O objetivo deste trabalho foi avaliar os danos causados por deriva simulada do herbicida dicamba na cultura da soja

Autores: MARIANA P. SANTOS¹, GUSTAVO S. VIEIRA¹, GUILHERME S. ALVES², THIAGO LANDIM³, THALES C. ALVES², SÉRGIO M. SILVA4, JOÃO PAULO A. R. DA CUNHA5

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar os danos causados por deriva simulada do herbicida dicamba na cultura da soja. Utilizou-se a cultivar de soja Nidera 6906 RR2 IPRO, não resistente ao dicamba. As doses do herbicida dicamba foram 0; 4,8; 12; 24; 48 e 480 g equivalente ácido ha-1, aplicado em dois estádios fenológicos da soja (vegetativo- V3 e reprodutivo- R1). As aplicações foram feitas empregando-se um pulverizador costal acionado por pressão constante de CO2. Utilizou-se o volume de calda de 200 L ha-1 e a ponta AIXR 110015. As características avaliadas foram porcentagem de injúria aos 1,3, 7, 14 e 21 dias após a aplicação, e a produtividade. A fitointoxicação do dicamba, bem como a produtividade da soja, variaram de acordo com a interação entre estádio fenológico da cultura e dose do herbicida. O rendimento da cultura foi reduzido exponencialmente à medida em que as plantas foram expostas à crescentes doses do dicamba.

PALAVRAS-CHAVE: estádio fenológico, produtividade, Glycine max.

PHYTOTOXICITY CAUSED BY SIMULATED DRIFT OF DICAMBA ON SOYBEAN CROP

ABSTRACT

This study aimed to evaluate the damages caused by simulated drift of dicamba on soybean crop. The soybean cultivar used was Nidera 6906 RR2 IPRO, which is non-resistant to dicamba. Six rates of dicamba (0, 4.8, 12, 24, 48, and 480 g acid equivalent ha-1) were applied at two soybean stages (early vegetative – V3 and early reproductive – R1). Applications were performed using a CO2-operated manual backpack sprayer calibrated to apply 200 L ha-1, sprayed through AIXR 110015 nozzles. The characteristics evaluated were the percentage of injury at 1, 3, 7, 14, and 21 days after application, and the yield. The injury and yield loss caused by dicamba depended on its rate and soybean stage. Soybean yield reduced exponentially as the dicamba rate increased.

KEYWORDS: soybean stage, yield, Glycine max.

INTRODUÇÃO

O Brasil é considerado o segundo maior produtor mundial de soja (Glycine max L. Merril), com produção estimada de 113 milhões de toneladas na safra 2016/2017 (CONAB, 2017). Um problema relevante em áreas onde a cultura é cultivada é o controle de plantas infestantes.

Gazziero (2014) relatam que a presença da buva (Conyza spp.) em lavouras de soja provoca perdas de rendimento que variam de 20 a 70% conforme o nível de infestação. Por esta planta ser resistente ao glifosato, o herbicida dicamba tem sido utilizado como uma alternativa no seu controle.

Os primeiros efeitos nas plantas dicotiledôneas sensíveis são caracterizados por anormalidades no crescimento, danos nos cloroplastos, clorose e destruição da integridade das membranas e do sistema vascular (COBB; READE, 1992; STERLING; HALL, 1997; GROSSMANN, 2000). Wax et al. (1969) relatam que a soja é naturalmente suscetível ao dicamba em todos os seus estádios de desenvolvimento.

No entanto, espera-se que a introdução de cultivares resistentes ao dicamba aumentará o uso deste herbicida. Como conseqüência, deriva proveniente de aplicações de dicamba para culturas e/ou plantas não resistentes a este herbicida pode causar problemas irreversíveis. Desta forma, o objetivo deste trabalho foi avaliar os danos causados por deriva simulada do herbicida dicamba na cultura da soja.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento de campo foi conduzido na Fazenda Capim Branco (15° 53’ 287” S e 48° 20’ 514”s O), localizado no município de Uberlândia-MG.

O estudo foi conduzido em delineamento de blocos casualizados, com quatro repetições, sendo seis tratamentos em dois estádios fenológicos da soja (vegetativo- V3 e reprodutivo- R1). Os tratamentos corresponderam a diferentes doses do herbicida dicamba: 0; 4,8; 12; 24; 48 e 480 g equivalente ácido ha-1, sendo 0; 1; 2,5; 5; 10 e 100% da dose recomendada, respectivamente. Utilizou-se o herbicida dicamba que possui 480 g ea dicamba L-1 e cuja dose recomendada é de 1,2 L ha-1.

