O presente trabalho teve por objetivo verificar a germinação de sementes de soja sob baixa temperatura, no intuito de simular a ocorrência no campo, de temperaturas inferiores as consideradas ideais, por ocasião da semeadura antecipada.

Autores: BONETTI, R.A.T.1; ARNDT, J.R.1; ALTIZANI JÚNIOR, J.C.1; SHINOZAKI, G.A.1; LIMA, C.B.1

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento permitiu a antecipação do plantio de soja para algumas regiões do Paraná em cerca de 10 dias, desde a safra 2011/12. A autorização atendeu a uma reivindicação dos produtores paranaenses, que trabalham com variedades precoces e semi precoces, para adiantar a colheita da soja e como consequência, apressar o plantio do milho safrinha, visando escapar das geadas de inverno. Desse modo, os municípios contemplados pela resolução podem antecipar o plantio da soja a partir do dia 20 de setembro nas regiões Norte, Oeste, Centro e Noroeste (Coasul, 2011). Contudo, por utilizarem um período de transição entre as estações do ano, a lavoura pode conviver com estresses climáticos, como a diminuição da temperatura do solo durante a fase inicial de desenvolvimento, capazes de provocar prejuízos na colheita.

A temperatura média do solo, adequada para a semeadura da soja, varia entre 20 ºC a 30 ºC, sendo 25 ºC a temperatura ideal para uma emergência rápida e uniforme. Semeadura em solo com temperatura média inferior a 20 ºC, pode resultar em redução nos índices de germinação e de emergência, além de provocar lentidão nesse processo. Isso pode ocorrer em semeaduras anteriores à época indicada em cada região, especialmente nas regiões frias (Garcia et al., 2007). Desse modo, é fundamental escolher cultivares adaptadas ao clima de cada região, já que a capacidade da semente germinar em solos frios é influenciada pela herança genética (Barros et al., 1999).

Para melhor compreensão dos efeitos desses estresses sobre a cultura, os laboratórios de análise de sementes utilizam testes de vigor, com a finalidade de analisar como as plantas reagem quando são submetidas a situações desfavoráveis. Segundo Dias & Alvarenga (1999) o teste de germinação a baixa temperatura é classificado como um teste de estresse com possibilidade de padronização. Tem como princípio que, baixas temperaturas nos estádios iniciais de embebição prejudicam a germinação e o desenvolvimento das plântulas.

Dependendo da sua condição fisiológica, a semente apresentará resposta diferenciada quando colocada para germinar sob temperatura abaixo da ideal. O estresse ocasionado pela baixa temperatura pode alterar o padrão de germinação, reduzindo a velocidade de emergência. Dessa forma, lotes de sementes da mesma espécie, com capacidade de germinação semelhante, porém diferindo quanto ao vigor, podem apresentar diferenças no percentual de emergência de plântulas, permitindo inferir sobre o seu desempenho no campo, especialmente quando a semeadura for realizada em locais sujeitos a baixa temperatura.

O presente trabalho teve por objetivo verificar a germinação de sementes de soja sob baixa temperatura, no intuito de simular a ocorrência no campo, de temperaturas inferiores as consideradas ideais, por ocasião da semeadura antecipada.

O estudo foi conduzido no Laboratório de Análise de Sementes da Universidade Estadual do Norte do Paraná, Campus Luiz Meneghel, Bandeirantes/PR. Foram avaliadas duas cultivares precoces de soja M6210 IPRO e M6410 IPRO, cada uma com 4 lotes de sementes, isentas de tratamento sanitário, cedidas pela empresa Sementes Boa Nova, em embalagens plásticas transparentes, com percentuais de germinação informados no rótulo de 80%.

As sementes foram submetidas as seguintes avaliações: Determinação do teor de água, pelo método da estufa a 130 ± 3 ºC por 1 hora, com duas sub amostras de 10 g de sementes de cada lote (Brasil, 2009). Teste de germinação, com quatro repetições de 50 sementes de cada lote/cultivar, distribuídos em rolos de papel filtro previamente umedecidos com água destilada, embalados em sacos plásticos transparentes, e mantidos em germinador sob temperatura alternada de 20-30 ºC. As avaliações foram realizadas no quinto e oitavo dia após a instalação (Brasil, 2009), registrando-se o número de plântulas normais (folhas cotiledonares expandidas).

Teste de germinação a baixa temperatura: com quatro repetições de 50 sementes de cada lote/cultivar, distribuídos em rolos de papel filtro previamente umedecidos com água destilada, embalados em sacos plásticos transparentes, e mantidos em câmara tipo BOD, na temperatura de 18 ºC. A avaliação foi realizada no sexto dia após a instalação (Dias & Alvarenga, 1999), registrando-se o número de plântulas normais (folhas cotiledonares expandidas). Teste de emergência de plântulas, com quatro repetições de 18 células de cada lote/cultivar semeadas em bandejas plásticas com 72 células, previamente preenchidas com substrato comercial Mecplant®, sendo semeada uma semente por célula. As bandejas foram mantidas sob estufa plástica modelo arco e, irrigadas diariamente pela manhã e à tarde. Aos sexto e oitavo dia após a semeadura foi contabilizado o número de plântulas normais emersas (folhas cotiledonares expandidas).

