Objetivou-se identificar possível resistência ou tolerância de E. mollis ao herbicida glifosato, utilizando população oriunda de lavouras de produtores onde havia relatos de falha no controle dessa planta daninha.

Autores: FREITAS, W.G.1; MICHELON, E.P.1; DIAS, V.D.1; BALEM, R.1; PADILHA, L.R.1; COSTA, L.O. 1

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Muitas espécies apresentam características agressivas, afetando negativamente a produtividade de culturas agrícolas através da competição. As plantas daninhas são o fator biótipo mais importante que afeta a produção agrícola, elas são responsáveis por mais de 34% das perdas de produtividade das culturas (Oerke, 2006).

A introdução de culturas RR (resistente ao roundup ready) resultou no uso demasiado do herbicida glifosato, tendo como consequência, maior seleção de plantas daninhas resistentes a este herbicida (Yu, 2010; Gilbert, 2013). Conhecido como pé-de-elefante ou sussuaiá (Elephantopus mollis) é espécie pertencente à família asteraceae, nativa do Continente Americano. No Brasil pode ser encontrada em quase toda a extensão territorial. Planta de ciclo perene, floresce preferencialmente nos meses de dezembro a fevereiro, reproduzida por sementes. Pouco exigente em relação às condições de solo, cresce em áreas com certo grau de sombreamento, possui caule herbáceo e, à medida que vai crescendo, torna-se lenhoso, podendo chegar a uma altura de 120cm. Possui raiz pivotante e as folhas estão dispostas no caule de forma alternada, tendo concentração na parte basal (Kissmann; Groth, 1999).

A planta daninha E. mollis é comumente encontrada em gramados de jardins e campos nativos em várias regiões do Brasil, tendo vasta utilização na medicina popular em tratamentos fitoterápicos (Empinotti; Duarte, 2008). Estudos também indicam que E. mollis possui características desejáveis para a fitoextração. Apresenta crescimento e acúmulo rápido de biomassa, sendo potencial hiperacumulador de cádmio, podendo ser utilizado na fitorremediação de solos contaminados com baixas concentrações desse metal (Silveira et al., 2015). Recentemente, tem-se observado a migração dessa espécie para lavouras sob plantio direto, em áreas cultivadas com soja, ocorrendo aumento de populações dessa planta daninha em decorrência da deficiência de controle com herbicida glifosato. Dessa forma, objetivou-se identificar possível resistência ou tolerância de E. mollis ao herbicida glifosato, utilizando população oriunda de lavouras de produtores onde havia relatos de falha no controle dessa planta daninha.

O experimento foi realizado em casa de vegetação do Instituto Federal Farroupilha- Campus Júlio de Castilhos- RS. Para compor a população suspeita de resistência, sementes de plantas foram coletada em lavouras onde houve relatos de falhas no controle químico de E. mollis, utilizando glifosato. Para compor a população suscetível, coletou-se sementes em áreas onde nunca houve aplicação de herbicidas. As sementes foram postas para germinar em bandejas e, transplantadas para vasos plásticos de 17 cm de diâmetro e 14 cm de altura, com capacidade volumétrica de 2,5 L, preenchidos com substrato comercial do tipo Turfa Fértil®. No estádio de 3 a 4 folhas verdadeiras, aplicou-se doses crescentes do herbicida glifosato. Para isso, utilizou-se pulverizador costal de precisão, pontas jato plano XR 11002, com volume de aplicação de 200 L ha-1.

Os tratamentos foram resultados da interação entre população resistente (R) e população suscetível (S) com 8 doses múltiplas da dose comercial do herbicida glifosato (0 D; 0,25 D; 0,5 D; 0,75 D; 1 D; 2 D; 4 D e 8 D), em que D é a dose comercial recomendada para o controle da maioria das espécies daninhas (1080 g e.a. ha-1). Assim, as doses que constituíram os tratamentos foram: 0; 270; 540; 810; 1080; 2160; 4320 e 8640 g e.a.  ha-1. Foram realizadas avaliações de controle aos 12 e 21 dias após aplicação (DAA) do herbicida, utilizando como base a escala percentual sendo 0% correspondendo a nenhum efeito do herbicida e a nota 100% significa morte completa das plantas. Os resultados foram submetidos à análise de variância e quando significativa, foi empregado regressão, utilizando-se modelos não lineares com ajuste da curva dose-resposta de controle. Para isso, utilizou-se o modelo log-logistico de quatro parâmetros. Os tratamentos foram dispostos em delineamento inteiramente casualizado com três repetições.

