Doses de nitrogênio em cobertura no milho safrinha, fontes e modos de aplicação de fósforo em sistema de sucessão com soja no Estado do Mato Grosso

Estudou-se o efeito da associação de fósforo e enxofre junto com o nitrogênio na adubação de semeadura do milho safrinha, em diferentes doses de nitrogênio em cobertura, no estado do Mato Grosso

Autores: Aildson Pereira Duarte(1) e Claudinei Kappes(2)

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Introdução

O emprego de fórmulas concentradas em nitrogênio no sulco de semeadura contribuiu para o aumento da produtividade do milho safrinha nas regiões tradicionais de cultivo, a partir dos resultados de pesquisas na década de 1990 (Cantarella & Duarte, 1995). Devido às perdas do N por lixiviação, doses maiores que 40 a 50 kg ha-1 devem ser parceladas em cobertura, para atender a forte demanda das plantas durante toda a fase vegetativa. A recomendação da dose total de N requer pesquisas regionais considerando as peculiaridades da cultura e do ambiente de produção, por exemplo, os excedentes hídricos.

O milho safrinha expandiu para os chapadões do Brasil Central e estados limítrofes, com uso generalizado da aplicação de todo o fósforo do sistema, de forma antecipada e a lanço, apenas na soja, em vez de fazê-la no sulco de semeadura nas duas culturas. Para viabilizar a distribuição de todo o fertilizante a lanço, tem sido feita apenas a adubação de cobertura com nitrogênio e potássio no milho safrinha e, na maioria das vezes, tardiamente.

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O fósforo é aplicado na semeadura apenas nas propriedades que fazem adubação no sulco. Mas, quase todas as pesquisas foram realizadas sem avaliar o efeito residual da adubação do milho safrinha na nutrição na produtividade da soja e vice-versa (Duarte & Cantarella, 2007), e pouco se conhece sobre o efeito da aplicação do enxofre no milho safrinha. Este nutriente não se acumula nas camadas superficiais de solos que recebem calcário e adubo fosfatado, por causa da predominância de cargas negativas devido aos maiores valores de pH e do deslocamento pelo P do sulfato dos sítios de adsorção (Cantarella & Duarte, 1995).

Considerando a importância da aplicação de N na semeadura do milho safrinha (Duarte & Kappes, 2015) e do processo de adsorção no solo de parte do fósforo aplicado nas adubações, que reduz sua disponibilidade para a próxima cultura, estudou-se o efeito da associação de fósforo e enxofre junto com o nitrogênio na adubação de semeadura do milho safrinha, em diferentes doses de nitrogênio em cobertura, no estado do Mato Grosso.

Material e Métodos

Os experimentos foram conduzidos em Itiquira, Sapezal e Deciolândia, no estado do Mato Grosso, em Latossolo Vermelho Distrófico. O experimento começou com o milho safrinha, em 2013, em Sapezal e Itiquira e, em 2014, em Deciolândia. A soja foi cultivada em sucessão, finalizando as colheitas na safra 2016/2017, após 3 ou 4 anos contínuos.

Em todos os locais, o solo apresentava textura argilosa (teor de argila igual ou superiores a 69%) e já eram cultivados com milho safrinha e soja sob sistema plantio direto.

Na camada de 0 a 20 cm, os teores de fósforo estavam altos em Sapezal e médios em Itiquira e Deciolândia, pelo método da resina. O enxofre estava acima do nível crítico, exceto em Deciolândia, onde o teor era de 5,0 mg dm-3 pelo método do fosfato de cálcio.

O delineamento estatístico foi o de blocos ao acaso em esquema de parcelas subdivididas com quatro repetições. Nas parcelas foram dispostos cinco tratamentos relativos as fontes (Tabela 1) e dois sobre modos de aplicação dos fertilizantes no momento da semeadura (sulco e a lanço). Utilizou-se um tratamento extra com superfosfato triplo, especificamente no sulco, apenas como referência em relação ao controle (sem N, P e S).

Nas subparcelas procedeu-se a aplicação de quatro doses de nitrogênio em cobertura, 0, 30, 60 e 90 kg ha-1 de N, na forma de nitrato de amônio, a lanço em área total no estádio de cinco folhas (V5), exceto em 2015, que foi em V6.

