Por Eliseu Alves

A sustentabilidade significa sustentabilidade do agricultor, no sentido de que ele possa pagar todos os dispêndios ocorridos na produção e ter sobra de renda para sustentar a família e investir. Sem a sustentabilidade do agricultor não é possível a sustentabilidade do meio físico. Pelos dados do Censo Agropecuário de 2006, cerca de 88,6% dos estabelecimentos que declararam renda e terem usado terra na produção ficaram à margem da modernização da agricultura e alcançaram renda bruta mensal por pessoa adulta muito baixa, de cerca de um salário mínimo. As imperfeições de mercado significam que a pequena produção vende seus produtos por preço muito inferior ao da grande produção e compra os insumos por preço mais elevado e, por isso, deixa de adotar a tecnologia pela falta de lucratividade dela. Sem a adoção de tecnologia não há como resolver o problema de pobreza rural pela agricultura (Alves, Souza, Santana, 2016).

Pobreza rural é o problema de sustentabilidade da agricultura brasileira. Na definição do problema de sustentabilidade, enfatiza-se o recurso natural e as técnicas de conservação. E a degradação dos homens, pela pobreza, é ignorada!

Tecnologia

A ciência produz conhecimentos apenas. O agricultor reúne os conhecimentos num sistema de produção, com o objetivo de guiar e obter a produção. Avalia a lucratividade e o impacto no meio ambiente, compra os insumos e decide aplicar o sistema de produção. Neste momento, nasce sua tecnologia, porque redunda num produto que será consumido de alguma forma.

O futuro da agricultura: tendências

1. Os sinais da demanda interna e externa indicam condições muito favoráveis ao aumento do volume de produção para se atender ao consumo dos brasileiros e às exportações. Temos terra disponível, tecnologia e agricultores competentes. Entre nossos concorrentes, a disponibilidade de terra para aumentar a produção inexiste ou é pequena. Consequência: a tecnologia tem que ensejar aumento da produção brasileira.

2. A tecnologia comanda o crescimento da agricultura, cerca de 70% do crescimento; trabalho, 20% e terra, 10%, pelos dados de 2006. Dados municipais (PAM, período 1970 a 2017) indicam que a área colhida está estagnada, com ligeira tendência de decréscimo. Ou seja, o crescimento de produção observado é explicado pelo crescimento da produtividade da terra, o que continuará sendo o fundamento da agricultura.

3. Agricultura mecanizada com emprego decrescente de mão de obra por unidade de produção e ao longo do tempo. Pessoal ocupado pela agricultura cai desde 1985, quando atingiu o máximo observado de 23,4 milhões para 16,6 milhões em 2006, tendo sido 17,6 milhões, em 1970. Da mesma forma, reduz-se a população residente no meio rural: em 1970, cerca de 44,06% da população brasileira era rural e em 2010, 15,64%.


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4. Meio rural despovoado. Desaparecimento dos encantos da cultura rural que converge para costumes urbanos. Em 2010, cerca de 47,8% da população rural brasileira era nordestina e 14,1% viviam no meio rural da região Norte. No Sudeste, 19,0%; Sul ,13,8%; e Centro-Oeste, 5,3%.

Considerando-se cada região, no Norte 26,47% de sua população habitava o meio rural, no Nordeste, 26,87%; no Sudeste, 7,05%; no Sul, 13,8%; e no Centro-Oeste, 11,20%. Também em 2010, cerca de 4,1% da população paulista era rural. Novamente, as regiões que concentram população no meio rural são o Nordeste e o Norte, as duas regiões de meio rural mais pobre. O êxodo rural é muito intenso no Sul e Sudeste, e no Centro-Oeste pouco expressivo, pois somente 5,28% de sua população vivia no meio rural, em 2006. Nas regiões Norte e Nordeste, o êxodo ganha intensidade lentamente, inibido pela falta de oportunidades de emprego nas cidades vizinhas do meio rural e a pobreza dos campesinos, sem recursos para a migração de longo curso, e pelas políticas de transferência de renda do governo federal. Sem elas, a pobreza rural teria migrado para as cidades (Alves, Souza, Marra, 2011).

5. Agricultura dual. Agricultura dual significa que um pequeno número de produtores ou de estabelecimentos responde pela maior parte do valor da produção. Pelo Censo Agropecuário de 2006, 11,4% dos estabelecimentos responderam por 87% do valor da produção. E 88,6% deles geraram 13% daquele valor. A questão é saber se esta situação perdurará ou, mesmo, se agravará. Como é a tecnologia que explicou cerca de 70% do crescimento da produção, e os dados da pesquisa municipal (PAM, 1973/20017) mostraram não ter havido incremento da área cultivada e demonstraram que o rendimento por hectare explicou o crescimento da produção, a conclusão é de que  a tecnologia  continuará explicando o crescimento da agricultura e também a concentração da renda bruta, num número pequeno de estabelecimentos. No governo, admite-se, como causa da pobreza rural, a falta de investimentos em extensão rural. Hipótese falsificada pelos dados. A produção à margem da tecnologia é assim porque vende mal sua produção e paga caro pelos insumos que necessita. Por essa razão, a tecnologia não é lucrativa, e deixa de ser adotada. E sem tecnologia nova a pobreza rural somente aumentará.

