Por: Prof. Luís Azevedo, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro; Instituto  de Ciências Biológicas  e Saúde do Departamento de Entomologia e Fitopatologia

1- Introdução

O impacto dos fungicidas protetores na cultura da soja teve um significado altamente positivo para a cultura, em termos da implementação de um novo mercado de fungicidas  na melhora significativa do manejo das doenças foliares e principalmente na utilização da mais eficaz estratégia anti resistência aos fungicidas específicos utilizados em soja. O número limitado de mecanismos de ação de fungicidas disponíveis para controle de doenças na cultura da soja, associado a populações menos sensíveis de fungos já observadas no campo, e a baixa eficiência de ingredientes ativos isolados, dificultam a utilização de estratégias de manejo de resistência como a rotação  de ativos com mecanismos de ação diferente. A pesquisa têm atualmente recomendado a aplicação de misturas de triazóis e de estrobilurinas com fungicidas protetores, de ação multissítio, com o objetivo de manter a eficácia dos produtos que já apresentam resistência e preservar os princípios ativos para os quais a resistência ainda não foi comprovada.

Dentre os fungicidas protetores registrados atualmente na cultura da soja,destacam-se os produtos a base de mancozebe, a base de cobre (oxicloreto de cobre e hidróxido de cobre) e clorotalonil. Dentre os fungicidas protetores, o que tem sido mais recomendado é o mancozebe. Esse ingrediente ativo é indicado para culturas, no manejo de fungos resistentes  no campo em decorrência do uso intensivo de fungicidas sistêmicos, sem alternância de princípios ativos.

Ao contrário dos fungicidas do grupo inibidores da desmetilação (IDM), inibidores da quinona externa (IQe), inibidores da succinato desidrogenase (ISDH) que possuem modo de ação específico, o mancozebe possui múltiplos mecanismos de ação que diminui muito o risco de resistência dos fungos em soja.

A utilização dos fungicidas protetores na cultura da soja é uma tecnologia nova, por isso ainda vai demandar algum tempo para seja adotada pela maioria dos sojicultores.

2- Aspectos do impacto dos fungicidas protetores em soja

Por se constituir ainda em uma tecnologia nova na cultura da soja para o manejo de doenças fúngicas, a utilização de fungicidas protetores não é de uso corrente. No entanto alguns impactos podem ser desenhados até o momento baseado nas informações disponíveis do mercado.

Os principais impactos são:

1- impacto no mercado de fungicidas;

2- impacto no manejo de doenças;

3- impacto no manejo de resistência e

4- impacto na adoção de uma nova tecnologia (Figura 1).

Figura 1. Principais impactos causados  pela entrada dos fungicidas protetores na cultura da soja.

A seguir serão abordados com mais detalhes algumas características desses impactos na cultura da soja.

  1. Impacto no mercado de fungicidas

Algumas premissas devem ser levadas em consideração antes de analisarmos o impacto dos fungicidas protetores em soja.

No que diz respeito ao manejo de doenças em geral, duas premissas se destacam:

1- durante as próximas safras, a utilização de fungicidas será a principal tática de manejo para o complexo de doenças na soja;

2- a resistência de fungos patogênicos a fungicidas específicos será o principal desafio a ser vencido pela pesquisa agrícola.

A entrada dos fungicidas protetores na cultura da soja criou um novo mercado dentro da proteção de plantas.Esse mercado ainda não está bem mensurado em termos de valor, porém existe uma estimativa que 12% dos sojicultores já utilizam fungicidas protetores em suas lavouras. Levando-se em consideração que em média são realizadas de duas a três aplicações de protetores visando o manejo da resistência,teremos uma quantidade expressiva de ativos sendo utilizados. A evolução do mercado de proteção de plantas com fungicidas foi muito significativo nos últimos anos e isso se deve as vários fatores,sendo o principal o ressurgimento da ferrugem asiática e as grandes e as grandes epidemias ocorridas no cerrado brasileiro  nas safras de 2003 e 2004 (Figura 2).

Figura 2. Evolução do mercado de proteção de plantas no Brasil entre 2000 e 2015.

