Qualidade fisiológica de sementes de aveia preta produzidas na região Noroeste do RS

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O trabalho teve por objetivo avaliar a qualidade fisiológica de sementes analisadas pelo Laboratório de Análise de Sementes da UNIJUI produzidas nas safras de 2006 a 2014

Autores: Anael Roberto de Oliveira Bin¹, Michele Renz Scheer2, Roberto Carbonera3

Trabalho publicado nos Anais do evento e divulgado com a autorização dos autores.

A utilização de sementes com elevada qualidade genética, física, fisiológica e sanitária constitui-se em elemento decisivo para a implantação de culturas com possibilidades de maximizar o desempenho das cultivares. Atribui-se às sementes boa parte da responsabilidade para o desenvolvimento agrícola em situações de normalidade, bem como para a sua recuperação, após a ocorrência de eventos impactantes como secas, enchentes e epidemias (OLIVEIRA et al., 2013).

A produção animal na Região Noroeste do Rio Grande do Sul foi estimulada pela introdução de espécies forrageiras, em virtude da crise enfrentada pelo binômio trigo e soja, nas décadas de 70 e 80. A partir destas introduções, foram realizadas pesquisas que viabilizaram o domínio da tecnologia de produção de sementes (MEDEIROS, 1976; SOUZA et al., 1992).

Atualmente, o cultivo de forrageiras serve de base para a alimentação do gado leiteiro e desempenha importante papel no desenvolvimento regional. Segundo dados do Censo Agropecuário, existiam 204 mil estabelecimentos que produziam 2,7 bilhões de litros anuais de leite no RS e a Região Noroeste respondia por 60% (TRENNEPOHL, 2011). Atualmente, o Estado produz 4,6 bilhões de litros, sendo o terceiro em produção (CARVALHO; ROCHA; CARNEIRO, 2018).

Por longo período, houve grande informalidade no setor de sementes de espécies forrageiras, com poucas cultivares indicadas para multiplicação e cultivo (PEREIRA, 2013). Esta condição vem se alterando nos últimos anos com maior organização e formalização do setor.

Entre as espécies cultivadas, a aveia preta ocupa lugar de destaque no RS com área estimada em 3.850.000 há na safra 2013/14 (ABRASEM, 2014). É uma espécie de clima temperado, rústica, com excelente capacidade de perfilhamento, produção de massa verde e tolerante ao pisoteio animal. Com a evolução do plantio direto, passou a ser utilizada na rotação de culturas e na formação de palha, gerando benefícios às espécies sucessoras (CARVALHO et al., 2010).

Diante da importância da aveia preta, o presente trabalho teve por objetivo avaliar a qualidade fisiológica de sementes analisadas pelo Laboratório de Análise de Sementes da UNIJUI produzidas nas safras de 2006 a 2014. Foram avaliadas 2.229 amostras pertencentes às categorias S1 e S2, sementes não certificadas de primeira e segunda geração, respectivamente, sendo: 256 em 2006, 281 em 2007, 260 em 2008, 394 em 2009, 547 em 2010, 116 em 2011, 139 em 2012, 184 em 2013 e 52 em 2014.

As amostras foram analisadas seguindo as Regras de Análise de Sementes (BRASIL, 1992; BRASIL, 2009). Na realização do teste de germinação, utilizou-se pré-secagem a 35ºC, por sete dias, em estufa com circulação de ar. Após as sementes foram semeadas em rolo de papel, com quatro repetições de 100 sementes e colocadas em uma câmara com temperatura de 20ºC. Na avaliação, determinaram-se as porcentagens de plântulas normais, plântulas anormais e de sementes mortas.

Os padrões utilizados para comparar os resultados até o ano de 2010 foi o mínimo de 75% de germinação, segundo Portaria Nº 381/1998 (MINISTÉRIO…, 1998). A partir do ano de 2010, foi utilizado o padrão mínimo de 80% de germinação, conforme consta na Instrução Normativa Nº 33/2010 (MINISTÉRIO…, 2010).

Os resultados foram submetidos à análise estatística descritiva por variável, por ano e identificados os dados discrepantes de médias, desvio-padrão e coeficientes de variação, utilizando o programa GENES (CRUZ, 2013). Fez-se, a apresentação dos dados em gráficos de dispersão, com o auxílio do Office Excel e determinadas as porcentagens de amostras fora dos padrões e comparados os dados com as ocorrências meteorológicas de temperaturas máximas e precipitações. Os resultados da análise fisiológica são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1. Estatística descritiva (ED), Número de Amostras (N), Média (̅), Desvio Padrão (DP), Máximo (Mmáx), Mínimo (Mmín), para Plântulas Normais (%), Plântulas Anormais (%) e Sementes Mortas (%) em sementes de aveia preta analisadas entre 2006 a 2014, LAS/UNIJUI. Ijuí, 2018.