6. Escolha de produtos. Os quinhentos mil estabelecimentos que geraram 87% do valor bruto da produção de 2006 estão antenados nas oportunidades oferecidas pelos mercados externo e interno, e pautam suas decisões pela lucratividade. Entre as lucrativas, escolhem aquelas que oferecem maiores vantagens comparativas. Sendo agricultores racionais, miram o longo e o curto prazo, avaliando o custo da recuperação dos recursos naturais, imposto pelas escolhas de tecnologia e de produtos. Não somente no Brasil como também em países avançados, a produção se concentra em poucos produtos vendidos no mercado externo e interno. Está é opção do agronegócio. Ela é fundamentada no grande volume de produção demandado pelos mercados externo e interno. Note-se que a terra tem pequeno poder de explicar o valor bruto da produção. Muitos estabelecimentos de menos de cem hectares produzem valores elevados e os exportam, principalmente, em frutas, hortaliças, suínos e aves. Quanto às hortaliças, algumas delas se transformam em commodities, e o padrão de concentração é similar ao de grãos.

7. Especialização das regiões e escolhas de tecnologia. As regiões se especializam nas atividades de maiores vantagens comparativas. O Centro-Oeste, em grãos; a região Norte, em pecuária de corte e produtos florestais; as proximidades das cidades, em suínos, aves, produção de peixes e pecuária de leite intensiva. As proximidades das indústrias de celulose, ferro e aço, em eucalipto.


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A tecnologia precisa baixar o custo de produção. Nas exportações, para aumentar o poder de competição do Brasil. No mercado interno, para baixar o preço dos alimentos ou evitar a alta desses preços. A tecnologia do tipo poupa trabalho, poupa terra ou poupa produtos (as que evitam desperdícios) são os caminhos que devem ser seguidos para se poder baixar o custo de produção. Obviamente, o mercado aponta esses caminhos.

Macrodesafios

Imperfeições de mercado

A Embrapa necessita medir as imperfeições de mercado das regiões − se possível de estados-chave − e propor políticas públicas para eliminá-las, sempre com uma orientação que envolva prefeitos e lideranças locais, seguindo o exemplo do Rio Grande do Sul.

Tecnologia

O critério fundamental das opções de pesquisa é baixar o custo com o aumento do volume de produção numa perspectiva de sustentabilidade, ou seja, levando-se em conta, como custo, o impacto desfavorável sobre o meio ambiente. Dois elementos importantes no custo de produção são o aluguel da terra e o salário. Assim, a demanda por tecnologias que poupam terra e mão de obra será crescente. Pelas condições dos mercados interno e externo, em expansão, a tecnologia tem de satisfazer outra condição, qual seja trazer substanciais aumentos de produção. A recuperação de terras degradadas é um bom exemplo. Novas cultivares de elevado rendimento por hectare são outro. Há tecnologias que baixam custo com pequeno impacto direto no aumento da produção. Mas elas geram recursos para serem investidos em fertilizantes, sementes melhoradas e na compra de animais que trazem aumento da produção. Enfatizamos como critérios de escolha em que tecnologia investir: baixar o custo por unidade de produto e aumentar o volume por hectare.

As tecnologias complexas, como a integração lavoura e pecuária, têm que satisfazer os dois critérios: baixar custo por unidade do grupo de produto e aumentar o volume produzido. Se o forte delas estiver nas interações, estas precisam ser cuidadosamente avaliadas para se demonstrar o seu impacto. Não se descarta a necessidade de subsídios, caso o retorno social seja maior que o privado, e este não estimule investimento!  As tecnologias complexas não discriminam a agricultura familiar. A discriminação se assenta no crédito rural, no leasing, no aluguel de terra, enfim nas imperfeições de mercado. O Sul do Brasil, com cooperativas, associações e políticas públicas estaduais, continua a lutar, com políticas corretas, contra as imperfeições de mercado.

O mercado é forte fonte de inspiração para tecnologia. As teorias e métodos desenvolvidos pela ciência abrem novas avenidas, baixam o custo da pesquisa e propõem nova visão.  Permitem também entender as demandas que o futuro esconde. Note-se que a ciência básica também responde aos sinais de mercado, mas com muito mais liberdade para sonhar. Assim, é difícil determinar a dominância, se do mercado se da ciência. Na área aplicada, a dominância é do mercado. Em ciência básica, predomina a visão que o pesquisador tem do futuro, não totalmente imune aos sinais do mercado, mas ele livre para interpretá-lo.

