O objetivo desse trabalho foi avaliar o efeito alelopático de espécies de braquiária (Urochloa spp.) na germinação e vigor de sementes de soja.

Autores:  SILVA, A.F.1; RIBEIRO, J.P.O.1; MONTEIRO, S.G.T.1; SANTO, A. E.1; CAMPOS, W. A. 1; PARRELLA, N.N.D.1

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Na adoção do plantio direto, a boa formação de cobertura vegetal na superfície do solo antes da implantação da cultura é requisito indispensável (Almeida, 1991; Alvarenga et al., 2001). No entanto, a escolha adequada das plantas fornecedoras da palhada, considerando-se a melhor época de semeadura, tem sido o grande entrave para se obter êxito com o sistema em diferentes regiões, pois ocorrem grandes variações no clima e no solo (Andrioli, 2004).

Entre as plantas utilizadas a braquiária se destaca pela excelente adaptação a solos de baixa fertilidade, fácil estabelecimento e considerável produção de biomassa durante o ano, proporcionando excelente cobertura vegetal do solo. Segundo Bernardes (2003), esta forrageira já é difundida e aceita pelos produtores rurais, o que facilita a sua eventual adoção para a produção de massa para a cobertura do solo, em sistema plantio direto.

A alelopatia é definida como qualquer efeito direto ou indireto, benéfico ou prejudicial, de uma planta ou de microrganismos sobre outra planta, mediante produção de compostos químicos (aleloquímicos) que são liberados no ambiente (Rice, 1984). Quando essas substâncias são liberadas em quantidades suficientes, podem causar efeitos na germinação de sementes, no crescimento e/ou no desenvolvimento de plantas já estabelecidas (Carvalho, 1993). Dessa forma, em ambientes em que a braquiária vem sendo utilizada como planta de cobertura, pode estar havendo efeito alelopático nas culturas.

Nesse contexto, a identificação de forrageiras alelopáticas e o conhecimento dos mecanismos pelos quais elas exercem seus efeitos no ambiente, reveste-se de grande importância, por propiciar um manejo mais adequado dessas plantas com vistas a evitar perdas de produtividade das culturas.

O objetivo desse trabalho foi avaliar o efeito alelopático de espécies de braquiária (Urochloa spp.) na germinação e vigor de sementes de soja.

O experimento foi conduzido no Laboratório de Análise de Sementes da Universidade Federal de São João Del Rei – CSL, localizada no município de Sete Lagoas-MG.

O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualisado, em esquema fatorial 3×5, sendo três cultivares de soja (M 8210 IPRO, ANTA 82 RR, RK 6813 RR) e extrato de quatro cultivares de Urochloa (Urochloa brizantha cv. Marandu, Urochloa brizantha cv. Xaraés, BRS RB331 Ipyporã (Urochloa brizantha x Urochloa ruziziensis) e Urochloa decumbens) e testemunha (apenas água).

Coletou-se a parte aérea (caule e folhas) das quatro cultivares de Urochloa e retiraram-se as partes reprodutivas. Logo após pesou-se 100g da parte aérea e trituraram-se essas em 1L de água destilada, com auxílio de um liquidificador industrial por 2 minutos, resultando assim no extrato bruto de 100%. Filtraram-se os extratos e adicionou-se água destilada para obter o total de 1L de extrato aquoso bruto. Para o controle foi utilizado água destilada.

As sementes de soja foram desinfetadas com hipoclorito de sódio 10%, por 10 minutos, sendo em seguida lavadas em água corrente e tratadas com Cercobin® (Tiofanato-metilico) na dose de 10g L-1 de agua, por 10 minutos. O teste de germinação foi realizado em rolo de papel Germitest, com 4 repetições de 50 sementes das cultivares de soja. As folhas de papel Germitest, foram alocadas em bandejas e em seguida despejou-se o extrato sobre essas (2,5 vezes o peso do papel). Depositaram-se as sementes sobre as folhas de Papel Germitest que posteriormente foram acondicionadas em BOD com temperatura constante de 25 °C.

A primeira contagem de germinação foi realizada aos cinco dias e a germinação final aos oito dias de acordo com as Regras para Análise de Sementes (Brasil, 2009).

Os dados foram submetidos à análise de variância e as medias comparadas pelo teste de Scott-Knott a 5% de significância, processados pelo programa SISVAR (Ferreira, 2014).

