Impacto do volume de calda com fungicidas no controle da ferrugem asiática e produção da soja

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O objetivo do presente trabalho foi avaliar o impacto do volume de calda de fungicidas no controle da ferrugem asiática da soja, bem como na produção da cultura

Autores: DIEGO M. SOUZA1, MATHEUS M. NEGRISOLI2, FELIPE M. S. SOUZA3, LARYSSA M. BERNARDES4, LUCAS F. GALO5, LUCAS P. FERREIRA6, CARLOS G. RAETANO7

RESUMO

Visando minimizar a ocorrência de resistência de Phakopsora pachyrhizi aos fungicidas sistêmicos, o uso de protetores com volumes altos de calda tem sido frequente na soja. Assim, o trabalho objetivou avaliar o impacto do volume de caldas fungicidas no controle da ferrugem asiática da soja (FAS) e na produção. Para isso, foram conduzidos dois experimentos. No experimento I, foram avaliados os níveis de depósito e cobertura da pulverização, com os volumes de calda: 50, 80, 110 e 150 L ha-1. O corante Azul Brilhante na dose de 4.500 mg ha-¹ foi usado para a quantificação do depósito da pulverização. A cobertura da pulverização foi avaliada em papel hidrossensível. No experimento II, foi avaliado o progresso da FAS e a produtividade, após a pulverização de três caldas fungicidas: trifloxistrobina + protioconazol, mancozebe e a mistura de ambos, em quatro volumes de calda: 50, 80, 110 e 150 L ha-1. A severidade da doença foi monitorada semanalmente, para posterior cálculo da área abaixo da curva do progresso da doença (AACPD). Ao final do ciclo da cultura foi calculada a produtividade. Os maiores volumes proporcionaram incremento nos níveis de depósito, na cobertura da pulverização e na produtividade e menor AACPD. Volumes entre 110 e 130 L ha-1 com fungicidas sistêmicos ou em mistura com protetor são os mais indicados para o controle da FAS.

PALAVRAS–CHAVE: taxa de aplicação, controle químico, pulverização.

IMPACT OF SPRAY VOLUME WITH FUNGICIDES ON ASIAN SOYBEAN RUST CONTROL AND GRAIN YIELD

ABSTRACT

In order to minimize the occurrence of resistance of Phakopsora pachyrhizi to systemic fungicides, protective fungicides has been frequently used in the soybean crop with high spray volumes. Therefore, this work aimed to evaluate the impact of fungicide spray volume on Asian soybean rust (ASR) control and grain yield. For this, two experiments were conducted in the field. In the first experiment the levels of spray deposit and coverage were evaluated in different spray volumes: 50, 80, 110 and 150 L ha-1. The spray deposit quantification was made using the Brilliant Blue dye as a tracer at 4,500 mg ha-1. The spray coverage was evaluated with water-sensitive papers. In the second experiment, soybean rust control and yield were evaluated after spraying of three fungicides: trifloxystrobin + prothioconazole, mancozeb and a mixture of both in four spray volumes: 50, 80, 110 and 150 L ha-1. The ASR disease evolution was monitored weekly by evaluating of the disease severity for later calculation the area below the disease progression curve (ABDPC). At the end of growth stage the yield was measured. The greater spray volumes provided an increase in spray deposit, coverage levels and productivity, as well as lower ABDPC.Spray volumes between 110 and 130 L ha-1 with systemic fungicides or in mixture with protective are indicated for ASR control.

KEYWORDS: application rate, chemical control, spraying.

INTRODUÇÃO

O fungo Phakopsora pachyrhizi (Syd. & P. Syd.) é causador da doença mais importante na cultura, a ferrugem Asiática da soja (FAS). Com ocorrência em todo território nacional, a doença é controlada principalmente pela pulverização de fungicidas sistêmicos e protetores.

Enquanto os sistêmicos atuam em sítios de ação específicos do fungo com maior risco de selecionar indivíduos resistentes, os protetores atuam em multissítios do fungo com menor probabilidade de seleção de indivíduos resistentes (GODOY et al., 2015). Nos últimos anos tem sido observada redução da sensibilidade do patógeno aos fungicidas, resultando em falhas de controle e redução de produtividade (GODOY et al., 2014). Em razão das particularidades dos fungicidas protetores, existe uma demanda crescente pela sua utilização na cultura da soja.

