Eficiência de fungicidas multissítios no controle da ferrugem-asiática da soja, Phakopsora pachyrhizi, na safra 2015/16: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos

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Fonte: Circular Técnica – 121, Embrapa

As doenças que incidem na cultura da soja representam uma das principais ameaças à produtividade e à competitividade nacional. As perdas anuais de produção por doenças são estimadas em cerca de 15% a 20% (TECNOLOGIAS, 2013). A utilização de fungicidas para o controle de doenças na cultura iniciou com o surto epidêmico de oídio (Microsphaera diffusa), na safra 1996/97. Posteriormente, o aumento da incidência das doenças de final de ciclo (Septoria glycines e Cercospora kikuchii), principalmente em função do cultivo intensivo e da ausência de rotação de culturas, também demandaram o registro de fungicidas (TECNOLOGIAS, 2013). Com o surgimento da ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi), no Brasil, em 2001 (YORINORI et al., 2005), novos produtos foram registrados. Entre outras doenças também controladas por fungicidas, pode-se citar a mancha-alvo (Corynespora cassiicola), a antracnose (Colletotrichum truncatum), o mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) e a mela (Rhizoctonia solani AG1).

Dentre os principais modos de ação utilizados no controle de doenças na cultura da soja destacam-se os fungicidas sítio-específicos metil benzimidazol carbamato (MBC), os inibidores da desmetilação (IDM), os inibidores de quinona oxidase (IQo) e os inibidores da succinato desidrogenase (ISDH). Apesar da grande contribuição que os fungicidas sítio-específicos proporcionam no controle de doenças, seu uso intensivo pode ter como consequência a seleção de isolados de fungos menos sensíveis ou resistentes. Populações do fungo C. cassiicola resistentes a MBC (XAVIER et al., 2013) e de P. pachyrhizi menos sensíveis a IDM e IQo têm sido relatadas (SCHMITZ et al., 2014; KLOSOWSKI et al., 2016).

O número limitado de diferentes modos de ação de fungicidas disponíveis para controle de doenças na cultura da soja, associado a populações menos sensíveis de fungos já observadas no campo e a baixa eficiência de ingredientes ativos isolados, dificultam a utilização de estratégias de manejo de resistência como a rotação de modos de ação. A avaliação da eficiência de fungicidas com diferentes modos de ação é essencial para aumentar as opções de controle de doenças na cultura da soja. O uso de fungicidas multissítios pode ser uma opção tanto de controle da ferrugemasiática quanto de estratégia antirresistência.

O objetivo deste trabalho é apresentar os resultados sumarizados dos ensaios cooperativos com fungicidas multissítios, realizados na safra 2015/16, para controle de doenças na cultura da soja.

Material e Métodos

 Com o objetivo de avaliar a eficiência dos fungicidas multissítios, isolados e associados, foram realizados dois protocolos, na safra 2015/16, por 19 instituições em 23 locais (Tabela 1).

Tabela_1

O primeiro protocolo foi realizado com os fungicidas multissítios isolados (Tabela 2) e o segundo com os produtos utilizados em associação com os fungicidas picoxistrobina + ciproconazol 60 + 24 g i.a. ha-1 (Aproach®Prima, DuPont) e azoxistrobina + benzovindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1 (Elatus®, Syngenta) (Tabela 3). O protocolo de produtos associados não foi realizado no local 10 (Deciolândia, MT).

A lista de tratamentos (Tabelas 2 e 3), o delineamento experimental e as avaliações foram definidos com protocolo único, para a realização da sumarização conjunta dos resultados dos ensaios. Os fungicidas dos tratamentos 2, 5, 6, 9, 10 e 13 (Tabela 2) apresentam registro no MAPA para controle de Cercospora kikuchii (tratamentos 5, 6 e 13), Septoria glycines (tratamentos 2, 5, 6, 10 e 13), Corynespora cassiicola (tratamentos 5, 6 e 13), Phakopsora pachyrhizi (tratamento 13), Sclerotinia sclerotiorum (tratamento 9), Microsphaera diffusa (tratamento 13), Rhizoctonia solani (tratamento 13) e Peronospora manshurica (tratamento 10). Os fungicidas dos tratamentos 3, 4, 8, 11 e 12 apresentam Registro Especial Temporário (RET) III. Os fungicidas dos tratamentos 2 a 12 apresentam RET para o alvo-biológico P. pachyrhizi.