As avaliações aos 12 e 21 dias após a aplicação (DAA) do herbicida glifosato, resultou em menor controle da população resistente, comparado a população suscetível, quando utilizado até duas vezes a dose comercial recomendada para a maioria das espécies daninhas (Figura 1a e 1b). Em doses acima de 2160 g e.a. ha-1 ocasionou controle satisfatório na população R e S. Os valores da DL50 foram significativamente inferiores para a população suscetível aos 12 e 21 DAA (Tabela 1). Isso demonstra que E. mollis possui diferença entre as duas populações em relação a sensibilidade ao herbicida glifosato.

Figura 1. Controle (%) aos 12 (Fig. 1a) e 21 (Fig. 1b) dias após aplicação (DAA) do herbicida glifosato em população resistente e suscetível de E. mollis.

Tabela 1. Valores para DL50 (dose necessária para obter controle de 50% da planta em relação as plantas não tratadas) e fator F (Fator de resistência) obtidos aos 12 e 21 dias após aplicação (DAA) em populações de E. mollis tratadas com glifosato.

A DL50 é a dose necessária para obter controle de 50% da planta em relação as plantas não tratadas de populações resistentes e suscetíveis. Já o Fator de Resistência (F) corresponde à razão entre a GR50 da população resistente em relação a DL50 da população suscetível. O fator F (F=R/S) expressa o número de vezes em que a dose necessária para controlar 50% da população resistente é superior à dose que controla 50% da população suscetível (Burgos, 2015). Dessa forma, através dos valores do Fator F, a população resistente necessitou de 2,6 a 2,7 vezes a dose de glifosato para obter 50% de controle em relação a população suscetível.

Através dos resultados obtidos, pode-se afirmar que essa população de E. mollis possui resistência de baixo nível ao herbicida glifosato, não demonstrando nenhuma característica de planta tolerante ao herbicida em estudo. Também é importante destacar que as aplicações foram realizadas em plantas em estádio de desenvolvimento inicial (2 a 3 folhas) o que favorece a ação do herbicida. Na lavoura, maioria das vezes, essas populações estão em estádios mais avançados, o que pode incrementar o nível de resistência ao glifosato devido essa espécie possuir maior acúmulo de carboidratos, em forma de reserva, no sistema radicular, facilitando o rebrote após a morte da parte aérea.


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Conforme Powles e Yu (2010) se o mesmo herbicida é usado no manejo de plantas daninhas durante diversos anos agrícolas, a seleção do biótipo resistente tem maior probabilidade de ocorrência. Portando, é comum nos sistemas de Monocultivo, de áreas extensivas, que certos herbicidas sejam preferencialmente aplicados no controle de plantas daninhas, sendo utilizado apenas um herbicida em diversas safras agrícolas. Esse tipo de manejo e monocultura predomina nessas áreas onde foram coletadas as sementes dessa planta daninha suspeita de resistência. Por isso, além de descobrir novas alternativas para o manejo químico, é necessário adotar práticas integradas utilizando diferentes métodos de controle.

Esses resultados evidenciam que a população de E. mollis possui resistência de baixo nível ao herbicida glifosato, não sendo considerada tolerante a esse herbicida. O herbicida glifosato, em doses usuais recomendada, não é eficiente para controle de E. mollis oriundo dessas áreas onde coletou-se a população em estudo.

Referências

BURGOS, N. R. Whole-plant and seed bioassays for resistance confirmation. Weed Science, v.63, p.152-165, 2015.

EMPINOTTI, C.B.; DUARTE, M.R. Estudo anatômico de folha e caule de Elephantopus mollis Kunth (Asteraceae). Brazilian Journal of Pharmacognosy, v. 18, n. 1, p.108-116, 2008.

GILBERT, N. Superweeds? Suicides? Stealthy genes? The true, the false and the still unknown about transgenic crops. Nature, v. 497, p. 24-26, 2013.

KISSMANN, K.G.; GROTH, D. Plantas infestantes e nocivas. Tomo II, 2 ed. São Paulo: Basf Brasileira, 1999, 978 p.

OERKE, E.C. Crop losses to pests. The Journal of Agricultural Science, v.144, n.1, p.31-43, 2006.

POWLES, S. B.; YU, Q. Evolution in action: plants resistant to herbicides. Review. Annual Review of Plant Biology, v. 61, n. 1, p. 317-347, 2010.

SILVEIRA, F.S.; AZZOLINI, M.; DIVAN Jr., A.M. Scanning cadmium photosynthetic responses of Elephantopus mollis for potential phytoremediation practices. Water Air Soil Pollut, v.226, n.11, p.359, 2015.

Informações dos autores:  

1Instituto Federal Farroupilha Campus Júlio de Castilhos, Júlio de Castilhos, RS.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

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