Horário de aplicação de fungicidas e controle de ferrugem asiática da soja

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Objetivou-se avaliar o momento de aplicação de fungicidas mais adequado para o controle da ferrugem asiática.

Autores:   D. SACON1; E.S. TONELLO1; A. NETTO1; P.M. MILANESI1

Trabalho disponível nos Anais do Evento e publicado com informações adicionais

Resumo

A cada safra, observa-se um aumento na severidade da ferrugem asiática da soja. Desta forma, objetivou-se avaliar o momento de aplicação de fungicidas mais adequado para o controle da ferrugem asiática. O experimento foi realizado na Área Experimental e no Laboratório de Entomologia e Fitopatologia, ambos localizados na UFFS – Campus Erechim, na safra 2016/2017. A cultivar utilizada foi BMX Lança e o experimento foi conduzido em delineamento de blocos casualizados, com 4 repetições, com a aplicação de fungicidas distribuídas nos seguintes tratamentos conforme os horários: T1) 7 h; T2) 9 h; T3) 13 h; T4) 17 h; T5) 20 h; e T6) Testemunha. Realizaram-se quatro aplicações de fungicidas nos estádios fenológicos: V6 (trifloxistrobina/protioconazol); R1 (azoxistrobina/benzovindiflupir); R5.1 (azoxistrobina/benzovindiflupir); e R6 (piraclostrobina/epoxiconazol).

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Durante a condução do experimento, semanalmente, coletaram-se dez amostras foliares por parcela para que, através da escala diagramática, fosse avaliada a severidade da doença e, com isso, calculou-se a Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD). Também foram determinados os componentes de rendimento e produtividade. Os dados foram submetidos à análise de variância e teste de Tukey (p ≤ 0,05) para comparação de médias.Todos os tratamentos diferiram da testemunha quanto a peso de mil grãos, número de vagens por planta, produtividade, severidade da doença e controle. Os tratamentos T1 e T6, apresentaram menores produtividades com 2.575 kg/ha e 2.487 kg/ha, respectivamente. Já T2 (3.705 kg/ha); T3 (3.554 kg/ha), T4 (3.467 kg/ha) e T5 (3.405 kg/ha), apresentaram as maiores produtividades. Quanto ao número de vagens, apenas o tratamento T3 (75,3) diferiu das demais. As aplicações proporcionaram ganhos de 6 a 16 % no peso de mil grãos, em relação a testemunha (0,178 kg). Neste sentido, o controle do tratamento as 7 h pode ter sido comprometido em detrimento do excesso de água (orvalho) sobre as plantas, provocando a diluição, escorrimento e dificuldade de penetração do produto em camadas inferiores da planta.

Palavras-chave: Glycine max L.; Phakopsora pachyrhizi; Controle químico; AACPD.

INTRODUÇÃO

A ferrugem da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, foi relatada pela primeira vez no Brasil no final da safra de 2000/01 sendo que, na safra seguinte, aproximadamente 60% da área cultivada com soja no Brasil foi atingida pelo patógeno, resultando em danos de 112 mil toneladas e perdas de US$ 24,70 milhões (OLIVEIRA; GODOY; MARTINS, 2005; YORINORI et al., 2005).

Diante do exposto, cabe ressaltar que o sucesso no controle da doença não depende exclusivamente do produto fitossanitário, mas também da tecnologia de aplicação, deposição da gota no alvo, momento ideal de aplicação e absorção do produto pela planta (MOREIRA, 2010).

A aplicação de fungicidas é um processo que requer cuidados e um deles está relacionado ao horário, pois ao longo do dia ocorrem variações meteorológicas, como mudança de temperatura, umidade relativa do ar, radiação solar, precipitação, vento e orvalho, fatores estes que exercem forte influência sobre a tecnologia de aplicação adotada, pois tais condições influenciam o comportamento físico dos produtos pulverizadas (CANOVA, 2015).

