Objetivou-se, com esse experimento, verificar os possíveis efeitos residuais do N mineral e biológico (inoculação das sementes com diferentes doses e formas de aplicação) aplicados em duas cultivares de soja, sobre a produtividade de grãos da cultura em sucessão, no caso, o milho safrinha.

Autores: Adriel Rafael Rigotti (1), Giulia Maria Basso (1), Joaquim Pedro de Lima (2), Franciele Caetano Sampaio (3), Matheus Bortolanza Soares (4), Mario Henrique Lago (5) e Cassiano Spanziani Pereira (6)

Introdução

O milho (Zea mays L.) é um dos mais importantes cereais cultivados e consumidos no mundo, isso devido ao seu potencial produtivo, valor nutritivo e usos, tanto na alimentação humana e animal. Por suas características fisiológicas, a cultura do milho tem alto potencial produtivo, podendo atingir até 16.000 kg ha-1, segundo levantamentos de produtividade de milho no Brasil (Embrapa, 2013). No Brasil, na safra 2016/2017 foram produzidos cerca de 96 milhões de toneladas de grãos de milho, sendo o estado de Mato Grosso o maior produtor nacional, com aproximadamente 28,12% da produção nacional (Conab, 2017).

O cultivo do milho exige uma nutrição adequada, principalmente em nitrogênio – N (Bastos et al., 2008) e deve-se considerar que a adubação nitrogenada pode variar em sistema plantio direto, conforme a utilização de culturas de cobertura, relação C/N da palhada da cultura anterior e rotação de culturas, visando sempre a sustentabilidade desse sistema conservacionista.



A manutenção de resíduos vegetais da soja, sobre o solo, para aproveitamento da cultura do milho safrinha é uma variável importante na ciclagem de nutrientes. Porém, dependendo do manejo dado a estes resíduos, deixando-os em superfície ou incorporandoos no solo, e dependendo das condições climáticas da região, resultará em diferentes velocidades de decomposição dos resíduos (Torres et al., 2005).

Objetivou-se, com esse experimento, verificar os possíveis efeitos residuais do N mineral e biológico (inoculação das sementes com diferentes doses e formas de aplicação) aplicados em duas cultivares de soja, sobre a produtividade de grãos da cultura em sucessão, no caso, o milho safrinha.

Material e Métodos

O experimento foi conduzido de fevereiro a junho de 2014, na safrinha, em área experimental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em Sinop – MT (11° 86’ 55’’ S, 55° 48’ 45’’ W e 384 m de altitude). O clima da região, segundo classificação de Köppen, é do tipo Am. Os dados climáticos foram obtidos na estação meteorológica da UFMT (Figura 1).

Figura 1. Precipitação diária e temperatura do ar registradas durante o período experimental. Fonte: UFMT (2014).

A área experimental encontrava-se no primeiro ano do sistema semeadura direta, no ano agrícola 2012/2013 a cultura antecessora foi a soja e após o milho safrinha. O solo da área é classificado como Latossolo Vermelho Distrófico (Santos et al., 2013). Efetuou-se análise de solo antes da implantação da soja, cujos os resultados foram: pH em H2O (5,0), M.O (21,84 g kg-1); P (2,0 mg dm-3), K (10,0 mg dm-3) obtidos com extrato Mehlich I, com extrato KCl 0,01 mol L-1, Ca (39,0 mmolc dm-3), Mg (7,0 mmolc dm-3) e V (14,78%). Os teores de micronutrientes, expressos em mg dm-3, foram: B (0,3), Cu (0,61), Fe (150,09), Mn (2,96) e Zn (0,43). Em relação à análise granulométrica do solo, verificou-se o seguinte 311, 179 e 510 g kg-1 de areia, silte e argila, respectivamente.

