Embrapa oferece conhecimentos para controle da lagarta-do-cartucho

Pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas, MG) apresentaram à delegação africana informações sobre a lagarta-do-cartucho e tecnologias existentes para controle da praga.

As palestras técnicas abordaram os seguintes temas: Manejo integrado de Spodoptera frugiperda; Uso de extrato de folhas de nim e de resistência de plantas para o controle de lagarta-do-cartucho no milho; Uso do Bacillus thuringiensis e do Baculovirus como biopesticidas; e Controle biológico. Confira, a seguir, as informações.

Manejo Integrado de Pragas e controle biológico são opções para a tomada de decisão

A pesquisadora Simone Mendes falou sobre Manejo Integrado de Pragas para o controle da lagarta-do-cartucho. Ela ressaltou que a lagarta-do-cartucho é a principal praga nas lavouras de milho no Brasil e que a Embrapa considera que o Manejo Integrado de Pragas (MIP) é a melhor forma de conviver com este inseto.

“Estamos falando de um país de proporção continental. Para isso, o primeiro passo é entender as características do inseto, ou seja, como é a vida da lagarta. Além de causar danos nas folhas do milho e na espiga, este inseto se alimenta de outras plantas. São mais de 100 espécies de plantas hospedeiras da lagarta-do-cartucho. Nos sistemas tropicais de cultivo, as plantas hospedeiras se mantêm na mesma área e a Spodoptera fica lá. Então, como fazer para conviver com este inseto?”, indagou a pesquisadora.

“Conviver com a Spodoptera frugiperda não é uma tarefa fácil. Requer conhecer suas características e usar as estratégias adequadas de manejo. O seu manejo em campo é complexo e leva em consideração o sistema de produção envolvido”, disse Simone. Entre as plantas hospedeira da lagarta-do-cartucho estão algumas com importância econômica, além do milho, tais como sorgo, algodão, arroz, milheto e pastagens.

Simone explicou para a delegação africana que o manejo integrado de pragas é uma filosofia, na qual se preconiza a convivência com o inseto-praga em níveis que este não cause danos econômicos à cultura relacionada. Para essa convivência e manejo, é necessário obedecer alguns preceitos básicos, tais como reconhecimento e monitoramento da praga em condições de campo. Assim, é possível tomar a decisão adequada frente às diferentes estratégias disponíveis para o manejo de S. frugiperda.

Uma das principais estratégias de manejo de S. frugiperda adotadas no Brasil, desde a safra 2008/2009, tem sido o uso de milho expressando proteínas inseticidas Bt. Nesse período, o produtor pôde usufruir dessa tecnologia no campo, cujas principais vantagens são a eficiência de controle e a facilidade nos tratos culturais. Contudo, é importante tratar a questão do manejo da resistência dessa praga em condições de campo, pois algumas das tecnologias disponíveis perderam sua efetividade para o controle de S. frugiperda. Além disso, o controle químico sempre foi uma opção de manejo adotada pelos produtores no Brasil, embora sejam relatados casos de perda da eficiência de algumas moléculas, sobretudo em função do mau-uso.

“Nós entendemos que só a utilização do Milho Bt não é suficiente para controlar a lagarta-do-cartucho. É preciso conciliar o Bt com o controle biológico. Esta é a estratégia mais adequada e mais sustentável”, afirmou a pesquisadora.

O uso de extrato de folhas de nim e resistência de plantas para o controle de Spodoptera frugiperda no milho.

O pesquisador Paulo Viana ressaltou que a planta do nim (Azadirachta indica Juss.) tem mostrado acentuada atividade inseticida para várias espécies de pragas, incluindo a Spodoptera frugiperda.

O controle dessa lagarta tem sido geralmente realizado com inseticidas sintéticos, de custo elevado, com alto risco de toxicidade e de contaminação ambiental. O uso de extratos de plantas apresenta perspectiva como substituto a esses inseticidas e pode contribuir para reduzir os custos de produção das lavouras, os riscos ambientais e a dependência dos inseticidas sintéticos. As folhas usadas no extrato são abundantes nas regiões tropicais e subtropicais, e o extrato é de fácil preparo, viabilizando a sua utilização principalmente em pequenas propriedades rurais.

“Temos recomendações para que o agricultor tenha eficácia no controle da lagarta-do-cartucho. Recomendamos ao produtor colher as folhas no outono, moê-las e guardá-las nas prateleiras. Outra orientação é colher a folha verde, para preparar o extrato. É um repelente que afeta os hormônios do inseto”, disse Viana.

Paulo Viana mostrou ao público como fazer a aplicação do nim para melhorar a eficácia do produto. E disse que a aplicação deve ser feita, no máximo, quando a lagarta estiver no início de seu ciclo. “São duas ou três aplicações da calda, em um intervalo de dois dias. Tudo isso visa à eficácia deste inseticida de origem botânica para o controle dessa lagarta na cultura do milho”, ensinou.

Outro assunto destacado por Paulo Viana foi o desenvolvimento de cultivares resistentes de milho, um dos métodos de controle de pragas em que o custo é reduzido e não há efeitos indesejáveis ao ambiente. Trata-se do desenvolvimento de resistência natural do milho à Spodoptera frugiperda, através de avaliação de genótipos, de seleção de cultivares resistentes e de sua introgressão em materiais com potencial comercial. Várias fontes de resistência ao ataque dessa praga foram identificadas e disponibilizadas para uso no Programa de Melhoramento de Milho da Embrapa. O objetivo é a obtenção de cultivares com um determinado grau de resistência à S. frugiperda e que mantenham ou melhorem as suas características agronômicas.