Tabela_2

Tabela_3

O delineamento experimental foi em blocos ao acaso com quatro repetições. Cada repetição foi constituída de parcelas com, no mínimo, seis linhas de cinco metros. As aplicações iniciaram-se no pré-fechamento das linhas de semeadura e os dois protocolos foram conduzidos na mesma área em cada local, com exceção para o local 10, onde foi realizado somente o ensaio com protetores isolados.

No primeiro protocolo (Tabela 2) foram realizadas cinco aplicações, com intervalo médio de 10 dias entre a primeira e a segunda aplicação, 11 dias entre a segunda e a terceira e 10 dias entre a terceira e a quarta e a quarta e a quinta aplicação. Para o tratamento 13 (azoxistrobina + benzovindiflupir) foram realizadas três aplicações com intervalos médios de 21 e 14 dias após a primeira e a segunda aplicação, respectivamente.

No segundo protocolo (Tabela 3) foram realizadas três aplicações com intervalos médios de 21 e 15 dias após a primeira e a segunda aplicação, respectivamente.

Para a aplicação dos produtos foi utilizado pulverizador costal pressurizado com CO2 e volume de aplicação mínimo de 120 L ha-1.

Foram realizadas avaliações da severidade e/ou incidência das doenças no momento da aplicação dos produtos; da severidade periodicamente e após a última aplicação; da desfolha quando a testemunha apresentou ao redor de 80% de desfolha; da produtividade em área mínima de 5 m2 centrais de cada parcela e do peso de 1000 grãos.

Para a análise conjunta, foram utilizadas as avaliações da severidade, realizadas entre os estádios fenológicos R5 (início de enchimento de grãos) e R6 (vagens com 100% de granação) e da produtividade.

Foram realizadas análises de variância exploratória, para cada local. Nas análises individuais foram observados: o quadrado médio residual, o coeficiente de variação, o coeficiente de assimetria, o coeficiente de curtose, a normalidade da distribuição de resíduos (SHAPIRO; WILK, 1965), a aditividade do modelo estatístico (TUKEY, 1949) e a homogeneidade de variâncias dos tratamentos (BURR; FOSTER, 1972). O teste de comparações múltiplas de médias de Tukey (p=0,05) foi aplicado à análise conjunta, a fim de se obter grupos de tratamentos com efeitos semelhantes. Todas as análises foram realizadas em rotinas geradas no programa SAS® versão 9.1.3. (SAS/ STAT, 1999).

Resultados e Discussão

A doença comum nos ensaios e que foi possível realizar a sumarização conjunta foi a ferrugem asiática (P. pachyrhizi). No ensaio do local 23 não houve incidência de ferrugem. No momento da primeira aplicação dos tratamentos, dos 23 ensaios, em cinco havia sintomas de ferrugem (locais 4, 14, 16, 19 e 22).

No protocolo com aplicação dos produtos isolados, a menor severidade foi observada para o tratamento com três aplicações de azoxistrobina + benzovindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1 (T13 – 19,4%) (Tabela 4). Entre os multissítios, a menor severidade foi observada para o tratamento com mancozebe 2000 g i.a. ha-1 (T12 – 25,8%), seguido dos tratamentos com mancozebe 1875 g i.a. ha-1 (T6 – 28%), mancozebe 1500 g i.a. ha-1 (T5 – 34,1%) e clorotalonil 1080 g i.a. ha-1 (T2 – 34,3%), com porcentagem de controle variando de 56% a 67% em relação ao tratamento testemunha.

