Por Caroline Wesp Guterres

Introdução

O mofo branco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum(Lib.) de Bary, era considerado até pouco tempo, uma doença de importância secundária para a soja na maioria das regiões do Rio Grande do Sul.

No entanto, nas safras 2016/17 e 2017/18 foram observados aumentos significativos de áreas com incidência do problema. Dentre as cooperativas associadas à CCGL, cerca de 70% relatam a ocorrência da doença em lavouras pertencentes a suas áreas de atuação.

Destas, 93% perceberam o aumento da doença nas últimas safras. Dentre os principais fatores para o aumento de áreas com incidência de mofo branco, destacam-se as condições climáticas e as práticas de manejo.

Condições climáticas, infecção e disseminação

Em relação ao clima, a temperatura mais baixa observada nas duas últimas safras, que na média, ficou entre 1 e 1,5°C abaixo das médias observadas na safra 2015/16, merece destaque. A boa disponibilidade hídrica, que favoreceu a produtividade na maioria das regiões produtoras, também favoreceu o desenvolvimento da doença. Em condições de umidade prolongada e temperaturas entre 10°e 21°C, os escleródios presentes no solo (estruturas de sobrevivência do fungo que podem sobreviver por até cinco anos à espera de condições favoráveis) germinam, dando origem aos apotécios (estruturas de frutificação que lembram uma taça) (Figura 1 C).

Os apotécios produzem os ascósporos (esporos de S. sclerotiorum) que são ejetados e podem atingir as plantas de soja em um raio de até 50m. Qualquer parte da planta pode ser infectada, desde vagens, folhas, hastes e axilas. Contudo, as flores são consideradas a principal fonte de nutrientes para as infecções iniciadas via ascósporos. Assim, para soja, a fase de maior vulnerabilidade vai do início do florescimento (R1) até o início da formação
de grãos (R5).

Um dos principais veículos de disseminação da doença é a semente. Atransmissão pode ocorrer através de micélio dormente, presente internamente nas sementes, ou, através de escleródios associados a estas. Em 2009, a Portaria nº 47, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) passou a recomendar que sejam recusados lotes de sementes de soja que apresentem 01 (um) escleródio/500 g semente. A utilização de sementes salvas e sem beneficiamento pode contribuir para a disseminação do fungo, que pode reduzir em até 40% a produtividade das lavouras.

Se oriundos de áreas com contaminação por mofo branco, mesmo lotes aparentemente sem contaminação, podem conter micélio do fungo no interior de sementes. Neste sentido, a utilização de sementes de qualidade, certificadas, com boa germinação e vigor é de fundamental importância.

Caso as sementes sejam provenientes de áreas onde se observou a presença de mofo branco, o tratamento de sementes com fungicida específico faz-se necessário.

Estratégias de manejo e controle

O fungo S. sclerotiorum possui um grande número de plantas hospedeiras, que vão desde a soja, feijão, girassol, algodão, ervilha, canola e nabo, a espécies de plantas daninhas. Cerca de 60% dos produtores nas áreas de abrangência das cooperativas utilizam a soja em monocultivo e, em muitas situações, plantas daninhas estão presentes nas lavouras.

Além disso, é comum a utilização de nabo forrageiro no período de inverno. Em áreas com ocorrência frequente da doença recomenda-se a rotação de culturas com espécies não hospedeiras por pelo menos duas safras. Nestes casos, em condições ambientais favoráveis à doença, os escleródios germinam e produzem ascósporos, que não encontram hospedeiros suscetíveis e acabam por sucumbir.

Uma boa opção para a rotação no verão são espécies gramíneas, como o milho. As culturas de inverno também necessitam ser escolhidas com cuidado, já que podem ser fonte de introdução da doença nas áreas, através de suas sementes, ou servir como fonte de multiplicação em caso de inóculo já presente na lavoura.

Em estudo realizado pelo Laboratório de Fitopatologia da CCGL, grande parte dos lotes de sementes de nabo forrageiro analisados apresentaram infecção de mofo nas sementes, seja pela presença de escleródios (Figura1 A) ou de micélio interno nas sementes, em uma taxa média de 6,5% de infecção/lote.