Uso dos biopesticidas: Bacillus thuringiensis (Bt) e Baculovirus

“Controlar este tipo de praga é um grande desafio”, afirmou o pesquisador Fernando Hercos Valicente. Sua pesquisa envolve o desenvolvimento de produtos biológicos à base de baculovírus e Bacillus thuringiensis (Bt) para controle da lagarta-do-cartucho em milho, soja e algodão, Chrysodeixis includens na soja e algodão, e Helicoverpa armigera em algodão, milho e soja.

A partir do Baculovirus spodoptera foi desenvolvido o primeiro bioinseticida à base de vírus para o controle desta praga. Este biopesticida tem grande eficácia para controle da lagarta-do-cartucho em campo, em lagartas de até 1 cm de comprimento. Os baculovirus são agentes de controle biológico que causam a morte do inseto-praga e que não causam danos à saúde dos aplicadores, não matam inimigos naturais das pragas, não contaminam o meio ambiente, nem deixam resíduos nos produto. Testes de biossegurança comprovaram que esses vírus são inofensivos a microrganismos, plantas, vertebrados e outros invertebrados que não sejam insetos.

Já o Bt, biopesticida à base da bactéria Bacillus thuringiensis é extremamente eficaz no controle da lagarta-do-cartucho, matando lagartas mais novas de até 0,5 cm de comprimento. Segundo Valicente, o uso e posicionamento correto deste produto faz com a lagarta pare de se alimentar até 12h após a ingestão deste biopesticida. Esse agente de controle biológico não causa dano à saúde humana, não contamina rios nem nascentes e, nem os produtos a serem consumidos “in natura”. Vários testes de biossegurança foram realizados com essa bactéria e comprovam sua inocuidade aos vertebrados.

Valicente apresentou uma coleção de microrganismos da Embrapa Milho e Sorgo, incluindo a coleção de isolados de baculovírus para o controle da Spodoptera frugiperda. Já a coleção de Bacillus thuringiensis (Bt) possui mais de 4.600 isolados mantidos em freezers, e que controlam as pragas citadas.

E para finalizar, o cientista citou também as empresas que possuem acordo de parceria com a Embrapa Milho e Sorgo e produzem os produtos biológicos à base deles. Atualmente existem biofábricas de Bt no Estado do Ceará, Brasil, e nos países africanos Mali, Burkina Faso, Níger e Costa do Marfim. E uma biofábrica de baculovírus no Estado de Minas Gerais, Brasil.

Controle biológico da lagarta-do-cartucho

O pesquisador Ivan Cruz falou sobre os insetos benéficos para a cultura do milho, considerados os inimigos naturais para a supressão de pragas. São espécies que atuam nos ovos e/ou larvas em estágios iniciais da praga. O mais natural deles, encontrado no Brasil, é a tesourinha (Doru luteipes), seguido pela joaninha (Coccinellidae), “um pequeno inseto que come uma grande Spodoptera”, observou Cruz.

Além desses insetos, Ivan Cruz destacou a vespa Trichogramma, de alta eficiência, que elimina a praga antes que ela possa causar danos à planta. A vespa pode ser facilmente criada em biofábricas. “É imprescindível conhecer a cadeia alimentar da praga. Seu principal alimento é o milho. Se conhecemos a cadeia alimentar, nós podemos esperar a chegada da lagarta facilmente. Outro ponto positivo é que os agentes de controle biológico não deixam resíduos. E, no mercado, já se encontram produtos comerciais aprovados e disponíveis. Estes produtos podem ser produzidos pelo agricultor ou pelas cooperativas. E o que precisamos fazer é ensinar como fazer o controle biológico”, afirmou Cruz.

“Alguns anos atrás, os produtores estavam assustados com esta praga. Mas, hoje, o controle está sendo feito. Qualquer estratégia de controle de pragas deve começar com o monitoramento. A estabilidade da eficiência do Trichogramma tem sido alcançada quando associada ao uso de armadilhas adesivas contendo feromônio sexual sintético da praga, que colocado na área, indica a chegada da praga e a necessidade de liberação da vespa”, relatou Cruz.

Cruz já compartilhou suas pesquisas em diferentes regiões do Brasil e em países da América Latina e da África, envolvendo inclusive os protocolos de instalação de biofábricas e uso no campo dos agentes de controle biológico. Em relação à África, em função do grande interesse no controle biológico de praga, notadamente em algodão,um profissional do Mali foi capacitado no Laboratório de Criação de Insetos (LACRI) da Embrapa Milho e Sorgo, sobre como instalar uma biofábrica para produção de Trichogramma.

Tal fábrica foi instalada com o compromisso de fornecer o agente de controle biológico para os países do Cotton 4, na ocasião composto por Mali, Burkina Faso, Benin, Chade e Togo. Particularmente através dos Programas “Prosavanas”, em Moçambique, e “Cotton 4”, iniciou sua experiência internacional na África, visitando produtores e participando de treinamentos sobre manejo integrado de pragas com ênfase ao controle biológico. Mais recentemente, com a introdução de S. frugiperda em vários países da África, Cruz participou no ano de 2017, de missões e eventos específicos, no Togo, Malawi, Ghana e Uganda, juntamente com vários especialistas do mundo todo, representando órgãos diversos, como a FAO, Cimmyt, Usaid, Universidades, entre tantas outros, com objetivo de discutir a situação da praga e propor soluções sobre a melhor maneira de conviver com o inseto. Deste esforço conjunto foi disponibilizado para todos os países onde a praga esteja presente, uma publicação (veja aqui) contendo o consenso do grupo de especialistas sobre como mitigar os efeitos do inseto em milho, incluindo o controle biológico.

Fonte: Embrapa

Texto originalmente publicado em:
Embrapa
Autor: Sandra Brito

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