O objetivo desse trabalho foi verificar se existe relação entre o IAF e a produtividade de grãos em lavouras com alta, média e baixa produtividade de soja.

Autores: SILVA, M. R. da1; STRECK, N. A.1; BEXAIRA, K. P.1, WEBER, P. S.1, ZANON, A. J.1; RICHTER, G. L.1; DUARTE JÚNIOR, A. J.1; TAGLIAPIETRA, E. L.1; ROCHA, T. S. M. da1; CERA, J. C.2; ALBERTO, C. M.3; MACHADO, G. A.2; ALVES, A. F.1; BARCELLOS, G.1; ROSSATO, I. G1.

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

O índice de área foliar (IAF) é a relação entre a área foliar e a área de solo ocupada pelo cultivo. O IAF pode ser utilizado para representar o crescimento e como fator condicionante da produtividade, pois através do IAF é definida a capacidade do dossel em interceptar a radiação solar, converter em matéria seca através da fotossíntese, e determinar o potencial produtivo da cultura (Zanon et al., 2015).

Em soja, valores de IAF crítico (quando 95% da radiação solar é interceptada pelo dossel) variam entre 3,5 e 4,0, valor considerado suficiente para atingir o potencial de produtividade, até então de 4 Mg ha-1 (Specht et al., 1999).

Entretanto, com as mudanças nas características genéticas das cultivares de soja e com o aumento do potencial de produtividade para aproximadamente 6 Mg ha-1 (Zanon et al., 2016), surge a necessidade de retomar estudos básicos para confirmar se os valores de 3,5 e 4,0 são suficientes para esse novo patamar produtivo.

Também, é importante verificar se há relação da produtividade com IAF em lavouras de diferentes níveis tecnológicos, ou expectativas de produtividade (alta, média ou baixa). Portanto, o objetivo desse trabalho foi verificar se existe relação entre o IAF e a produtividade de grãos em lavouras com alta, média e baixa produtividade de soja.

Nesse estudo foram utilizados dados de experimentos, conduzidos em lavouras durante quatro anos agrícolas (2011/2012 a 2014/2015), em seis municípios do Rio Grande do Sul, Brasil. O conjunto de dados inclui experimentos irrigados e não irrigados e um total de 16 cultivares de soja, com tipo de crescimento determinado e indeterminado, e grupo de maturidade relativa curto (GMR ≤ 5.4) a longo (GMR > 7.0). As cultivares de soja foram semeadas em épocas, antes (final de setembro e início de outubro), durante (final de outubro até dezembro) e após (a partir de dezembro) o período recomendado pelo Zoneamento de Risco Climático.

O delineamento experimental utilizado foi blocos ao acaso com quatro repetições. O espaçamento entre linhas foi de 0,45 m e a densidade foi de 30 plantas/m² em todos os locais. A data de emergência (VE) foi considerada quando 50% do total de plantas estavam com os cotilédones acima do solo. Plantas foram marcadas aleatoriamente, com arame colorido, para realizar avaliações de área foliar e fenologia. As avaliações de área foliar foram realizadas através de um método não destrutivo, medindo-se o comprimento e largura do folíolo central de todas as folhas, e a área foliar foi calculada pelo método descrito por Richter et al. (2014). A fenologia foi monitorada com frequência semanal seguindo a escala fenológica de Fehr e Caviness (1977). A produtividade de grãos foi determinada em uma área de 4 m².

Para quantificar a influência do índice de área foliar no potencial de produtividade de grãos da cultura da soja foi adotada a metodologia da boundary function proposta por French e Schultz (1984). O valor de IAF que proporciona o potencial de produtividade foi definido quando o incremento de produtividade foi inferior a 0,5% com o aumento de 0,1 de IAF. Utilizando a equação (y = 5842 antes de 4 de novembro; y = 5842 – 0.026x após 4 de novembro) proposta por Zanon et al. (2016), foi calculado o potencial de produtividade em função da data de semeadura de cada cultivar.

Após, foi determinada a diferença entre o potencial de produtividade e a produtividade observada para cada cultivar em cada data de semeadura. Os resultados dessa diferença foram separados em tercis e classificados em três grupos: alta produtividade, média produtividade e baixa produtividade e relacionado com o IAF em R1 (IAFR1) e o IAF em R5 (IAFmax).

Os valores de IAFR1 que proporcionaram a máxima produtividade foram 4,5 e 3,6 para cultivares com tipo de crescimento determinado e indeterminado, respectivamente, e para todas as cultivares o IAFR1 foi 3,6. O IAFmax foi 6,5 para cultivares determinadas, 6,0 para cultivares indeterminadas e 6,3 para todas as cultivares.


Quer aumentar o rendimento da sua lavoura? Acesse nosso curso e atualize-se!


Ao atingir esses valores, o potencial de produtividade de grãos em função do incremento de IAF estabiliza. Uma das hipóteses que explica a demanda de mais IAF para o novo potencial de produtividade das cultivares modernas (6,0 Mg ha-1), é o aumento da reserva de nitrogênio (N) nas plantas, elemento essencial para o enchimento de grão e para a qualidades do grão (Cafaro La Menza et al., 2017).

