Qualidade física de sementes de aveia preta produzidas na região noroeste do RS

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O presente estudo teve o objetivo de avaliar a qualidade física de sementes de aveia preta produzidas na Região Sul do Brasil 

Autores: Matheus Torres Ferreira¹, Franciele Cossetim da Silva2, Roberto Carbonera3

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

O plantio de sementes de cultivares introduzidas de forrageiras manteve-se ao longo de décadas graças aos processos de seleção natural e do intercâmbio de sementes entre regiões, que possibilitaram cruzamentos naturais, originando as bases genéticas das espécies cultivadas, como azevém anual (Lolium multiflorum Lam.), aveia preta (Avena strigosa Schreb.), entre outras (MAIA, 2013).

Por longo período, houve grande informalidade no setor de sementes de espécies forrageiras, com poucas cultivares indicadas para multiplicação e cultivo (PEREIRA, 2013). Esta condição vem se alterando nos últimos anos com maior organização e formalização do setor.

Entre as espécies cultivadas, a aveia preta é a espécie que vem ocupando a maior área de cultivo no inverno, Del Duca et al. (2004), com área estimada em 3.850.000 ha na safra 2013/14 (ABRASEM, 2014).

Para dar suporte ao sistema de produção de sementes, tem sido realizados estudos de avaliação da qualidade física e fisiológica. Trabalhos realizados por Fonseca, Maia e Lucca-Filho (1999) constataram que apenas 47% das amostras de sementes de azevém apresentaram padrões de pureza e germinação; 81% apresentavam padrões para germinação e 54% para pureza física.

Estudo de sementes de azevém conduzido no Estado do Paraná constatou que a maioria das amostras apresentou porcentagem de sementes puras na faixa de 86% a 96%, abaixo do padrão, de 97%. No ano de 2007, 100% das amostras de azevém anual estavam dentro do padrão (OHLSON; SOUZA; PANOBIANCO, 2008). Trabalhos realizados nos anos de 2008 a 2010 concluiu que de 50% a 100% das amostras de azevém estavam abaixo do padrão para sementes puras (OHLSON, et al., 2011).

Como se constata, é grande a variabilidade na qualidade das sementes de espécies forrageiras produzidas, fato este que pode impactar no estabelecimento do estande adequado e no potencial produtivo. Assim, é importante caracterizar e categorizar os atributos físicos e fisiológicos das sementes produzidas e associá-los aos padrões a fim de indicar o uso de sementes com elevados padrões de qualidade.

Diante disto, o presente estudo teve o objetivo de avaliar a qualidade física de sementes de aveia preta produzidas na Região Sul do Brasil e, como objetivos específicos, caracterizar os níveis de pureza física apresentados nas amostras analisadas, em percentagem de sementes puras, outras sementes e material inerte, bem como estudar a ocorrência de outras sementes por número em sementes cultivadas, silvestres, nocivas toleradas e nocivas proibidas.

O trabalho foi realizado tendo como base o banco de dados de análise de sementes do Laboratório de Análise de Sementes do curso de Agronomia do Departamento de Estudos Agrários (DEAg) da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), localizado no município de Ijuí, RS.

Foram avaliados os resultados de análise de sementes de aveia preta (Avena strigosa Schreb.) pertencente às safras de 2006 a 2014, sendo: 256 amostras do ano de 2006, 281 de 2007, 260 de 2008, 394 de 2009, 547 de 2010, 116 de 2011, 139 de 2012, 184 de 2013 e 52 de 2014. Foram estudadas 2.229 amostras integrantes do processo de produção de sementes, pertencentes às categorias S1 e S2, sementes não certificadas de primeira e segunda geração, respectivamente.

