O objetivo do trabalho foi avaliar a qualidade de plântula de aveia branca após oito meses de armazenamento, em função da aplicação de doses de nitrogênio em cobertura

Autores: Cilene Fátima de Jesus Avila¹, Cláudia Vanessa Argenta¹, Gustavo Tisotti Dal Molin¹, Bruno Bernardo¹, Natã Balssan Moura¹, Rafael Orlando Coppetti¹, Giovani Oster Donato¹, Jordana Schiavo², Gerusa Conceição Massuquini³ José Antonio Gonzalez da Silva³

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A cultura da aveia branca, tradicionalmente cultivada na região mais fria, ao sul do Brasil, já tem alcançado outras regiões, graças a adaptação das cultivares modernas, obtidas com os avanços do melhoramento genético e também a sua ampla aptidão de uso (CRESTANI et al., 2010).

As propostas de manejo da cultura devem considerar a necessidade do aporte de adubação nitrogenada, exigindo estratégias de manejo relacionadas a dose, fontes e época de aplicação de nitrogênio, para alcançar resultados econômicos satisfatórios e que diminuam as perdas de nitrogênio no sistema solo-planta, promovendo maior sustentabilidade (WHALEN, 2014; MANTAI, et al., 2015).

A qualidade das sementes após a colheita não pode ser melhorada, somente mantida, através das condições de armazenamento. Neste sentido, a umidade relativa do ar e a temperatura, são fatores condicionam a taxa de respiração das sementes e podem acelerar a sua deterioração (MASSETO et al., 2013). As pesquisas que mostrem o efeito do nitrogênio na qualidade das plântulas após o armazenamento das sementes em condições não controladas, podem fornecer subsídios para o entendimento da dinâmica do nutriente na composição da semente e a plantabilidade da lavoura, porém, são informações que se mostram escassas na literatura nacional e estrangeira.

Assim, o objetivo do trabalho foi avaliar a qualidade de plântula de aveia branca após oito meses de armazenamento, em função da aplicação de doses de nitrogênio em cobertura, simulando uma condição de armazenamento de agricultor familiar.

O trabalho foi desenvolvido na área experimental do Instituto Regional de Desenvolvimento Rural (IRDeR), pertencente ao Departamento de Estudos Agrários (DEAg) da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), no município de Augusto Pestana. O solo da unidade experimental se caracteriza por ser um Latossolo Vermelho Distroférrico Típico (Santos et al., 2006).

A semeadura foi realizada em 14 de junho de 2011 e em 06 de junho de 2012 com semeadora-adubadora. Cada parcela foi constituída de 5 linhas com 5 m de comprimento cada, e espaçamento entre linhas de 0,20 m, correspondendo a uma unidade experimental de 5m² . A densidade populacional utilizada foi de 300 sementes viáveis por metro quadrado. A adubação de base e cobertura levou em conta as indicações técnicas da cultura para a expectativa de rendimento da cultura de 3 t ha-1, e as doses de N propostas, em cobertura, no estádio indicado de quarta folha expandida com presença de colar.

O delineamento experimental adotado foi o de blocos casualizados com quatro repetições, seguindo um esquema fatorial 4 x 2 x 2 para os fatores doses de nitrogênio, cultivares e ano respectivamente. Nestas fontes de variação os níveis de cada fator foram assim constituídos: I) doses de nitrogênio (0, 30, 60 e 120 kg ha-1); II) cultivares de aveia (Barbarasul e Brisasul) e III) ano (2011 e 2012).

Após a colheita as sementes foram armazenadas durante oito meses, e posteriormente foram utilizadas para os testes propostos no presente trabalho. Dessa maneira, o armazenamento da semente foi realizado com o objetivo de caracterizar uma prática adotada por produtores rurais, que guardam a semente colhida no ano para fazer a semeadura da lavoura no próximo ano, ou seja, salva a semente, o que está amparado por lei, Lei N° 10711 de 5 de agosto de 2003.

Os caracteres avaliados foram a massa seca de raiz (MSR), massa seca de parte aérea (MSPA) e massa seca total de plântulas (MST). Para fazer essa avaliação foi realizado o teste de germinação de acordo com as Regras de Análise de Sementes (BRASIL, 2009) e após obtenção dos resultados, avaliou-se a massa verde de raiz, massa verde de parte aérea e massa verde total de 10 plântulas normais retiradas aleatoriamente. As plântulas foram submetidas a secagem em estufa, de circulação forçada de ar, à temperatura de 60ºC, até peso constante, sendo posteriormente pesado e expresso em gramas o peso de cada tratamento.