A presença de uma boa camada de palhada é fator importante no manejo do mofo branco. Além de atuar como barreira física, a pouca luminosidade conferida pela cobertura morta, principal-mente de gramíneas, facilita que os escleródios sejam destruídos mais rapidamente, através da ação de microrganismos antagonistas.

Nessa linha, o controle biológico também tem se apresentando como alternativa eficiente para minimizar o avanço do mofo branco. As principais espécies de antagonistas utilizados no manejo são Trichoderma sp. e Bacillus subtilis, que podem ser utilizados via tratamento de sementes, na entressafra ou nos períodos iniciais de cultivo da soja.

O principal cuidado a ser tomado é respeitar as condições ideais para aplicação e desenvolvimento dos antagonistas. Essas condições requerem uniformidade na frequência de chuvas na fase vegetativa da cultura da soja e manutenção de temperaturas amenas na superfície do solo (até 25°C), sendo a cobertura do solo com palhada um pré-requisito que contribui para a manutenção deste ambiente. Para Trichoderma, as temperaturas ideais ficam entre 25° e 28°C e alta umidade. Temperaturas entre 10° e 17°C reduzem seu crescimento micelial.

O uso de fungicidas para o controle de mofo é recomendado, de preferência de forma preventiva, a fim de proteger hastes, ramos, folhas e flores. Em áreas com histórico da doença e/ou quando são observados apotécios de S. sclerotiorum a recomendação é de que as aplicações sejam iniciadas no fechamento das entrelinhas, a partir de R1 em cultivares de hábito de crescimento determinado e a partir de R2 em cultivares de hábito indeterminado.

Caso as condições ambientais sejam favoráveis à doença, ou sejam observados apotécios, indica-se nova aplicação de fungicida em intervalo não superior a 10 dias. A eficiência de fungicidas para controle de mofo branco e a redução da massa de escleródios nas safras 2016/17 e 2017/18 é apresentada na Tabela 1, que sumariza os dados dos ensaios cooperativos para avaliação da eficiência de fungicidas para controle de mofo branco, organizados pela Embrapa.

Considerações finais

Uma vez que o percentual de controle observado com a utilização de fungicidas não ultrapassa 80%, a formação de escleródios ainda é possível. Sendo assim, devem ser adotadas estratégias de manejo que visem minimizar e inviabilizar a produção de escleródios na safra e na entressafra.

Algumas medidas para controlar e evitar a disseminação da doença são: evitar o cultivo de espécies hospedeiras em áreas com incidência, quando do cultivo de soja evitar elevada população de plantas, aumentar o espaçamento entrelinhas, escolher cultivares com porte mais ereto e período mais curto de florescimento, evitar irrigação excessiva (nos casos de áreas com pivô) e optar por épocas de semeadura que não coincidam com períodos de maior suscetibilidade, em função das condições ambientais.

Deve-se, ainda, eliminar plantas guaxas de soja e/ou espécies daninhas hospedeiras. A melhor alternativa no manejo do mofo branco é evitar a introdução do fungo na lavoura. Assim, se tratando de espécies hospedeiras, como soja, feijão, girassol, canola, nabo e outros, o uso de sementes com qualidade e procedência é fator decisivo.

Literatura Consultada

JACCOUD FILHO, D.S.; HENNENBERG, L.; GRABICOSKI, E.M.G. (eds.). Mofo branco – Sclerotinia sclerotiorum. Ponta Grossa:Todapalavra, 2017. p. 520p.

MEYER, M. C.; CAMPOS, H. D.; GODOY, C. V. et al. 2017. Eficiência de fungicidas para controle de mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) em soja, na safra 2016/17: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos. Londrina: Embrapa Soja, 2017. 5p.

MEYER, M. C.; CAMPOS, H. D.; GODOY, C. V. et al. 2018. Eficiência de fungicidas para controle de mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) em soja, na safra 2016/17: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos. Londrina: Embrapa Soja, 2018. 6p.

Boletim elaborado com base nos dados apresentados no I Workshop Mofo Branco, promovido pela Rede Técnica Cooperativa – RTC.

Sobre a Autora: Caroline Wesp Guterres é doutora em fitotecnia com ênfase em fitopatologia Pesquisadora CCGL | Pesquisa e tecnologia, e-mail: caroline.wesp@ccgl.com.br

Fonte: Boletim Informativo CCGL

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