A formação de orvalho é mais um entrave na região Sul do Brasil, representado pelo acúmulo de água na superfície das plantas, o que provoca redução no período favorável para a aplicação de fungicidas (MENEGHETTI, 2006). Dessa forma, objetivou-se avaliar o momento de aplicação mais adequado para o controle da ferrugem asiática e seus reflexos no rendimento da cultura.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em Erechim, RS (27° 37’ 50” S, 52° 14’ 11” O; altitude: 753 m) na Área Experimental e no Laboratório de Entomologia e Fitopatologia, localizados na Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Erechim, na safra 2016/2017. A semeadura foi realizada no dia 25/11/2016.

Para a condução do experimento foi utilizada a cultivar BMX Lança, de ciclo de maturação 5.8, semeada em espaçamento de 0,5 m entrelinhas e com uma densidade de 14 sementes por metro linear, a fim de se obter um estande final de 280 mil plantas ha-1.

O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados, com 4 repetições. Cada parcela teve dimensões de 3,0 m de largura por 4,0 m de comprimento, totalizando 12,0 m², sendo considerada uma área de 2,0 m de largura por 2,0 m de comprimento no centro de cada parcela, totalizando 4,0 m2 de área útil.

As aplicações de fungicida foram realizadas nos estádios V6; R1; R5.1 e R6 distribuídas nos seguintes tratamentos conforme os horários: T1) Aplicação às 7 horas; T2) Aplicação às 9 horas; T3) Aplicação às 13 horas; T4) Aplicação às 17 horas; T5) Aplicação às 20 horas; e T6) Sem Aplicação. As condições meteorológicas no momento de cada aplicação foram monitoradas e seguem discriminadas na tabela 1.

Tabela 1. Temperatura (Temp. °C) e umidade relativa (UR %) no momento das aplicações de cada tratamento, Erechim, RS, 2017.

Para as aplicações, utilizou-se os fungicidas com as seguintes formulações: trifloxistrobina + protioconazol (70 + 60 g i.a. ha-1) em V6; azoxistrobina + benzovindiflupir (60 + 30 g i.a. ha-1) em R1; azoxistrobina + benzovindiflupir (60 + 30 g i.a ha-1) em R5.1; e piraclostrobina + epoxiconazol (91,5 + 109,8 g i.a ha-1) em R6. Acrescido de óleo mineral 0,5 (v/v). As aplicações foram realizadas com o auxílio de um pulverizador costal pressurizado a CO2, com uma pressão de 40 Ib pol-2 e bico Cônico TXA8002VK, regulado para uma vazão de 150 L ha-1.

As avaliações do progresso da doença iniciaram-se no momento da identificação dos primeiros sintomas de ferrugem asiática. Para isso, realizaram-se coletas de dez amostras foliares (trifólios) por parcela, em intervalos de 7 dias. Os trifólios foram comparados por meio da escala diagramática de Godoy, Koga e Canteri (2006) para avaliação da severidade de ferrugem asiática.

Com base nas informações obtidas por meio da escala de severidade para a ferrugem asiática, a partir de cada avaliação, determinou-se a Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD). Os valores de AACPD foram calculados conforme equação proposta por Campbell e Madden (1990):

 

Yi e Yi+1: valores de duas leituras consecutivas de severidade; e ti e ti+1: datas das duas leituras.

Procedeu-se também a determinação dos componentes de rendimento: número de vagens por planta e peso de mil grãos – PMG (BRASIL, 2009), para cada tratamento. Para a quantificação do número de vagens por planta foram coletadas aleatoriamente 10 plantas por parcela, antes da colheita. O peso de mil grãos, referente a cada amostra, foi posteriormente somado ao peso total de grãos de cada tratamento, a fim de obter-se a produtividade (kg ha-1).

