Entrevistas Mais Soja: Confira o panorama da ferrugem asiática na soja do Cerrado

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Conversamos com Maurício Stefanelo, Eng. Agrônomo MSc. pela Universidade Federal de Santa Maria, pesquisador na Ceres Consultoria Agronômica, atuando em pesquisas com foco no registro e desenvolvimento de defensivos agrícolas, com ênfase em fitopatologia nas culturas de algodão, soja e milho. Ele nos apresenta a situação atual da soja no Cerrado, bem como o manejo da ferrugem asiática e de outras doenças da cultura. Confira.

1 – Mais Soja (MS): Como está o cenário atual da cultura da soja no Mato Grosso?

Maurício Stefanelo (MSS): De maneira geral a semeadura da soja no Mato Grosso foi bastante atrasada frente ao tradicionalmente observado no estado, o que se deu em virtude do atraso no início e estabilização das chuvas, que nesta safra ocorreu somente em meados ou final de outubro, dependendo da região do estado. Em nossa principal área de atuação, o sudeste do estado, cerca de 60% da área de soja foi semeada no mês de novembro, frente a somente 30% na safra anterior, que já havia apresentado atraso no início das chuvas frente a média histórica.

Apesar do atraso na semeadura o desenvolvimento atual da cultura é bom e a produtividade da soja não deve ser comprometida, desde que todos os cuidados fitossanitários sejam tomados até o período final do ciclo da cultura. Os cultivos de segunda safra, como o algodão e o milho, devem ter suas áreas reduzidas ou contar com menor investimento em virtude de uma provável menor produtividade devido à falta de chuvas para o fechamento do ciclo.

2 – (MS): Qual a interferência da colheita das primeiras áreas de soja no cenário da ferrugem asiática?

(MSS): Não é surpresa que o surgimento dos primeiros focos de ferrugem tenha coincidido com o início da colheita das primeiras lavouras, que se tratam principalmente de áreas cultivadas sob irrigação via pivô central. Desde o início da safra imaginava-se que tal situação deveria ocorrer, comumente as primeiras áreas de soja servem como fonte de inóculo inicial para as áreas com semeadura mais tardia e cultivares de ciclo mais longo. O que nos deixa bastante preocupados nesta safra em especial é o enorme potencial de dano da ferrugem neste momento, um vez que boa parte das áreas ainda estão no período de florescimento e início da formação das vagens, portanto ainda muito suscetíveis a um prejuízo significativo em virtude do ataque da doença, sendo que em outras safra, nesse mesmo período era comum que a cultura estivesse em um estádio mais avançado do enchimento de grãos, onde uma maior pressão de ferrugem seria bem menos danosa à produtividade da cultura.

3 – (MS): Qual a situação da ferrugem asiática no Mato Grosso e região, atualmente:

(MSS): Neste momento os focos de ferrugem em lavouras comerciais começam a surgir, sendo os primeiros relatos oficiais no estado feitos ao final do mês de dezembro. Ainda não temos a epidemia estabelecida, mas certamente dentro de algumas semanas devemos observar uma alta pressão da doença, uma vez que a situação climática tem sido extremamente favorável para o desenvolvimento do patógeno nos últimos dias, com temperaturas amenas, chuvas frequentes, longos períodos de tempo nublado e alta umidade relativa, culminando em longos períodos de molhamento foliar, favorecendo novas infecções.

4 – (MS): Como as notícias de resistência da safra passada impactaram no manejo da doença?

(MSS): Na safra passada foram relatados biótipos mutantes de Phakopsora pachyrhizi com resistência aos fungicida inibidores da succinato desidrogenase (SDHI), as carboxamidas, porém, perante o conhecimento que se tem até o momento, a frequência deste mutante resistente às SDHI ainda é menor na região do cerrado, além do que, nossas observações de campo e experimentos demonstram que a mutação afeta as carboxamidas em diferentes níveis, onde algumas tem uma redução de eficiência em maior nível enquanto outras são menos afetadas. As carboxamidas continuam fazendo parte dos programas de controle e as recomendações quanto à seu uso permanecem praticamente as mesmas das safras anteriores, mas de alguma forma a notícia serviu de “gatilho” para que as estratégias de manejo antirresistência fossem levadas mais a sério, sendo que de um modo geral o uso de fungicidas multissítio será maior que em safras anteriores e o cuidado com o posicionamento de carboxamidas preventivamente tem sido respeitado.