Os fungicidas protetores podem exigir maior cobertura da superfície a ser tratada e a tecnologia de aplicação destes fungicidas pode não ser a mesma empregada para fungicidas sistêmicos. Assim, o volume de calda utilizado na pulverização poderia impactar na eficiência de controle da doença em razão do fungicida utilizado (PRADO et al., 015). O objetivo do presente trabalho foi avaliar o impacto do volume de calda de fungicidas no controle da ferrugem asiática da soja, bem como na produção da cultura.

MATERIAL E MÉTODOS

Dois experimentos foram conduzidos na FCA/UNESP – Campus de Botucatu, em área experimental, pertencente às Fazendas de Ensino, Pesquisa e Extensão – FEPE, localizada à altitude de 724 metros e coordenadas: 22°48′ S e 48°25′ O. A semeadura da variedade de soja FTS Campo Mourão RR, hábito de crescimento semi-determinado, foi realizada em 25/11/2016 no sistema de semeadura direta.

Aos 20 dias após a semeadura (DAS) fez-se a aplicação do herbicida glifosato e o controle de insetos-praga foi realizado sempre que necessário. O primeiro experimento foi instalado no delineamento de blocos ao acaso, no esquema fatorial 4 x 2 (4 volumes de calda: 50, 80, 110 e 150 L ha-1 e 2 posições do alvo: superior e inferior), em 4 repetições.

Aos 80 DAS, estádio fenológico R5.1, foi realizada uma pulverização para avaliar os níveis de depósito (avaliação  calda. A quantificação do depósito da pulverização foi realizada pelo método modificado proposto por Bauer; Raetano (2000), utilizando como marcador o corante marcador Azul Brilhante (FD & C n.1), adicionado à calda de pulverização na dose de 4.500 mg ha-1.

Após a pulverização foram coletados 20 folíolos de diferentes plantas nas linhas centrais de cada parcela. Desses folíolos, dez foram provenientes da parte superior das plantas, coletando o folíolo central mais exposto à aplicação, de folha totalmente desenvolvida e outros dez folíolos da parte inferior da planta.

Os folíolos foram encaminhados ao laboratório, lavados com 40 mL de água destilada e agitados manualmente. A solução resultante foi analisada em espectrofotômetro (Shimadzu UV 1601 PC) para leitura da absorbância no comprimento de onda de 630 nm. A área de cada folíolo foi mensurada pelo medidor de área foliar de bancada LICOR, modelo LI – 3100.

Foram efetuadas leituras no espectrofotômetro de concentrações conhecidas do corante, para estabelecer uma equação linear, possibilitando o cálculo da concentração do corante na amostra (mg L-1). Com as concentrações de corante nas amostras, foi possível estabelecer o volume capturado pelo alvo e relacionar com a área foliar (μL cm²).

A avaliação qualitativa foi realizada em papel hidrossensível (26 x 76 mm), fixado em haste de madeira. Cada haste foi ajustada para receber um cartão referente às posições da planta superior, média e inferior. Após a pulverização, com o auxílio de um scanner de mesa, com resolução de 600 dpi, as imagens dos papéis hidrossensíveis foram digitalizadas e analisadas pelo software Gotas®, da Embrapa.

O segundo experimento foi instalado no delineamento experimental de blocos ao acaso, no esquema fatorial 3 x 4 (3 caldas fungicidas: trifloxistrobina + protioconazol, mancozebe e a mistura de ambos, quatro volumes de calda: 50, 80, 110 e 150 L ha-1), em quatro repetições. Ao observar as primeiras pústulas da doença (87 DAS, R5.1) foram iniciadas as pulverizações fungicidas.

