Conversamos com o pesquisador e professor pela Universidade de Passo Fundo – UPF, Carlos Forcelini, a respeito do manejo da ferrugem asiática na cultura da soja. Monitoramento, resistência, intervalo de aplicação, confira abaixo a entrevista com o professor.

Mais Soja (MS): Em relação ao manejo de ferrugem, temos diversas práticas de manejo que auxiliam, como por exemplo o vazio sanitário. Como está o monitoramento das plantas guaxas? Recentemente divulgamos um levantamento realizado pela Aprosoja/MT onde no monitoramento foram encontradas soja guaxa em diversos municípios, qual o impacto destas plantas na ocorrência de ferrugem da próxima safra?

Carlos Forcelini (CF): O fungo Phakopsora pachyrhizi, causador da ferrugem asiática, sobre na entressafra nas plantas de soja guaxas (tigueras). No Sul também temos observado maior presença destas plantas, em função de que as temperaturas mínimas no inverno não foram suficientemente baixas para eliminar tais plantas. O próprio mapa da distribuição da ferrugem, disponível na página do Consórcio Anti-Ferrugem, mostra mais presença de soja na entressafra com a ferrugem. Quando isto acontece, pela proximidade da ferrugem, a doença se inicia mais cedo nas lavouras comerciais e atinge severidades mais elevadas, mesmo naquelas estabelecidas no início do período de semeadura. Este é cenário previsto para este ano, especialmente no Sul, pela também previsão de mais chuvas (maior probabilidade do fenômeno El Niño).

(MS): Em anos que a ferrugem ocorre mais cedo, qual a melhor estratégia a ser adotada pelos produtores no que se refere ao manejo com fungicidas?

(CF): Os cuidados devem ser maiores. O programa de aplicações precisa começar mais cedo (no máximo até o pré-fechamento das entrelinhas), os intervalos entre aplicações menores (máximo 15 dias) e maior inclusão de reforços nas aplicações. Em algumas situações, esta mudança resulta em uma aplicação a mais, porém muito importante em safras com maior risco da doença.

(MS): Como está a evolução da resistência da ferrugem aos principais grupos químicos? e quais as estratégias para manutenção da eficiência de controle destes fungicidas, visto que o lançamento de novas ferramentas com diferentes modos de ação é bastante limitado no curto prazo?

(CF): A resistência aos principais grupos de fungicidas (triazol, estrobilurina e carboxamida) é uma realidade hoje no Brasil e países vizinhos como o Paraguai e a Bolívia. O tempo de validade dos fungicidas específicos (suscetíveis à resistência) tem sido menor que o necessário para desenvolvimento de novas moléculas, diferentes das que estão comprometidas. Isso nos remete a uma situação perigosa, visto que fungicidas com mecanismos de ação novos poderão estar disponíveis a partir de 2025. E não há como saber somo será o grau de intensidade da resistência até que a próxima safra seja concluída e os trabalhos de monitoramento finalizados. Por isso é fundamental a adoção de medidas para reduzir o risco e impacto da resistência, uma das principais, o reforço com fungicidas multissítios, ou a utilização de formulações mistas que já incluam os multissítios na sua composição.

(MS): Voltando ao tema do manejo nos estágios iniciais: como o produtor pode monitorar a lavoura ou a ocorrência de ferrugem para acertar o timing de entrada?

(CF): O monitoramento da ferrugem asiática na fase inicial é muito difícil. Isso porque os sintomas da doença (urédias) são pequenos e poucos, além de existir um período em que a infecção já está presente, porém não há sintomas nas plantas. Na fase inicial a soja também emite novas folhas, diluindo e escondendo a doença. Também tem o fato de que o olho humano tem muita dificuldade em identificar a presença da ferrugem em incidências abaixo de 5%. Se considerarmos uma lavoura de soja na fase vegetativa (ex. V7), com pelo menos 5 milhões de folíolos, 5% de incidência corresponderiam a 250.000 folíolos já com sintomas, fora aqueles já doentes, porém ainda assintomáticos. Portanto, é muito tarde para um controle satisfatório, especialmente por que os fungicidas disponíveis são mais preventivos do que curativos. Por isso, pensando na ferrugem e nas outras doenças (manchas, antracnose, oídio, …) já presentes na planta, melhores resultados são obtidos com uma primeira aplicação antes do fechamento das entrelinhas da soja.

(MS): E como definimos o intervalo, e a escolha pela adição ou não de fungicidas protetores?

(CF): O intervalo é definido em função do período de proteção conferido pelos fungicidas, da velocidade de crescimento e emissão de novas folhas pela planta, das condições ambientais, se mais favoráveis ou não à evolução das doenças. Melhores resultados são obtidos quando o intervalo é de até 15 dias nas cultivares suscetíveis, e 20 dias naquelas com resistência parcial (ex. cultivares “Inox”). A adoção de reforços com protetores (multissítios) ou outros fungicidas (triazol ou morfolina) tem aumentado lentamente no Brasil. Por segurança, seria interessante utilizá-los em todas as aplicações.

(MS): Com sua experiência no manejo desta importante doença da soja, qual recado o senhor deixaria aos agricultores que iniciam a semeadura da nova safra dentro de duas semanas?

(CF): Até finalizarmos a safra 2018/19, não saberemos qual será a intensidade da ferrugem e o grau de resistência de Phakopsora aos fungicidas. É aconselhável e mais seguro estar preparado para uma situação pior, pois caso ela assim aconteça, o manejo estará adequado. Os principais cuidados incluem começar cedo com o programa de aplicações, respeitar intervalos seguros, posicionar cada fungicida no momento correto de acordo com suas características e incluir os reforços em cada aplicação. Mas tudo isso também depende da qualidade de aplicação, a qual deve ser a melhor possível.

Elaboração: Equipe Mais Soja com apoio da assessoria de imprensa da UPL

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