Ricardo Bemfica Steffen – Eng. Agr. Dr. Ciência do Solo. Responsável técnico da BioTec RS Tecnologia e Consultoria. agronomors@gmail.com

Gerusa Pauli Kist Steffen – Eng. Agr. Dra. Ciência do Solo. Pesquisadora do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária (DDPA) da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação (SEAPI).

Para que a produtividade seja compatível com a rentabilidade esperada pelo produtor e com o potencial da cultura, é necessária uma constante busca por soluções e adoção de medidas relacionadas à nutrição, ao manejo e às condições fitossanitárias da lavoura. O controle eficiente de fitonematoides não se baseia na tentativa de sua erradicação, mas na diminuição da população presente no solo a níveis não prejudiciais à produtividade.

Embora a biologia e o comportamento dos nematoides fitopatogênicos sejam bem conhecidos pela pesquisa, o controle destes organismos a campo apresenta grandes limitações, tanto pela carência de produtos totalmente eficientes como pela falta de informação por parte da assistência técnica, uma vez que, frequentemente, a baixa produtividade observada em áreas infestadas pelos fitonematoides seja atribuída inicialmente a problemas de fertilidade do solo, fitotoxicidade a produtos químicos ou ação de fungos ou bactérias de importância agrícola.

Para a implementação de um manejo eficiente e sustentável de nematoides na cultura da soja, deve-se, antes de qualquer tomada de decisão, identificar qual ou quais gêneros e espécies estão presentes na área e em que nível populacional. Sabe-se que o manejo deve ser específico para determinadas espécies ou grupos de espécies, evitando assim controlar apenas parte dos nematoides presentes nas áreas e beneficiar o desenvolvimento de outras espécies fitopatogêncicas. Como exemplo, cita-se a utilização de Crotalaria juncea que é recomendada para o manejo de Meloidogyne javanica, mas é suscetível a M. incognita e a utilização de linhagens de girassol, as quais são utilizadas no manejo de Heterodera glycines, mas multiplicam espécies de Meloidogyne sp. e Pratylenchus brachyurus. Outras espécies de plantas de cobertura de inverno e de verão podem ser utilizadas, desde que observado o fator de reprodução de cada material.

 Após a correta amostragem de solo e raízes, a qual possibilitará que o laboratório identifique e quantifique corretamente o problema, os consultores, técnicos e produtores poderão adotar medidas que visem a redução da população dos fitonematoides que estiverem presentes no solo.

Mesmo que sejam adotadas medidas para prevenir a disseminação de fitonematoides no solo, estes organismos podem ser facilmente disseminados por meios, às vezes, aparentemente inofensivos, como o tráfego de animais em áreas infestadas, utilização de sementes, máquinas ou implementos contaminados, entre outros.

Existem diferentes tecnologias empregadas no manejo de nematoides na cultura da soja. Atualmente, o controle químico tem dividido espaço com os produtos à base de agentes biológicos, que atuam de forma direta ou indireta no controle destes organismos.

Para o controle químico de nematoides na cultura da soja, utilizam-se atualmente produtos via tratamento de semente (TS) ou aplicação direta sobre o solo. Dentre as opções destacam-se:

1) Tiodicarbe (inseticida de contato e ingestão do grupo metilcarbamato de oxima) + Imidacloprido (inseticida sistêmico do grupo neonicotinoide), os quais inibem a enzima acetilcolinesterase, resultando em acúmulo de acetilcolina, interferindo na transmissão de estímulos a células musculares, glandulares e do sistema nervoso central;

2) Abamectina (inseticida de contato e ingestão do grupo das avermectinas), atua no estímulo à liberação do ácido gama aminobutírico (GABA), resultando em paralisação dos neurotransmissores;

3) Cadusafós (inseticida de contato e ingestão do grupo químico organofosforado), atua na inibição da enzima acetilcolinesterase, interferindo na transmissão de estímulos do sistema nervoso central.

No entanto, embora o manejo de áreas infestadas com a utilização de produtos químicos represente a realidade em considerável porcentagem dos produtores que buscam alternativas ao controle de fitonematoides, os ativos atualmente utilizados apresentam pelo menos dois aspectos a serem observados: 1) possuem efeito residual relativamente baixo, em comparação ao ciclo da cultura, uma vez que os produtos utilizados via TS protegem o sistema radicular por período não superior a 21 dias e em zona restrita e; 2) não são seletivos, ou seja, atuam sobre os fitonematoides, mas também sobre boa parte dos organismos e microrganismos rizosféricos, resultando em diminuição da fertilidade biológica destes ambientes.

