Texto elaborado por Stefanía Dalmolin da Silva, meteorologista da Equipe SimulArroz. Data: 11/09/2018

  • Condições ocorridas em agosto no Brasil

Agosto apresentou precipitação bastante distinta nas cinco regiões do Brasil. Na região Sul a precipitação foi dentro ou acima da normal climatológica, com anomalias positivas de 50 mm no Rio Grande do Sul e 100 mm no Paraná (Figuras 1A e 1B).

Na região Centro-Oeste a média climatológica da precipitação varia de 1 a 50 mm, e a precipitação ocorrida variou de 25 a 250 mm (Figuras 1A e 1B). Na região Sudeste a precipitação ficou dentro ou pouco acima da normal. A região Nordeste foi aquela com precipitação abaixo da normal na maioria dos estados, e na região Norte a precipitação ocorreu pouco abaixo da normal no Pará e Amapá, e acima da normal do Amazonas (Figuras 1A e 1B).

Figura 1 – Precipitação acumulada (A) e a normal climatológica (B) da precipitação para o mês de agosto de 2018 no Brasil. Fonte: CPTEC
  • Condição do El Niño Oscilação Sul

O El Niño Oscilação Sul (ENOS) é um fenômeno oceânico acoplado a atmosfera, que apresenta duas fases, uma fase quente ou positiva, denominada El Niño, e uma fria ou negativa, denominada La Niña. A parte oceânica é caracterizada pela anomalia na temperatura da superfície do mar (TSM) no Oceano Pacífico equatorial. A parte atmosférica deste fenômeno tem relação com a intensidade dos ventos alísios.

Assim como em julho, no mês de agosto o Oceano Pacífico Equatorial esteve sob condição de Neutralidade climática, sem influência de El Niño ou La Niña. É possível observar que as águas localizadas mais ao leste da costa do continente sul-americano apresentaram um leve aquecimento em comparação ao mês anterior.

A região marcada com uma caixa preta na Figura 2, denominada de Niño 3.4, é a região no qual irá influenciar as chuvas no Brasil, e é nesta região que é realizado o monitoramento da anomalia da temperatura da superfície do mar (TSM). No mês de agosto a anomalia da TSM foi de +0,1oC (Figura 2), valor que está dentro da normalidade.

Para que o fenômeno El Niño se caracterize é necessário que a anomalia da TSM seja maior ou igual a +0,5oC, por um período de 5 trimestres consecutivos, pois este é um sistema lento e demora um tempo para que seus efeitos sejam sentidos. Vale salientar que a temperatura na superfície do Oceano Atlântico pode influenciar no regime de chuvas no Brasil (Figura 2).

Como dito anteriormente, o ENOS é um fenômeno oceânico acoplado a atmosfera. No momento o oceano está em progressivo aquecimento, porém os ventos não mudaram de intensidade a ponto de configurar o El Niño, ou seja, a parte atmosférica ainda não está “preparada”.

O aquecimento do pacífico equatorial está desuniforme e de maneira diferenciada do que ocorre quando está para se configurar um El Niño clássico, o que não descarta a possibilidade de condição neutra até o final do ano, ou ainda a configuração de um tipo diferente de El Niño, denominado El Niño Modoki. É necessário o acompanhamento mensal para confirmação do que irá acontecer.

  • Mas o que é o El Nino Modoki?

Este tipo de El Niño possui aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial um pouco diferente do El Niño clássico. No El Niño Modoki há aquecimento no centro do Oceano Pacífico equatorial e resfriamento das águas na costa oeste do continente americano (costa do Peru), e isso implica em efeitos diferentes. Durante sua configuração, na região Sul do Brasil, a primavera apresenta chuvas dentro da normal climatológica, enquanto que no verão a precipitação fica abaixo da normal.