Após a colheita das plantas presentes na área útil de cada parcela, realizou-se a trilha das amostras com o auxílio de uma trilhadora estacionária de parcelas e, após, pode-se estimar a produtividade (kg ha-1) para cada tratamento.

Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância por meio do teste F (p ≤ 0,05) e, se significativos, à comparação de médias pelo teste de Tukey (p ≤ 0,05). As análises foram realizadas por meio do software estatístico ASSISTAT versão 7.7 (SILVA & AZEVEDO, 2009).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O início da infecção de ferrugem asiática nas parcelas foi relatado no dia nove de fevereiro. Porém, a partir do dia 23 do mesmo mês, houve diferenciação entre os tratamentos quanto à severidade da doença. O tratamento sem aplicação fungicida apresentou a maior severidade (78,5%) ao final da avaliação (13/03), seguido pelos tratamentos com aplicação de fungicidas às 7 horas (50%); às 16 horas (26%); às 19 horas (18%); às 9 horas (15,5%); e às 13 horas (13%) (Figura 1).

Para o tratamento com aplicação de fungicidas às 7 horas, a maior severidade observada pode ser devida á presença de orvalho sobre as folhas no momento de aplicação. O menor percentual de umidade relativa do ar afetou o desempenho da aplicação realizada às 16 horas (Tabela 1).

Os maiores valores de AACPD, foram observados nas parcelas com ausência de aplicação de fungicidas (1222,37) (Tabela 2). Os tratamentos com as aplicações de fungicidas posicionadas às 13; 9; 19 e 16 horas, obtiveram maior destaque, com um controle de 82,89; 79,06; 77,72 e 71,61%, respectivamente. O controle ficou comprometido nas parcelas com aplicação às 7 horas (54,43%), constatando-se uma redução de 17,18 a 28,46% no controle da doença, em comparação as aplicações realizadas às 16 h e às 13 horas, respectivamente.

Figura 1. Severidade (%) de ferrugem asiática da soja em amostras foliares, após a aplicação de fungicidas em diferentes horários do dia. Erechim, RS, safra 2016/2017.

Tabela 2. Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD) e porcentagem (%) de controle de ferrugem asiática da soja em relação à testemunha (sem aplicação, S.A.), após a aplicação de fungicidas em diferentes horários do dia. Erechim, RS, safra 2016/2017.

As condições meteorológicas no momento de aplicação são importantes para o sucesso da operação. Dessa forma, condições como a alta temperatura e baixa umidade relativa do ar são empecilhos no momento de aplicação (MENEGHETTI, 2006).

As condições em todas as aplicações encontraram-se dentro da faixa entendida como ideal para aplicação, ou seja, UR% > 60% e temperatura < 30 °C (TEPLIZKY et al., 2011), exceto para a aplicação realizada às 16 horas no estádio R1, em que a umidade relativa foi de 51%.

A aplicação realizada às 7 horas, contou com a presença do orvalho como um agravante, interferindo na deposição das gotas nas camadas mais baixas (efeito guarda-chuva), o que possibilitou a infecção e multiplicação do patógeno nestas camadas. Cunha et al. (2008) ao testar volumes de caldas, observaram que a desuniformidade na cobertura, ou seja, a deposição das gotas na camada superior foi muito maior que na camada inferior. A ferrugem asiática é conhecida por iniciar seu desenvolvimento na parte baixeira das plantas, assumindo uma dinâmica policíclica, com grande capacidade de multiplicação. Dessa forma, a ineficiência em atingir tais camadas inferiores pode comprometer o controle da doença, bem como o desenvolvimento da cultura.

Na avaliação dos componentes de rendimento, número de vagens e Peso de Mil Grãos (PMG), não houve diferença entre os tratamentos com a aplicação de fungicidas, independentemente do horário. As parcelas sem a aplicação de fungicidas apresentaram, em média, 52,7 vagens por planta, assim como o menor PMG, 178,3 g (tabela 3).