Tabela 1. Fontes de N, P e S aplicadas na semeadura do milho safrinha e da soja no período 2013 à 2016 e 2013/2014 à 2016/2017, respectivamente.

As parcelas foram constituídas por 14 a 20 linhas espaçadas de 0,45 m de 40 m de comprimento, subdividindo-as por 10 m e deixando 0,5 m de corredor entre as subparcelas. A parcela útil foi constituída de quatro linhas de milho com 4,0 m de comprimento.

Os fertilizantes foram aplicados no sulco com máquina-semeadora adaptada para experimentação agrícola. A aplicação a lanço dos fertilizantes relativos a semeadura foi realizada em área total pelo método manual e no mesmo dia da semeadura do milho. O potássio foi aplicado a lanço no momento da semeadura em todos os tratamentos, seja no sulco ou a laço, exceto no NPKS no sulco, por ser uma fórmula pronta.

O milho transgênico Dow 2B587 PW foi semeado no terceiro decêndio de fevereiro até o primeiro decêndio de março, com a população inicial de 57.000 plantas ha-1 . As sementes foram tratadas com o inseticida tiametoxam e aplicaram-se inseticidas e fungicidas no manejo fitossanitário. A cultura foi mantida no limpo com o herbicida glifosato.

Procedeu-se a colheita das espigas manualmente e o transporte para laboratórios de pós-colheita, onde foram trilhadas para pesagem e determinação da umidade dos grãos. A produtividade foi calculada, em kg ha-1 , corrigindo-se a umidade dos grãos para 13%.

Calculou-se a dose de maior retorno econômico a partir das equações de regressão da produtividade em função das doses e o custo de 1 kg de N igual a 10 kg de grãos de milho.

Os resultados foram analisados pelo programa “Statistical Analysis System” (SAS, 1989), procedendo-se a análise de variância ao nível de 10% de significância. Os tratamentos sobre fontes e modos de aplicação dos fertilizantes foram analisados pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade e as doses de N em cobertura por regressão polinomial.

 Resultados e Discussão

A maior produtividade média geral dos experimentos foi obtida em Sapezal (8.920 kg ha-1 ), seguida de Deciolândia (7.630 kg ha-1 ) e Itiquira (7.112 kg ha-1 ) (Tabela 2). Verificou-se efeito das fontes dos fertilizantes na semeadura em todos os locais.

O controle foi pior que os demais tratamentos; a simples adição de N na semeadura elevou a produtividade média em 11%, 11% e 18% em Sapezal, Itiquira e Deciolândia respectivamente. Nestes mesmos locais, efeito do N na presença de P (NP no sulco versus P no sulco – dados não mostrados) foi de 9%, 7% e 9%, confirmando a importância do N.

Em Sapezal e Itiquira, os tratamentos NPS, NP e NPKS não diferiram entre si e, em Deciolândia, o NPS foi o melhor. A adição de 22,5 kg ha-1 de S-SO4– resultou em maior média de produtividade em Deciolândia, devido a deficiência deste nutriente na camada 0- 20 cm. Em Itiquira, com teor médio de P no solo, o tratamento NP superou o N, mesmo com o fósforo do sistema tendo sido aplicado na soja. Em Deciolândia, também com P médio, isso não aconteceu, provavelmente, por ser S o nutriente mais crítico no solo.

Tabela 2. Valores médios e resultados da análise de variância da produtividade de grãos em função dos fatores fontes e modos de aplicação dos fertilizantes fosfatados na semeadura e doses de nitrogênio em cobertura, em três locais no Mato Groso (média de quatro anos em Sapezal e Itiquira e três anos em Deciolândia).

A produtividade foi maior na aplicação a lanço comparada ao sulco nos três locais, na ordem de 2% (Sapezal e Deciolândia) e 4% (Itiquira). Mas, não ocorreu diferença entre os modos para o tratamento N, em Itiquira e Deciolândia, e o tratamento NPKS, em Sapezal (dados não mostrados). Logo, o efeito ocorreu principalmente com as fontes de P e PS em doses elevadas. Destaca-se o espaçamento reduzido, encurtando o tempo para que as raízes explorassem a entrelinha do milho, onde parte do adubo foi distribuída, e as chuvas frequentes nos estádios iniciais e a maior fertilidade nos primeiros centímetros de solo, que devem ter contribuído para que as raízes explorassem primeiro a parte superficial do solo.

