Desempenho de cultivares de aveia sobre indicadores da produtividade e área foliar necrosada pela análise conjunta de safras agrícolas em elevado intervalo entre colheita e última aplicação de fungicida

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O objetivo do estudo é a identificação de cultivares de aveia mais responsivas ao uso de duas ou três aplicações de fungicida com elevado intervalo entre colheita e última aplicação

Autores: Ester Mafalda Matter¹, Claudia Vanessa Argenta1, Darlei Michalski Lambrecht1, Rubia Diana Mantai2, Anderson Marolli2, Osmar Bruneslau Scremin2, Ana Paula Brezolin Trautmann2, Angela Terezinha Woschinski de Mamann2, Eldair Fabricio Dornelles3, José Antônio Gonzalez da Silva4

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A aveia branca é uma cultura de múltiplos propósitos, utilizada na alimentação humana e animal, caracteriza-se também como uma excelente alternativa de rotação de culturas (SILVA et al., 2015; MANTAI et al., 2016). Tem assumido grande importância como cultura de estação fria, evidenciando nos últimos anos, um acentuado crescimento na área cultivada (CONAB, 2017).

Com o aumento da área cultivada, surgiram os riscos de epidemias de doenças foliares, devido, principalmente à uniformidade genética das plantas em relação aos patógenos, causadores dessas doenças (SOUZA et al., 2015). Destaca-se que a ferrugem da folha e a mancha amarela são as que mais afetam a cultura da aveia, reduzindo a área fotossintética, afetando no desenvolvimento da planta e o enchimento de grãos (DUART et al. 2013; SILVA et al., 2015).

Uma forma de amenizar os danos causados pelas doenças é o uso de cultivares com maior resistência genética porém, muitas vezes a resistência genética apresentada por essas cultivares não são suficientes para o controle das doenças foliares, necessitando a intervenção com uso de fungicidas para um controle mais efetivo (REIS; CASA, 2007; FOLLMANN et al., 2016).

Por ser um cereal consumido principalmente in natura, a aveia exige grandes cuidados no manejo com o uso de agrotóxicos. Uma forma de reduzir o uso de agrotóxicos é a identificação de cultivares que apresentam maior resistência genética que evidenciem respostas positivas no maior intervalo entre a colheita e última aplicação de fungicida. Neste contexto, a identificação de cultivares mais resistentes as doenças foliares e de capacidade de suportar maior intervalo entre a colheita e última aplicação de fungicida pode garantir a formação de grãos com qualidade e mais saudáveis a alimentação.

O objetivo do estudo é a identificação de cultivares de aveia mais responsivas ao uso de duas ou três aplicações de fungicida com elevado intervalo entre colheita e última aplicação, independente da condição de ano agrícola favorável, intermediário e desfavorável ao cultivo da aveia no noroeste colonial.

O experimento foi conduzido nos anos de 2015, 2016 e 2017 no Instituto Regional de Desenvolvimento Rural (IRDeR), Augusto Pestana, RS, Brasil. Odelineamento experimental foi o de blocos casualizados com três repetições, seguindo um esquema fatorial para as 22 cultivares de aveia branca e condições de uso de fungicida, com duas (aos 60 e 75 dias após emergência) e três aplicações (aos 60, 75 e 90 dias após emergência.

Foram consideradas as variáveis:

produtividade de grãos (PG);

massa de mil grãos (MMG);

massa da panícula (MP);

número de grãos da panícula (NGP);

massa de grãos da panícula (MGP);

índice de colheita da panícula (ICP);

e a área foliar necrosada avaliada aos 90 e 105 dias após emergência (DAE).

Na Tabela 1, sobre a análise de variância do efeito de fungicida sobre os indicadores de produtividade e área foliar necrosada ao longo do ciclo, independente do ano favorável (AF), intermediário (AI) e desfavorável (AD), as variáveis analisadas evidenciaram diferenças significativas entre as cultivares de aveia nas duas condições do uso de fungicida, possibilitando a detecção da variabilidade genética das cultivares sobre os indicadores de produtividade e área foliar necrosada em ambas as condições.

Tabela 1. Resumo da análise de variância (ANOVA) do efeito de fungicida sobre os indicadores de produtividade e área foliar necrosada de cultivares de aveia.

De modo geral, os valores da média geral das cultivares, mostraram similaridade de produtividade de grãos em ambas as condições de uso de fungicida, o que indica a possibilidade da redução do uso, proporcionando maior intervalo entre a última aplicação e a colheita de grãos.