Por consequência, juntamente com a ação de proteção da planta ao ataque de fitonematoides, os ativos químicos contribuem para a redução das interações biológicas entre a cultura e o solo. Devido a isto, esforços têm sido concentrados na integração de medidas alternativas, visando um manejo mais sustentável, por meio da utilização de insumos biológicos.

A utilização de bioprodutos à base de Trichoderma spp. (principalmente as espécies Trichoderma harzianum e T. asperellum e combinações de diferentes isolados) na supressão de fitonematoides está baseada na viabilização da produção de grãos mesmo em ambientes infestados por determinadas espécies de nematoides. Esta ação é decorrente dos efeito de antibiose, parasitismo e competição do fungo Trichoderma spp. com os fitonematoides. Aliado a estes efeitos, a ação complexa do Trichoderma sp. como estimulador do crescimento vegetal, realizada por interações com fatores bioquímicos e pela produção de diversas enzimas e compostos benéficos, dá condições para a planta se desenvolver e expressar seu potencial produtivo em ambientes infestados.

Bioprodutos à base de Bacillus spp. (principalmente Bacillus subtilis, B. amyloliquefaciens e B. firmus) atuam por antibiose e, ocasionalmente, por parasitismo e competição. Aliado ao efeito de antibiose, este agente biológico atua no aumento da fixação biológica de nitrogênio, solubilização de nutrientes, síntese de fitormônios e melhoria das condições do solo.

Embora os agentes biológicos Trichoderma e Bacillus ocupem posição de destaque no momento de escolha de um bioproduto para manejo de áreas infestadas com fitonematoides, pesquisas demonstram que os agentes Paecilomyces lilacinus, Pausteria penetrans e Pochonia chlamydosporia possuem potencial de controle de fitonematoides superior aos demais. Estes agentes atuam diretamente na diminuição da eclosão dos ovos do fitopatógenos e na redução da fertilidade das fêmeas. Atualmente, o desavio por parte da pesquisa concentra-se em alternativas de multiplicação em massa e estabilização de formulados comerciais destes agentes biológicos.

Além da utilização de insumos químicos ou biológicos para o controle de nematoides, o controle cultural baseia-se na adoção de manejo adequado, tanto do solo como das culturas, a fim de diminuir a população de fitonematoides a níveis toleráveis no solo. Dentre as alternativas, a rotação de culturas apresenta-se como ferramenta fundamental no manejo de áreas infestadas. A prática tem por objetivo interromper o ciclo biológico de determinadas espécies de nematoides que estejam causando danos às espécies cultivadas. Neste sentido, devem-se identificar as áreas infestadas e introduzir nestes locais espécies vegetais que apresentem tolerância ou resistência à ação do nematoide identificado. Para tal, aconselha-se consultar a assistência técnica local para buscar informações sobre os cultivares a serem utilizados.

Aliado à rotação de culturas, a utilização de plantas antagonistas aumenta significativamente as chances de controle sustentável de fitonematoides. As principais espécies recomendadas são a mucuna (Mucuna aterrina ou M. pruriens) e a crotalária (principalmente Crotalaria spectabilis). A mucuna, devido à ação da Dopamina (L-Dopa), tem efeito direto tanto na reprodução como na atividade dos nematoides. A crotalária, pela ação da Monocrotalina, que a exemplo da L-Dopa, age na atividade do organismo no solo. O cultivo alternado de espécies antagônicas de inverno e de verão com plantas não hospedeiras por um período de pelo menos dois anos, também pode permitir a reutilização de áreas onde foi detectada a presença de fitonematoides.

Em algumas regiões, a não utilização agrícola de áreas infestadas por nematoides por um período determinado (pousio) pode ser considerada uma forma de controle destes organismos. Esta técnica consiste em suprimir as fontes alimentares dos fitonematoides, forçando sua redução populacional no solo. Mas deve-se ter cuidado com esta prática, visto que plantas espontâneas podem servir como hospedeiras temporárias a determinadas espécies de nematoides e pelo fato de algumas espécies permanecerem ativas no solo mesmo em períodos de pousio prolongados.

Em vista do exposto, recomenda-se que áreas onde a presença de fitonematoides tenha sido confirmada através da análise nematológica tanto do solo como dos tecidos vegetais, recebam manejo diferenciado, utilizando-se cultivares tolerantes a estes organismos, rotações de culturas com plantas que apresentam efeito antagônico e adoção de um planejamento de utilização da área, visando, dentre outros fatores, a redução da população de fitonematoides a um patamar que permita a utilização sustentável do sistema agrícola.

Confira a primeira parte do trabalho dos pesquisadores Ricardo e Gerusa Steffen aqui.   

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