As análises da qualidade física foram realizadas seguindo a metodologia recomendada pelas Regras de Análise de Sementes (BRASIL, 1992; BRASIL, 2009). A análise de pureza determina a composição percentual por peso e a identidade das espécies de sementes e do material inerte presente na amostra. A amostra de trabalho é separada em três componentes: semente pura, outras sementes e material inerte, indicados em porcentagem por peso da amostra. A análise de pureza foi realizada em 100 g até o ano de 2010 e, a partir deste ano, em amostra de 50 gramas. Esta alteração foi promovida com a entrada em vigor da Instrução Normativa Nº 33/2010, Ministério, (2010), que extinguiu a Portaria Nº 381/1998 (MINISTÉRIO…, 1998).

A determinação de espécies nocivas, em complementação à análise de pureza, foi realizada até o ano de 2010, de acordo com Portaria Nº 381/1998 (MINISTÉRIO…, 1998). Esta determinação foi alterada para a determinação de outras sementes por número, incluindo espécies cultivadas, espécies silvestres, nocivas toleradas e proibidas, com a entrada em vigor da Instrução Normativa Nº 33/2010 (MINISTÉRIO…, 2010). Estas determinações foram realizadas em amostras de 500 gramas.

Os resultados foram submetidos à análise estatística descritiva por variável para os anos estudados e identificados os dados discrepantes a partir das médias, desvio-padrão e coeficientes de variação, utilizando o programa GENES (CRUZ, 2013). Fez-se, também, a apresentação dos dados em gráficos de dispersão, com o auxílio do aplicativo Office Excel e foram determinadas as porcentagens de amostras que se encontravam fora dos padrões recomendados.

No período de 2006 a 2010, 1,8% das amostras estavam abaixo do padrão para a variável porcentagem de outras sementes, ou seja, 98,2% das amostras estavam dentro dos padrões exigidos (Tabela 1). Nos anos de 2011 a 2014, nenhuma amostra foi reprovada neste parâmetro o que indica, também, que as sementes apresentaram um grau elevado de pureza física.

Tabela 1. Porcentagem de amostras classificadas como abaixo do padrão mínimo exigido pela legislação em sementes de aveia preta analisadas entre 2006 a 2014, LAS/UNIJUI. Ijuí, RS, 2018.

Entre os anos de 2006 a 2010 foram reprovadas 3,1% das amostras quanto à presença de outras sementes de espécies cultivadas, enquanto que de 2011 a 2014, 14 % das amostras analisadas foram reprovadas (Tabela 1). A elevação do percentual de reprovação no último período, deve-se, em parte, à inclusão desta análise na determinação de outras sementes por número, na amostra de 500 gramas (antes era realizada na amostra de pureza em 100 gramas), e à redução de 50 para 16 sementes como limite de outras sementes de espécies cultivadas presentes, conforme consta na Instrução Normativa Nº 33/2010 para aveia preta (MINISTÉRIO…, 2010). Nenhuma amostra esteve fora dos padrões quanto à presença de sementes de espécies silvestres ao longo dos nove anos de estudo.

A porcentagem média de sementes puras foi de 99,4% em nove anos estudados (Tabela 2). Em todos os anos, houveram amostras com 100% de sementes puras. A média do desvio padrão ficou em 0,48. Estes dados indicam índices superiores de qualidade em relação aos obtidos por Fonseca, Maia e LuccaFilho (1999) em azevém. Os dados mostram, também, superioridade quando comparados aos dados de outros trabalhos similares com análise de sementes de espécies forrageiras. Isso deve-se, provavelmente, ao esforço e ao investimento realizado pelas empresas produtoras de sementes no sentido de serem obtidas amostras de sementes com elevado grau de pureza física.

Tabela 2. Estatística Descritiva (ED), Número de Amostras (N), Média (̅), Desvio Padrão (DP), Máximo (Mmáx), Mínimo (Mmín), Sementes Puras (%), Material Inerte (%), Outras Sementes (%), Número de Outras Sementes por Número, Espécies Cultivadas, Silvestres, Nocivas Toleradas e Proibidas em sementes de aveia preta, safras 2006 a 2014, LAS/UNIJUI. Ijuí, RS, 2018.

