Pesquisa realiza levantamento das espécies de mariposas no Oeste baiano para subsidiar o MIP na região

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Mariposa de H. armigera

Um estudo conduzido por pesquisadores da Embrapa Cerrados (Brasília, DF) revela a abundância de três espécies de insetos-praga – Helicoverpa armigeraSpodoptera frugiperda (lagarta-do-cartucho) e Chrysodeixis includens (lagarta falsa-medideira da soja) – nas lavouras do Oeste da Bahia. O trabalho, intitulado “Subsídios para o Manejo Integrado de Pragas e manejo da resistência de lepidópteros-pragas na paisagem agrícola do Oeste da Bahia”, foi apresentado por Silvana Paula-Moraes e Alexandre Specht, no dia 30 de outubro, na Fundação Bahia, em Luís Eduardo Magalhães (BA).

Os resultados se referem à safra 2014/2015. A apresentação integrou a programação do Encontro Técnico da Fundação Bahia e contou com a participação de mais de 100 técnicos, consultores e produtores da região. O projeto recebeu recursos do Fundo para o Desenvolvimento do Agronegócio do Algodão (Fundeagro), da Embrapa e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e teve o apoio da Fundação Bahia, da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) e de produtores rurais do Oeste Baiano.

Realizado em seis núcleos de produção agrícola (Anel da Soja, Angical, Ceolin, Coaceral, Roda Velha e Rosário) representativos das microrregiões do Oeste baiano, o trabalho tem como objetivos identificar a densidade da H. armigera e de outras espécies de lepidópteros-pragas de importância econômica na paisagem agrícola da região no período de safra, além de determinar as diferenças de densidades de noctuídeos em diferentes núcleos, sistemas produtivos e estágios fenológicos (fases de desenvolvimento) das culturas; avaliar a efetividade do refúgio estruturado na região na produção de populações de mariposas; e identificar a ocorrência de espécies de insetos noctuídeos presentes na paisagem agrícola da região – pragas ou não.

A equipe utilizou armadilhas luminosas e armadilhas de feromônio no período de janeiro a junho de 2015, durante três dias do período de lua nova de cada mês. As armadilhas luminosas foram instaladas nos seis núcleos, onde havia lavouras de algodão com Bt (toxinas sintetizadas por genes da bactéria Bacillus thuringiensis) e não Bt, em sistemas sequeiro e irrigado, cobrindo assim todo o Oeste da Bahia. Os insetos adultos coletados foram enviados ao Laboratório de Entomologia da Embrapa Cerrados, onde foram triados e identificados.

As maiores densidades de H. armigera foram observadas nos núcleos Anel da Soja, Ceolin e Rosário. “A maior densidade pode ser explicada em função da tecnologia utilizada, do sistema de cultivo e do estágio fenológico, sendo que a fase reprodutiva é preferencial para a H. armigera e é também tem maior duração que a vegetativa”, explicou Silvana.

Também foram levantadas as populações de insetos adultos de Elaphria agrotina, S. frugiperda e de C. includens em algodão. A E. agrotina foi a espécie mais numerosa nas capturas pelas armadilhas, e apesar de não causar danos às culturas agrícolas, chamou a atenção dos pesquisadores o fato de lagartas terem sido encontradas na fase final do ciclo do milho, já prestes a ser colhido. “No Mato Grosso, num trabalho colaborativo entre a Embrapa Cerrados e pesquisadores da região, foi reportada se alimentando da base da planta já seca, causando a queda e perdas, já que o milho que fica no chão não é colhido. Nesse caso, temos que continuar observando. É um inseto que prevalece principalmente na época seca. Fizemos alguns testes com algodão, mas a praga não se alimentou dele”, informou a pesquisadora.

“Existem diferenças nas densidades de H. armigera nos diferentes núcleos. Essa é uma informação que tem valor. É claro que é uma fotografia de um momento que já passou, mas ela ajuda a avaliar e nortear ações de manejo, que devem considerar as particularidades de cada microregião”, justifica Silvana.

Em termos de tecnologia utilizada na lavoura, não houve variação significativa no número médio de mariposas de H. armigera nas lavouras Bt e nas áreas de refúgio. No sistema sequeiro, as médias de insetos adultos foram superiores às do irrigado.

Diversidade de espécies

Mais de 60 mil insetos foram analisados durante os seis meses de trabalho. O pesquisador Alexandre Specht avaliou a densidade e a distribuição das principais espécies encontradas nos seis núcleos estudados, com o objetivo de compreender o comportamento e a ocorrência delas na paisagem agrícola.

Nos cinco núcleos com lavouras de soja, milho e algodão Bt, H. armigera, S. frugiperda, C. includens foram as espécies de insetos noctuídeos mais abundantes, juntamente com a E. agrotina. Houve alternância da espécie predominante em função de estágio fenológico das culturas, mas o trio de insetos-pragas apresentou sempre números notadamente superiores aos das demais espécies encontradas.