O delineamento experimental foi o de blocos casualizados com quatro repetições. O esquema foi o fatorial 8 x 2. Os tratamentos foram implantados na cultura anterior, no caso, na soja. Em seguida, semeou-se o experimento com o híbrido de milho Dow 2B688 PW. O primeiro fator, com oito níveis, consistiu em aplicações de N mineral e biológico (inoculação das sementes com diferentes doses e formas de aplicação), sendo: 1) testemunha (sem N e uso de inoculante); 2) N mineral (200 kg ha-1 de N, aplicado a lanço); 3) 400 mL ha-1 de inoculante líquido na semente; 4) 400 mL ha-1 de inoculante turfoso na semente; 5) 400 mL ha-1 de inoculante líquido no sulco; 6) 100 mL ha-1 de inoculante líquido na semente; 7) 100 mL ha-1 de inoculante líquido no sulco; e 8) 100 mL ha-1 de inoculante turfoso na semente. O segundo fator foram as cultivares de soja de uso regional em solos de áreas novas de cultivo em Mato Grosso: TMG 1188 RR e TMG 133 RR (Pereira et al., 2016).

O solo foi corrigido com 10% de MgO e 46% de CaO incorporado antes da implantação da soja, com soma de bases de 60%. Após a colheita da soja, ocorreu a semeadura do milho, no dia 26/02/2014, atingindo população de 60.000 plantas ha-1. A adubação foi realizada em duas etapas, primeiramente na cultura da soja, com uma adubação na semeadura, aplicando-se 100 kg ha-1 de P2O5 e 90 kg ha-1 de K2O. No florescimento da soja efetuou-se adubação foliar com 2 kg ha-1 de Zn e B, sendo as fontes sulfato de zinco e ácido bórico. Em V3, aplicou-se via foliar cobalto e molibdênio, nas doses de 5 e 42 g ha-1 de Co e Mo, respectivamente.

Na semeadura do milho, aplicou-se 600 kg ha-1 do formulado N-P-K 04-14-08 no sulco de semeadura. Em V4 aplicou-se, a lanço, 16 kg ha-1 de N na forma de ureia, totalizando 40 kg ha-1 de N no milho. Levou-se em consideração o N residual da palhada da soja, por isso, este valor abaixo da necessidade da cultura. Aos 15 dias após a emergência, aplicou-se 40 kg de S elementar (S°).

Em quatro plantas da parcela, no estádio de desenvolvimento R1, avaliou-se o diâmetro de colmo (DC), índice de área foliar (IAF), altura de plantas (AP) e altura de inserção de espigas (AIE). As características AP e AIE foram obtidas com uma fita métrica, medindo-se desde o solo até o início do pendão e até a altura da espiga principal, respectivamente. Em seguida essas plantas foram levadas para o Laboratório de Alimentação e Nutrição Animal da UFMT, onde se obteve o número de folhas.

O DC foi determinado logo acima do segundo internódio com o auxílio de um paquímetro digital e o índice de área foliar com o auxílio de um integrador de área foliar Li-Cor modelo LI3010. No dia 18/07 foi realizada manualmente a colheita do milho e a debulha das espigas para determinação da produtividade, onde determinou-se a umidade inicial dos grãos pelo método padrão da estufa, conforme as Regras de Análises para Semente (Brasil, 2009) e posteriormente, a correção da umidade dos grãos para um teor de água de 130 g kg-1, com isso determinou-se a produtividade em kg parcela-1 e kg ha-1.

Efetuou-se os testes de aditividade do modelo, normalidade dos erros e homogeneidade das variâncias. Não havendo restrição às pressuposições da análise da variância, os dados obtidos foram submetidos à análise de variância (p<0,05) com o auxílio do software Sisvar®. Realizou-se o agrupamento de médias pelo teste de Scott-Knott (p<0,05).

Resultados e Discussão

Percebe-se, que a produtividade de grãos do milho safrinha foi o único parâmetro agronômico influenciado, isoladamente, pelo fator cultivar e também pela interação entre o uso de N e cultivares de soja (Tabela 1). Portanto, o efeito residual de N proveniente da cultura anterior (soja) foi de baixa magnitude e não acrescentando N suficiente para alterar as características de desenvolvimento do milho safrinha.

