Efeito do gesso agrícola e calcário na produtividade e no teor de nutrientes nas folhas de trigo

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O objetivo desse trabalho foi determinar no segundo cultivo os efeitos da aplicação superficial de gesso agrícola sem incorporação em sistema de semeadura direta com e sem calcário, avaliando os componentes de rendimento a produtividade e o teor de nutrientes nas folhas de trigo.

Autores: Fernanda Thais da Rosa (1); Analu Mantovani (2); Márcio Zilio (3); Tamara Pereira (4); Daniele Carine Campioni (5); Daniela Michelon(6)

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

INTRODUÇÃO

O trigo é a cultura mais utilizada para plantio de inverno na região sul do país, sendo o estado do Paraná e Rio Grande do Sul responsáveis por cerca de 89% da produção nacional. Graças ao melhoramento genético e a novas pesquisas que estão sendo realizadas no Brasil, a produção vem crescendo a cada ano. Devido a essas melhorias a produtividade que era de 1.000 kg ha-1 passou a para 3.175 kg ha-1  (CONAB, 2017). A grande produção está diretamente associada à adubação, melhoramento genético, novas técnicas de plantio, insumos, novas áreas de plantio.

Para melhorar a qualidade química do solo, uma alternativa é o uso de sistemas com rotação de culturas e plantas de cobertura (BAYER et al., 1998), associado à aplicação de gesso agrícola como condicionador de solo, melhorando o ambiente do solo e propiciando o desenvolvimento das raízes em camadas mais profundas. Com o maior desenvolvimento as raízes ocupam maior volume de solo e, consequentemente, absorvem mais água e nutrientes.

A aplicação do gesso agrícola para a correção dos teores de Al é decorrente de sua solubilidade. O gesso agrícola aplicado na superfície do solo movimenta-se ao longo do perfil do solo. O gesso aplicado ao solo, devido a sua rápida mobilidade na camada arável, depois da dissolução irá fixar-se abaixo dessa camada, favorecendo o aprofundamento de raízes e uso eficiente dos nutrientes aplicados ao solo (SOUZA et al., 2005). Com uso do gesso agrícola, percebe-se a importância do aumento de volume de solo explorado pelo sistema radicular das culturas, maior aproveitamento nutricional e hídrico e maior produtividade.

Em trabalho realizado por Souza e Lobato (2004) demonstraram que com aplicação de gesso agrícola, que a produtividade das culturas de milho, trigo e soja tiveram acréscimo com uso de gesso, em função da melhor distribuição das raízes das culturas em profundidade do solo, o que proporciona às plantas o aproveitamento de maior volume de água no subsolo.

O objetivo desse trabalho foi determinar no segundo cultivo os efeitos da aplicação superficial de gesso agrícola sem incorporação em sistema de semeadura direta com e sem calcário, avaliando os componentes de rendimento a produtividade e o teor de nutrientes nas folhas de trigo.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em área experimental situada no município de Campos Novos, SC, localizada na coordenadas geográficas de 27º 24’ 06” S e 51º 13’ 30” W, com altitude de 934m. Clima da região, segundo a classificação climática de Köppen, é do tipo Cfa subtropical úmido. O solo da área experimental é classificado como em um Nitossolo Vermelho Distrófico (Embrapa 2013), relevo pouco ondulado e textura argilosa.

 A cultura do trigo foi implantada em sucessão a cultura da soja, sendo que os tratamentos foram aplicados antes do cultivo da soja.

O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados com 4 repetições, distribuídos na parcela principal (doses de gesso), com área de 30 m2  e as parcelas subdivididas (com e sem calcário), com área de 15 m2. Nas subparcelas que receberam a aplicação de calcário a dose utilizada foi de 2.000 kg ha-1  aplicado no dia 02/10/2015, sem incorporação. As doses de gesso agrícola foram de 1.000, 2.000, 4.000 e 6.000 kg ha-1  sem incorporação, aplicadas no dia 03/11/2015 (Tabela 2). Os tratamentos foram compostos da seguinte forma: T1 – Sem aplicação de gesso agrícola e sem de calcário; T2 – Somente calcário; T3 – Gesso agrícola 1000 kg ha-1 ; T4 – Gesso agrícola 1000 kg ha-1  + Calcário; T5 – Gesso agrícola 2000 kg ha-1 ; T6 – Gesso agrícola 2000 kg ha-1  + calcário; T7 – Gesso agrícola 4000 kg ha-1 ; T8 – Gesso agrícola 4000 kg ha-1 + calcário; T9 – Gesso agrícola 6000 kg ha-1  e T10 – Gesso agrícola 6000 kg ha-1  + calcário.