O fungicida mancozebe (Unizeb Gold®) foi pulverizado em intervalos de sete dias, em um total de quatro pulverizações e o fungicida trifloxistrobina + protioconazol (Fox®) e a mistura (trifloxistrobina + protioconazol e mancozebe), em duas pulverizações a cada 14 dias. O pulverizador utilizado possui capacidade de 600 L, doze metros de barra e vazão da bomba de 100 L min-¹ à uma rotação 540 rpm, montado em um trator de 52 cv de potência e velocidade do conjunto trator-pulverizador de 6,8 km h-1. Para produzir os volumes de calda (50, 80, 110 e 150 L ha-1) foram utilizadas pontas de pulverização de jato plano, modelo XR, Teejet®, dos tipos 11001, 110015, 11002 e 110025 nas respectivas pressões de trabalho 150; 150; 150; 200 kPa.

A evolução da doença foi monitorada semanalmente, por meio de avaliações da severidade, para posterior cálculo da área abaixo da curva do progresso da doença (AACPD) proposta por Campbell e Madden (1990). Ao fim do ciclo da cultura foi calculada a produtividade (kg ha-1). Os dados foram submetidos ao teste F e à análise de regressão com o auxílio do software estatístico SISVAR®, versão 5.3 (FERREIRA, 2010).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Independentemente do método de avaliação da pulverização, quantitativo ou qualitativo, houve uma nítida tendência de incremento dos níveis de depósito no alvo com aumento do volume de calda (R² > 0,9), conforme Figuras 1 e 2. Houve interação significativa entre o depósito da pulverização e as posições dos folíolos na planta. Nesse caso, os desdobramentos foram analisados para cada parte da planta. Na parte superior da planta houve diferença significativa entre os volumes de calda (F=3,22**) sobre os depósitos da pulverização, evidenciando o acúmulo dos depósitos nos folíolos da parte superior da planta à medida que aumentou o volume de calda (Figura 1).

Os folíolos presentes no topo das plantas estão mais expostos à pulverização, por isso, o incremento nos depósitos da calda nesta parte da planta foi evidenciado. Não houve diferença significativa entre os depósitos obtidos com diferentes volumes de calda (F=1,89ns) na parte inferior da planta. Por outro lado, deve-se destacar que os valores de depósito obtidos na parte inferior com o volume de 150 L ha-1 foram similares àqueles obtidos na parte superior das plantas, com os volumes de 50 e de 80 L ha-1 (Figura 1).

A maior parcela da pulverização fica depositada nos folíolos da parte superior das plantas e os níveis do depósito nas posições mais internas do dossel não seguem a mesma proporção do incremento do volume de calda (CUNHA et al. 2011; PRADO et al., 2015). Baseado nesta evidência, é possível presumir que seja necessário aumentar o volume de calda para incrementar os níveis médios de depósito na parte inferior das plantas.

FIGURA 1. Regressão entre os níveis de depósito e o volume de calda, nas diferentes partes das plantas de soja.

Não houve interação entre os níveis de cobertura da pulverização nos alvos artificiais. Houve diferença significativa entre as médias dos volumes de calda (F=3,73**). A regressão linear indica uma relação diretamente proporcional entre o volume de calda e a cobertura da pulverização no alvo, conforme Figura 2(a). As respostas obtidas em alvo artificial reforçam os resultados dos níveis de depósito da pulverização, todavia, as barreiras à penetração das gotas não são tão significativas neste caso.

Madalosso et al.(2010) constataram melhor controle da FAS antes do fechamento da cultura ou em cultivares semeados a 0,60 m de espaçamento entre fileiras de plantas. Outra diferença observada foi quanto à cobertura da pulverização nos alvos em diferentes partes da planta, apontando nítida redução da cobertura nos alvos posicionados no interior do dossel das plantas, conforme visualização na Figura 2(b).

FIGURA 2. (a) Regressão entre os níveis de cobertura e o volume de calda; (b) Níveis de cobertura em papel hidrossensível em alturas equivalentes a diferentes partes da planta de soja.

