Efeito do inseticida inibidor de sintese de lipidio ( Espiromesifeno) sobre o Percevejo-marrom da soja Euschistus heros (Hemiptera: Pentatomidae)

12550

O objetivo desse trabalho foi avaliar o efeito não-alvo do Oberon, sobre a mortalidade de E. heros.

Autores: BRAGA, L. L.1; AGUIAR, M. G. A.1; RODRIGUES, C.1; SOARES, R. D.1; LEONEL JUNIOR, F. L.1

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Introdução

A cultura da soja [Glycine max (L.) Merrill] possui grande importância econômica mundial, ocupando lugar de destaque no agronegócio brasileiro, sendo a região centro-oeste a principal região produtora no país. Segundo a CONAB (2017), a estimativa do USDA é que o Brasil continue sendo o segundo maior produtor mundial. A produção de soja no Brasil em grãos na safra 2016/2017 deverá ser de aproximadamente 104 milhões de toneladas. Se comparada com a safra anterior houve um crescimento de 7,77%.

Durante todo o ciclo a soja está sujeita ao ataque de insetos-praga, podendo reduzir sua produtividade. Entre este complexo de insetos praga os percevejos fitófagos, são os principais insetos que causam perdas na cultura da soja, sendo as espécies da família Pentatomidae as de maior importância (PANIZZI; SLANSKY JUNIOR, 1985).

O percevejo-marrom Euschistus heros é uma das espécies mais abundantes no Brasil, sendo considerado uma das principais pragas da cultura da soja (GODOY et al., 2010; CORRÊA-FERREIRA et al., 2010a). O aumento da população dos pentatomídeos nos cultivos de soja pode ocorrer com o início da floração, pois, neste período os percevejos saem da diapausa e passam colonizar a cultura, no entanto o aparecimento dos mesmos está relacionado à presença das vagens (CORRÊAFERREIRA et al., 2010b), sendo este o período de maior sensibilidade da cultura aos ataques dos percevejos, uma vez que os mesmos alimentam-se sugando preferencialmente as vagens, o que ocasiona danos diretos e perdas expressivas na qualidade e produtividade dos grãos da cultura. Os percevejos também podem acarretar distúrbios fisiológicos, aumento percentual de ácidos graxos e proteínas nos grãos e redução dos teores de óleo (CORRÊAFERREIRA; AZEVEDO, 2002; BOETHEL et al., 2000).

Visando reduzir os prejuízos desta praga, o controle dos percevejos em sua grande maioria vem sendo realizado por controle químico (BUENO et al., 2013). No entanto, estudos realizados por SILVA (2010) evidenciaram a existência de populações de E. heros resistentes a estes inseticidas. É importante salientar que o uso constante e indiscriminado de inseticidas com os mesmos ingredientes ativos durante muitos anos contribui de forma direta para a resistência dos percevejos, sendo necessária a alternância de produtos com grupos químicos distintos, visando assim reduzir a pressão de seleção de insetos-praga resistentes.

Nesse sentido, uma alternativa promissora seria o uso do inseticida-acaricida Oberon (Espiromesifeno), cujo modo de ação é inibidor de síntese de lipídio, modo este diferente dos demais produtos utilizados no controle de percevejo hoje registrados no Brasil. Oberon está registrado na cultura da soja para o controle de mosca-branca e ácaro-rajado e sua utilização pode coincidir para o período de controle de percevejos. Portanto, o objetivo desse trabalho foi avaliar o efeito não-alvo do Oberon, sobre a mortalidade de E. heros.


A sua fonte de informações sobre o agronegócio deixou o conhecimento ainda mais acessível. Confira o Mais Soja Cursos, clicando aqui.


