Eficiência de fungicidas para o controle da ferrugem-asiática da soja, Phakopsora pachyrhizi, na safra 2016/17: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos

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Fonte: Circular Técnica 129

A ferrugem-asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é uma das doenças mais severas que incide na cultura da soja, com danos variando de 10% a 90% nas diversas regiões geográficas onde foi relatada (YORINORI et al., 2005; HARTMAN et al., 2015). Os sintomas iniciais da doença são pequenas lesões foliares, de coloração castanha a marrom-escura. Na face inferior da folha, pode-se observar urédias que se rompem e liberam os uredósporos. Plantas severamente infectadas apresentam desfolha precoce, que compromete a formação, o enchimento de vagens e o peso final do grão.

As estratégias de manejo recomendadas no Brasil para essa doença incluem: a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada, a eliminação de plantas de soja voluntárias e a ausência de cultivo de soja na entressafra por meio do vazio sanitário, o monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura, a utilização de fungicidas no aparecimento dos sintomas ou preventivamente e a utilização de cultivares com gene de resistência (TECNOLOGIAS, 2013).

Desde a safra 2003/04, ensaios em rede e cooperativos vêm sendo realizados para a comparação da eficiência de fungicidas registrados e em fase de registro. Além da comparação de eficiência, os ensaios em rede e cooperativos vêm sendo utilizados para monitoramento da sensibilidade do fungo nas diferentes regiões. Para atender esse objetivo, ingredientes ativos isolados têm sido incluídos no protocolo dos ensaios. A resistência/ menor sensibilidade de P. pachyrhizi a fungicidas do grupo dos inibidores da desmetilação (IDM), inibidores da quinona externa (IQe) e inibidores da succinato desidrogenase (ISDH) já foi confirmada no Brasil (SCHMITZ et al., 2014; KLOSOWSKI et al., 2016; FRAC, 2017).

Nos ensaios cooperativos os fungicidas são avaliados individualmente, em aplicações sequenciais, para determinar a eficiência de controle. Essas informações devem ser utilizadas na determinação de programas de controle, priorizando sempre a rotação de fungicidas com diferentes modos de ação e adequando os programas à época de semeadura. Aplicações sequenciais e de forma curativa devem ser evitadas para diminuir a pressão de seleção de resistência do fungo aos fungicidas.

O objetivo deste trabalho é apresentar os resultados sumarizados dos ensaios cooperativos, realizados na safra 2016/17, para o controle da ferrugem-asiática da soja.

Material e Métodos

Com o objetivo de avaliar a eficiência dos fungicidas para o controle da ferrugem asiática da soja e das novas misturas que estão em fase final de avaliação para registro, foram realizados 39 ensaios nas principais regiões produtoras, na safra 2016/17, por 27 instituições (Tabela 1).

A lista de tratamentos (Tabela 2), o delineamento experimental e as avaliações foram definidos com protocolo único, para a realização da sumarização conjunta dos resultados dos ensaios. Esse protocolo foi elaborado de forma que permitisse a comparação dos produtos, numa mesma situação. Não foram avaliados o efeito do momento da aplicação e o residual dos diferentes produtos. Os fungicidas dos tratamentos 2 a 12 e 17 apresentam registro no MAPA para o controle da ferrugem, os fungicidas dos tratamentos 13 a 16 apresentam Registro Especial Temporário (RET) III e o fungicida do tratamento 18 apresenta RET II.

Os fungicidas avaliados pertencem aos grupos: inibidores da desmetilação (IDM– tebuconazol, ciproconazol, protioconazol, difenoconazol e epoxiconazol); inibidores da quinona externa (IQe – azoxistrobina, trifloxistrobina, picoxistrobina e piraclostrobina), inibidores da succinato desidrogenase (ISDH – fluxapiroxade, bixafen, benzovindiflupir e S-2399 260 SC) e ditiocarbamato (mancozebe). Foram avaliados fungicidas IDM (T2 e T3), IQe (T4), misturas de IQe e IDM (T5 a T9), misturas de IQe e ISDH (T10, T11 e T17), mistura de IDM e ISDH (T18), misturas de IDM, IQe e ISDH (T12, T15 e T16) e misturas de IQe, IDM e ditiocarbamato (T13 e T14) (Tabela 2). Tebuconazol 100 g i.a. ha-1 (IDM – T2), ciproconazol 30 g i.a. ha-1 (IDM – T3) e azoxistrobina 50 g i.a. ha-1 (IQe – T4) foram incluídos nos ensaios para monitorar a sensibilidade do fungo aos IDM e IQe, nas diferentes  regiões.