A correlação (r) da variável severidade com produtividade foi de -0,98 (p<0,001). A maior produtividade foi observada para o tratamento com três aplicações de azoxistrobina + benzovindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1 (T13 – 3257 kg ha-1). Entre os multissítios, a maio produtividade foi observada para os tratamentos com mancozebe 2000 g i.a. ha-1 (T12 – 3062 kg ha-1) e mancozebe 1875 g i.a. ha-1 (T6 – 3004 kg ha-1), seguido de mancozebe 1500 g i.a. ha-1 (T5 – 2920 kg ha-1) e clorotalonil 1080 g i.a. ha-1 (T2 – 2900 kg ha-1).

Na análise conjunta dos ensaios do protocolo com associação dos protetores foi eliminado o local 21 para a variável severidade em razão da avaliação tardia em relação a ultima aplicação. A severidade de todos os tratamentos foi inferior à da testemunha sem controle (T1 – 78,5%). Para os tratamentos com aplicações associadas à picoxistrobina + ciproconazol 60 + 24 g i.a. ha-1, houve redução significativa da severidade com a associação de multissítios em todas as combinações. A menor severidade foi observada para a associação com mancozebe 2000 g i.a. ha-1 (T12 – 29,2%), seguido de clorotalonil 1080 g i.a. ha-1 (T4 – 31,6%), mancozebe 1500 g i.a. ha-1 (T6 – 31,6%) e oxicloreto de cobre 294 g i.a. ha-1 e 280 g i.a. ha-1 (T3 e T5 – 32,9%). Apesar da redução significativa da severidade com a aplicação associada, nenhum tratamento com picoxistrobina + ciproconazol 60 + 24 g i.a. ha-1 apresentou redução de severidade semelhante ao tratamento com azoxistrobina + benzonvindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1 isolado (T13 – 18,3%). Para as aplicações associadas ao fungicida azoxistrobina + benzonvindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1, somente as associações com mancozebe 2000 e 1500 g i.a. ha-1 (T23 – 15%; T17 – 15,2%), oxicloreto de cobre 294 g i.a. ha-1 (T14 – 15,2%), clorotalonil 1080 g i.a. ha-1 (T15 – 15,6%) e oxicloreto de cobre 280 g i.a. ha-1 (T16 – 16,4%) diferiram estatisticamente da aplicação isolada.

A correlação (r) da variável severidade com produtividade foi de -0,97 (p<0,001). Todos os tratamentos apresentaram produtividade estatisticamente superior à testemunha sem controle (Tabela 5). Para as aplicações associadas ao fungicida picoxistrobina + ciproconazol, as associações com sulfato de cobre 113,85 g i.a. ha-1 (T7 – 2737 kg ha-1), propinebe 1400 g i.a. ha-1 (T8 – 2750 kg ha-1) e fluazinam 500 g i.a. ha-1 (T9 – 2711 kg ha-1) não diferiram significativamente do tratamento com picoxistrobina + ciproconazol 60 + 24 g i.a. ha-1 sem associação (T2 – 2654 kg ha-1). Asmaiores produtividades foram observadas para as associações com mancozebe 2000 g i.a. ha-1 e 1500 g i.a. ha-1 (T12 – 2932 kg ha-1; T6 – 2876 kg ha-1, respectivamente), clorotalonil 1080 g i.a. ha-1 e 1000 g i.a. ha-1 (T4 – 2876 kg ha-1; T11 – 2841 kg ha-1, respectivamente) e oxicloreto de cobre 294 g i.a. ha-1 (T3 – 2823 kg ha-1). Apesar do aumento significativo de produtividade com a aplicação associada, a produtividade de nenhum tratamento com picoxistrobina + ciproconazol 60 + 24 g i.a. ha-1 se igualou ao tratamento com azoxistrobina + benzonvindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1 isolado (T13 – 3186 kg ha-1).

Para as aplicações associadas ao fungicida azoxistrobina + benzonvindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1, as maiores produtividades foram observadas para os tratamentos com associações de mancozebe 1500 g i.a. ha-1 e 2000 g i.a. ha-1 (T17 – 3377 kg ha-1; T23 – 3270 kg ha-1, respectivamente), embora a produtividade da associação com mancozebe 2000 g i.a. ha-1 tenha sido estatisticamente semelhante à azoxistrobina + benzonvindiflupir 60 + 30 g i.a. ha-1 isolado (T13 – 3186 kg ha-1).

