontas mais adequadas são o porte e o enfolhamento da cultura.

Ao se analisar a deposição no dossel inferior em plantas muito enfolhadas, percebe-se que a pulverização hidráulica convencional, independentemente da ponta, em geral, não é capaz de promover elevada cobertura. Esse fato é 286 observado ao estudar a deposição no dossel inferior do presente estudo, na qual não ocorreu interação significativa entre os fatores (sentido de aplicação x ponta de pulverização).

TABELA 2. Produtividade (kg ha-1) na cultura da soja, em função da tecnologia de aplicação, no manejo da ferrugem asiática da soja.

Quanto à produtividade, não ocorreu interação significativa entre os fatores (sentido x ponta). Dessa forma, a aplicação no sentido diagonal proporcionou maiores ganhos de massa de grãos em comparação aos sentidos longitudinal e transversal. Segundo Cunha et al. (2006), a eficiência do tratamento depende não somente da qualidade do material depositado sobre a vegetação ou da eficiência do produto utilizado, mas também da uniformidade do alvo.

Geralmente, o depósito de calda ocorre em menor escala nas partes baixas e internas do dossel da cultura. A ponta de jato leque simples XR resultou em maiores depósitos de calda tanto nas folhas superiores quanto nas folhas inferiores, em comparação com a ponta de jato leque simples TT. No então este maior depósito de calda no dossel das plantas de soja, não se refletiu em maiores ganhos de massa de grãos.

CONCLUSÕES

A aplicação via ponta de pulverização jato leque simples (XR110015), proporciona maior deposição de calda, evidenciado pelo maior depósito de traçador no dossel superior e inferior. A produtividade não foi afetada pelo uso de diferentes pontas de pulverização. O sentido de aplicação diagonal possibilita maiores ganhos de massa de grãos.

REFERÊNCIAS

BOLLER, W.; HOFFMANN, L.L.; FORCELINI, C.A.; CASA, R.T. Tecnologia de aplicação de fungicidas – parte II. Revisão Anual de Patologia de Plantas, Passo Fundo, v.16, p.85-132, 2008.

CUNHA, J.P.A.R.; REIS, E.F.; SANTOS, R.O. Controle químico da ferrugem asiática da soja em função de ponta de pulverização e volume de calda. Ciência Rural, Santa Maria, v.36, n.5, p.1.360- 1.366, 2006.

CUNHA, J.P.A.R.; MOURA, E.A.C.; SILVA JÚNIOR, J.L.; ZAGO, F.A.; JULIATTI, F.C. Efeito de pontas de pulverização no controle químico da ferrugem da soja. Engenharia Agrícola, Jaboticabal, v.28, n.2, p.283-291, 2008.

CUNHA, J.P.A.R.; FARNESE, A.C.; MARTINEZ, J.J.O.; FARINHA, J.V. Deposição de calda pulverizada na cultura da soja promovida pela aplicação aérea e terrestre. Engenharia Agrícola, Jaboticabal, v.31, n.2, p.343-351, 2011.

NASCIMENTO, J.M.; SOUZA, C.M.A.; GAVASSONI, W.L.; BACCHI, L.M.; FENGLER, G.W. Controle de ferrugem asiática da soja utilizando-se diferentes pontas de pulverização em Maracaju- MS. Ciencias Técnicas Agropecuarias, Habana, v.18, n.1, p.1-6, 2009.

ROMÁN, R.A.A.; CORTEZ, J.W.; FERREIRA, M.C.; OLIVEIRA, J.R.G. Cobertura da cultura da soja pela calda fungicida em função de pontas de pulverização e volumes de aplicação. Scientia Agraria, Curitiba, v.10, n.3, p. 223-232, 2009.

SAMPAIO, L. M. B.; SAMPAIO, Y.; BERTRAND, J. Fatores determinantes da competitividade dos principais países exportadores do complexo soja no mercado internacional. Organizações Rurais & Agroindustriais, v. 14, n. 2, p. 227-242, 2012.

Informações dos autores:  

1Engenheiro Agrônomo, Doutorando – Programa de Pós-graduação em Agronomia, UFU, Uberlândia/MG – Brasil;

2Engenheiro Agrícola, Professor Doutor – Associado – I, Instituto de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Uberlândia, UFU, Uberlândia/MG;

3Engenheiro Agrônomo, Pós-Doutorando, Instituto de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Uberlândia, UFU, Uberlândia/MG;

4Engenheiro Agrônomo, Mestrando – Programa de Pós-graduação em Agronomia, UFU, Uberlândia/MG;

5Graduando em Agronomia, Instituto de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Uberlândia, UFU, Uberlândia/MG.

Disponível em: Anais do VIII Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação – SINTAG, Campinas – SP, Brasil.

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