O delineamento experimental foi blocos ao acaso com quatro ou cinco repetições. Cada repetição foi constituída de parcelas com, no mínimo, seis linhas de cinco metros. As aplicações iniciaram-se no estádio R1/R2 (florescimento/florescimento pleno) para cultivares de tipo de crescimento determinado ou no pré-fechamento das linhas de semeadura, para cultivares de tipo de crescimento indeterminado.

Foram realizadas avaliações da severidade e/ou incidência da ferrugem no momento da aplicação dos produtos; da severidade da ferrugem, periodicamente, após a última aplicação; da severidade de outras doenças; da desfolha quando a testemunha apresentou ao redor de 80% de desfolha; da produtividade em área mínima de 5 m2 centrais de cada parcela e do peso de 1000 grãos.

Tabela 1. Instituições, locais e datas de semeadura da soja.

Para a análise conjunta, foram utilizadas as avaliações da severidade da ferrugem, realizadas entre os estádios fenológicos R5 (início de enchimento de grãos) e R6 (vagens com 100% de granação) e da produtividade.

Foram realizadas análises de variância exploratória para cada local. Nas análises individuais foram observados o quadrado médio residual, o coeficiente de variação, o coeficiente de assimetria, o coeficiente de curtose, a normalidade da distribuição de resíduos (SHAPIRO; WILK, 1965), a aditividade do modelo estatístico (TUKEY, 1949) e a homogeneidade de variâncias dos tratamentos (BURR; FOSTER, 1972).

Além das análises exploratórias individuais, a severidade final, as correlações entre a severidade da ferrugem próxima ao estádio R6 e a produtividade e a diferenciação entre os tratamentos nas análises individuais foram utilizadas na seleção dos ensaios que compuseram as análises conjuntas.

As análises conjuntas de severidade e da produtividade foram realizadas alterando a estrutura da matriz de covariâncias para permitir heterogeneidade de variância entre os tratamentos. O teste de comparações múltiplas de médias de Tukey (p=0,05) foi aplicado à análise conjunta, a fim de se obter grupos de tratamentos com efeitos semelhantes. Todas as análises foram realizadas usando o PROC GLIMMIX em rotinas geradas no programa SAS® SAS/STAT software, Versão 9.4. Copyright© 2016 SAS Institute Inc.

Tabela 2. Ingrediente ativo (i.a.), produto comercial (p.c.) e dose dos fungicidas nos tratamentos para controle da ferrugem-asiática da soja, safra 2016/17.

Resultados

No momento da primeira aplicação dos produtos, dentre os 39 ensaios, não havia sintomas de ferrugem em 37 e havia em dois (locais 21 e 24, Tabela 1). Os dois ensaios aplicados com sintomas foram eliminados da análise conjunta.

Os ensaios dos locais 3, 37, 38 e 39 foram eliminados das análises em razão da severidade de ferrugem inferior a 25% e/ou ausência de diferença significativa entre tratamentos para a variável produtividade. O ensaio 25 não teve dados de produtividade. O ensaio 36 foi eliminado da análise por ter sido conduzido em uma cultivar com gene de resistência à ferrugem.

Durante a análise exploratória foram observados ensaios onde a eficiência dos fungicidas foi semelhante aos resultados da safra 2015/16 (GODOY et al., 2016) e ensaios onde houve redução de eficiência do fungicida registrado contendo ISDH (T11 – azoxistrobina + benzovindiflupir), com maior eficiência em 2015/16, sendo inferior ao fungicida sem ISDH (T8 – protioconazol + trifloxistrobina). Desta forma, a sumarização dos ensaios foi separada de acordo com a eficiência comparativa entre esses dois tratamentos (Figura 1). A inversão foi atribuída a menor sensibilidade do fungo a fungicidas ISDH em razão da mutação I86F na subunidade C do gene sdh do fungo P. pachyrhizi.

Situação I: Sumarização dos ensaios com eficiência do fungicida T11 (azoxistrobina + benzovindiflupir) superior ou igual ao fungicida do T8 (protioconazol + trifloxistrobina), semelhante a safra 2015/16 (24 ensaios)

Todos os tratamentos apresentaram severidade estatisticamente inferior à testemunha sem
controle (T1) (Tabela 3). As menores severidades e as maiores porcentagens de controle foram observadas para o tratamento com S-2399 260 SC + tebuconazole (T18, 81%), picoxistrobina + benzovindiflupir (T17, 80%) e azoxistrobina + benzovindiflupir + difenoconazol (T16, 78%) seguido do tratamento azoxistrobina + benzovindiflupir (T11, 73%).