A terceira aplicação de fungicida foi realizada aos 90 dias após a emergência (DAE), faltando 30 a 40 dias para as cultivares de ciclo médio e precoce serem colhidas; este é um intervalo considerável entre a aplicação e colheita de grãos, pois em condições reais de cultivo é comum aplicações em estádios mais avançados.

Na Tabela 2, com duas aplicações de fungicida (60/75DAE), a área foliar necrosada aos 90 e 105 dias indicaram diferenças entre as cultivares, exceto ao índice de colheita da panícula. Embora as principais variáveis, área foliar necrosada e produtividade de grãos tenham apresentado duas classes fenotípicas, a massa de panícula e massa de grãos de panícula formaram três grupos distintos de cultivares.

Tabela 2. Médias dos indicadores de produtividade e área foliar necrosada de cultivares de aveia com duas aplicações de fungicida (60/75DAE).

Estes resultados levantam a hipótese de que os componentes da inflorescência possibilitam a identificação de cultivares de aveia mais eficientes para a redução do uso de fungicida e/ou distanciamento entre a colheita e última aplicação. No entanto, considerando a avaliação da área foliar aos 90 e 105 dias de desenvolvimento, resultados promissores para avaliação das cultivares são observados.

Na Tabela 3, com três aplicações de fungicida (60/75/90DAE), as principais variáveis de interesse, área foliar necrosada e produtividade de grãos, seguiram apresentando duas classes fenotípicas. Destaca-se nestas condições, que a massa da panícula e massa de grãos da panícula, também apresentaram dois grupos de cultivares, diferentemente do ocorrido com duas aplicações.

Tabela 3. Médias dos indicadores de produtividade e área foliar necrosada de cultivares de aveia com três aplicações de fungicida (60/75/90DAE).

No entanto, o aumento da variabilidade genética pela análise conjunta dos anos mostrou três grupos de diferenciação de cultivares para massa média de grãos e número de grãos da panícula. Embora esta condição apresente um bom intervalo entre a colheita e a última aplicação, não evidenciam diferenças expressivas na produtividade de grãos e área foliar necrosada na comparação com duas aplicações de fungicida. Estes fatos reforçam a possibilidade de aumentar ainda mais o intervalo entre a última aplicação e a colheita de grãos, o que poderia consequentemente reduzir o número de aplicações.

Os melhores desempenhos sobre a produtividade de grãos com reduzidos valores de área foliar necrosada foram obtidos pelas cultivares URS Altiva, URS Brava, URS Guará, FAEM 4 Carlasul, IPR Afrodite e UPFPS Farroupilha. O uso indiscriminado de agrotóxicos representa sérios riscos ao meio ambiente, devido à contaminação do solo e da água, comprometendo também a saúde pública (CARDOSO et al., 2017).

Os riscos advindos do uso de agrotóxicos para a saúde de trabalhadores rurais foram relatados em Viero et al. (2016). Silva et al. (2015), comentam que a redução do uso de fungicida é fundamental para minimizar os riscos de contaminação ambiental e reduzir o nível de contaminação nos alimentos. Buscar técnicas de manejo que promovam estratégia de desenvolvimento de tecnologias mais sustentáveis é decisivo na agricultura segurança alimentar.

Nesta perspectiva, é preconizado cultivares que evidenciam médias elevadas de produtividade com maior resistência genética as doenças foliares e que promovam redução do uso de fungicidas (BERTAN et al., 2006; SILVA et al., 2007; CRUZ et al., 2012). Ressalta-se que, a grande maioria dos estudos de identificação de cultivares de aveia mais ajustadas à redução de uso de fungicida por diferentes situações tratam de análises realizadas por ano agrícola. Portanto, um ano é sempre diferente do outro, e isso modifica a capacidade de expressão do potencial genético das plantas e do progresso de evolução das doenças foliares, indicando a necessidade de análise conjunta.

É observado que o uso da análise conjunta na identificação de cultivares de aveia mais responsivas a redução de uso de fungicida pelo maior aumento do intervalo entre colheita é última aplicação identifica reduzida variabilidade genética na produtividade de grãos e área foliar necrosada. Embora com elevado intervalo entre colheita e última aplicação de fungicida, as cultivares que mostraram desempenhos superiores na produtividade e massa de mil grãos e reduzida área foliar necrosada seja com 2 ou 3 aplicações de fungicida foram URS Altiva, URS Guará e URS Corona.