O mercado de proteção de plantas com fungicidas no Brasil é bem expressivo e atingiu cerca de US 3.130 em 2016. A soja é o maior mercado e representa 66% do mercado de fungicidas. A ferrugem representa 73 % do mercado de fungicidas em soja (Figura 3).

 Figura 3. Mercado de proteção de plantas com fungicidas no Brasil em 2015.

As pesquisas e estudos na área de marketing agrícola indicam que haverá um aumento consistente no mercado de proteção de plantas com fungicidas devido as seguintes premissas válidas  para os próximos cinco anos:

a) haverá um aumento na área da cultura da soja de mais ou menos 12 milhões de hectares,

b) a agricultura tropical intensiva praticada em vastas regiões agrícolas do território brasileiro levará ao aumento drástico na pressão de doenças agressivas (a ferrugem da soja é uma delas);

c) haverá um crescimento significativo de doenças secundárias na cultura da soja tais como mancha alvo e antracnose;

d) cada vez mais a sociedade em geral exigirá mais qualidade e baixo resíduos em frutas e vegetais e;

e) haverá um aumento na adoção de tecnologia nas culturas do milho,algodão e cana-de-açúcar.

3.1 Performance e eficácia de fungicidas para o controle da ferrugem da soja

Em 2003, aconteceram fatos importantes no cenário fitopatológico brasileiro; o mais importante sem dúvida, foi o avanço rápido da ferrugem asiática para as áreas de soja no cerrado brasileiro. Uma doença pouco conhecida à época, causada por um fungo altamente destrutivo, Phakopsora pachyrhizi, que se disseminava com extrema facilidade; devido à sua condição de poder ser levada a longas distâncias pelo vento. Muita tecnologia, pesquisa, esforço e dinheiro foram gastos no manejo da ferrugem asiática da soja. Como acontece no mundo todo, quando se tem uma epidemia em grandes proporções, a principal forma de controle adotada foi a aplicação de fungicidas. Nesse caso específico, os fungicidas sistêmicos em formulações simples ou em mistura prontas foram largamente utilizados pelo agricultor.

Essa doença provocou um boom na pesquisa e no desenvolvimento de novas moléculas de fungicidas, capazes de deter um fungo extremamente imprevisível e com grande mutabilidade genética. Nos primeiros anos das epidemias da ferrugem da soja várias misturas de triazóis + estrubiluirinas de diferentes empresas deram conta do recado ou seja tiveram um bom desempenho no manejo da doença. A partir de 2009, começaram a aparecer as primeiras falhas de controle dos fungicidas sistêmicos no manejo da doença. A suspeita da resistência a esses produtos específicos confirmou-se, a partir de inúmeros trabalhos realizados por instituições de pesquisa e por empresas dos produtos.

Os resultados oficiais de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa/Soja), da performance e eficácia dos fungicidas específicos e suas misturas no controle da ferrugem da soja no período de 2008 a 2016, encontram-se nas Figuras 4 e 5. Na Figura 4 estão os resultados das misturas de triazóis e estrobilurinas para o controle da ferrugem. Observa-se que a partir da safra 2012/13 houve um decréscimo na eficácia das misturas,sendo essa queda de performance variável entre as diferentes misturas. Esse fato indica claramente e perda de sensibilidade desses fungicidas a Pakopsora pachyrhizi,da mesma forma que ocorreu com os triazóis a partir da safra 2008/09.

Figura 4. Performance das misturas de triazóis e estrobilurinas para o controle da ferrugem da soja no período de 2008/09 a 2015/16.

Na Figura 5 estão os resultados das misturas de  estrobilurinas e SDHIS para o controle da ferrugem. Observa-se que a partir da safra 2014/15 houve um decréscimo da ordem de 80% para 60% na eficácia das misturas, sendo essa queda de performance variável entre as diferentes misturas.

          

Figura 5. Performance das misturas de estrobilurinas e SDHIS para o controle da ferrugem da soja no período de 2011/0912 a 2015/16.

