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Desde 2016 agricultores e consultores do Paraguai têm apresentado reclamações de falta de controle de populações de picão-preto após a aplicação de glyphosate, tanto na dessecação antes da semeadura, como em aplicações em pós-emergência da cultura da soja. A seguir, são descritos uma série de estudos conduzidos no Paraguai de forma colaborativa pelo Eng. Agr. Fabrício Krzyzaniak em parceria com a EMBRAPA Soja e a Universidade Estadual de Maringá, no sentido de averiguar a possibilidade de se tratar de um caso de resistência.

A primeira coleta de sementes foi realizada na região de Naranjal (população 1), em Junho de 2016, em áreas onde houve a sobrevivência de plantas após a aplicação de glyphosate. As plantas oriundas das sementes coletadas (F1) foram submetidas a doses de até 8 L/ha de Roundup Original (360 g e.a./L) e observou-se controle insatisfatório (<55%) aos 42 dias após a aplicação (DAA).

Sementes coletadas das plantas sobreviventes foram novamente semeadas e as plantas que emergiram (F2) foram comparadas com uma população reconhecidamente suscetível num ensaio de dose-resposta. Neste ensaio foram aplicadas doses crescentes de glyphosate (0; 0,5; 1,0; 2,0; 4,0; 8,0; 16,0 e 32,0 L/ha de Roundup Original – 360 g e.a. L-1) (Figura 1), em pós-emergência, quando as plantas de picão-preto atingiram o estádio de 4 a 5 folhas. Os resultados permitiram calcular o “Fator de Resistência” (FR), que corresponde à razão entre o C50 (dose para 50% de controle) ou GR50 (dose para 50% de redução do acúmulo de biomassa) do biótipo resistente e o C50 ou GR50 do biótipo suscetível. Esta população apresentou FR de 17 com base na porcentagem de controle.

Uma segunda coleta de sementes foi realizada na região de Santa Rosa del Monday (população 2), em Janeiro de 2018. Um ensaio preliminar (F1) foi conduzido em casa de vegetação, onde 30 plantas da população suspeita e 30 plantas de uma população reconhecidamente suscetível receberam a aplicação de 2 L/ha de Roundup Transorb (480 g e.a. L), no estádio de 2 a 3 folhas. Todas as plantas da população suscetível morreram, mas nenhuma das plantas da população suspeita morreu (Figura 2).

Posteriormente, utilizando as sementes coletadas das plantas sobreviventes no primeiro ensaio, um estudo de dose-resposta foi realizado com as sementes (F2) coletadas em Santa Rosa del Monday, aplicando-se doses de 0,25; 0,5; 1,0; 2,0; 4,0; 8,0 e 16,0 L /ha de Roundup Transorb, quando as plantas se encontravam no estádio de 2 a 3 folhas. Aos 21 DAA, controle satisfatório (≥85%) foi observado apenas em doses a partir de 4,5 L p.c./ha (Figura 3) e o cálculo do FR resultou em 8,7 para a avaliação de porcentagem controle e 2,8 para a avaliação de biomassa. Experimentos estão sendo conduzidos em outra geração oriunda da coleta de sementes das plantas sobreviventes dos ensaios já realizados. Todas as aplicações de herbicidas foram realizadas em condições controladas, sob temperatura menor do que 30oC, umidade relativa maior do que 60% e solo úmido. Todas as plantas das duas populações avaliadas (população 1 e população 2) foram identificadas como Bidens subalternans.

No Brasil, até o momento, existem relatos de Bidens subalternans e Bidens pilosa resistentes a inibidores da ALS (Lopez-Ovejero et al., 2006), assim como de populações das duas espécies apresentando resistência múltipla a inibidores da ALS e a inibidores do fotossistema II (Gazziero et al., 2008; Takano et al., 2016).

O único caso de picão-preto resistente a glyphosate no mundo até então havia sido reportado no México, em populações de B. pilosa que foram selecionadas como resistentes em pomares de citros (Cruz et al., 2016). Conclui-se, portanto, que as duas populações estudadas apresentam resistência ao glyphosate e tanto as populações geradas a partir das sementes coletadas em campo quanto aquelas coletadas das plantas sobreviventes dos ensaios em casa de vegetação apresentam valores relativamente altos de FR. Estudos complementares estão sendo conduzidos no sentido de determinar se ocorre resistência múltipla a outros mecanismos de ação nestes biótipos.

Também estão sendo investigados os possíveis mecanismos de resistência destas populações ao glyphosate. Uma vez que as populações resistentes foram encontradas na região Leste do Paraguai, próximo à fronteira com o Brasil e a Argentina (Figura 4), é necessário redobrar os cuidados na região Oeste dos estados do Sul do Brasil para prevenir a entrada de sementes destas populações.

Autores:

  • Fabrício Kzryzaniak Eng. Agrônomo, Farm Consultoria
  • Fernando Storniolo Adegas Pesquisador Dr., Embrapa Soja
  • Rafael Romero Mendes Eng. Agrônomo Msc. PGA/UEM
  • Hudson Kagueyama Takano Eng. Agrônomo Msc. Colorado State University
  • Vanessa Francieli Vital Silva Eng. Agrônoma PGA/UEM
  • Rubem Silvério de Oliveira Jr. Professor Dr., Universidade Estadual de Maringá NAPD/UEM
  • Jamil Constantin Professor Dr., Universidade Estadual de Maringá NAPD/UEM
  • Fellipe Goulart Machado Eng. Agrônomo Msc. PGA/UEM
  • Luiz Henrique Morais Franchini Eng. Agrônomo Dr. PGA/UEM
  • Dionísio Luiz Pisa Gazziero Pesquisador Dr., Embrapa Soja
    ISSN

Fonte: INFORME TÉCNICO PGA-UEM, v; 04, número 01, de novembro de 2018

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Informe contou com a colaboração de:

  • Núcleo de Estudos Avançados em Ciência das Plantas Daninhas NAPD/UEM
  • Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
  • FARM Consultoria & Investigación Agronómica
  • Colorado State University

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REFERÊNCIAS

– CRUZ, R.A. et al. Target and non-target site mechanisms developed by glyphosate-resistant hairy beggarticks (Bidens pilosa L.) populations from Mexico. Frontiers in Plant Science, v.7, n.1, p.1-12, 2016.

– GAZZIERO, D.L.P. et al. Identificação de biótipo de picão-preto (Bidens subalternans) resistente a atrazine. In.: XXX Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil. 2008. Resumos. Londrina: Embrapa Soja, p.216-217, 2008.

– LOPEZ-OVEJERO, R.F. et al. Resistance and differential susceptibility of Bidens pilosa and B. subalternans biotypes to ALS-inhibiting herbicides. Scientia Agricola, v.63, n.2, p.139-145, 2006.

– TAKANO, H.K. et al. Multiple resistance to atrazine and imazethapyr in hair beggarticks (Bidens pilosa). Ciência e Agrotecnologia, v.40, n.5, p.547-554, 2016.

Texto originalmente publicado em:
Programa de Pós Graduação UEM
Autor: INFORME TÉCNICO PGA-UEM

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