No experimento 2, no geral, houve relação inversa entre o volume de calda aplicado e a AACPD e relação direta entre o volume de calda e a produtividade média da cultura (R² > 0,9). Houve interação significativa entre volume de calda e caldas fungicidas. Por isso, os desdobramentos da AACPD foram analisados para cada calda fungicida. As caldas com o fungicida Fox® e a mistura apresentaram valores menores de AACPD em volumes maiores de calda. Por outro lado, quando utilizado o fungicida Unizeb Gold® isolado, não houve diferença significativa da AACPD, independente do volume de calda. A adição do fungicida protetor à calda proporcionou redução significativa da AACPD no menor volume. A eficácia do fungicida Unizeb Gold® pode estar ligada ao seu modo de ação. Como não existe absorção do produto pela folha, é possível que o residual do fungicida nos folíolos de soja seja maior que o intervalo entre as aplicações, resultando em menor AACPD, independente do volume pulverizado.

FIGURA 3. (a) Regressão entre a AACPD e o volume de calda; (b) Regressão entre a produtividade e o volume de calda.

CONCLUSÕES

Há relação direta do volume de calda com os níveis de depósito, cobertura da pulverização e produtividade da soja. Volumes entre 110 e 130 L ha-1 com fungicida sistêmico ou em mistura com protetor são indicados para o controle da doença.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES e Fazendas de Ensino, Pesquisa e Extensão – FEPE pelo apoio concedido; as empresas TEEJET e UPL, pela doação das pontas e do fungicida mancozebe, respectivamente.

REFERÊNCIAS

BAUER, F.C.; RAETANO, C.G. Assistência de ar na deposição e perdas de produtos fitossanitários em pulverizações na cultura da soja. Scientia Agricola, v. 57, p. 271–276, 2000.

CAMPBELL, C.L.; MADDEN, L.V. Introduction to plant disease epidemiology. New York: John Wiley

CUNHA, J.P.A.R. et al. Deposição de calda pulverizada na cultura da soja promovida pela aplicação aérea e terrestre. Engenharia Agrícola, v. 31, n. 2, p. 343–351, 2011.

FERREIRA, D.F. Sistema de análise de variância – SISVAR. Versão 5.3. Lavras-MG: UFLA, 2010.

GODOY, C.V. et al. Eficiência de fungicidas para o controle da ferrugem-asiática da soja, Phakopsora pachyrhizi, na safra 2013/14.Londrina:Embrapa Soja, 2014. 7 p.

GODOY, C.V. et al. Eficiência de fungicidas multissítios e fertilizantes no controle da ferrugemasiática da soja, Phakopsora pachyrhizi, na safra 2014/15.Londrina:Embrapa Soja, 2015. 7 p.

MADALOSSO, M.G. et al. Cultivares, espaçamento entrelinhas e programas de aplicação de fungicidas no controle de Phakopsora pachyrhizi Sidow em soja. Ciência Rural, v. 40, n. 11, p. 2256–2261, 2010.

PRADO, E.P. et al. Taxa de aplicação e uso de surfactante siliconado na deposição da pulverização e controle da ferrugem da soja. Engenharia Agrícola, v. 35, n. 3, p. 514–527, 2015.

Informações do autores:     

1Engenheiro Agrônomo, Doutorando em Agronomia: Proteção de Plantas, Departamento de Proteção Vegetal, Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu/SP – Brasil;

2,3Engenheiro Agrônomo, Mestrando em Agronomia: Proteção de Plantas, Departamento de Proteção Vegetal, Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu/SP – Brasil;

4Engenheira Agrônoma, Mestranda em Agronomia: Proteção de Plantas, Departamento de Proteção Vegetal, Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu/SP – Brasil;

5Graduando em agronomia: Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu/SP – Brasil;

6Graduando em agronomia: Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas, UNESP, Dracena/SP – Brasil;

7Engenheiro Agrônomo, Professor Titular, Departamento de Proteção Vegetal, Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu/SP –Brasil

Disponível em: Anais do VIII Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação – SINTAG, Campinas – SP, Brasil.

1 COMENTÁRIO

  1. Porque se uso bicos leque para fungicidas? lo mas recomendable es duplo leque o conico, para mayor penetracion. eso explica porque a mayor volumen mejor resultado, esta fallando la tecnica de aplicacion. entonces las aplicaciones aereas no sirven? yo veo que con 5 litros por hectarea aereo es excelente. Habria que replantaer el ensayo e incluir aplicaciones aereas.

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