Material e Métodos

O experimento foi conduzido de julho a agosto de 2015 no Centro de Expertise em Agricultura Tropical (CEAT) da Bayer S.A., Paulínia, SP. Os testes foram desenvolvidos em ambiente externo e no laboratório de inseticida. Este à temperatura de 25ºC ± 1ºC, umidade relativa de 60 ± 10 % e fotofase de 12 horas. O delineamento experimental foi de blocos inteiramente casualizados, com 4 tratamentos e 6 repetições, sendo utilizados 25 insetos de cada um dos seguintes estágios de desenvolvimento: adultos, ninfas de primeiro estágio e ninfas de terceiro estágio não sexados por parcela, que foram obtidos de criação mantida em laboratório, população esta oriunda de diferentes regiões do Brasil.

Após a contagem dos insetos os mesmos foram alocados em placas de petri com papel filtro, sendo estas identificadas com o número da repetição e o tratamento correspondente e colocadas no congelador por 3 minutos, visando imobilizar os insetos para facilitar a aplicação do tratamento sob os mesmos. Para a realização das aplicações, foi delimitado uma área com o auxílio de uma fita zebrada o espaçamento de 1m², em seguida as placas correspondentes ao mesmo tratamento foram posicionadas e tratadas com um pulverizador costal manual de ar comprimido a uma pressão de 4 Kg/cm² com um bico tipo leque de jato plano 11002-VR, a uma distância de 50 cm dos insetos, com o volume de calda de 200L/ha. Os tratamentos foram testemunha aplicado apenas com água, Connect 112,5 SC (Imidacloprid & Beta Cyfluthrin na concentração de 100 & 12,5 g/L) na dose de 84,5 g.ha-1, Oberon 240 SC (Espiromesifeno na concentração de 240 g/L) em duas dosagens: 72 e 144 g.ha-1. Em seguida os insetos foram transferidos para uma gaiola, forrada com papel filtro, com dimensões de 25,5cm de altura, 22cm de largura, com 2 orifícios de 16×16 cm cada, sendo um localizado na tampa e o outro em uma das laterais da gaiola. Para suprir a alimentação dos mesmos foram oferecidas 5 vagens de feijão, e sementes de soja, girassol e amendoim, aproximadamente 50g, e um copo pequeno com algodão umedecido em água. Além disto, foi disponibilizado um algodão em disco, cortado ao meio, sendo um localizado na parte inferior e outro na parte superior da gaiola para a ovoposição dos percevejos.

As avaliações foram realizadas com 1, 4, 11, 23, 29, 32, 37 e 46 dias após a infestação artificial dos percevejos, sendo posteriormente contabilizado o número de adultos, ninfas e ovos, visando assim avaliar o efeito sobre a população aplicada e o possível efeito sobre a próxima geração.

Os tratamentos foram comparados entre si estatisticamente por meio de análise de variância e posterior comparação de médias utilizando- se do teste de Tukey a 5%.

Resultados e Discussão

Os dados obtidos indicam que a maior mortalidade de percevejo-marrom adultos foi no tratamento com Connect na dosagem de 84,4 g.ha-1, no qual controlou 100% de adultos com a aplicação direta. Já os tratamentos com Spiromesifeno apresentou um baixo controle: máximo de 10% na aplicação direta sobre adultos, 28% sobre ninfa de terceiro estágio e 12% sobre ninfa de primeiro estágio não havendo diferença estatística entre as dosagens.

O efeito sobre a mortalidade na geração seguinte nos tratamentos com Oberon foi maior na aplicação sobre os adultos, com redução no número de ovos máxima de 79% e sem diferença estatística entre dosagens e redução na população de ninfas de 72% e 92% para as dosagens de 72 e 144 g.ha-1 respectivamente.

Já o efeito sobre a geração seguinte quando aplicado sobre ninfas de primeiro e terceiro estágio mostrou um controle máximo de 14% sobre ovos sendo igual estatisticamente entre as dosagens testadas e sobre ovos um máximo controle de 35% também sem diferença estatística entre as dosagens testadas. Assim observou-se na aplicação sobre ninfas, um melhor efeito quando a aplicação foi realizada sobre a de terceiro estágio comparado com a de primeiro estágio (Tabelas 1, 2 e 3).