O delineamento estatístico foi inteiramente casualizado. Os dados obtidos em cada teste foram submetidos à análise de variância e as médias agrupadas pelo teste de Scott Knott, a 5%. Os dados referentes ao grau de umidade não foram analisados, servindo para caracterização inicial dos lotes.

As sementes de sojas das cultivares M6210 e M6410 apresentaram teor de umidade variando de 8,3 a 9,8% (Tabela 1), considerados percentuais inferiores ao limite mínimo de 12% estabelecido para sementes dessa cultura. Entretanto, esse valor está acima da média nacional de 6,3% indicada por Lorini (2016). O fato da média nacional estar muito inferior ao limite mínimo recomendado, preocupa na medida em que, valores de umidade inferiores a 12% podem propiciar a ocorrência de danos mecânicos imediatos, como fissuras, rachaduras e quebras. Tais danos mecânicos na maioria dos casos, não são aparentes e prejudicam a integridade física do tegumento responsável por regular a taxa de hidratação dos cotilédones e eixo embrionário, além de garantir o bom desempenho fisiológico da semente após a semeadura (Lorini, 2016).

Os testes de primeira leitura de germinação e de germinação em laboratório distinguiram os lotes da cv. M6410 em dois níveis, indicando os lotes 3 e 4 como sendo de menor potencial fisiológico (Tabela 1). De acordo com Vieira & Carvalho (1994), o teste de primeira leitura da germinação indiretamente avalia a velocidade de germinação, pois maior porcentagem na primeira leitura significa que as sementes dessa amostra germinaram com maior rapidez que as demais. Este teste pode, muitas vezes, expressar melhor as diferenças de velocidade de germinação entre lotes do que os índices de velocidade de germinação. No teste de germinação a baixa temperatura o percentual de plântulas normais foi nulo, para todos os lotes em ambas as cultivares (Tabela 1) sugerindo que, a temperatura de 18 ºC provocou um estresse capaz de alterar o padrão de germinação.


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No teste de emergência de plântulas os percentuais de plântulas normais emersas ficaram entre 89 a 97%, superando os percentuais verificados no teste de germinação e também o informado nos rótulos das embalagens (Tabela 1), comprovando que as sementes dessas cultivares não são a melhor escolha para semeadura em locais com temperaturas menores ou iguais a 18 ºC. Segundo Vieira & Carvalho (1994) o teste de emergência de plântulas, se conduzido na época normal de semeadura da cultura, fornecerá a capacidade do lote em estabelecer-se. Sendo assim, a adoção do teste de germinação sob baixa temperatura, para cultivares com possibilidade de utilização no plantio antecipado, pode predizer o comportamento dessas sementes sob esse tipo de estresse e, ao mesmo tempo, ajudar na escolha de cultivares adequados para tal uso.

Os lotes de sementes de soja das cultivares analisadas demonstraram elevada sensibilidade a baixa temperatura, devendo ser semeados somente em condições de temperatura superiores a 18 °C, caso contrário possivelmente poderão ocorrer baixos índices de germinação e emergência de plântulas ou ainda, elevado percentual de plântulas anormais a campo, redução significativa na produtividade e no retorno financeiro.

Referências

BARROS, A.S.R.; DIAS, M.C.L.L.; CICERO, S.M.; KRZYZANOWSKI, F.C. Teste de frio. In: KRZYZANOWSKI, F.C.; VIEIRA, R.D.; NETO, J.B.F. Vigor de Sementes: Conceitos e Testes. Londrina: ABRATES, 1999. 218p.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de sementes. Brasília: MAPA/SDA /ACS, 2009. 399p. COASUL. Cooperativa Agroindustrial. Plantio de soja no Paraná pode ser antecipado em até 10 dias. São João, PR: Imprensa Coasul em agricultura, 18 de julho de 2011. Disponível em: http://www.coasul.com.br/plantio-de-soja-no-parana-pode-ser-antecipado-em-ate-10-dias/. Acessado em 15 fev 2018.

DIAS, D.C.F.S; ALVARENGA, E.M. Germinação a baixa temperatura. In: KRZYZANOWSKI, F.C.; VIEIRA, R.D.; NETO, J.B.F. Vigor de Sementes: Conceitos e Testes. Londrina: ABRATES, 1999. 218p.

GARCIA, A.; PÍPOLO, A.E.; LOPES, I.O.N.; PORTUGAL, F.A.F. Instalação da lavoura de soja: época, cultivares, espaçamento e população de plantas. Embrapa Soja. 2007. 11p. (Embrapa Soja. Circular Técnica, 51).

LORINI, I. Qualidade de sementes e grãos de soja no Brasil – safra 2014/2015. Londrina: Embrapa Soja. 2016. 190p. (Embrapa Soja. Documentos, 378).

VIEIRA, R.D.; CARVALHO, N.M. Testes de vigor em sementes. Jaboticabal: FUNEP. 1994. 164p.

Informações dos autores:  

1Universidade Estadual do Norte do Paraná – Uenp, Campus Luiz Meneghel, Bandeirantes, PR.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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