Os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) para detecção dos efeitos principais e de interação sobre a expressão da qualidade de plântulas. Após análise de ausência e presença de interação, procedeu-se o teste de comparação de médias pelo modelo de agrupamento de Scott & Knott em nível de 0,05 de probabilidade de erro. Além disto, foi realizada equações de regressão de grau um (y = b0 ± b1x) e dois (y = b0 ± b1x ± b2x 2 ), visando o ajuste da dose de nitrogênio ideal em cada sistema de sucessão para a massa seca de raiz (MSR), massa seca de parte aérea (MSPA) e massa seca total (MST) nas distintas cultivares e anos de cultivo. Para todas estas determinações foi empregado o programa computacional Genes (CRUZ, 2001).

A partir da análise de variância foi possível verificar que nos efeitos principais, o ano foi efetivo em promover alterações nas variáveis em estudo. Já para a fonte de variação dose e genótipo, apenas na MSPA e na MST foram notadas alterações significativas, a MSR não mostrou alterações. Comportamento similar foi observado para a interação dose versus genótipo e na interação tripla (ano versus dose versus cultivar). Houve ainda efeito significativo da interação ano versus genótipo sobre todos os caracteres de plântula em estudo, mostrando que os genótipos demonstraram comportamentos distintos de acordo com os anos agrícolas.

Cabe destacar que neste sistema a MSR foi afetada pelas fontes de variação ano e genótipo, mostrando que quando a liberação do N é mais lenta, proporciona menor estabilidade na matéria seca de raiz. Segundo Cabezas & Couto (2007), a variação na eficiência de utilização do nitrogênio pela planta é regulada por fatores de solo e climáticos, tipo de cultura e de fertilizante e suas práticas de manejo.

Na tabela 1 é apresentada a equação de regressão e os seus parâmetros, que busca definir a dose ideal de N, e as médias da interação ano versus genótipo. Nas equações de regressão, foi observada tendência quadrática significativa na matéria seca de raiz, apenas para a cultivar Barbarasul no ano de 2012, e no ano de 2011 não foi verificado incremento da MSR com as doses de nitrogênio. O genótipo Barbarasul mostrou dose ajustada com 64 kg N ha-1, o que gerou uma expectativa de produção na MSR de 0,0487 g. Por outro lado a Brisasul, não mostrou incremento com as doses de N aplicadas, e neste sentido mostra que a consegue garantir a absorção de nutrientes do solo mesmo com a liberação lenta de N que esse sistema condiciona.

Na matéria seca de parte aérea foi verificado comportamento quadrático apenas para a Brisasul, sendo que no ano de 2011 a dose de N ótima foi obtida com 63 kg N ha-1 e no ano de 2012, de 72 kg N ha-1, reforçando que nas condições de anos mais favoráveis a disponibilidade de N-mineral necessária é menor, visto que a decomposição e mineralização mediada pelos microrganismos do solo é favorecida (WHALEN, 2014). Por outro lado, a Barbarasul não mostrou mudança na MSPA com o incremento das doses de N independente do ano de cultivo, demonstrando que a planta não foi eficiente em aproveitar o N-mineral aplicado. Essa informação é muito relevante para uma prática sustentável do uso de N, pois mostra que existem diferenças genéticas no aproveitamento de nitrogênio, indicando qual genótipo é responsivo a adubação no desempenho das plântulas.

Na avaliação da matéria seca total de plântula foi constatado que houve efeito das doses de N, exceto para cultivar Barbarasul no ano de 2011, as demais apresentaram comportamento quadrático (Tabela 1). Cabe ressaltar, que na cultivar Brisasul a dose para atingir a MET, independente do ano foi menor que na Barbarasul, mostrando ser mais eficiente no uso de N-mineral. Contudo, de acordo com Whalen (2014), seria possível reduzir o uso de fertilizantes se os resíduos orgânicos fossem capazes de fornecer os nutrientes em nível satisfatório para o crescimento da cultura, a partir da sincronização de liberação de nutrientes dos resíduos orgânicos e a demanda por nutriente da cultura durante o seu crescimento, tornando os agroecossistemas mais dependentes da atividade biológica do solo e mais sustentáveis.

Tabela 1. Regressão e teste de médias das doses de nitrogênio nos anos de cultivo para a matéria seca de raiz (MSR), de parte aérea (MSPA) e total (MST) de plântulas no sistema de cultivo milho/aveia. UNIJUÍ, 2018.

