Entrevistas Mais Soja: um pouco mais sobre o 2,4-D, herbicida sem o qual o manejo das plantas daninhas em soja poderia subir 418%

4117

O Portal Mais Soja, traz a entrevista com os pesquisadores Robinson Osipe e Jethro Barros Osipe, pesquisadores e grandes conhecedores do manejo de plantas daninhas  sobre o 2,4 D e sua importância na agricultura Brasileira. Ambos pesquisadores são apoiadores da “Iniciativa 2,4-D”, iniciativa que visa difundir técnicas de utilização e informações sobre o uso desta importante ferramenta para a agricultura brasileira.

Mais Soja (MS): Professores, como a molécula 2,4-D é utilizada no controle de plantas daninhas em soja e quais suas principais características?

Historicamente, o herbicida 2,4-D sempre teve grande importância no controle de plantas daninhas no Brasil, tanto em aplicações isoladas como em misturas, principalmente com o glyphosate. O herbicida 2,4-D apresenta amplo espectro de ação, especialmente sobre dicotiledôneas. Sua mistura com o glyphosate é consagrada, pois complementa a ação sobre espécies monocotiledôneas, com ação sinérgica, sendo ou não os dois herbicidas sistêmicos. Atualmente, o herbicida 2,4-D mantém esta posição importante por complementar o manejo de plantas daninhas tolerantes e resistentes, como por exemplo a Commelina benghalensis (trapoeraba) e Conyza sp.(buva), respectivamente.

O principal uso do herbicida 2,4-D na cultura da soja é na operação de manejo, também chamada de limpeza, que consiste na aplicação visando a eliminação química das plantas daninhas antes da semeadura da cultura da soja, no sistema plantio direto. Nesta modalidade de aplicação frequentemente o herbicida 2,4-D é utilizado em mistura com glyphosate, principalmente quando a população daninha é composta de dicotiledôneas e em estádios avançados de desenvolvimento, onde apenas os herbicidas de ação total, especialmente o glyphosate, não apresentam controle satisfatório. A utilização do 2,4-D no Brasil na cultura da soja ocorre em aproximadamente 20 milhões de ha, o que representa em torno de 64% da área cultivada com a leguminosa no país. Visando a segurança nesta modalidade de aplicação, recomenda-se um intervalo de, pelo menos, 7 dias entre a aplicação de manejo com o herbicida 2,4-D e a semeadura da cultura da soja

(MS): Em quais outras culturas a molécula é importante como ferramenta no manejo de plantas daninhas?

O herbicida 2,4-D está registrado no Brasil para as culturas de arroz, aveia, cana-de-açúcar, cevada, frutíferas, milho, pastagens, silvicultura, soja (pré-plantio), sorgo e trigo. O herbicida 2,4-D na cultura do milho é utilizado em mais de 3,5 milhões de ha, principalmente operação de manejo de plantio direto, mas ainda na pós-emergência da cultura. Na cultura de trigo, mais de 42% da área cultivada é utilizado o herbicida 2,4-D na operação de manejo e também em pós-emergência da cultura.

Quase 20% da área cultivada com a cultura da cana-de-açúcar, utiliza o herbicida 2,4-D em pós-emergência, principalmente na operação denominada repasse ou catação que, normalmente, é complementar à aplicação de herbicidas residuais. No sul do país, nos cereais de inverno é uma excelente opção na aplicação em pós-emergência visando ao controle da Conyza sp. (buva) resistente ao glyphosate. Por fim, é uma importante ferramenta no manejo de plantas daninhas em áreas de criação de bovinos, pois é um dos principais herbicidas controladores de plantas daninhas em pastagens, seja na reforma ou na sua condução.

Estima-se que o herbicida seja utilizado em aproximadamente 5 milhões de hectares de pastagens, isto considerando apenas os produtos à base de 2,4-D formulados isoladamente, pois se levarmos em conta os outros produtos nos quais há combinação desse herbicida na formulação pronta, como o 2,4-D+Picloran, a área seria vinte vezes maior.

(MS): Quais os benefícios para agricultura da utilização do 2,4-D?

A possibilidade de eliminar as plantas daninhas quimicamente, com uso de herbicidas, e não mais mediante o revolvimento mecânico do solo, permitiu o sucesso do sistema chamado “plantio direto”. O herbicida 2,4-D sem dúvida auxiliou de forma marcante o sucesso deste sistema, tanto pela eficácia como pelo custo/benefício do mesmo. A semeadura no sistema plantio direto, permite melhor estabelecimento da cultura da soja, permitindo menor matocompetição inicial.

Vale destacar que além da aplicação de manejo na cultura da soja, o herbicida 2,4-D é importante ferramenta no controle de soja voluntária, em virtude do vazio sanitário adotado pelos estados, visando reduzir a incidência da ferrugem asiática na cultura da soja. Nos estados produtores de algodão, o herbicida 2,4-D também é uma das melhores opções na erradicação da soqueira da cultura, isolado em pós corte no toco da soqueira, ou pós rebrota, isolado ou em misturas com outros herbicidas.

(MS): Quais as indicações corretas de uso do 2,4-D?