Desafio institucional

O maior deles é financiamento da Embrapa (Alves, E. 2016). O fundamento para se convencer as autoridades é resultado de pesquisa. A área econômica é sensível à taxa de retorno e às tecnologias que baixam o preço de alimentos e aumentam o poder de competição nas exportações. Os ambientalistas, as tecnologias que economizam agrotóxicos, conservam ou recuperam os solos, geram mais água ou evitam desperdício e poupam florestas. As áreas sociais do governo querem a solução do problema de pobreza rural pela agricultura. Como conciliar demandas tão diversas? É papel da área que comanda as estratégias da empresa que deve contar com cientistas experimentados, sonhadores e com bom domínio sobre ciências sociais e biologia avançada.

Do ponto de vista dos cientistas, é importante ter um grupo muito bem treinado em ciências básicas e focá-los em problemas que desafiam nossa agricultura. Como exemplos, ferrugem-da-soja e do trigo, brusone do arroz, carrapato e mosca-do-chifre, bicudo-do-algodoeiro e fixação biológica de nitrogênio em gramíneas. As redes de pesquisa acomodam muito bem esse desafio.

A Embrapa é focada, às vezes também especializada. O centro do Cerrados (CPAC) é focado nos Cerrados, mas não é especializado. O importante é manter a Embrapa focada. Não é de bom alvitre estabelecer intermediário entre a sede e as Unidades de pesquisa. A Embrapa é pesquisa, e, assim, um instrumento de desenvolvimento. Nunca deve ser uma agência de desenvolvimento. Se assim o for, terá um problema de overlaping com os governadores e outros órgãos do governo federal, além de não estar preparada.

É natural haver conflitos. A retórica, recheada de palavras que pretendem provar algo e nada provam, porque vazia de evidência empírica, tem de ser desmascarada. Mas nunca com outro tipo semelhante de retórica.

A área de ciências sociais da Embrapa deixou de lado o estudo da questão de como a moderna agricultura afeta as prioridades de pesquisa das Unidades de pesquisa. Por exemplo, o salário rural e aluguel de terra elevados estão tirando o gado do pasto para o confinamento. Em que condições, leite a pasto é viável? A pecuária de corte muda para a região Norte, e as nossas unidades de pesquisa de lá ignoram essa tendência! Como a pecuária de corte pode competir com grãos? Como é a competição de trigo com feijão, nos Cerrados e na época da seca? E há muitos problemas semelhantes a nos desafiar, baseados nos milhões de dólares que trazem de custo para o Brasil. Triste, vejo como é inoperante a área de ciências sociais em aspectos práticos, mas muito importantes.

Conceitos precisos servem para delimitar áreas e estabelecer métodos de avaliação de desempenho. Uma fazenda grande de duas áreas especializadas, uma em grãos e outra em pecuária de corte, cada atividade na área que lhe oferece vantagem comparativa, faz integração lavoura pecuária ou equivale a duas fazendas, cada qual com sua especialização? Deve-se tomar como elemento de sucesso o estabelecimento ou a região? Sem definição rigorosa da integração lavoura com pecuária não é possível resolver tais problemas. Há duas técnicas de enunciar uma definição. Por um texto corrente, mas curto. Ou por um conjunto de axiomas. Embora não explícitos os axiomas, a definição vigente de integração lavoura pecuária segue vagamente essa linha. Estamos meio desleixados quanto ao rigor das definições e ao método científico. Implicitamente, todos conhecemos seus rudimentos, pois somos cientistas! Existe resistência forte a estudar os fundamentos do método científico. A literatura é complicada, exige especialização para entendê-la. Faltam textos simples.

Como cuidar com talento excepcional?

O talento excepcional pode estar aliado a tratos de personalidade difíceis que podem causar muita desagregação. A Embrapa, nesse aspecto, dispõe de normas gerais refinadas. Mas elas têm caráter, pelo menos implicitamente, punitivo. Por isso, devem ser usadas com parcimônia. O melhor caminho é o da persuasão, e a Diretoria da empresa tem de exercer esse papel: ouvir, discutir e procurar a solução que mais interessa à empresa. Avaliação de desempenho é parte importante por muitos motivos, inclusive para descobrir os picaretas. Bem usado, o talento excepcional é mina de ouro!

Sobre o Autor: Eliseu Alves, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Referências

Alves, E., Souza, G., Marra, R. Êxodo e sua contribuição à urbanização de 1950 a 2010. Revista de Política Agrícola, ano 20, n. 2, abr./maio/jun.2011.

Alves, E., Souza, G., Santana, C. Pobreza e sustentabilidade. Revista de Política Agrícola, ano 25, n. 4, p. 63-81, out. /nov./dez. 2016.

Alves, E. Desafios da pesquisa. Revista de Política Agrícola, ano 25, n.4, p. 165- 168, out./nov./dez. 2016.

Texto originalmente publicado em:
Embrapa: série olhares 2030
Autor: Embrapa: série olhares 2030

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