Sabe-se que tais moléculas apresentam melhor desempenho quando aplicadas preventivamente, porém em virtude da alta eficiência que apresentavam no controle da ferrugem da soja foram utilizadas erroneamente em aplicações tardias e com maior pressão da doença, além de serem aplicadas mais de duas vezes durante o ciclo, desobedecendo as recomendações do FRAC, situação essa, que sem sombra de dúvida é umas das responsáveis pelo aumento de frequência do mutante resistente.

5 – (MS): Quais as indicações para o correto manejo da doença e quais as demais doenças que devemos manter cuidado?

(MSS): Boa parte das medidas de manejo para ferrugem da soja já deveriam ter sido tomadas e hoje é o momento em que devemos estar bem preparados para complementar o manejo fazendo o uso do controle químico. Dentro de um programa de manejo visando o controle de ferrugem da soja são primordiais:

O respeito ao vazio sanitário, que é o período isento da presença de plantas de soja, no Mato Grosso de 15 de junho a 15 de setembro;

A utilização de cultivares de ciclo precoce e semeadura no início da janela preferencial, visando o escape do período de maior pressão da doença;

Além da utilização de materiais com resistência genética. Aqui também cabe salientar que o cultivo de soja “safrinha” é uma atitude extremamente danosa a manutenção do cultivo sustentável de soja ao longo dos anos.

Diante do cenário atual no Mato Grosso, nesse momento a recomendação seria utilizar os melhores produtos dentro do seu programa de manejo, sendo essa uma excelente ocasião para lançar mão de associações com fungicidas multissítio, uma vez que a doenças está no início de seu desenvolvimento e este sem sombra de dúvidas é um momento chave para definição do sucesso ou insucesso do programa de controle químico na cultura da soja. A tecnologia de aplicação também merece atenção especial nesse momento, visando a deposição adequada dos ingredientes ativos em todos os terços do dossel, para tanto o tipo de ponta a ser utilizado, volume de calda, tamanho de gota, condições climáticas devem ser considerados no momento da intervenção com o controle químico.

Doenças que sempre surgem em nossa região são as famosas DFCs, Septoria e Cercospora, além de antracnose e mancha alvo. Tais doenças desenvolvem-se de forma mais agressiva em determinadas cultivares mais suscetíveis, que exigem programas de controle com aplicações no período vegetativo inicial e fungicidas de melhor desempenho para tais doenças, além de sempre considerar a utilização de sementes de boa qualidade que não estejam contaminadas por tais patógenos, sendo que esta pode ser a fonte de inóculo primário dessas doenças. Outra doença extremamente agressiva e de difícil controle que vem sendo cada vez mais frequente é o mofo branco, onde a prevenção da entrada do patógeno na área, que muitas vezes se dá através de máquinas provenientes de áreas com a presença da doença ou utilização de sementes contaminadas com escleródios do fungo, seria o principal manejo para o mesmo.

6 – (MS): Quais as principais diferenças de recomendações em relação à doença no decorrer dos anos?

(MSS): No que tange ao controle químico, as primeiras alterações quanto ao manejo de doenças se deram na safra 2008/09 quando observou-se queda de controle da doenças por parte dos fungicidas inibidiores da síntese de ergosterol (DMI), os triazóis, que até então eram recomendados isoladamente para controle da doença, posterior a isso tivemos a era “triazol + estrobilurina” que alcançou controle satisfatório da doença por um bom período de tempo e posteriormente tivemos a introdução no mercado dos produtos com carboxamida em sua constituição, com alguns fungicidas de excelente performance no controle de ferrugem da soja. Na safra 2013/14 foi detectada a mutação F129L que conferiu resistência do fungo às estrobilurinas, acompanhada de queda acentuada na eficiência das misturas formuladas de triazol + estrobilurina, momento este que culminou com a entrada massiva de fungicidas multissítio como ferramenta no controle da ferrugem da soja. Além do incremento no controle da doença quando em associação aos tradicionais fungicidas sítio específicos, os multissítios também se constituem em importante ferramenta de manejo antirresistência, uma vez que agem em diversos processos biológicos do fungo, diferentemente de triazóis, estrobilurinas e carboxamidas.

Na safra passada, tivemos o relato da resistência do fungo às carboxamidas, mutação na subunidade C na posição I86F, o que torna o uso dos fungicidas multissítio uma estratégia ainda mais importante no manejo dessa doença, já que a indústria não tem previsão de lançamento de nenhum produto com novo mecanismo de ação para controle de ferrugem asiática da soja para os próximos anos.

Elaboração: Elisa Campos, Equipe Mais Soja.

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