Tabela 3. Produtividade (kg ha-1), número de vagens e peso de mil grãos (PMG, g-1) em relação à testemunha (sem aplicação, S.A.) após a aplicação de fungicidas em diferentes horários do dia para o controle de ferrugem asiática da soja. Erechim, RS, safra 2016/2017.

Nas parcelas com aplicação às 9; 13; 16 e 19 horas observou-se melhor resposta de produtividade, com um incremento de 1217,3; 1066,7; 979,8; 917,2 kg ha¹, respectivamente, em relação à testemunha. Já a aplicação às 7 horas apresentou um incremento de 87,8 kg ha¹.

Moreira (2010) ao testar pontas do tipo TT11002, Al1102 e XR11002 observou que o desempenho das pontas para aplicação de fungicidas segue uma tendência em função do horário de aplicação, independente do ingrediente ativo utilizado. Sendo que os melhores resultados no rendimento da cultura foram obtidos coma aplicações as 8 e 10 horas.

Desta forma, a aplicação de fungicidas caracteriza-se como um processo complexo, em que se deve atentar para o horário ideal de aplicação, levando em consideração as condições meteorológicas no momento da aplicação, principalmente a presença de orvalho, umidade relativa do ar, temperatura e velocidade do vento, evitando perdas na aplicação e maximizando a eficiência dos produtos fitossanitários.

CONCLUSÃO

A aplicação de fungicidas às 7 horas da manhã, por meio de um bico Cônico TXA8002VK a uma vazão de 150 L ha-1, compromete o controle de ferrugem asiática na soja. Todos os demais horários de aplicação controlam a doença em 70% ou mais.

A maior severidade da doença nas parcelas sem aplicação de fungicidas (testemunha) e com a aplicação realizada às 7 horas interfere na produtividade.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de sementes. Mapa/ACS, 399 f., 2009.

CANOVA, E. Tecnologia de aplicação no patossistema Triticum aestivumPuccinia triticina. Santa Maria – 2015.

CUNHA, J. P. A. R., et al. Efeito de pontas de pulverização no controle químico da ferrugem da soja. Engenharia Agrícola, Jaboticabal, v. 28, n. 2, 2008.

MENEGHETTI, R.C. Tecnologia de aplicação de fungicidas na cultura do trigo. 2006. 58 f. Dissertação (mestrado em Engenharia Agrícola) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia Agrícola, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2006.

MOREIRA, M.T. Relação entre pontas de aplicação, horário de aplicação e cultivares no controle de Phakopsora pachyrhizi em soja. 2010. 57 f. Dissertação (mestrado em Engenharia Agrícola) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia Agrícola, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2010..

OLIVEIRA, A. C. B; GODOY, C. V; MARTINS, M. C. Avaliação da tolerância de cultivares de soja à ferrugem asiática no oeste da Bahia. Fitopatologia Brasileira. Brasília, n. 30, p. 658-62. 2005.

SILVA, F.D.A.S.E., AZEVEDO, C.A.V.D. Principal Components Analysis in the Software Assistat-Statistical Attendance. American Society of Agricultural and Biological Engineers, Reno, USA, 2009.

TEPLIZKY, M. D. F. et al. Época e horário de aplicação de fungicida sobre a qualidade de sementes de arroz. Revista Brasileira de Sementes, Londrina, v. 33, n. 1, p. 095 – 103, 2011.

YORINORI, J. T.; NUNES JUNIOR, J.; LAZZAROTO, J. J. Documentos 247: Ferrugem “asiática” da soja no Brasil: evolução, importância econômica e controle. Embrapa soja, Londrina, PR, n.247, 37 p, dez. 2005.

Informações dos autores:

Laboratório de Entomologia e Fitopatologia/Universidade Federal da Fronteira Sul, Erechim,RS.

Disponível em: Anais do 50º Congresso Brasileiro de Fitopatologia, Uberlândia – MG, Brasil.

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