Entre as misturas triplas de IQe, IDM e ISDH (T12, T15 e T16) os controles variaram de 67% (piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapiroxade – T12) a 78% (azoxistrobina+benzovindiflupir+difenoconazol – T16) (Tabela 3). As misturas triplas de IQe, IDM e ditiocarbamato (T13 e T14) apresentaram controles de 53% e 63%, sendo o
maior controle para a mistura de picoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T13).

Os tratamentos com tebuconazol (T2), ciproconazol (T3) e azoxistrobina (T4) apresentaram as menores porcentagens de controle, variando entre 17% a 21% de controle, não diferindo entre si (Tabela 3).

De forma semelhante a porcentagem de controle, as maiores produtividades e as menores reduções de produtividade foram observadas para os tratamentos com S-2399 260 SC + tebuconazole (T18), picoxistrobina + benzovindiflupir (T17) e azoxistrobina + benzovindiflupir + difenoconazol (T16), seguidos dos tratamentos azoxistrobina + benzovindiflupir (T11) e bixafen + protioconazol + trifloxistrobina (T15) (Tabela 3).

Tabela 3. Severidade da ferrugem-asiática, porcentagem de controle (C) em relação à testemunha sem fungicida,
produtividade e porcentagem de redução de produtividade (RP) em relação ao tratamento com a maior produtividade,
para os diferentes tratamentos. Média de 24 ensaios para severidade e produtividade. Safra 2016/17. Situação I.

Os tratamentos com tebuconazol (T2), ciproconazol (T3) e azoxistrobina (T4) apresentaram as menores produtividades, sendo superiores somente à testemunha sem controle (Tabela 3). A redução de produtividade desses tratamentos em relação a maior produtividade variou de 29% a 32%. A redução de produtividade do tratamento testemunha foi de 36% em relação ao tratamento 18. A correlação entre as variáveis severidade e produtividade foi de r=-0,99.

Os resultados da análise dos 24 ensaios obtidos nessa safra foram semelhantes aos resultados da safra 2015/16.

Situação II: Sumarização dos ensaios com eficiência do fungicida do T11 (azoxistrobina + benzovindiflupir) inferior ao fungicida do T8 (protioconazol + trifloxistrobina) – (8 ensaios)

Todos os tratamentos apresentaram severidade estatisticamente inferior à testemunha sem controle (T1) (Tabela 4). As menores severidades e as maiores porcentagens de controle foram observadas para os tratamentos com bixafen + protioconazol + trifloxistrobina (T15, 82%), trifloxistrobina + protioconazol (T8, 81%), S-2399 260 SC + tebuconazole (T18, 79%), piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapyroxad (T12, 71%) e picoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T13, 71%).

As misturas triplas de IQe, IDM e ditiocarbamato (T13 e T14) apresentaram controles de 71% e 64% (Tabela 4), sendo o maior controle para a mistura de picoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T13), resultado similar à análise com os 24 ensaios (Tabela 3).

De forma semelhante à análise com 24 ensaios (Tabela 3), os tratamentos com tebuconazol (T2), ciproconazol (T3) e azoxistrobina (T4) apresentaram as menores porcentagens de controle, variando entre 21% a 30% de controle, não diferindo entre si (Tabela 4).

A maior porcentagem de controle dos tratamentos pode ser explicada pela menor pressão de doença nos oito ensaios, evidenciada pela menor redução média de produtividade da testemunha sem tratamento (25%), quando comparada à média da análise dos 24 ensaios (36%).

As maiores produtividades e as menores reduções de produtividade foram observadas para os tratamentos com bixafen + protioconazol + trifloxistrobina (T15), trifloxistrobina + protioconazol (T8), S-2399 260 SC + tebuconazole (T18), piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapyroxad (T12), picoxistrobina + benzovindiflupir (T17), azoxistrobina + benzovindiflupir + difenoconazol (T16) e piraclostrobina + fluxapyroxad (T10) (Tabela 4).

Não houve diferença de produtividade para os tratamentos com as misturas triplas de IQe, IDM e ditiocarbamato (T13 e T14).

