Introdução

A adoção de cultivares de soja RR (RoundupReady) provocou mudanças drásticas nas práticas de  manejo de plantas daninhas. No âmbito do controle químico, houve o abandono dos herbicidas residuais e o uso quase que exclusivo do glifosato (dessecação e controle em pós-emergência) e, quanto ao manejo, ocorreu redução expressiva da área com rotação de culturas e com uso de coberturas de solo, resultando em menor aporte de palha ao solo.

Em conjunto essas mudanças nas práticas de manejo e de controle, resultaram na maior dependência do controle químico das plantas daninhas.

As espécies de poáceas

Se destacam em lavouras de sequeiro as espécies anuais Lolium multiflorum (azevém), Digitaria horizontalis (milhã), Eleusine indica (capim pé de galinha) e capim arroz (Echinochloa spp.), e as perenes Chloris spp. (capim canivete; capim branco), Andropogon bicornis (capim rabo de burro) e Digitaria insularis (capim amargoso).

As espécies perenes, além das sementes, se propagam por estruturas vegetativas (rizomas), dificultando seu controle

 O Controle 

No Quadro 1, são apresentados os mecanismos de ação com herbicidas que controlam espécies daninhas poáceas. Os herbicidas pós-emergentes, móveis, seletivos ou não, e que podem ser usados em plantas desde as fases iniciais até plantas adultas (florescimento ou perenizadas), se resumem aos inibidores da enzima enol-piruvil-chiquimatofosfato sintase – PSPS ou grupo G (glifosato) e inibidores da enzima acetil coenzima A carboxilase – ACCase ou grupo A.

Os herbicidas paraquate (inibiddor do fotossistema 1 – FS1 ou grupo D) e glufosinato (inibidor da enzima glutamina sin-tetase – GS ou grupo H) que são imóveis e não seletivos (o glufosinato é seletivo para cultivares Liberty Link), tem sua eficiência de controle limitada ao estádio de desenvolvimento, sendo indicados para plantas sem afilhos.

Os inibidores da enzima aceto lactato sintase – ALS ou grupo B, são móveis nas plantas e seletivos, sendo o diclosulam e imazaquim aplicados em pré-emergência, enquanto que, o imazetapir pode ser aplicado em pré ou em pós-emergência.

Os herbicidas flumioxazin e sulfentrazone (inibidores da enzima protoporfirinogênio oxidade – PPO ou grupo E), pendimetalin e trifluralina (inibidor de mitose, atuando na inibição da formação dos microtúbulos ou grupo K1) e Smetolacloro (inibidor de mitose, atuando na inibição da síntese de ácidos graxos de cadeia longa – VLFAou grupo K3), são pré-emergentes seletivos a soja e eficazes em poaceas.


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A Resistência 

O azevém (Lolium multiflorum) foi a primeira espécie poácea a apresentar resistência ao glifosato (inibidor da EPSPS) no Brasil. Atualmente, além da resistência ao glifosato, a espécie apresenta biótipo resistente a inibidores da ALS, a inibidor da EPSPS + ACCase, a inibidor da ACCase + ALS e a inibidor da EPSPS + ALS.

O azevém evidencia que a resistência evolui rapidamente, sendo necessário planejar o uso de herbicidas de modo que se reduza o processo de seleção. Além do azevém, existem mais cinco espécies daninhas poáceas em culturas de sequeiro brasileiras com biótipos resistentes a herbicidas (Quadro 1).

Entre elas, o capim pé de galinha possui biótipo resistente a inibidores da ACCase, a inibidor da EPSPS e a inibidores da ACCase+EPSPS no mesmo biótipo. O capim amargoso possui biótipo resistente a inibidores da ACCase e a inibidor da EPSPS.

O Custo

Considerando a dificuldade de controle natural das espécies perenes e os casos de resistência, as espécies daninhas poáceas serão responsáveis por aumentar o custo de controle e os prejuízos na produção da soja muito além do que atualmente representa a buva (Conyza bonariensis).

Estudo recente realizado por Adegas e colaboradores (2017), aponta que para controlar buva resistente ao glifosato e inibidores da ALS são necessários em média, R$ -1 50,00 ha a mais do que o necessário para controlar a buva sensível a estes herbicidas. Já para o capim amargoso o gasto adicional médio devido a resistência ao glifosato e a -1 inibidores da ACCase pode chegar a R$ 198,00 ha .

Nota-se que as poáceas já são em algumas regiões e serão em outras os grandes desafios tanto do ponto de vista do controle eficiente quanto do desembolso necessário para atingir o nível de controle necessário.

Considerações Finais 

Investir em sistemas de produção com rotação de culturas e cultivo de espécies para cobertura do solo é fundamental para a sustentabilidade do manejo de plantas daninhas. Esses sistemas devem priorizar alta produção de resíduos culturais (palha), com distribuição uniforme na lavoura, bem como, baixa taxa de decomposição (para garantir maior durabilidade após semeadura da cultura).

O uso estratégico de herbicidas, antecipando-se ao problema, preservará a vida útil dos produtos, retardando o surgimento de biótipos resistentes e mantendo os custos do controle dentro de faixa aceitável pelo agricultor.

Literatura consultada

ADEGAS, F.S. et al. Impacto econômico da resistência de plantas daninhas a herbicidas no Brasil. Circular Técnica 132, Embrapa, 2017.

AGROFIT. Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários. Acesso em 24/jul/2018. Disponível em http://agrofit.agricultura.gov. br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons

HRAC-BR. Associação Brasileira de Ação à Resistência de Plantas daninhas aos Herbicidas. Acesso em: 24/jul/2018. Disponível em: http://www.hrac-br.org/folders-e-livro

HEAP, I. The International Survey of Herbicide Resistant Weeds. Acesso em 24/jul/2018, disponível em www.weedscience.org

LORENZI, H. et al. Manual de identificação e controle de plantas daninhas. 7.ed. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2014. 383p.

SALVADORI, J.R., et al. Indicações Técnicas para a Cultura da Soja no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, safras 2016/2017 e 2017/2018. Reunião de pesquisa da Soja da região Sul, 41. Passo Fundo: UPF Editora, 2016

Sobre o Autor: Mario Antonio Bianchi é Doutor em Fitotecnia, Manejo de Plantas  daninhas, Pesquisador CCGL Pesquisa e Tecnologia, e-mail: mario.bianchi@ccgl.com.br

Fonte: Boletim Técnico nº 57 CCGL

Texto originalmente publicado em:
Boletim Técnico nº 57 CCGL
Autor: Mario Antonio Bianchi

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