Tabela 1. Análise de variância para diâmetro de colmo (DC), índice de área foliar (IAF), altura de planta (AP) e de inserção de espiga (AIE) e produtividade de grãos (PROD) de milho em função dos tratamentos estudados.

Na Tabela 2 são apresentadas as médias de produtividade de grãos do milho safrinha em função da interação entre N e cultivares de soja. Verificou-se que os tratamentos aplicados na soja, ainda interferiram na produtividade do milho, mas, apenas quando foi usada a cultivar de soja TMG 1188 RR. Não se constatou diferença na produtividade do milho quando os manejos de inoculantes foram feitos na cultivar TMG 133 RR (Tabela 2).

Tabela 2. Médias de produtividade de grãos de milho semeado após soja, cultivares TMG 133 RR e TMG 1188 RR, que receberam aplicações de nitrogênio mineral e biológico (inoculantes).

A produtividade foi significativamente maior com 100 mL de inoculante turfoso na semente (100 TSU), na cultivar TMG 1188 RR, havendo uma diferença de 537 kg ha-1 de grãos em relação à testemunha. Pereira et al. (2016) também verificaram diferenças na produtividade de grãos de soja na safra de verão, sendo a cultivar TMG 1188 RR, mais produtiva que a TMG 133 RR, o que foi atribuído ao maior ciclo desta cultivar.

 Conclusões

O milho cultivado na safrinha, após as cultivares de soja TMG 133 RR e TMG 1188 RR, submetidas à adubação nitrogenada ou aplicação de inoculantes não teve aumento em seu desenvolvimento vegetativo. O milho semeado na safrinha aumentou sua produtividade quando a cultivar de soja anterior foi a TMG 1188 RR, a qual recebeu aplicação de inoculante via semente (100 mL ha-1), na forma turfosa.

Referências

BASTOS, E.A.; CARDOSO, M.J.; MELO, F.B.; RIBEIRO, V.Q.; ANDRADE JÚNIOR, A.S. Doses e formas de parcelamento de nitrogênio para a produção de milho sob plantio direto. Revista Ciência Agronômica, Fortaleza, v.39, n.2, p.275-280, 2008.

BRASIL. Ministério da agricultura – Regras para análise de sementes. Brasília: Departamento Nacional de Produção Vegetal, 2009. 399p.

CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento. Acompanhamento da safra brasileira: grãos, décimo segundo levantamento, setembro/2017. Brasília: Conab, 2017. 158p.

PEREIRA, S.C.; MONTEIRO, E.B.; BOTIN, A.A.; MANHAGUANHA, T.J.; BRAULINO, D. Diferentes vias, formas e doses de aplicação de Bradyrhizobium japonicum na cultura da soja. Federal de Educação, Instituto Ciência e Tecnologia Goiano, Rio Verde, v.9, n.1, p.56-67, 2016.

SANTOS, H.G.; JACOMINE, P.K.T.; ANJOS, L.H.C.; OLIVEIRA, V.A.; LUMBRERAS, J.F.; COELHO, M.R.; ALMEIDA, J.A.; CUNHA, T.J.F.; OLIVEIRA, J.B. Sistema brasileiro de classificação de solos. Brasília: Embrapa, 2013. 353p.

TORRES, J.L.R.; PEREIRA, M.G.; ANDRIOLI, I.; POLIDORO, J.C.; FABIAN, A.J. Decomposição e liberação de nitrogênio de resíduos culturais de plantas de cobertura em um solo de cerrado. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa – MG, v.29, p.609-618, 2005.

Informações dos autores:  

(1)Graduando(a) em Agronomia, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Sinop – MT;

(2)Engenheiro Agrícola, Mestrando, UFMT, Sinop – MT;

(3)Graduanda em Zootecnia, UFMT, Sinop – MT;

(4)Engenheiro Agrônomo, Mestrando, UFMT, Sinop – MT;

(5)Engenheiro Agrônomo, UFMT, Sinop – MT;

(6)Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Adjunto Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais, Sinop – MT.

Disponível em: Anais do XIV SEMINÁRIO NACIONAL DE MILHO SAFRINHA, Cuiabá – MT, Brasil,2017.

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