Entrevistas Mais Soja: Helicoverpa armigera em soja, a “super lagarta”

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Cecília Czepak, professora titular da Escola de Agronomia da UFG (Universidade Federal de Goiás) na disciplina de Manejo Integrado de Artrópodes Pragas para graduação e pós-graduação, comentou sobre a Helicoverpa armigera na cultura da soja e alguns cuidados que o produtor deve ter.

Ela atua com manejo integrado de pragas em culturas de soja, tomate, algodão, milho e feijão. Possui doutorado em Bioecologia degli Entomofagi e Biocontrollo pela Universitá degli Studi di Perugia (Itália), mestrado em Entomologia pela Universidade Federal de Viçosa (MG) e graduação em Agronomia pela FFALM.

1 – Mais Soja (MS): Como está a ocorrência de Helicoverpa armigera nesta safra?

Cecília Czepak (CC): Infelizmente em algumas regiões do Centro-Oeste a Helicoverpa armigera vem causando problemas. Entretanto insisto em dizer que esta praga nunca deixou de aparecer na soja, como também em outras culturas. Em todos os monitoramentos que temos feito ao longo desses últimos anos, constatamos a presença dessa lagarta. Com certeza, na maioria das áreas cultivadas do país, a população em relação ao que ocorreu a partir da sua constatação oficial é significativamente menor. Entretanto, quando se trata de H. armigera não devemos brincar.

2 – (MS): Passados alguns anos de sua entrada no Brasil, quais os prejuízos e lições que aprendemos sobre esta praga?

(CC): Acho que em relação aos prejuízos causados por essa lagarta podemos dizer que essa história ainda não teve um “final feliz”, pois mesmo com todo o desastre ocasionado, aprendemos muito pouco. Talvez, de uma forma bastante crítica, podemos dizer que desaprendemos, afinal o uso de inseticidas de “indiscriminado” passou a ser “disseminado”. Para ser mais clara, posso lhe afirmar que grande parte dos envolvidos nas cadeias produtivas que tem a H. armigera como praga, utilizam apenas os inseticidas químicos como ferramenta de controle e para esta lagarta, como também para outras pragas importantes, os químicos não são e nunca serão a solução para o problema, devemos encará-los como uma das ferramentas do MIP (Manejo Integrado de Pragas), pois para H. armigera a integração de várias táticas de controle se torna essencial para a boa convivência com essa “super lagarta”.

Sinceramente, pensei que com o susto provocado em 2013 pelas altas infestações e prejuízos, o MIP propriamente dito decolaria de forma generalizada nos cultivos brasileiros, mas não foi bem assim. As alternativas biológicas, comportamentais etc, ficaram novamente esquecidas, afinal para muitos os químicos bastavam e pior é que muitos ainda se arriscam a dizer que H. armigera não é mais problema no Brasil. Aí nesse caso só podemos lamentar e torcer para que isso se torne uma realidade duradoura.

Ainda não aprendemos como manejar de forma correta essa praga, como também ainda não aprendemos a manejar a Mosca Branca que está no país há mais de 20 anos e o que é pior é que agora não é mais apenas uma espécie, mas um complexo de “espécies”.

Desta forma, o monitoramento é imprescindível e a partir dele se toma decisões sobre as melhores táticas de controle a utilizar.

3 – (MS): Sobre as recentes notícias sobre a ocorrência de Helicoverpa em soja intacta no MT: Qual o impacto dessa ocorrência? Há relatos em outros Estados?

(CC): Isso que ocorreu na soja modificada com tecnologia Bt, era esperado, afinal todos sabiam que para essa praga o efeito era supressivo. Os relatos existem e foram confirmados, principalmente nas áreas fronteiriças entre os Estados de Mato Grosso e Goiás. Entretanto, precisamos ser cautelosos e ficar atentos, pois em algumas áreas visitadas, o que vimos foi a Spodoptera frugiperda, que inicialmente apresenta um comportamento bem parecido com a H. armigera e em outras constatamos uma mistura de sementes com e sem tecnologia Bt.  

4 – (MS): Recentemente foi divulgado o registro em definitivo do Benzoato de Emamectina. Como isso altera o controle dessa praga e quais as melhores maneiras de utilizá-lo no MIP?

(CC): Este produto deveria ter sido liberado há mais tempo, pois evitaria talvez o uso generalizado de benzoato de origem duvidosa. Sua inserção deve ser feita dentro da normas já estabelecidas para uso de agroquímicos no Brasil, afinal nossa legislação ainda é uma das mais rigorosas do mundo. E nunca esquecer que o uso indiscriminado dessa molécula e a evolução de populações resistentes ocorrerá mais cedo do que o previsto.

5 – (MS): Como está o cenário de outras lagartas, nessa safra?

(CC): Uma caixinha de surpresas, pois temos visto a elevação das populações como a da lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis) e do complexo de Spodopteras.  Com certeza as condições ambientais, as táticas de controle adotadas, as cultivares, enfim, inúmeros fatores podem influenciar no aparecimento de uma determinada espécie de praga, e não há como prever, as áreas agrícolas brasileiras são extensas e distribuídas em diferentes regiões, portanto os prognósticos podem ser diferentes, a única certeza que temos é que essas pragas sempre ocorrerão, afinal o sistema produtivo brasileiro não cessa e portanto temos que conviver com essa realidade. Agora o que não pode acontecer é nos esquecermos de fazer o dever de casa para produzirmos sempre e melhor.

Elaboração: Elisa de Campos, Equipe Mais Soja

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