Figura 2 – Anomalia da temperatura da superfície do mar ocorrida no mês de agosto/2018. No quadro em preto está a região do Niño 3.4 onde é feito o monitoramento das temperaturas. FONTE: CPTEC/INMET
  • Previsão da precipitação para o trimestre de setembro-outubro-novembro/2018:

Região Norte

A previsão indica que a precipitação deve ficar acima da normal em parte do Noroeste do Amazonas, Acre e regiões do Pará. Anomalias negativas da precipitação são previstas para o estado de Roraima e Tocantins (Figura 3).

Região Nordeste

A previsão indica que a precipitação fique dentro da normal climatológica no trimestre de setembro a novembro (Figura 3). Com a chegada da primavera, a estação seca começa a atuar nesta região, exceto nos estados do Piauí, Maranhão e Oeste da Bahia.

Região Centro-Oeste

Setembro e outubro são meses que correspondem a um período mais seco na região, principalmente nos estados do Mato Grosso e Goiás. É esperado precipitação irregular, abaixo da normal, em todos os estados (Figura 3). A partir de outubro se inicia a estação chuvosa, porém com leve atraso, em outubro ainda há possibilidade de chuvas irregulares.

Região Sudeste

Assim como na Região Centro-Oeste, setembro e outubro correspondem a meses mais secos desta região. A previsão indica precipitação abaixo da normal climatológica. (Figura 3). A estação chuvosa que inicia com a chegada da primavera pode sofrer um leve atraso.

Região Sul

A previsão para o trimestre indica anomalias negativas no centro-leste do Paraná e parte do estado de Santa Catarina (Figura 3). No Rio Grande do Sul é esperado precipitação dentro da normal no centro-norte e pouco acima da normal no centro-sul. A primavera é caracterizada por ser mais chuvosa no RS.

Figura 3 – Previsão de anomalias de chuva para o Brasil no trimestre de setembro-outubro-novembro/2018. Fonte: INMET


  • Impacto sobre as culturas

Região Sul

A primavera é caracterizada por apresentar maiores volumes de precipitação. Neste caso, lavouras de trigo no Rio Grande do Sul poderão ser prejudicadas pois os maiores períodos com chuva dificultam a colheita e possível redução do peso de hectolitro – pH), além de maior umidade relativa do ar e temperaturas amenas, que são condições meteorológicas que favorecem a multiplicação de doenças.

Além disso, o maior número de dias com chuva e nebulosidade, reduz a incidência de radiação solar durante o período de enchimento de grãos, que é crítico para definir qualidade e produtividade de trigo.

Para o milho, a semeadura já iniciou no RS e Paraná, que é a época de semeadura que permite as lavouras de milho alcançar o maior potencial de produtividade. A maior regularidade de precipitações favorece o estabelecimento inicial e o desenvolvimento vegetativo, sendo favorável para aumentar o potencial produtivo.

Para arroz irrigado no RS, o período de chuvas pode prejudicar o avanço da semeadura. Por isso, os agricultores gaúchos de arroz devem ficar atentos às janelas para realizar a semeadura das cultivares com alto potencial produtivo nos meses de setembro e outubro, visando construir altas produtividades em suas lavouras.

Para soja, os produtores que pretendem iniciar a semeadura no cedo (final de setembro e início de outubro), atentar para dessecar a área e aproveitar as janelas de tempo bom para ter condições ótimas de semeadura.

Em se confirmando El Niño Modoki, no qual há diminuição da precipitação com a chegada do verão, é necessário atentar para as culturas de soja e milho, pois é neste período que estas culturas estarão florescendo e se encontram extremamente sensíveis ao déficit hídrico.

Regiões Centro-Oeste e Sudeste

A falta de chuva prevista para o trimestre de Set-Out-Nov para o Centro-Oeste e Sudeste pode favorecer a colheita de café, cana-de-açúcar e trigo, porém a irregularidade nas chuvas pode provocar atraso nas lavouras de milho e soja semeadas na primeira safra.


Este é mais um boletim de Previsão Climática e sua interpretação para a Agricultura, da parceria Mais Soja/SimulArroz. O boletim elaborado mensalmente pela meteorologista da Equipe SimulArroz Stefania Dalmolin da Silva traz as tendências climáticas paras as regiões brasileiras com foco na aplicação para a agricultura.

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