Como todo defensivo agrícola, o herbicida 2,4-D deve ser utilizado seguindo as recomendações técnicas que permitem o uso seguro, ou seja, é importante ter pessoal especializado e treinado na aplicação dos defensivos agrícolas, alfabetizado, para ler e entender os rótulos dos produtos, e principalmente um técnico para acompanhar as aplicações.

Isto irá permitir o uso do herbicida nas doses corretas, quais espécies são alvo, melhor estádio para controle das espécies daninhas presentes e horário da aplicação. O uso correto evita que ocorram falhas na aplicação, que provocam controle insatisfatório e toxicidade à cultura alvo, ou ainda em culturas adjacentes, o que encarece o sucesso do manejo das plantas daninhas. É importante citar que qualquer herbicida aplicado em condições indevidas está sujeito à deriva e os consequentes efeitos, seja o mesmo volátil ou não volátil.

O herbicida 2,4-D atualmente comercializado no Brasil é a base de formulação amina apresenta a vantagem de não ser volátil, o que aumenta a segurança de seu uso correto.

(MS): Quais os cuidados necessários que o produtor deve ter ao usar o herbicida?

Uma preocupação adicional importante a destacar no uso do herbicida 2,4-D, é a tecnologia de aplicação, pois a regulagem inadequada do equipamento pode provocar falha no controle e risco de toxicidade, além de gastos desnecessários ocorrido pela perda de produto. Desta forma, esta equipe ou o aplicador deve ser treinado para definir a ponta de pulverização adequado, determinar a dose recomendada e usar os EPI apropriados: viseira ou óculos, respiradores (máscaras), macacão e avental, botas e luvas.

(MS): Em termos econômicos, o uso da molécula 2,4-D é a melhor opção para produtores agrícolas? Qual o custo que seria agregado ao manejo, sem o uso desta ferramenta?

Sem dúvida o herbicida 2,4-D apresenta uma relação de custo x benefício que se destaca dentre os demais. Em 2015 publicamos um livro onde destacávamos a importância deste herbicida e uma projeção de aumento de custo que iria ocorrer com ausência desta ferramenta nas principais culturas de expressão no Brasil.

Na época, na cultura da soja, na operação de manejo das plantas daninhas, o aumento médio no custo seria de 418%, considerando as diferentes opções que poderiam ser utilizadas como substitutos.

Já na cultura do milho este aumento seria de 496%, enquanto que na cultura da cana-de-açúcar a projeção seria de 623% superior. A operação de manejo das plantas daninhas visando o plantio direto da cultura de trigo e o controle em pós-emergência na cultura do arroz, teriam um acréscimo de custo da ordem de 550% e 557%, respectivamente. Finalizando a substituição do herbicida 2,4-D nas culturas em que o herbicida é registrado e utilizado no Brasil (soja, cana-de-açúcar, milho, trigo, arroz e café) traria um aumento de custo para a agricultura do país de, em média 506,53% a mais no montante utilizado com o herbicida 2,4-D para o manejo de plantas daninhas nessas culturas.

(MS): Qual importância da manutenção do 2, 4-D em um cenário de restrições de uso do paraquate?

O questionamento acima tem amplitude maior ainda, pois independente da restrição do paraquat pelas questões de toxicologia, temos o agravante da comprovada resistência múltipla da Conyzasp, que no sudoeste do Pr, já não é mais controlada pelo glyphosate (inibidor de EPsPs) e também pelo paraquat (inibidor FSII). A possibilidade de utilização do herbicida 2,4-D em misturas na operação de manejo, permite maior chance de sucesso nesta operação, pois ainda não temos relatos de problemas com resistência de plantas daninhas a este mecanismo de ação.

Como mencionado anteriormente a relação do custo x benefício deste produto permite ao produtor o controle satisfatório, desde que utilizado dentro das recomendações técnicas preconizadas.

Sobre os autores: 

Robinson Osipe é Engenheiro Agrônomo formado pela Fundação Faculdade de Agronomia Luiz Meneghel (FFALM – Bandeirantes/PR, 1980), concluiu o mestrado em Fitotecnia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP – Piracicaba, 1993) e o doutorado em Agricultura na Universidade Estadual Paulista (UNESP – Botucatu, 1998). A principal linha de pesquisa vincula-se à avaliação de matocompetição, manejo de plantas daninhas no sistema de plantio direto, resistência e seletividade dos herbicidas para culturas. É professor adjunto do Departamento de Produção Vegetal da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP/CLM-Bandeirantes/PR), lecionando as disciplinas de Matologia e Agroecologia.

Jethro Barros Osipe é Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), mestre em Agronomia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Agronomia da UEM. Atualmente, atua como professor colaborador na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP/CLM) e na Universidade Norte do Paraná (UNOPAR). Desenvolve trabalhos de pesquisa relacionados ao manejo de plantas daninhas nas principais culturas agrícolas.

Sobre a inciativa 2,4-D: A Iniciativa 2,4-D, grupo formado pela união entre o setor privado (Dow AgroSciences e Nufarm) e pesquisadores de instituições acadêmicas, possui o propósito de gerar informação técnica sobre o uso correto e seguro de defensivos agrícolas.

Para saber mais sobre a Inciativa 2,4 D clique aqui.

Elaboração: Equipe Mais Soja

 

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA