Mulheres são imprescindíveis para setor agropecuário, diz ex-ministro Roberto Rodrigues

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As mulheres que vivem e, especialmente, trabalham no campo são fundamentais no combate à fome e a pobreza. A declaração foi feita por José Graziano, diretor-geral da Organização das Nações Unidos para Agricultura e Alimentação, durante um evento sobre igualdade de gênero, paralelo à 40ª sessão da Conferência da FAO, encerrada no último dia oito de julho, em Roma, Itália.

“O papel delas vai além da produção agrícola e se estende ao longo do sistema alimentar, mas como sabemos, as mulheres rurais continuam a enfrentar muitos constrangimentos”, comentou Graziano, durante o encontro, conforme publicação do organismo internacional. Ele ainda citou, como exemplos, o menor acesso aos meios de produção e às oportunidades de trabalho para elas.

Embora o cenário rural ainda não seja o melhor de todos para as mulheres que atuam no setor agropecuário em geral, o ex-ministro Roberto Rodrigues, embaixador especial da FAO para o cooperativismo mundial, diz não ter a menor dúvida de que as mulheres são imprescindíveis para as atividades ligadas à agropecuária e ao agronegócio no mundo todo e também no Brasil.

“Começa com a formação de recursos humanos para o setor: hoje em dia, quase metade dos estudantes de Ciências Agrárias são mulheres, uma expressiva mudança nesse setor. Esse cenário ainda tem uma nota relevante: as formandas universitárias vêm recebendo grande parte dos prêmios oferecidos pelo setor privado aos melhores alunos das universidades”, relata Rodrigues, em entrevista à equipe SNA/RJ.

De acordo com o ex-ministro, que também coordena o Centro de Agronegócio da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP), depois de graduadas, essas mulheres vão trabalhar em pesquisa e ensino, em grande parte.

“Muitas, no entanto, tornam-se gerentes de propriedades rurais, com um papel destacado na área de gestão, em todas as suas facetas. Com isso, já vem se ombreando aos homens nos programas de sucessão nas fazendas”, ressalta Rodrigues, que também é membro da Academia Nacional de Agricultura da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA).

COOPERATIVAS

Também nas cooperativas e entidades de classe tem sido notável o crescimento da população feminina, especialmente no setor financeiro.

“São inúmeras as cooperativas agropecuárias com comitês femininos, o que permite, crescentemente, a eleição dessas líderes para conselhos de administração ou fiscal nas empresas, quando não em cargos de comando mesmo”, relata o executivo.

Segundo Rodrigues, muitas organizações de mulheres do agro vêm surgindo em todo o país: “Entre elas, destaco o Núcleo Feminino do Agronegócio, com um grupo significativo de empresárias rurais. Essa presença tem sido tão importante a ponto de já existirem, exclusivamente, congressos de mulheres do agronegócio, sendo que o maior deles foi realizada no ano passado, em São Paulo, contando com mais de 800 participantes”.

O executivo se refere ao 1º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, realizado em outubro de 2016, que já tem data marcada para a segunda edição neste ano: 17 e 18 de outubro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo (SP). Inscrições e mais informações sobre o evento, acesse http://mulheresdoagro.com.br.

Um exemplo de que a união faz a força é o grupo Café do Norte Pioneiro, criado em 2013 pelo Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), para incentivar o cultivo de bebidas especiais por mulheres. Hoje, o projeto reúne cerca de 200 participantes. E o melhor disso: o grupo paranaense foi o primeiro no Brasil a integrar a Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA, da sigla em inglês), rede internacional formada por mulheres envolvidas em toda a cadeia de negócios do café, presente em 15 países.

POLÍTICA E MEIO AMBIENTE

Na política, também “há um moderno envolvimento feminino”. “Basta ver o Senado Federal, que conta com duas grandes lideranças (do setor agropecuário): Ana Amélia Lemos e Kátia Abreu (ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Na Câmara dos Deputados, temos a figura brilhante de Tereza Cristina, que já foi secretária de Agricultura de Mato Grosso do Sul, além da agrônoma Mônika Bergamaschi, que ocupou o cargo de secretária de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, e hoje comanda a Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) de Ribeirão Preto (SP)”, exemplifica o ex-ministro.

Na área ambiental, cita Rodrigues, elas também vêm exercendo influência cada vez maior, seja em órgãos públicos , seja em Organizações Não Governamentais (ONGs). “Vale lembrar que tivemos, recentemente, duas ministras na pasta do Meio Ambiente”, lembra o executivo.

Ele se refere a Marina Silva, que ficou no cargo de janeiro de 2003 a maio de 2008, durante o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva; e Izabella Teixeira, que comandou o MMA de janeiro de 2011 a maio de 2016, no governo de Dilma Rousseff.

AGRICULTURA FAMILIAR

Para Rodrigues, “sem dúvida, é na agricultura familiar que o papel das mulheres é mais apreciado, porque elas atuam em todos os setores da propriedade, desde o preparo da terra até a comercialização da produção, passando pela fabricação de alimentos, que agregam valor ao produto primário”.

“Em suma, devemos agradecer às mulheres brasileiras que se dedicam ao agro, porque seu esforço engrandece nosso setor.”

Mais de 14 milhões de mulheres trabalham nas lavouras do Brasil, comunidades quilombolas e indígenas e nas reservas extrativistas. Isso reforça o protagonismo do sexo feminino na agricultura familiar, até porque 45% dos produtos agrícolas são plantados e colhidos por elas.

Esse cenário foi atestado pelo último Censo Agropecuário (2006), realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ainda aponta: 12,68% e 16% dos estabelecimentos rurais e da agricultura familiar, respectivamente, têm mulheres como chefes.

Ainda segundo o Censo, as mulheres rurais são responsáveis pela produção destinada à subsistência de suas famílias, contribuindo com 42,4% da renda domiciliar. Esse mesmo índice cai para 40,7% quando foi avaliada a renda familiar nas cidades.

Em março deste ano, a Secretaria Especial da Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Rural (Sead) lançou a campanha internacional #MulheresRurais, mulheres com direitos, com o objetivo de dar visibilidade a elas e ao trabalho que exercem para o desenvolvimento socioeconômico do país.

As ações dessa campanha estão previstas para serem realizadas até novembro deste ano, trazendo como temática os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU. Vale informar que o Dia Internacional da Mulher Rural é comemorado, desde 2008, em no dia 15 de outubro.

PROGRAMAS DA FAO

Durante a 40ª sessão da Conferência da Organização das Nações Unidos para Agricultura e Alimentação, em Roma, o diretor-geral da instituição, José Graziano, também citou as iniciativas da própria FAO, em conjunto com outros organismos internacionais, para apoiar as mulheres no meio rural.

Um desses programas, chamado de Acelerando o progresso rumo ao empoderamento econômico da mulher rural, tem permitido às mulheres acessar linhas de crédito e abertura de negócios próprios, ressaltou o executivo.

Para reforçar esse cenário, estão abertas as inscrições para o concurso de relatos e fotografias sobre as experiências de vida de mulheres rurais e suas organizações na América Latina e Caribe, promovido pela FAO. O regulamento está disponível aqui.

O objetivo do concurso é fortalecer o papel fundamental das mulheres rurais no marco dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o desenvolvimento rural e a erradicação da fome e da pobreza. Os materiais podem ser encaminhados até dia 31 de julho. Para mais informações, acesse http://ow.ly/NuhP30dJKdt  (link encurtado).

Fonte: SNA

Texto originalmente publicado em:
SNA
Autor: SNA/RJ

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