A semeadura do trigo foi realizada no dia 14 de junho de 2016, as parcelas foram composta de 5 linhas de 6 metros com espaçamento entre linhas de 0,17 metros. A adubação de base e cobertura para o trigo foi realizada de acordo com as recomendações do Manual de adubação e calagem para os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (CQFS – RS/SC, 2016), baseada na análise inicial do solo.

Amostras de tecido foliar foram colhidas no início do período reprodutivo, coletou-se a folha bandeira. As folhas foram secas em estufa de circulação a 65oC por 72 horas, após secas foram moídas em moinho tipo Willey. As análises químicas determinaram os teores foliares de: N, extraído por digestão sulfúrica, e P, K, Ca, Mg e S, extraídos por digestão nitrico-perclórica (Tedesco et al. 1995).

A colheita do trigo foi realizada na área útil da parcela, que foi composta das três linhas centrais, retirando-se 0,2 m de cada extremidade. As plantas foram colhidas manualmente, retirando 10 plantas por parcela para avaliações dos componentes de rendimento. O restante da parcela foi trilhado para avaliação do rendimento e massa de 100 sementes.

As avaliação realizadas foram as seguintes: número de grãos por espiga, massa de grãos de 10 espigas, comprimento de espiga, massa de 100 grãos e produtividade de grãos estimada em kg ha-1 a 13% de umidade.

Os dados foram submetidos à análise de variância F e, quando detectadas variações significativas, as médias serão comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A produtividade do trigo, a massa de grãos de 10 espigas e o comprimento de espiga foi influenciada significativamente na média de com e sem calcário nas doses de gesso (Tabela 1). Para os componentes de rendimento, número de grãos por espiga e massa de 100 grãos não se teve diferenças significativas nas doses de gesso com e sem calcário.

Tabela 1 . Produtividade, massa de 100 grãos, número de grãos por espiga, massa de grãos de 10 espigas, comprimento de espiga de trigo em área com e sem calcário e com doses de gesso aplicadas em superfície sem incorporação.

A produtividade de trigo e a massa de grãos de 10 espigas foram maior na dose de 1000 kg ha-1 de gesso na média de com e sem calcário, sendo que os dois parâmetros não diferiram da dose de 2000 e 4000 kg ha-1 (Tabela 1). O comprimento de espiga também foi maior na dose de 1000 kg ha-1, no entanto, não diferiu da dose de 2000 e 6000 kg ha-1.

A aplicação de calcário em todos os componentes de rendimento, como também a produtividade não foi influenciada significativamente. Os mesmos resultados foram encontrados por Meert, (2013) não havendo efeito significativo em função da calagem. Caires et al. (2002) também não obtiveram efeito da calagem superficial sobre a produtividade de trigo. Resultados como estes pode ser devido ao menor efeito tóxico do Al3+, que em sistema de semeadura direta ele forma complexos com compostos orgânicos advindos dos restos de cultura e aos teores iniciais de Ca2+, Mg2+ e K+ que se adequados no solo mantêm relação favorável com o Al3+ (CAIRES et al., 1998), como também ao valor inicial do pH do solo que não era muito baixo.

Na safra 2015/2016 logo após a aplicação dos tratamentos foi cultivado soja, sendo que as doses de gesso com e sem calcário não influenciou nos componentes de rendimento e na produtividade (MANTOVANI et. al. 2017). Já no cultivo do trigo a produtividade foi influenciada pelas doses de gesso, isso confirma a relação existente entre gramíneas e gesso. As gramíneas absorvem com maior eficiência cátions monovalentes; assim, a presença de cátions divalentes em profundidade em razão da aplicação do gesso favorece a absorção desses e consequentemente o desenvolvimento dessas espécies (PAULETTI et. al. 2014). Rampim et al. (2011) também obtiveram resposta do trigo ao gesso quando foi cultivado em solo de média fertilidade natural.

Os teores foliares apresentaram diferenças significativas apenas para o cálcio e o enxofre (Tabela 2).

Tabela 2. Teor de cálcio e enxofre nas folhas de trigo em área com e sem calcário e com doses de gesso aplicadas em superfície sem incorporação.

Nas doses de gesso com a aplicação de calcário o cálcio foi maior com 6000 kg ha-1 e sem a aplicação de calcário o cálcio só foi menor na testemunha (Tabela 2). Para o teor de cálcio com e sem calcário se observou diferença na testemunha e na dose de 6000 kg ha-1, sendo que onde foi aplicado calcário o teor foi maior que onde não foi aplicado calcário (Tabela 2).