A adubação nitrogenada de cobertura aumentou a produtividade de grãos nos três ambientes, com interação entre fontes na semeadura e doses de N em Sapezal e Itiquira (Tabelas 2 e 3).

Tabela 3. Resposta do milho safrinha ao nitrogênio em cobertura, doses e produtividades correspondentes ao máximo retorno econômico, em função das fontes aplicadas na semeadura no sistema de sucessão com a soja, em três locais do Mato Grosso.

A produtividade foi muito baixa na ausência de adubações na semeadura e em cobertura. No controle, o N em cobertura teve efeito mais pronunciado nas doses menores e aumentou pouco a produtividade nas doses mais elevadas, resultando em baixos valores de N total no máximo retorno econômico. A associação de P e PS ao nitrogênio, comparado à aplicação exclusiva do N, proporcionou os maiores valores de produtividade e/ou de ganhos de eficiência da adubação nitrogenada de cobertura, em termos de kg de milho por K de N.

Nos ambientes estudados, considerando produtividades iguais ou superiores a 7,4 t ha-1 , foram necessários 10 a 13 kg de N para produzir uma tonelada de grãos, que é o dobro de produtividades até 6,0 t ha-1 , cuja recomendação é de apenas 30 a 40 kg ha-1 de N (Duarte et al., 1996). Ressalte-se que, no caso do uso da ureia em cobertura, é necessário acrescentar as possíveis perdas por volatilização, pois se utilizou o nitrato de amônio.

O NPS foi superior ao NPKS, com aplicação de 44 kg ha-1 de P2O5 e 9,5 kg ha-1 de SSO4- (Tabela 3), principalmente em Deciolândia, ambiente mais responsivo ao S.

Conclusões

A associação do fósforo e enxofre junto ao nitrogênio, em comparação ao uso exclusivo do N na semeadura, proporciona os maiores valores de produtividade e de ganhos de eficiência econômica da adubação nitrogenada de cobertura, seguida da sua associação apenas com fósforo. A ausência de N e P na semeadura do milho safrinha limita o seu potencial produtivo e o retorno econômico da adubação de cobertura, não devendo, nesta condição, ultrapassar 77 kg ha-1 de N, mesmo nos ambientes mais responsivos. Em solos argilosos, planos, de média a alta fertilidade, os fertilizantes podem ser aplicados no milho safrinha tanto a lanço como no sulco de semeadura.

Agradecimentos

À Fundação MT e à PA Consultoria Agronômica, Pesquisa & Agricultura de Precisão pela condução dos experimentos e à Mosaic Fertilizantes pelo apoio financeiro.

Referências

CANTARELLA, H.; DUARTE, A.P. Adubação do milho “safrinha”. In: SEMINÁRIO SOBRE A CULTURA DO MILHO SAFRINHA, 3., Assis. Anais… Campinas: IAC, 1995. p.21-27.

DUARTE, A.P.; CANTARELLA, H.; RAIJ. B. van. Milho “safrinha”. In: RAIJ, B. van; CANTARELLA, H.; QUAGGIO, J.A.; FURLANI, A.M.C. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. 2.ed. Campinas: IAC/Fundação IAC, 1996. p.60-61.

DUARTE, A.P.; CANTARELLA, H. Adubação em sistemas de produção de soja e milho safrinha. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE MILHO SAFRINHA, 9., Dourados, 2007. Anais… Dourados: Embrapa Agropecuária Oeste, 2007. p.44-61.

DUARTE, A.P.; KAPPES, C. Evolução dos sistemas de cultivo de milho no Brasil. Informações Agronômicas, Piracicaba, v.152, p.15-18, 2015.

Informações dos autores:  

(1)Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador Científico, Programa Milho e Sorgo IAC/APTA, Instituto Agronômico, Campinas – SP.

(2)Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador, Fundação MT, Rondonópolis – MT.

Disponível em: Anais do XIV SEMINÁRIO NACIONAL DE MILHO SAFRINHA, Cuiabá – MT, Brasil,2017.

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