A cultivar de soja utilizada foi a Nidera 6906 RR2 IPRO, não resistente ao dicamba e semeada em espaçamento de 0,45 m entrelinhas com população final de 400 mil plantas ha-1. As parcelas experimentais consistiram de cinco linhas espaçadas entre si por 0,45 m e comprimento de 5 m cada. Como parcela útil consideraram-se as três linhas centrais com 3 m de comprimento. As aplicações foram feitas empregando-se um pulverizador costal acionado por pressão constante de CO2, dotado de barra com seis pontas de pulverização AIXR 110015 (Spraying Systems Co., Wheaton, IL, USA), espaçadas 0,5 m entre si. A altura da barra em relação ao dossel da cultura foi mantida em 0,5 m. O volume de calda foi de 200 L ha-1 e a pressão de trabalho foi de 250 kPa. As condições de temperatura, umidade do ar e velocidade do vento foram monitoradas durante as aplicações: temperatura inferior a 23°C, umidade superior a 84% e velocidade média do vento de 4 km h-1. As características avaliadas foram porcentagem de injúria aos 1, 3, 7, 14 e 21 dias após a aplicação e a produtividade.

Os níveis de injúria foram baseados em notas visuais que variaram de 0% (sem sintomas de fitointoxicação) até 100% (morte das plantas). Para determinação da produtividade, as plantas foram colhidas manualmente e trilhadas por uma trilhadora elétrica. As amostras contendo grãos sem impurezas foram pesadas e a massa foi corrigida para 12% de umidade. Conhecendo-se a área colhida, foi possível extrapolar a quantidade de grãos colhidos para kg ha-1.

Os dados de injúria e produtividade foram submetidos à análise de variância e comparações entre estádios fenológicos foram feitas por análise conjunta utilizando-se o programa estatístico Sisvar, versão 5.6 (FERREIRA, 2011). Para a mesma dose do herbicida, as médias foram comparadas entre si pelo teste de Tukey a 0,05 de significância. Regressões de dose-resposta do herbicida foram ajustadas utilizando-se o programa SigmaPlot, versão 11.0 (Systat Software Inc., Chicago, IL, USA).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados de fitointoxicação causada pelo dicamba na soja variaram de acordo com a interação entre estádio fenológico da cultura e dose do herbicida (Tabela 1).

TABELA 1. Injúria causada por diferentes doses do herbicida dicamba em dois estádios fenológicos da cultura da soja.

Nas avaliações feitas 1 DAA, o estádio reprodutivo teve maiores níveis de fitointoxicação do que o estádio vegetativo proveniente de aplicações de dicamba nas doses de 4,8 a 480 g ea ha-1. Similarmente, o mesmo foi observado para as doses de 12, 24 e 48 g ea ha-1 aos 3 DAA, e 4,8 e 12 g ea ha-1 aos 7 DAA. Aos 14 e 21 DAA, o estádio vegetativo teve maiores porcentagens de injúria comparadas ao estádio reprodutivo para as doses inferiores a 48 g ea ha-1.

Para a maior dose utilizada (480 g e.a. ha-1), o estádio vegetativo também sofreu maior nível de injúria aos 3 e 7 DAA do que o estádio reprodutivo; porém, aos 14 e 21 DAA, ambos os estádios obtiveram graus similares de fitointoxicação causada pelo dicamba, caracterizados por morte total das plantas (100% de injúria). Porcentagens de injúria superiores a 0% nas parcelas onde não houve aplicações do herbicida (0 g e.a. ha-1) podem ser explicadas por possível deriva e volatilização do produto proveniente das aplicações nas parcelas adjacentes.

Embora se tenha tido o cuidado de delimitar as laterais da parcela aplicada com uma barreira física plástica, não se pode eliminar por completo a deriva e tão pouco a volatilidade do herbicida. A Figura 1 mostra as curvas de injúria nas plantas de soja em função da dose do dicamba.

FIGURA 1. Injúria causada em dois estádios fenológicos da cultura da soja em função de doses do herbicida dicamba. DAA: dias após a aplicação.

Em todos os casos, foram ajustadas equações exponenciais do tipo ŷ =y0+a*(1-exp(- b*x))+c*(1-exp(-d*x)), significativas a α = 0,05 e com coeficientes de determinação (R2) superiores a 97%. Com relação à produtividade, para as doses de 0; 4,8; 12 e 24 g ea ha-1, que correspondem a 0; 1; 2,5 e 5% da dose recomendada do dicamba (480 g ea ha-1), os estádios vegetativo e reprodutivo tiveram produtividades semelhantes, variando de 1627,7 a 1264,4 kg ha-1, uma redução de, em média, 23% em relação às plantas que não receberam aplicação do herbicida (Tabela 2).

TABELA 2.Produtividade da soja após a aplicação de diferentes doses do herbicida dicamba em dois estádios fenológicos da cultura.