Os tratamentos com tebuconazol (T2), ciproconazol (T3) e azoxistrobina (T4) apresentaram as menores produtividades, sendo a produtividade do tratamento com azoxistrobina (T4) semelhante à testemunha sem controle. A correlação entre as variáveis severidade e produtividade foi de r= -0,96.

A menor diferenciação entre os fungicidas para a análise com oito ensaios ocorreu em razão da menor pressão de ferrugem, evidenciada pela menor redução de produtividade do tratamento testemunha (25%). Mesmo com menor pressão de doença, foi observada redução de eficiência para os tratamentos com fungicidas ISDH.

Tabela 4. Severidade da ferrugem-asiática, porcentagem de controle (C) em relação à testemunha sem fungicida,
produtividade e porcentagem de redução de produtividade (RP) em relação ao tratamento com a maior produtividade,
para os diferentes tratamentos. Média de oito ensaios para severidade e sete para produtividade. Safra 2016/17.
Situação II.

Situação III: Sumarização de todos locais (32 ensaios)

Na Tabela 5 são apresentados os resultados da análise conjunta de todos os ensaios (32 para severidade e 31 para produtividade), para registro histórico.

Esses resultados não devem ser utilizados para orientação na escolha dos fungicidas, já que foram obtidos em ensaios com diferença de eficiência para os fungicidas contendo ISDH.

Tabela 5. Severidade da ferrugem-asiática, porcentagem de controle (C) em relação à testemunha sem fungicida,
produtividade e porcentagem de redução de produtividade (RP) em relação ao tratamento com a maior produtividade,
para os diferentes tratamentos. Média de 32 ensaios para severidade e 31 para produtividade. Safra 2016/17.
Situação III.

A menor eficiência dos fungicidas contendo ISDH nos ensaios dos locais 2, 4, 8, 16, 17, 25, 28 e 35 (Tabela 1, Figura 1) ressalta a importância da adoção de todas as estratégias de manejo da ferrugem e a adoção das estratégias antirresistência recomendadas pelo FRAC- BR (Comitê Brasileiro de Ação à Resistência a Fungicidas). O protocolo  sequenciais para comparação da eficiência de fungicidas. No entanto, para o manejo da doença devem ser realizados o monitoramento e o controle nos primeiros sintomas ou preventivo na lavoura, a adoção de fungicidas multissítios e a rotação de fungicidas, limitando a duas aplicações de fungicidas contendo ISDH por ciclo.

Os fungicidas tebuconazol (IDM – T2), ciproconazol (IDM – T3) e azoxistrobina (IQe – T4), incluídos para monitorar a sensibilidade do fungo aos IDM e IQe nas diferentes regiões mostraram baixa eficiência de controle. Somente misturas comerciais formadas por dois ou mais fungicidas com modo de ação distintos têm sido recomendadas para todas as regiões do Brasil a partir da safra 2008/09. A baixa eficiência de controle dos ativos isolados reforça essa orientação.

A maioria dos ensaios cooperativos para ferrugem foi instalada em soja semeada a partir de 15 de outubro para maior probabilidade do aparecimento da doença em razão da multiplicação do fungo nas primeiras semeaduras. Semear no início da época recomendada é uma das estratégias de manejo da ferrugem para escapar do período de maior quantidade de inóculo do fungo no ambiente. Os fungicidas representam uma das ferramentas de manejo, devendo também ser adotadas as demais estratégias para o controle eficiente da ferrugem-asiática.

Referências

BURR, I.W.; FOSTER, L.A. A test for equality of variances. West Lafayette: University of Purdue, 1972. 26 p. (Mimeo Series, 282).

FRAC INTERNACIONAL. SDHI Working Group. Informação sobre carboxamidas em ferrugem da soja. FRAC, 2017. 3p. (Informativo, 01/2017). Disponível em: <http://docs.wixstatic.com/ugd/85b1d3_060a6876562140b693f03708057acff2. pdf>. Acesso em: 9 mar. 2017.

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SCHMITZ, H.K.; MEDEIROS, A.C.; CRAIG, I.R.; STAMMLER, G. Sensitivity of Phakopsora pachyrhizi towards quinone-outside-inhibitors and demethylation-inhibitors, and corresponding resistance mechanisms. Pest Management Science, v. 7, p. 378-88, 2014.

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Fonte: Embrapa Soja – Circular Técnica 129

Texto originalmente publicado em:
Circular Técnica - 129
Autor: Embrapa - Soja

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