Tabela 1. Contagem do número de adultos, ovos e ninfas de E. heros e eficácia calculada por a por Abbott em laboratório após a aplicação dos tratamentos na fase adulta.

Tabela 2. Contagem do número de ninfas após aplicação, ovos e ninfas da geração seguinte de E. heros e eficácia calculada por Abbott, em laboratório após a aplicação dos tratamentos na fase de Ninfa de terceiro estágio.

Tabela 3. Contagem do número de ninfas após aplicação, ovos e ninfas da geração seguinte de E. heros e eficácia calculada por Abbott, em laboratório após a aplicação dos tratamentos na fase de Ninfa de primeiro estágio.

Conclusão

Com base nos resultados obtidos, conclui–se que Connect apresentou em excelente efeito sobre o percevejo-marrom independente do estágio de desenvolvimento aplicado com 100% de mortalidade e que Oberon quando aplicado sobre ninfas de primeiro e terceiro estágio pouco afetou a geração seguinte, no entanto quando aplicado sobre adultos apresentou uma redução na geração subsequente de 92%.

Assim, Oberon poderia ser recomendado para o manejo do percevejo-marrom E. heros sendo mais uma ferramenta disponível para manter a população desta praga em níveis que não afetem a produtividade da cultura, além do manejo concomitantemente da mosca branca e ácaros.

Referências

BOETHEL, D.J.; RUSSIN, J.S.; WIER, A.T.; LAYTON, M.B.; MINK, J.S.; BOYD, M.L. Delayed maturity associated with Southern green stink bug (Heteroptera: Pentatomidae) injury at various soybean phenological stages. Journal of Economic Entomology, v.93, p.707-712, 2000.

BUENO, A. F.; PAULA‑MORAES, S. V.; GAZZONI, D. L.; POMARI, A. F. Economic thresholds in soybean‑integrated pest management: old concepts, current adoption, and adequacy. Neotropical Entomology, v.42, p.439‑447, 2013.

CONAB. Acompanhamento de safra brasileira: grãos, Safra 2016/2017. Sexto levantamento, março 2017. Brasília:

CONAB, 2017. Disponível em: <http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/17_03_14_15_28_33_boletim_graos_ marco_2017bx.pdf>. Acesso em: 7 abr. 2017.

CORRÊA-FERREIRA, B. S.; ALEXANDRE, M.; PELLIZZARO, E. C.; MOSCARDI, F.; BUENO, A. de F. Práticas de manejo de pragas utilizadas na soja e seu impacto sobre a cultura. Londrina: Embrapa Soja, 2010a. 15(Embrapa Soja. Circular Técnica, 78).

CORRÊA-FERREIRA, B. S.; AZEVEDO, J. Soybean seed damage by different species of stink bugs. Agricultural and Forest Entomology, v. 4, p. 145-150, 2002.

CORRÊA-FERREIRA, B. S.; MACHADO, E. M.; HOFFMANN-CAMPO, C. B. Sobrevivência e desempenho reprodutivo do percevejo marrom Euschistus heros (F.) na entressafra da soja. In: REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA  DA REGIÃO CENTRAL DO BRASIL, 31., 2010, Brasília, DF. Resumos… Londrina: Embrapa Soja, 2010b. p. 81-83.

GODOY, K. B.; ÁVILA, C. J.; DUARTE, M. M.; ARCE, C. C. M. Parasitismo e sítios de diapausa de adultos do percevejo marrom, Euschistus heros na região da Grande Dourados, MS. Ciência Rural, v.40, p.1199‑1202, 2010

PANIZZI, A. R.; SLANSKY JUNIOR, F. Review of phytophagouspentatomids (Hemiptera: Pentatomidae) associated with soybean in the Americas. Florida Entomology, v.68, p.184-203, 1985.

Informações dos autores:

1BAYER S.A., Rod. Doutor Roberto Moreira, 5005, CEP 13148-914, Paulínia – SP,

Disponível em: Anais da XXXVI Reunião de Pesquisa de Soja. LONDRINA – SC, Brasil.

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.