O enxofre nas folhas teve diferença significativa com maiores teores nas doses de 4000 e 6000 kg ha-1 de gesso quando aplicado juntamente com o calcário. Quando não foi aplicado calcário a diferença ocorreu apenas das doses com a testemunha (Tabela 2). Quando comparamos a aplicação de calcário na dose de 2000 kg ha-1 sem aplicação de calcário foi maior e na dose de 4000 kg ha-1 a aplicação de calcário foi maior que sem calcário.

O aumento de cálcio e enxofre nas folhas também foi observado por Caires et al. (2002), onde o trigo não respondeu à calagem, mas a aplicação de gesso na área aumentou a concentração foliar de Ca e S e causou acréscimo na produção da cultura.

CONCLUSÕES

A produtividade de trigo foi maior na dose de 1000 kg ha-1 de gesso na média de com e sem aplicação de calcário.

A aplicação de gesso aumenta o cálcio e o enxofre nas folhas de trigo sendo que, onde foi aplicado no solo com calcário as doses mais elevadas apresentaram maior diferença.

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), com projeto aprovado para compra de materiais e equipamentos, ao Programa de Bolsas Universitárias de Santa Catarina – UNIEDU (Art. 170) pela concessão de bolsas, a UNOESC pelo apoio nas pesquisas e a equipe do laboratório de solos pela ajuda e suporte na condução dos experimentos.

REFERÊNCIAS

Bayer C, Mielniczuk J, Pavinato A. Sistemas de manejo do solo e seus efeitos sobre o rendimento do milho. Ciência Rural, v.28, n.1, p.23-28, 1998.

Caires EF, Chueiri WA, Madruga EF, Figueiredo A. Alterações de características químicas do solo e resposta da soja ao calcário e gesso aplicados na superfície em sistema de cultivo sem preparo do solo. R. Bras. Ci. Solo, v. 22, p. 27-34, 1998.

Caires EF, Feldhaus IC, Barth G, Garbuio FJ. Lime and gypsum application on the wheat crop. Sci. Agri; 59, p. 357-364, 2002.

Comissão de Química e Fertilidade do Solo – CQFS RS/SC. Manual de calagem e adubação para os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 11. ed. Porto Alegre, SBCS/NRS, 2016. 376 p.

Conab. Acompanhamento da safra Brasileira – Grãos. Brasília, v. 4, n.1. 2017. Disponível em: <http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos / 16_10_21_15_32_09_safra_outubro.pdf> Acesso em 09 de maio de 2017.

Mantovani A, Felicio TP, Zilio M, Menosso A, Bulla P, Mecabô DP, Miotto PCM. Atributos químicos do solo decorrentes da aplicação em superfície de gesso e calcário. Sci. Elec. Arch. Vol. 10 (5). October 2017.

Meert L. Propriedades químicas do solo e resposta da sucessão trigo-milho-trigo à calagem e à aplicação de doses de gesso em sistema plantio direto. Dissertação de Mestrado. Guarapuava, 2013.

Rampim L, Lana MC, Frandoloso JF, Fontaniva S. Atributos químicos de solo e resposta do trigo e da soja ao gesso em sistema semeadura direta. R. Bras. Ci. Solo, 35:1687-1698, 2011.

Pauletti V, Pierri L, Ranzan T, Barth G, Motta ACV. Efeitos em longo prazo da aplicação de gesso e calcário no sistema de plantio direto. R. Bras. Ci. Solo, 38:495505, 2014

Sousa DMG, Lobato E. Cerrado: Correção do solo e adubação. Brasília, DF: EMBRAPA Informação Tecnológica, 2004.

Sousa DMG, Lobato E, Rein TA. Uso de gesso agrícola nos solos do Cerrado. Planaltina, Embrapa – CPAC, 2005. 19p. (Circular Técnica, 32)

Tedesco MJ, Gianello C, Bissani CA, Bohnen H, Volkweiss SJ. Análises de solo, plantas e outros materiais. 2a ed. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 1995. (Boletim técnico, 5).

Informações dos autores:

(1)Estudante, Universidade do Oeste de Santa Catarina, SC 135, km 180, n° 2500, Campos Novos – SC, 89620-000;

(2)Professora; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(3)Professor; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(4)Professora; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(5)Estudante; Universidade do Oeste de Santa Catarina;

(6)Estudante; Universidade do Oeste de Santa Catarina.

Disponível em: Anais da XII Reunião Sul-Brasileira de Ciência do Solo. Xanxerê – SC, Brasil.

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