Texto elaborado por Stefanía Dalmolin da Silva, meteorologista da Equipe SimulArroz. Data: 08/08/2018

  • Condições ocorridas em julho no Brasil:

Julho foi marcado com precipitação abaixo do normal em quase todo o Brasil. Nesse mês, as regiões Centro-Oeste e Sudeste se encontram na estação seca e, a região Nordeste na estação chuvosa. É possível perceber que ambas as regiões ocorreram chuvas abaixo ou pouco abaixo da normal climatológica nas três regiões (Figura 1A e 1B). No Rio Grande do Sul, exceto pela região da metade oeste no qual as chuvas foram regulares, o restante do estado também foi marcado com anomalias negativas da precipitação (Figura 1A e 1B). 

Com relação a temperatura, a região Centro-Oeste foi marcada por uma grande amplitude térmica (diferença entre as temperaturas mínima e máxima), com manhãs com temperaturas mais baixas que aumentavam rapidamente no decorrer do dia. Além disso, o mês de julho foi marcado também pela baixa umidade do ar, chegando a atingir menos de 20%. No Rio Grande do Sul, diferente do inverno passado, ocorreram mais dias frios e a predominância da alta umidade do ar.

Figura 1 – Mapa da precipitação acumulada (A) e a normal climatológica (B) da precipitação para o mês de Julho de 2018. Fonte: CPTEC
  • Condição do El Niño Oscilação Sul:

O El Niño Oscilação Sul (ENOS) é um fenômeno oceânico acoplado a atmosfera, que apresenta duas fases, uma fase quente ou positiva, denominada El Niño, e uma fria ou negativa, denominada La Niña.  A parte oceânica é caracterizada pela anomalia na temperatura da superfície do mar (TSM) no Oceano Pacífico equatorial. A parte atmosférica deste fenômeno tem relação com a intensidade dos ventos alísios.

O Oceano Pacífico Equatorial está sob condição de Neutralidade, sem influência de El Niño ou La Niña, porém há tendência de aquecimento para os meses seguintes. É possível observar que as águas localizadas mais ao leste da costa do continente sul-americano se encontram mais frias que o normal, no entanto esta região não influencia no padrão da precipitação do Brasil. A região marcada com uma caixa preta na figura 2, denominada de Niño 3.4, é a região no qual irá influenciar as chuvas no Brasil, e é nesta região que é realizado o monitoramento da anomalia da temperatura da superfície do mar (TSM). No mês de julho a anomalia da TSM foi de +0,2oC (Figura 2), valor que está dentro da normalidade. Para que o fenômeno El Niño se caracterize é necessário que a anomalia da TSM seja maior ou igual a +0,5oC, por um período de 5 trimestres consecutivos, pois este é um sistema lento e demora um tempo para que seus efeitos sejam sentidos. Nas regiões mais profundas do Oceano Pacífico, até 300m em profundidade, há uma bolha de águas mais aquecidas, com anomalias de 0,5 a 2oC, que irão ascender nos próximos meses. Vale salientar que a temperatura na superfície do Oceano Atlântico pode influenciar no regime de chuvas no Brasil (Figura 2). Como dito anteriormente, o ENOS é um fenômeno oceânico acoplado a atmosfera. No momento o oceano está em progressivo aquecimento, porém os ventos não mudaram de intensidade a ponto de configurar o El Niño, ou seja, a parte atmosférica ainda não está “preparada”. É necessário o monitoramento mensal destas duas variáveis, TSM e intensidade dos ventos, para o monitoramento do El Niño. Em se mantendo a condição de aquecimento nos meses seguintes, e o enfraquecimento dos ventos, há uma possível configuração do El Niño no final da primavera de 2018.

Figura 2 – Anomalia da temperatura da superfície do mar ocorrido no mês de julho de 2018. No quadro em preto está a região do Ñino 3.4 onde é feito o monitoramento das temperaturas. Fonte: CPTEC.
  • Previsão da precipitação:

Região Norte

A previsão indica que a precipitação deve ficar acima da normal em parte do sudeste e noroeste do Amazonas, Acre e norte do Pará. Anomalias negativas da precipitação são previstas para o estado de Roraima, centro sul do Pará e Tocantins.

Região Nordeste

A previsão indica que a precipitação fique dentro da normal climatológica no trimestre de agosto a outubro. Com a chegada da primavera, a estação seca começa a atuar nesta região, exceto nos estados do Piauí, Maranhão e Oeste da Bahia.

Região Centro-Oeste

No trimestre de agosto a outubro um período mais seco na região, principalmente nos estados do Mato Grosso e Goiás. No Mato Grosso do Sul é esperado que a precipitação fique dentro ou pouco acima da normal, exceto no centro-norte do estado. Durante o outono e inverno, esta região está sob influência da estação seca, porém com a chegada da primavera, a chuva irá voltar gradualmente nesta região.

Região Sudeste

Assim como na Região Centro-Oeste, o trimestre de agosto a outubro corresponde ao período mais seco desta região. A previsão indica precipitação abaixo da normal em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espirito Santo. A estação chuvosa que inicia com a chegada da primavera pode sofrer um leve atraso.

Região Sul

A previsão para o trimestre indica precipitação acima da normal em toda a região, porém vale ressaltar que agosto ainda será um mês com pouca chuva, principalmente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Figura 3 – Previsão da anomalia da precipitação para o trimestre de Agosto-Setembro-Outubro de 2018. Fonte: INMET


  • Impacto sobre as culturas:

Região Sul

Caso o El Niño seja confirmado, as lavouras de trigo no Rio Grande do Sul poderão ser prejudicadas devido à maior regularidade das precipitações (dificuldade para colher e possível redução do peso de hectolitro – pH), além de maior umidade relativa do ar e temperaturas amenas, que são condições meteorológicas que favorecem a multiplicação de doenças. Além disso, o maior número de dias com chuva e nebulosidade, reduz a incidência de radiação solar durante o período de enchimento de grãos, que é crítico para definir qualidade e produtividade de trigo.

Para o milho, a semeadura já iniciou, que é a época de semeadura que permite as lavouras de milho alcançar o maior potencial de produtividade. A maior regularidade de precipitações favorece o estabelecimento inicial e o desenvolvimento vegetativo, sendo favorável para aumentar o potencial produtivo.

Para arroz irrigado, o período de chuvas prejudica o preparo de áreas onde não foi realizado o preparo antecipado. Os produtores de arroz devem aproveitar as janelas de tempo seco de agosto e intensificar o preparo do solo.

Regiões Centro-Oeste e Sudeste

A falta de chuva prevista para o trimestre de Ago-Set-Out para o Centro-Oeste e Sudeste pode prejudicar a produção de trigo, que já sofreu com a estiagem no mês de julho.

As baixas precipitações nesse trimestre podem provocar o atraso das lavouras de soja e milho semeadas na primeira safra.


Este é o primeiro boletim de Previsão Climática e sua interpretação para a Agricultura, da parceria Mais Soja/SimulArroz. O boletim elaborado mensalmente pela meteorologista da Equipe SimulArroz Stefania Dalmolin da Silva vai trazer as tendências climáticas paras as regiões brasileiras com foco na aplicação para a agricultura.

Quer acompanhar o trabalho da Equipe do SimulArroz clique no ícone abaixo.

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.