Parâmetros da regressão linear em aveia na perspectiva de identificação de cultivares mais ajustadas a redução de uso de fungicida em ano desfavorável ao cultivo

O objetivo do trabalho é caracterizar cultivares de aveia recomendadas para cultivo no Brasil pelo agrupamento de médias e análise de regressão linear, na definição de grupos de resistência genética às doenças foliares

Autores: Rubia Diana Mantai¹, Eldair Fabrício Dornelles2, Anderson Marolli1, Osmar Bruneslau Scremin1, Ana Paula Brezolin Trautmann1, Ângela Teresinha Woschinski de Mamann1, Adriana Roselia Kraisig1, Douglas Cézar Reginatto2, Luana Henrichsen2, José Antonio Gonzalez da Silva3

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

Na cultura da aveia, as doenças foliares são frequentes, dentre elas, a ferrugem da folha (Puccinia coronata Cda. f.sp. avenae) e a helmintosporiose [Drechslera avenae (Eidam) El Sharif] têm recebido especial atenção, uma vez que, estas doenças podem comprometer até 100% da produção (OLIVEIRA et al., 2014). Para amenizar os danos causados com padrão de aveia preconizado pela indústria, cultivares mais resistentes têm sido desenvolvidas (SILVA et al., 2015), porém, a forma mais rápida e eficiente de conter estas doenças foliares é o uso de fungicidas.

O maior consumo de aveia está no produto “in natura”, que após descascado é direcionado a produção de farelo, farinha ou floco (ROMITTI et al., 2016). Assim, são necessários cuidados quanto ao uso destes agroquímicos, tendo em vista que, o uso dos mesmos de forma indiscriminada eleva o nível de contaminação dos produtos e o agroecossistema (SILVA et al., 2015), podendo causar danos irreparáveis a saúde humana (VIERO et al. 2016). Logo, além da escolha de cultivares com alta produtividade e qualidade de grãos, há a necessidade de manejos mais eficientes com reduzida utilização de fungicidas (TORMEN et al., 2013; SILVA et al., 2015; ROMITTI et al., 2016).

O objetivo do trabalho é caracterizar cultivares de aveia recomendadas para cultivo no Brasil pelo agrupamento de médias e análise de regressão linear, na definição de grupos de resistência genética às doenças foliares. Além disto, estimar a taxa de produtividade de grãos e área foliar necrosada em função do momento e número de aplicações de fungicida, como suporte à identificação de genótipos mais ajustados à redução de uso de fungicida em condição de ano desfavorável ao cultivo.

O estudo foi desenvolvido em 2017, na área experimental do Instituto Regional de Desenvolvimento Rural (IRDeR), pertencente ao Departamento de Estudos Agrários (DEAg) da UNIJUÍ, Augusto Pestana/RS. O delineamento experimental adotado foi de blocos casualizados, seguindo um esquema fatorial 22 x 4, para as 22 cultivares de aveia branca e 4 condições de aplicações de fungicida respectivamente, com três repetições. Foram avaliadas as 22 principais cultivares de aveia branca recomendadas para o cultivo no Brasil: URS Altiva, URS Brava, URS Guará, URS Estampa, URS Corona, URS Torena, URS Charrua, URS Guria, URS Tarimba, URS Taura, URS 21, FAEM 007,  FAEM 006, FAEM 5 Chiarasul, FAEM 4 Carlasul, Brisasul, Barbarasul, URS Fapa Slava, IPR Afrodite, UPFPS Farroupilha, UPFA Ouro e UPFA Gaudéria.

As condições de uso do fungicida foram definidas da seguinte maneira: sem aplicação de fungicida, com uma aplicação aos 60 dias após a emergência (DAE), com duas aplicações (uma aplicação aos 60 e outra aos 75 DAE), e com três aplicações (uma aplicação aos 60, outra aos 75 e outra aos 90 DAE).

No controle das doenças foliares foi utilizado o fungicida PRIMO®  na dosagem 0,3 L ha-1 (ingrediente ativo: azoxistrobina e ciproconazol; classe: sistêmico do grupo estrobilurina e triazóis; e formulação: suspenção concentrada). As parcelas foram pulverizadas utilizando bico leque BD 04 com pressão 45 PSI, considerando volume de aplicação de calda do pulverizador igual a 120 L ha-1. Em todos os tratamentos, utilizou-se redutor de pH 30 ml ha-1 e óleo mineral Nimbus® 0,5 L ha-1. Foi efetuada análise dos valores médios com um desvio padrão para verificação da produtividade de grãos e área foliar necrosada.

Posteriormente realizado ajuste de equações de regressão linear visando taxa de crescimento da produtividade de grãos e área foliar necrosada em função do número de aplicações de fungicida, com análise dos parâmetros de coeficiente linear a angular pelo média mais ou menos um desvio padrão.

O ano agrícola de 2017 apresentou valores expressivos de precipitação pluviométrica na fase de enchimento de grãos (Figura 1). Portanto, condições mais propícias para o desenvolvimento de doenças foliares pelas condições de temperatura e umidade favoráveis.

Figura 1. Precipitação pluviométrica e temperatura mínima e máxima diária do ciclo de cultivo da aveia. Fonte: Estação meteorológica IRDeR/UNIJUÍ, 2017.