Uma análise mais minuciosa desses resultados permitem uma projeção um pouco assustadora do comportamento dos fungicidas para o controle da ferrugem da soja. Isso porque a soja é principal cultura (34 milhões de hectares na próxima safra), não existe pelo menos nos próximos seis anos um fungicida com um novo mecanismo de ação para o manejo da ferrugem, a erosão dos inibidores da desmetilação (DMI’S) desde 2008 – mutação no gene CYP 51 foi confirmada (existem diferentes respostas para cada DMI’S), mutação no gene F129L confirmada em 2014 para inibidores da quinona (QoI’s) e os SDHI tem um mecanismo de ação muito específico para o controle de doenças. O benzovindiflupyr tem mostrado baixa performance na safra 2016/17. A mutação no gene C186F tem sido detectado em alguns isolados.

  1. Impacto no manejo de doenças

Os fungicidas protetores de múltiplos mecanismos de ação ou multissítios recomendados para o manejo de doenças da soja, são de largo espectro. Isso quer dizer que teoricamente controlam as quatro principais classes de fungos fitopatogênicos: Deuteromicetos(Fungos Anamórficos), Ascomicetos,Basidiomicetos e Oomicetos.

Os fungicidas protetores devem ser aplicados preventivamente na cultura ou seja antes do aparecimento das doenças. Só vão ter efeito no manejo das doenças se aplicados dessa forma, atuam principalmente diminuindo a quantidade de inóculo fúngico (conídios e esporos) nas áreas de soja.

Quando aplicados a superfície foliar, formam uma barreira química impedindo a germinação de esporos. São eficientes apenas nessa fase da patogênese do fungo, passando esta fase do ciclo de vida do patógeno, não possuem qualquer efeito fungitóxico.

Todas as doenças da soja de natureza fúngica são afetadas pelos fungicidas protetores, o melhor manejo sempre é obtido com a aplicação desses produtos preventivamente e em misturas com os fungicidas específicos.

Os resultados da performance de fungicidas protetores no manejo da ferrugem é mostrado nas Figuras 5 e 6. Na Figura 5 há uma comparação entre a eficácia de uma mistura de estrobilurina e SDHIS, mancozebe em três dosagens (cinco aplicações) e oxicloreto de cobre. Pode-se observar a superioridade da mistura sobre os protetores e a superioridade do mancozebe em relação ao cobre.

Figura 6. Performance de fungicidas protetores no manejo da ferrugem da soja.

  1. Impacto no manejo da resistência de fungos a fungicidas específicos

A  experiência  prática  com  a aplicação de fungicidas protetores no campo nas últimas duas décadas, indica claramente  que o sucesso  do controle  de doenças com esses produtos depende, entre outros fatores, do grupo químico ao qual pertence o fungicida. Os grupos químicos diferem muito em características  ditas essenciais  para os fungicidas protetores, tais como: fungitoxicidade, tenacidade, solubilidade, período residual, persistência, a derência, cobertura, estabilidade e compatibilidade.

Dessa forma, o conhecimento  dos grupos  químicos dos fungicidas, suas principais nuances e características  é muito importante para o estabelecimento  de uma estratégia anti-resistência e para os programas de manejo de doenças. Os fungicidas protetores,com múltiplos mecanismo de ação, desenvolvidos  após a descoberta da calda bordalesa,são inibidores inespecíficos de reações bioquímicas, afetando  um grande número  de processo vitais, compartilhados por todos organismos vivos; assim, não podem penetrar e atuar sistemicamente dentro das plantas, pois seriam fitotóxicos.

Sua seletividade aos fungos, não afetando hospedeiros vegetais, se deve a sua insolubilidade e incapacidade de penetrar através da cutícula cerosa e lipídica, que recobre a parte aérea das plantas. Sua seletividade a espécies fúngicas pode ser atribuída a processos de permeabilidade e de detoxificação, que resultam em maior ou menor acúmulo do produto a nível celular. Esta  característica  peculiar  do seu modo de ação aliado ao amplo espectro de ação, tem contribuído de forma marcante para o uso crescente desses produtos na agricultura; principalmente em regiões onde existem casos comprovados de resistência a fungicidas sistêmicos.