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A maior dose do dicamba provocou morte completa das plantas em ambos os estádios, e como consequência, a produtividade foi nula. Na dose de 48 g ea ha-1 (10% da dose recomendada), no estádio vegetativo, a produtividade foi de 1005 kg ha-1. Kelley et al. (2017) relataram que uma aplicação de dicamba a 1% da dose recomendada na soja reduziu a produtividade em 6% quando aplicado no estádio V3, assim como observado neste trabalho.

Os autores também concluíram que maiores perdas de produtividade na soja são esperadas quando a exposição ao dicamba ocorre nas fases de florescimento, dependendo da dose do herbicida. Egan et al. (2014) mostraram que a soja é mais sensível ao dicamba durante o florescimento. Tal fato foi observado neste trabalho apenas para a dose de 48 g ea ha-1. A produtividade da cultura reduziu exponencialmente (ŷ = a*exp(-b*x)) à medida em que as plantas foram expostas à crescentes doses do dicamba, em ambos os estádios fenológicos (Figura 2).

FIGURA 2. Produtividade da soja em função da aplicação de crescentes doses do herbicida dicamba em dois estádios fenológicos da cultura.

CONCLUSÃO

A fitointoxicação causada pelo dicamba, bem como a produtividade da soja, variaram de acordo com a interação entre estádio fenológico da cultura e dose do herbicida. Aplicações de doses inferiores a 24 g ea ha-1 (5% da dose recomendada) no estádio vegetativo resultaram em maiores níveis de injúria do que no estádio reprodutivo aos 21 dias após a aplicação, porém não houve diferença de produtividade.

A aplicação das doses de 48 e 480 g ea ha-1 (10% e 100% da dose recomendada) de dicamba no estádio reprodutivo provocaram morte das plantas, e consequentemente, a produtividade foi nula. O rendimento da cultura foi reduzido exponencialmente à medida em que as plantas foram expostas à crescentes doses do dicamba.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais(FAPEMIG) pelo suporte financeiro.

REFERÊNCIAS

COBB, A.; READE, J.P.H. Auxin-Type Herbicides. In: COBB, A.H.; READE, J. P. H. (ed.). Herbicides and Plant Physiology. London: Chapman & Hall, 1992, p.82-106.

CONAB-Companhia Nacional de Abastecimento. Oitavo levantamento da safra brasileira de grãos. 2017. Disponível em: <http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/17_05_12_10_37_57_boletim_graos_maio_2 017.pdf>. Acesso em: 27 maio 2017.

EGAN, J.F.; BARLOW, K.M.; MORTENSEN, D.A. A meta-analysis on the effects of 2,4-D and dicamba drift on soybean and cotton. Weed Science, Lawrence, v.62, n.1, p.193-206, 2014.

FERREIRA, D.F. A computer statistical analysis system. Ciência e Agrotecnologia, Lavras, v.35, n.6, p.1039-1042, 2011.

GAZZIERO, D.L.P. Manejo de plantas daninhas na cultura da soja: uma filosofia de trabalho. In: MONQUERO, P.A. (ed.). Manejo de plantas daninhas em culturas agrícolas. Viçosa, 2014, p.31-41.

GROSSMANN, K. Induction of abscisic acidis a common effect of auxin herbicides in susceptibleplants. Journal of Plant Physiology, Leipzig, v.149, n.1, p.475-478, 2000.

KELLEY, K.; RIECHERS, D.; NORDBY, D.; HAGER, A. Plant growth regulator injury to soybean. 2017. Disponível em: <http://weeds.cropsci.illinois.edu/extension/factsheets/PGR.pdf>. Acesso em: 30 maio 2017.

STERLING, T.M.; HALL, J.C. Mechanism of action of natural auxins and the auxinic herbicides. In: ROE, R.M. et al. (ed.). Herbicide activity: toxicology, biochemistry and molecular biology. Amsterdam: IOS Press, 1997, p.111-141.

WAX, L. M.; KNUTH, L. A.; SLIFE, F. W. Response of soybeans to 2,4-D, dicamba and picloram. Weed Science, Lawrence, v.17, n.1, p.388-393, 1969.

Informações dos autores:  

1 Graduando (a) em Agronomia, Instituto de Ciências Agrárias (ICIAG), Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Uberlândia/MG -Brasil;

2Engenheiro Agrônomo, Doutorando, ICIAG, UFU, Uberlândia/MG – Brasil.

3Engenheiro Agrônomo, Mestrando,ICIAG, UFU, Uberlândia/MG – Brasil.

4Engenheiro Agrônomo, Pós-Doutorando, ICIAG, UFU, Uberlândia/MG – Brasil.

5Engenheiro Agrícola, Professor, ICIAG, UFU, Uberlândia/MG – Brasil.

Disponível em: Anais do VIII Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação – SINTAG, Campinas – SP, Brasil.

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