A interação genótipo versus ano foi desdobrada em efeitos mais simples, assim na tabela 1 é apresentado o teste de médias para as variáveis analisadas. Foi constatada que existe diferença de desempenho entre anos somente para uma cultivar, ou seja, em 2011 a cultivar Brisasul teve desempenho inferior a Barbarasul em todas as variáveis analisadas. Nesse sentido, entende-se que a Barbarasul é uma cultivar que apresenta maior rusticidade, pois mesmo em anos menos favoráveis ao desenvolvimento da cultura, ela garante sementes que dão condição de gerar plântulas com maior matéria seca se comparada a Brisasul.

Na comparação entre os genótipos, a cultivar Brisasul teve o pior desempenho em todos os caracteres avaliados considerando o ano de 2011, já no ano de 2012 houve desempenho similar entre as duas cultivares. Nesse sentido, pode-se inferir que a Brisasul se mostra sensível em sistema com liberação lenta de N, mesmo que tenha aproveitamento de N e potencial superior ao da Barbarasul (MANTAI et al., 2015).

Contudo, a hipótese para explicar como as sementes tem menor capacidade de gerar plântulas com maior matéria seca, pode estar relacionado com o sistema, que pode disponibilizar os nutrientes em momento diferenciado ao do sistema soja/aveia, desfavorecendo o acúmulo de reservas que poderiam ser acumuladas onde a disponibilidade de N é mais rápida, e consequentemente afetar a capacidade de degradação das reservas pelas enzimas que são ativadas quando a semente passa pela embebição, isto porém não quer dizer que a capacidade de germinação da semente seja afetada, haja vista, que seriam necessários estudos mais aprofundados neste sentido.

O estudo mostrou que existem diferenças genéticas no aproveitamento do Nmineral influenciando o desempenho das plântulas. O ano agrícola também promove alterações no aproveitamento no nitrogênio pelas cultivares. A cultivar Barbarasul apresentou maior matéria seca total mesmo em ano menos favorável, mostrando maior rusticidade.

Referências:

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de sementes, Brasília, 2009. 395 p.

CABEZAS, W.A.R.L.; COUTO, P.A. Imobilização de nitrogênio da ureia e do sulfato de amônio aplicado em pré-semeadura ou cobertura na cultura de milho, no sistema plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 31, n. 4, p. 739-752, 2007.

CRESTANI, M.; SILVEIRA, S.F.S.; WOYANN, L.G.; OLIVEIRA, A.C.; CARVALHO, F.I.F. A hibridação no melhoramento genético da cultura da aveia-branca: técnicas e fatores que interferem na eficiência dos cruzamentos dirigidos. Agropecuária Catarinense, v.23, n.3, 2010.

CRUZ, C.D. Programa Genes: versão Windows; aplicativo computacional em genética e estatística. Viçosa: UFV, 2001.

MANTAI, R.D.; SILVA, J.A.G.; SAUSEN, A.T.Z.R.; COSTA, J.S.P.; FERNANDES, S.B.V.; UBESSI, C. A eficiência na produção de biomassa e grãos de aveia pelo uso do nitrogênio. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v.19, n.4, p.343–349, 2015.

MASETTO, T.E.; GORDIN, C.R.B.; QUADROS, J.B.; REZENDE, R.K.S.; SCALON, S.P.Q. Armazenamento de sementes de Crambe abyssinica Hochst. ex R.E.Fr. em diferentes embalagens e ambientes. Rev. Ceres, Viçosa, v. 60, n.5, p. 646-652, 2013.

SANTOS, H.G.; JACOMINE, P.K.T.; ANJOS, L.H.C.; OLIVEIRA, V.A.; OLIVEIRA, V.B.; COELHO, M.R.; LUMBREAS, J.F.; CUNHA, T.J.F. Sistema brasileiro de classificação de solos. 2.ed. Rio de Janeiro: Solos, 2006. 306p.

WHALEN, J.K. Managing Soil Biota-Mediated Decomposition and Nutrient Mineralization in Sustainable Agroecosystems. Hindawi Publishing Corporation. Advances in Agriculture. Volume 2014, Article ID 384604, 13 p.

Informações dos autores:  

¹ Aluna do Curso de Agronomia do Departamento de Estudos Agrários da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí,RS;

2 Eng. Agr., Mestre do Instituto Regional de Desenvolvimento Rural, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí,RS;

3 Professor Doutor do Departamento de Estudos Agrários da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí,RS.

Disponível em: Anais do XXXVIII REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE AVEIA, Ijuí – RS, Brasil, 2018.

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