De acordo com o potencial de produtividade em função da data de semeadura estimado pelas equações de Zanon et al. (2016) (Figura 4), foi observada relação direta do aumento da produtividade com o aumento do IAFR1 e IAFmax para lavouras com perspectiva de alta produtividade (Figuras 4A e 4B). A relação expressa no coeficiente angular das equações das figuras 4A e 4B mostram que há uma relação de aumento de produtividade de 0,41 a 0,47 Mg ha-1 a cada 1,0 de aumento no IAFR1 e IAFmax, respectivamente.

Portanto, o IAFmax para lavouras de alta produtividade (acima de 4,5 Mg ha-1) deve ser maior que os valores de IAF (3,5 a 4,0) até então citados na literatura como IAF ótimo para soja (Specht et al., 1999). Para lavouras com média perspectiva de produtividade (entre 3,0 e 4,5 Mg ha-1), o coeficiente angular das figuras 4C e 4D também mostram uma relação direta do IAF com o aumento de produtividade, porem, em menor intensidade (entre 0,19 a 0,26 Mg ha-1 a cada 1,0 de aumento no IAFR1 e IAFmax, respectivamente). Já para lavouras que apresentam baixa perspectiva de produtividade (abaixo de 3 Mg ha-1), não houve relação direta do aumento do IAFR1 e do IAFmax com a produtividade (Figuras 4E e 4F).

Em outras palavras, para áreas que apresentam alto potencial produtivo, onde o solo foi corrigido para pH 6,0 e os níveis dos nutrientes essenciais são altos, sem ocorrência de deficiência hídrica e com bom controle dos fatores bióticos (plantas daninhas, insetos e doenças), a época de semeadura e a cultivar devem ser definidas visando atingir um IAFmax próximo a 6.0 e, consequentemente, produtividades próximas a 6,0 Mg ha-1. Áreas com condições não próximas ao potencial (menor que 4,5 Mg ha-1), devem melhorar o manejo, seja por fatores abióticos e/ou bióticos, antes de pensar em atingir IAFmax de 6.0. Para essas áreas, os valores de IAF de 3.5 a 4.0, citados como IAF ótimo para soja por Specht et al., 1999 e por outros autores, ainda são válidos.

Figura 1. Relação entre potencial de produtividade e o IAF: alta produtividade (A), média produtividade (C) e baixa produtividade (E) versus índice de área foliar em R1, e alta produtividade (B), média produtividade (D) e baixa produtividade (F) versus índice de área foliar máximo. Círculos amarelos: cultivares não irrigadas; círculos azuis: cultivares irrigadas.

Em geral, as lavouras acompanhadas nesse trabalho, que apresentaram IAFmax entre 6.0 e 6.5 e altas produtividades, tem algumas características em comum, como: semeadura precoce, utilização de cultivares com GMR entre 5,5 e 6,3, rotação de culturas e manejo integrado de pragas e doenças. Nessas áreas com altas produtividades (entre 4,5 e 6,0 Mg ha-1) e em algumas áreas com média produtividade (entre 3,0 e 4,5 Mg ha-1) foi observada uma otimização no uso dos recursos disponíveis, através de um manejo mais próximo ao preconizado pela FAO, que visa a sustentabilidade dos sistemas agrícolas. Portanto, concluímos que: a) há alta relação do IAFmax com a produtividade de grãos em áreas com potencial maior que 4,5 Mg ha-1; b) há relação do IAFmax com a produtividade de grãos em áreas com potencial entre 3,0 e 4,5 Mg ha-1; e c) não há relação do IAFmax com a produtividade de grãos em áreas com potencial menor que 3,0 Mg ha-1.

Referências

CAFARO LA MENZA, N., et al. Is soybean yield limited by nitrogen supply? Field Crops Research, v.213, p.204-212, 2017.

FEHR, W.R.; CAVINESS, C.E. Stages of soybean development. Ames: Iowa State University of Science and Technology, 1977. 15p.

FRENCH, R. J. & SCHULTZ, J. E. Water use efciency of wheat in a Mediterranean type environment. I. Te relation between yield, water use and climate. Aust. J. Agric. Res., v.35, p.743–764, 1984.

RICHTER, G. L., et al. Estimativa da área de folhas de cultivares antigas e modernas de soja por método não destrutivo. Bragantia, v.73, p.416-425, 2014.

SPECHT J.E.; HUME D.J.; KUMUDINI S.V. Soybean yield potential a genetic and physiological perspective. Crop Science, v.39, p.1560–1570, 1999.

ZANON, A. J. et al. Contribuição das ramificações e a evolução do índice de área foliar em cultivares modernas de soja. Bragantia, v.74, p.279-290, 2015.

ZANON, A.J.; STRECK, N.A.; GRASSINI, P. Climate and management factors influence soybean yield potential in a subtropical environment. Agronomy Journal, v. 108, p.1447-1454, 2016.

Informações dos autores:  

1Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Santa Maria, RS;

2Instituto Rio Grandense do Arroz – IRGA;

3Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA, Itaqui, RS.

Disponível em: Anais do VIII Congresso Brasileiro de Soja. Goiânia – GO, Brasil.

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.