Pela análise de variância (Tabela 1), observou-se interação significativa entre as cultivares de soja e os extratos das braquiárias tanto para primeira contagem de germinação como para germinação, demonstrando efeitos alelopáticos distintos.

Tabela 1. Resumo da análise de variância para primeira contagem de germinação (PCG) e Germinação (G) de sementes de cultivares de soja em função de extratos de braquiárias. UFSJ, Sete Lagoas, MG, 2018.

Para a primeira contagem de germinação (PCG) na comparação de cada cultivar nos extratos (Tabela 2), todas as cultivares tiveram perda de vigor com a utilização dos extratos na comparação com a testemunha, sendo que na cultivar M 8219 IPRO o extrato da cultivar de braquiária Ibiporã inibiu totalmente a germinação na primeira contagem, demonstrando efeito alelopático extremamente forte. Efeito semelhante foi observado na cultivar ANTA 82 RR, na qual houve redução de 87% na germinação com o extrato de Ibiporã. A cultivar RK 6813 RR apresentou sensibilidade diferente aos extratos, com a cultivar de braquiária Xaraés reduzindo a germinação na PCG em 81% em comparação com a testemunha.

Tabela 2. Primeira contagem de germinação (%) de sementes de cultivares de soja em função de extratos de braquiárias. UFSJ, Sete Lagoas, MG, 2018.

Ao comparar as cultivares dentro de cada extrato de braquiária, a cultivar M 8210 IPRO apresentou vigor significamente superior na testemunha, Marandú e Decumbens. No extrato de Xaraés a ANTA 82 RR manteve maior vigor relação as demais, apesar de baixo. Já no extrato de Ipirorã, todas as cultivares tiveram baixo vigor de sementes, o que resultou em ausência de diferença significativa entre as mesmas.


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Em relação a germinação (Tabela 3), assim como para PCG, todos os extratos causaram redução significativa em relação a testemunha. Na cultivar M 8210 IPRO, o extrato de Ibiporâ (5% de germinação) e Xaraés (9,5% de germinação) reduziu em 92% e 87,5% a germinação, respectivamente, em relação a testemunha. Na cultivar ANTA 82 RR, o extrato de Ipiporã resultou na menor taxa de germinação (8%), sendo 80,5% menor que a testemunha. Na RK 6813 RR, as menores taxas de germinação também foram observadas no extrato de Ibiporâ (11,5% de germinação) e Xaraés (3% de germinação) em comparação com a testemunha (85%).

Tabela 3. Germinação (%) de sementes de cultivares de soja em função de extratos de braquiárias. UFSJ, Sete Lagoas, MG, 2018.

Pelos resultados obtidos, constatou-se que todos os extratos de braquárias testatos têm efeito alelopático negativo no vigor e germinação de sementes de soja, sendo que os extratos de Urochloa brizantha cv. Xaraés e BRS RB331 Ipyporã causam maiores reduções.

Referências

ALMEIDA, F.S. Controle de plantas daninhas em plantio direto. Londrina: Instituto Agronômico do Paraná, 1991. 34p. (IAPAR. Circular, 67)

ALVARENGA, R.C.; CABEZAS, W.A.L.; CRUZ, J.C.; SANTANA, D.P. Plantas de cobertura de solo para sistema de plantio direto. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 22, n. 208, p. 2536, 2001.

ANDRIOLI, I. Plantas de cobertura em pré-safra à cultura do milho em plantio direto, na região de Jaboticabal-SP. 2004. 78f. Tese (Livre-Docente) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal.

BERNARDES, L.F. Semeadura de capim-braquiária em pós-emergência da cultura do milho para obtenção de cobertura morta em sistema de plantio direto. 2003. 42f. Dissertação (Mestrado em Agronomia) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Regras para análise de sementes. Brasília, DF: MAPA/ACS, 2009. 365p.

CARVALHO, S.I.C. et al. Caracterização dos efeitos alelopáticos de Brachiaria brizantha cv. ‘Marandu’ no estabelecimento das plantas de Stylosanthes guianensis var. vulgaris cv. ‘Bandeirantes’. Revista Brasileira de Zootecnia, v.22, p.930-937, 1993.

FERREIRA, D. F. Sisvar: a Guide for its Bootstrap procedures in multiple comparisons. Ciência e agrotecnologia, v. 38, n. 2, p. 109-112, 2014.

Informações dos autores:  

1Universidade Federal de São João del-Rei, Campus de Sete Lagoas – MG.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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