“O levantamento mostra que, de certa forma, têm sido dadas condições para três espécies, principalmente, no agroecossistema, pois ele está sendo simplificado devido à pressão dos inseticidas, que selecionam as espécies que conseguem sobreviver”, constatou o pesquisador. Ele acrescentou que é preciso estabelecer pesquisas para propor e validar o manejo para que mais espécies possam sobreviver com menos indivíduos. “É uma questão de inovação no manejo para tentar mudar a situação”, afirmou.

Área de refúgio

Outro trabalho foi realizado especificamente para avaliar a efetividade do refúgio estruturado a partir do monitoramento de lagartas e pupas em áreas Bt e não Bt de soja e de algodão, além da tentativa de coleta de insetos adultos. Foi medida a densidade de H. armigera em função da distância entre a área Bt e a respectiva área de refúgio.

O resultado não apontou diferença significativa entre os valores encontrados nas duas áreas. O mesmo foi observado em relação às densidades médias de lagartas, pupas e insetos adultos de S. frugiperda e C. includens. “As áreas de refúgio hoje têm a mesma quantidade de insetos que as áreas com lavouras Bt. Mas isso não quer dizer que a tecnologia Bt não está funcionando, mas que as áreas de refúgio têm sido conduzidas com sistema de manejo de lagartas, como se fossem áreas de cultura convencional, e assim não produzem os insetos não-selecionados (suscetíveis) ao Bt”, explicou Silvana.

A pesquisadora salientou que no manejo de resistência de pragas proposto e aceito no mundo, no qual se propõe a expressão da toxina em alta dose e a área de refúgio, é fundamental a produção de mariposas não selecionadas para reduzir ou, ao menos, retardar o risco de evolução da resistência dos insetos-pragas. “Dentro da amostragem que foi feita, isso efetivamente não está acontecendo”, apontou, acrescentando que área de refúgio não é um aspecto opcional. “Ela é um aspecto fundamental que acompanha a tecnologia Bt e tem que ser plantada”, destacou.

O entendimento da pesquisadora é de que é difícil estabelecer áreas de refúgio no Brasil em que não haja aplicação de inseticidas. Ela explicou que além da ocorrência de lagartas, existem outras pragas que frequentemente atingem níveis de controle que demandam manejo, como o bicudo-do-algodoeiro, o percevejo-da-soja e a mosca-branca. Mesmo no caso da incidência de lagartas, a pesquisadora considera que nos casos em que se detectem níveis de infestação que comprometam a área de refúgio, as pulverizações devem se dar em um nível diferenciado do adotado para as culturas convencionais.

“O fundamental agora é estabelecer o entendimento sobre o nível de controle diferenciado nas áreas de refúgio no País para garantir que os princípios do manejo da resistência à tecnologia e os benefícios da tecnologia Bt de que o agricultor usufrui sejam de médio e longo prazo, como observamos em países como Austrália e Estados Unidos”, disse. A pesquisadora enfatizou que se trata de pesquisa que demanda grandes áreas e recursos. Durante a reunião, um representante da empresa Bayer e membro do Comitê Brasileiro de Ação à Resistência de Inseticidas (Irac-BR) mencionou a proposta de projeto de forma a propor estes nívies de controle diferenciados.

Silvana lembrou que, no momento, não há a perspectiva de muitos lançamentos de novos produtos Bt no mercado. “A liberação dos Bt no Brasil se deu após alguns anos da tecnologia em outros mercados. Quando foram liberados no País, havia algo novo no mercado quase todo ano, então se criou a ideia de que sempre virá coisa nova. Mas o que ouvimos de vários segmentos em outros países é que a ‘gaveta’ de eventos e proteínas novas não está tão cheia”.

Manejo

Para a pesquisadora, para a discussão sobre o manejo da resistência de insetos-praga à tecnologia Bt, considerando os exemplos de países como a Australia, que têm obtido sucesso em retardar problemas de resistência de pragas-alvos, tornam-se necessárias ações e a organização de todos os segmentos envolvidos (empresas detentoras da tecnologia, agricultores, pesquisa, extensão e consultores e o segmento público), sendo do setor produtivo a decisão final da tomada de decisão. “Há um aspecto comportamental. A pesquisa tenta contribuir com informações, mas sozinha não vai conseguir resolver o problema. Isso tem que passar pelo entendimento dos riscos. O que teremos pela frente pode ser muito problemático a curto e médio prazo”, alertou.

A filosofia e os pressupostos do Manejo Integrado de Pragas, na visão de Silvana, ainda não são integralmente adotados no País, mas devem ser colocados em prática. “Quando o MIP foi proposto, na década de 1950, estava focado em uma condição de clima temperado, que é totalmente diferente da nossa. Mas nem por isso podemos desconsiderá-lo. Temos que produzir, cada vez mais, informações para as condições locais para poder viabilizar a sua adoção”, argumentou.

Ela acrescentou que, da mesma forma, o manejo de resistência dos insetos-pragas é fundamental. “Mais uma vez, não adianta importar o que está sendo feito em outros países. Temos que gerar dados para validarmos o que precisa ser aplicado em nossa situação”.

Fonte: EMBRAPA Cerrados

Autor: Breno Lobato – Embrapa Cerrados – 

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Texto originalmente publicado em:
EMBRAPA
Autor: Breno Lobato

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