Por outro lado, na fase vegetativa, as condições de umidade do solo foram reduzidas no momento de aplicação do nitrogênio, o que diminui a eficiência de absorção do nutriente e aumenta as perdas por volatilização, principalmente pelas condições de temperatura elevadas. Destaca-se, que a adubação fornecida com base nos teores de matéria orgânica do solo e cultura precedente, era para uma expectativa de produtividade de grãos de 4000 kg ha-1, o que indica a reduzida produtividade de grãos obtida (̅=1861 kg ha-1), indicando esse ano agrícola como desfavorável ao cultivo de aveia.

Na Tabela 1, do resumo da análise de variância, a expressão da produtividade de grãos e área foliar necrosada avaliada aos 105 dias após a emergência, evidenciou significância dos efeitos principais e de interação para a área foliar necrosada.

Tabela 1. Resumo da análise de variância do efeito de fungicida em cultivares de aveia sobre a produtividade de grãos e área foliar necrosada.

Na Tabela 2, da análise de médias para o cultivo da aveia, expressivos valores de área foliar necrosada foram observados em todas as condições de uso de fungicida, principalmente na ausência do produto, o que influenciou diretamente sobre o desempenho das cultivares de aveia na expressão da produtividade de grãos.

Tabela 2. Média de produtividade de grãos e área foliar necrosada em cultivares de aveia nas condições de uso de fungicida.

Destaca-se que, as condições ambientais foram favoráveis ao desenvolvimento das principais doenças foliares, alcançando área foliar necrosada aos 105 dias após a emergência ao redor de 100%, em todas as cultivares recomendadas de aveia. As cultivares FAEM 007, FAEM Carlasul e UPFPS Farroupilha evidenciaram desempenho superior à média mais um desvio padrão nas condições sem uso, uma e duas aplicações de fungicida.

Dentre essas, a FAEM Carlasul também foi superior considerando a terceira aplicação de fungicida, inclusive mostrando desempenho superior com menor área foliar necrosada para a média menos um desvio padrão, nas condições de duas e três aplicações de fungicida. Embora a FAEM 007 e UPFPS Farroupilha tenham apresentado superioridade na maioria das condições de uso de fungicida, não apresentaram desempenho superior para redução de área foliar necrosada.

Estes fatos sugerem que o aumento de área foliar necrosada por uma cultivar pode ser compensado pela maior eficiência fisiológica das células que ainda estão sadias no processo de fotossíntese para elaboração da produtividade de grãos.

Na Tabela 3, de regressão linear da produtividade de grãos e área foliar necrosada, estão apresentados os resultados de desempenho das cultivares de aveia nas condições de uso de fungicida.

Tabela 3. Regressão linear da produtividade de grãos e área foliar necrosada em cultivares de aveia em função do número de aplicações de fungicida.

Destaca-se que, cultivares de desempenho superior (S) são aquelas que evidenciam pelo menos, desempenho superior (S) para o intercepto (b0), que indica o ponto de partida da variável na regressão e/ou o coeficiente angular (b1), que indica a taxa de crescimento da variável pelo número de aplicações de fungicida. Portanto, os valores de intercepto (b0) e de coeficiente angular (b1) das equações obtidas para área foliar necrosada, evidenciaram grande similaridade entre as cultivares. Contudo, destacam-se dentre as cultivares avaliadas a URS Corona, URS Guria, FAEM 007, FAEM 4 Carlasul e UPFPS Farroupilha para a produtividade de grãos.

Referências:

OLIVEIRA, E.A.D.P.; ZUCARELI, C.; FONSECA, I.C.D.B.; OLIVEIRA, J.C.D.; BARROS, A.S.D.R. Foliar fungicide and environments on the physiological quality of oat seeds. Journal of Seed Science, p. 15–24, 2014.

ROMITTI, M.V.; SILVA, J.A.G.; MAROLLI, A.; ARENHARDT, E.G.; DE MAMANN, A.T.W.; SCREMIN, O.B.; LUCCHESE, O.A.; KRÜGER, C.A.M.B.; ARENHARDT, L.G.; BANDEIRA, L.M. The management of sowing density on yield and lodging in the main oat biotype grown in Brazil. African Journal of Agricultural Research, v. 11, n. 21, p. 1935–1944, 2016.

SILVA, J.A.G.; WOHLENBERG, M.D.; ARENHARDT, E.G.; OLIVEIRA, A. C.; MAZURKIEVICZ, G.; MÜLLER, M.; ARENHARDT, L.G.; BINELO, M.O.; ARNOLD, G.; PRETTO, R.  Adaptability and stability of yield and industrial grain quality with and without fungicide in Brazilian oat cultivars, American Journal of Plant Sciences, v. 6, n. 9, p. 1560– 1569, 2015.

TORMEN, N.R.; LENZ, G.; MINUZZI, S.G.; UEBEL, J.D.; CEZAR, H.S.; BALARDIN, R.S. Reação de cultivares de trigo à ferrugem da folha e mancha amarela e responsividade a fungicidas. Ciência Rural, v. 43, n. 2, p. 239–246, 2013.

VIERO, C.M.; CAMPONOGARA, S.; CEZAR-VAZ, M.R.; COSTA, V.Z.; BECK, C.L.C. Sociedade de risco: o uso dos agrotóxicos e implicações na saúde do trabalhador rural. Escola Anna Nery, v. 20, n. 1, 2016.

Informações dos autores:  

¹Doutorando em Modelagem Matemática do Departamento de Ciências Exatas e  Engenharias da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ);

2Mestrando em Modelagem Matemática,UNIJUÍ.

3Eng. Agr., Doutor, Professor Dep. de Estudos Agrários, UNIJUÍ.

Disponível em: Anais do XXXVIII REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE AVEIA, Ijui – RS, Brasil, 2018.

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