Referências

BERTAN, I.; CARVALHO, F.I.F.; OLIVEIRA, A.C.; SILVA, J.A.G.; BENIN, G; VIEIRA, E.A.; SILVA, G.O.; HARTWIG, E.; VALÉRIO, I.P.; FINATTO, T. Dissimilaridade genética entre genótipos de trigo avaliados em cultivo hidropônico sob estresse por alumínio. Bragantia, v. 66, n. 1, p. 55–63, 2006.

CARDOSO, F.D.P.; ALMEIDA, M.C.; RIBEIRO, R.O.; VIANA, S.F.R.; MARQUES, E.E.; SOUZA, L.B. Expansão recente da fronteira agrícola e o consumo de produtos agroquímicos: indicadores e possíveis impactos na saúde do trabalhador do campo em Porto Nacional Tocantins. Revista de Administração e Negócios da Amazônia, v. 9, n. 3, 2017.

CONAB, Acompanhamento da safra brasileira grãos, v. 4 Safra 2016/17 – Quarto levantamento, Brasília, p. 1-160 janeiro 2017.

CRUZ, C.D.; REGAZZI, A.J.; CARNEIRO, P.C.S. Modelos biométricos aplicados ao melhoramento genético. UFV, 2012.

DUART, A.M.; DUART, V.M.; TRAMONTIM, M.T.; GARBUIO, F.J. Produção de aveia branca em função da frequência de aplicação de fungicida. In: Mostra Nacional de Iniciação Científica e Tecnológica Interdisciplinar – VI MICTI. Instituto Federal Catarinense, 2013, Camboriú/ SC. Disponível em: <http://micti2013.ifc.edu.br/anais/resumos/trab00052.pdf>.

FOLLMANN, D.N.; CARGNELUTTI FILHO, A.; LÚCIO, A.D.; SOUZA, V.Q.; CARAFFA, M.; WARTHA, C.A. Genetic progress in oat associated with fungicide use in Rio Grande do Sul, Brazil. Genetics and Molecular Research, v. 15, n. 4, 2016.

MANTAI, R.D; SILVA, J.A.G; ARENHARDT, E.G.; SCREMIN, O.B.; MAMANN, A.T.W.; FRANTZ, R.Z;  VALDIERO, A.C; PRETTO, R.; KRYSCZUN, D.K. Simulation of oat grain (Avena sativa) using its panicle components and nitrogen fertilizer. African Journal of Agricultural Research, v. 11, n. 40, p. 3975–3983, 2016.

REIS, E.M.; CASA, R.T.; BEVILAQUA, L.C. Modelos de ponto crítico para estimar danos causados pela ferrugem da folha da aveia branca. Summa Phytopathologica, v. 34, p. 238-241, 2008.

SILVA, J.A. G.; WOHLENBERG, M.D; ARENHARDT, E.G.; OLIVEIRA, A.C.; MAZURKIEVICZ, G.; MULLER, M.; ARENHARDT, L.A.; BINELO, M.O.; ARNOLD, G.; PRETTO, R. Adaptability and stability of yield and industrial grain quality with and without fungicide in Brazilian oat cultivars, American Journal of Plant Sciences, v. 6, n. 9, p. 1560–1569, 2015.

SILVA, J.A.G.; CARVALHO, F.I.F.; HARTWIG, I.; CAETANO, V.R.; BERTAN, I.; MAIA, L.C.; SCHIMIDT, D.A.M.; FINATTO,T.; VALÉRIO, I.P. Distância morfológica entre genótipos de trigo com ausência e presença do caráter “stay-green”. Ciência Rural, v. 37, n. 5, p. 1261-1267. (2007).

SOUZA, T.T.; PEREIRA, J.L.A.R.; SOUZA, T.T. Avaliação da produtividade de milho e controle de doenças foliares. Revista Agrogeoambiental, v. 7, n. 3, p. 31–37, 2015.

VIERO, C.M.; CAMPONOGARA, S.; CEZAR-VAZ, M.R.; COSTA, V.Z.; BECK, C.L.C. Sociedade de risco: o uso dos agrotóxicos e implicações na saúde do trabalhador rural. Escola Anna Nery, v. 20, n.1, 2016.

Informações dos autores:  

Aluna do curso de Agronomia do Departamento dos Estudos Agrários da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí, RS;

Doutorando em Modelagem Matemática, UNIJUÍ, Ijuí, RS;

Mestrando em Modelagem Matemática, UNIJUÍ, Ijuí, RS;

Professor Doutor do Departamento de Estudos Agrários da UNIJUÍ, Ijuí, RS.

Disponível em: Anais do XXXVIII REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE AVEIA, Ijui – RS, Brasil, 2018.

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