A presença de material inerte atingiu uma média de 0,47% ao longo dos nove anos, com a máxima de 3,3% no ano de 2007. Estes dados, aliados a um desvio padrão médio de 0,39 indicam um baixo grau de presença destas impurezas, significando que as sementes foram colhidas e beneficiadas com eficácia na remoção deste material. No material inerte, encontrou-se palha, partículas de solo, poeira, parte de cariopses, pálea lema e restos culturais.

A presença média de outras sementes foi de 0,13% e o desvio padrão de 0,26 (Tabela 2). Esta variável, também, teve um valor médio baixo, uma vez que o máximo permitido é de 1% da amostra (MINISTÉRIO…, 2010).  Quanto à da presença de outras sementes por número, a média foi de 11,5 sementes e o desvio padrão médio foi de 20,74. Os dados indicam que houve uma ampla variabilidade nas amostras analisadas para esta variável.  Dessas, 9,3 sementes por amostra foram sementes de outras espécies cultivadas, 0,5 sementes silvestres, 1,7 sementes de espécies nocivas toleradas e zero de nocivas proibidas.

Referências:

Mapa. Instrução Normativa nº 33, de 4/11/2010. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de sementes. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Brasília, DF: Mapa; ACS, 2009.

ABRASEM. Anuário 2014: Estatística da produção e comercialização de sementes no Brasil. ABRASEM, Brasília, 2014.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de Sementes. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Brasília, DF: Mapa, 1992.

CRUZ, C.D. GENES – a software package for analysis in experimental statistics and quantitative genetics. Acta Scientiarum, v.35, n.3, p.271-276, 2013.

DEL DUCA, L.J.A.; FONTANELI, R.S.; LANA, B.D.; NASCIMENTO JUNIOR, A.; CUNHA, G.R.; RODRIGUES, O.; GUARIENTI, E.M.; MIRANDA, M.Z.; COSTAMILAN, L.M.; CHAVES, M.S.; LIMA, M.I.P.M. Experimentação de trigo e outros cereais de inverno para duplo propósito no Rio Grande do Sul, em 2003. Documentos Online 41. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2004. 21 p.

FONSECA, M.G.; MAIA, M.S.; LUCCA FILHO, O.A. Avaliação da qualidade de sementes de azevém-anual (Lolium multiflorum Lam.) produzidas no Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Sementes, Campinas, vol. 21, n. 1, p. 101-106, 1999.

MAIA, M.S. A pesquisa em sementes de espécies forrageiras de clima temperado e subtropical no Brasil. Informativo ABRATES, vol. 23, n.2, p. 38, 2013.

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Mapa. Portaria nº 381, de 05/08/1998.

OHLSON, O.C.; GRZYBOWSKI, C.R.S.; SILVA, B.A.; NOGUEIRA, J.L.; PANOBIANCO, M. Análise exploratória de dados: qualidade de sementes de azevém comercializadas no Estado do Paraná. Informativo Abrates, Londrina, vol. 21, n. 3, p. 47-51, 2011a.

OHLSON, O.C.; SOUZA, C.R.; PANOBIANCO, M. Levantamento da qualidade de sementes de azevém comercializadas no Estado do Paraná. Informativo Abrates, Londrina, vol. 18, n. 1, 2, 3 p. 18-22, 2008.

PEREIRA, S. Sistema de produção de sementes de espécies forrageiras tropicais na visão da Sulpasto: pesquisa, comercialização e fiscalização. In: Informativo Abrates, vol. 23, n. 2, p. 40, 2013.

Informações dos autores:  

¹ Estudante de agronomia, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí;

2 Analista de Sementes, Laboratório de Análise de Sementes, UNIJUÍ;

3 Eng. Agr., Doutor, Professor Departamento de Estudos Agrários, UNIJUÍ.

Disponível em: Anais do XXXVIII REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE AVEIA, Ijui – RS, Brasil, 2018.

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