A eficiência com os melhores fungicidas multissítios, com cinco aplicações, variou de 56% a 67% (Tabela 4). Entre os diferentes fungicidas com mesmo ingrediente ativo (mancozebe, clorotalonil e oxicloreto de cobre), foi observada redução da severidade com o aumento de dose do ingrediente ativo.

Nas aplicações associadas ao fungicida sítio-específico Aproach®Prima, que isolado apresentou 44% de controle, todos os multissítios aumentaram significativamente o controle, com máximo de 63% para a associação com mancozebe 2000 g i.a. ha-1 (Tabela 5). No entanto, apesar do aumento significativo do controle, nem todos os fungicidas proporcionaram aumento significativo de produtividade.

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Para o fungicida Elatus®, que isolado apresentou 77% de controle, os ganhos em controle nas associações foram menores do que os observados para o fungicida Aproach®Prima, com controle máximo de 81% observado para as associações com mancozebe 2000 g i.a. ha-1 e 1500 g i.a. ha-1 e oxicloreto de cobre 294 g i.a. ha-1. De forma semelhante, os incrementos de produtividade não foram significativos para as associações, com exceção de mancozebe 1500 g i.a. ha-1.

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Os resultados desse trabalho são de pesquisa e não devem ser utilizados como recomendação no campo. Com exceção dos fungicidas Aproach®Prima e Elatus®, os demais não possuem registro no MAPA para controle de P. pachyrhizi.

Os fungicidas multissítios podem ser uma ferramenta importante em programas de manejo da ferrugem-asiática na soja, sendo necessário o registro no MAPA para a sua utilização.

Referências

BURR, I.W.; FOSTER, L.A. A test for equality of variances. West Lafayette: University of Purdue, 1972. 26p. (Mimeo Series, 282).

KLOSOWSKI, A.C.; MAY DE MIO, L.L.; MIESSNER, S.; RODRIGUES, R.;  TAMMLER, G. Detection of the F129L mutation in the cytochrome b gene in Phakopsora pachyrhizi. Pest Management Science, v. 72, p. 1211– 1215, 2016.

SAS/STAT®. Versão 9.1.3 do sistema SAS para Windows, copyrightã 1999-2001. SAS Institute Inc., Cary, NC, USA.

SCHMITZ, H.K., MEDEIROS, C.A., CRAIG, I.R., STAMMLER, G. Sensitivity of Phakopsora pachyrhizi towards quinone-outsideinhibitors and demethylation-inhibitors, and corresponding resistance mechanisms. Pest Management Science, v. 70, p. 378–388, 2014.

Shapiro, S.S.; Wilk, M.B. An analysis of variance test for normality. Biometrika, v. 52, 591-611, 1965.

TECNOLOGIAS de produção de soja – Região Central do Brasil 2014. Londrina: Embrapa Soja, 2013. 265 p. (Embrapa Soja. Sistemas de Produção, 16).

Tukey, J. W. One degree of freedom for nonadditivity. Biometrics, v.5, p. 232-242, 1949.

XAVIER, S.A.; CANTERI, M.G.; BARROS, D.C.M.; GODOY, C.V. Sensitivity of Corynespora cassiicola from soybean to carbendazim and prothioconazole. Tropical Plant Pathology, v.38, p. 431-435, 2013.

YORINORI, J.T.; PAIVA, W.M.; FREDERICK, R.D.; COSTAMILAN, L.M.; BERTAGNOLLI, P.F.; HARTMAN, G.L.; GODOY, C.V.; NUNES JUNIOR, J. Epidemics of soybean rust (Phakopsora pachyrhizi) in Brazil and Paraguay. Plant Disease, v. 89, p. 675-677, 2005.

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Texto originalmente publicado em:
Circular Técnica - 121
Autor: Embrapa

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