Este aspecto é ainda pouco estudado e  existem poucas informações sobre a importância dos fungicidas protetores nas estratégias anti-resistência. Das  diversas estratégias anti-resistência recomendadas pelas empresas,pela pesquisa oficial,pelo FRAC internacional e nacional, destaca-se o uso de fungicidas protetores em mistura ou alternância com produtos sistêmicos. A importância  da utilização  de fungicidas protetores nas  estratégias anti-resistência  está levando  as empresas  de agroquímicos  a desenvolver programas  específicos  para o controle de doenças, onde explicitamente  recomendam  sempre ao usuário,  a inclusão  de um produto protetor nos programas de controle.

Pouco  se sabe  da magnitude, do valor  exato  do uso  desses produtos  nos programas anti-resistência, porém pode-se afirmar  que  sem  o uso de fungicidas protetores, os problemas  de resistência  seriam muito maiores nas nossas culturas.

O exemplo mais marcante e atual é a entrada dos fungicidas protetores no mercado de soja visando diminuir os problemas causados pela resistência de fungos a fungicidas com mecanismo de ação específico (monossítios), principalmente no manejo da resistência a Phakopsora pachyrhizi. 

Os resultados obtidos nas últimas cinco safras de soja,comprovam com bastante consistência o comportamento estável  desses fungicidas na melhora da eficácia das misturas de estrobilurinas e triazóis e mais recentemente das misturas de estrobilurinas e SDHIS no manejo da ferrugem da soja (Tabela abaixo).

6.Impacto na adoção de uma nova tecnologia para o manejo de doenças

Os   fungicidas  constituem -se numa  parte  integral  da  produção  eficiente  de  alimentos. Contudo, sua  efetividade   tem  sido  seriamente afetada  em algumas  situações  de controle  devido  ao  desenvolvimento  da  resistência  em  populações  de  fungos.

A  perda   de  um  fungicida  para  a  agricultura  devido  a  resistência  é  um  problema  que  afeta  a  todos  nós  e pode  trazer conseqüências  perigosas para  todos envolvidos  no  processo  produtivo (agricultores,consumidores,indústria  de  agroquímicos, extensionistas  e pesquisadores). Ela  pode  levar  a  um  inesperado aumento  do custo  da   cultura  com  perdas  para  o agricultor , causando  especulações  locais  e  aumento  do  preços  dos  alimentos.

Para  a indústria  a  perda  é  vital , principalmente  para  os  fundos  que  financiam  os  enormes  custos  de  desenvolvimento  de  novos  produtos. Sem reinvestimentos, dificilmente   serão  descobertos  novos  compostos. Isto causaria  sérios  problemas  no  manejo  de  doenças  e  porque  não  dizer – no  suprimento  de  alimentos  no mundo. Pode  ocorrer  a  síndrome  do  pânico  nos  agricultores com  a utilização  indiscriminada  de produtos  que  não  funcionam  mais.

Quando se descobre a causa do problema, as perdas já ocorreram. Em  termos  de  qualidade  da produção, o consumidor pode receber um produto com maior quantidade de pesticidas, além da possibilidade de maiores preços.

7- Resumo e conclusões

A utilização de fungicidas protetores no manejo da resistência de fungos patogênicos na cultura da soja, é uma tecnologia nova e inovadora,que precisa ainda de mais pesquisas e estudos. Mesmo com bons resultados mostrando suas vantagens e benefícios,não é ainda adotada na maioria das áreas produtoras de soja. As razões para isso são de ordem prática,econômica e de infraestrutura. Existe também a desconfiança por parte do produtor em aceitar essa tecnologia no manejo de doenças. Ele ainda tem a cultura dos fungicidas sistêmicos ou específicos, utilizados com sucesso até surgirem os primeiros casos de resistência.

A médio e longo prazo  segundo os principais órgãos  de pesquisa agrícola do país, não  existe outra tecnologia no manejo de resistência que a utilização  dos fungicidas protetores. Algumas dúvidas sobre o uso desses produtos ainda existem no campo. É necessário mais trabalhos que mostrem quais as  dosagens mais adequadas e quais os melhores programas de aplicação.

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