A germinação média foi de 90,3%, com médias das máximas de 98,7%, média das mínimas de 59,3% e desvio padrão de 6,0. Nos anos de 2008, 2010 e 2011 foram obtidas médias superiores a 92% de plântulas normais e nos anos de 2009, 2012 e 2014 as médias foram abaixo de 90%, com maior dispersão dos dados, Figura 1.

 

Figura 1. Gráficos de dispersão para Plântulas Normais (A, %), Plântulas Anormais (B, %) e Sementes Mortas (C, %) em amostras de sementes de aveia preta, analisadas entre 2006 a 2014, LAS/UNIJUI. Ijuí, RS, 2018.

As plântulas anormais tiveram média de 5,6%, com 0,5% de média das mínimas e 18,6% de média das máximas e baixo desvio padrão médio de 3,6. Houve destaque no ano de 2012 com a média de 8,2% (Tabela 1).

As sementes mortas apresentaram uma média de 4,1%, variando de zero a 30,5% de média das máximas e um desvio padrão médio de 3,7 (Tabela 1). Foi mais elevada em 2014, com 7,5%, ano com baixa germinação média.

Os resultados da porcentagem de amostras classificadas como abaixo do padrão (75%) foi de apenas 0,7% entre 2006 a 2010, de 1738 amostras e 3,8% no período de 2011 a 2014 (80%), de 491 amostras. Estes dados mostram níveis elevados de qualidade fisiológica. O aumento de sementes fora do padrão, deveuse, em parte, à elevação da germinação mínima de 75% para 80%, conforme Instrução Normativa Nº 33/2010 (MINISTÉRIO…, 2010).

Os dados obtidos indicam elevada qualidade fisiológica de sementes de aveia preta produzidas, o que colabora com a expectativa de propiciar as condições para se obter a população desejada de plantas por unidade de área (KRZYZANOWSKI, 2013).

Na Figura 2, observam-se os dados de temperaturas máximas e precipitações ocorridas durante o ciclo de cultivo. Os anos de 2009, 2012 e 2014 apresentaram elevadas temperaturas máximas e precipitações, influenciando na qualidade fisiológica. Isso ocorre porque condições ambientais adversas de cultivo podem alterar o dreno metabólico preferencial, em que partes vegetativas e raízes tornamse drenos preferenciais em detrimento dos órgãos reprodutivos ou sementes, afetando a produtividade e qualidade das sementes (PEDÓ et al., 2013).

Figura 2. Temperatura máxima (ºC) e precipitações diárias (mm) ocorridas durante o ciclo de cultivo da aveia preta, de junho a setembro, nos anos de 2006 a 2014. Estação Meteorológica, Instituto Regional de Desenvolvimento Rural, Departamento de Estudos Agrários, UNIJUÍ, Augusto Pestana, RS. Ijuí, 2018.

Referências:

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ABRASEM. Anuário 2014: Estatística da produção e comercialização de sementes no Brasil. ABRASEM, Brasília, 2014.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de Sementes. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Brasília, DF: Mapa, 1992.

CARVALHO, P.C.F.; SANTOS, D.T.; GONÇALVES, E.N.; MORAES, A.; NABINGER, C. Forrageiras de Clima Temperado. In: FONSECA, D. M. de & MARTUSCELLO, J. A. Plantas forrageiras. Viçosa: UFV, 2010. p. 494-537.

CARVALHO, R.C; ROCHA, D.T.; CARNEIRO, A.V. Indicadores: Leite e Derivados. – Ano 9, n. 75 (Fevereiro/2018) – Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2018. 16p.

CRUZ, C.D. GENES – a software package for analysis in experimental statistics and quantitative genetics. Acta Scientiarum, v.35, n.3, p.271-276, 2013.

KRZYZANOWSKI, F.C. Controle de qualidade e a produção de sementes de alta qualidade. Informativo ABRATES, v.23, n.2, p.17, 2013.

MEDEIROS, R.B. Formação e manejo de pastagens para a Região do Planalto Médio e Missões. Porto Alegre: Secretaria da Agricultura do RS, 1976. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Mapa. Portaria nº 381, de 05/08/1998.

OLIVEIRA, A.L.; MOREIRA, A.A.; SAMPAIO, G.V.; OLIVEIRA, E.A.S.; SANTOS, E.S.; DOURADO, V.V. Produção de sementes em comunidades tradicionais da agricultura familiar. In: SCHUCH, L.O.B; VIEIRA, J.F.; RUFINO, C.A.; JÚNIOR J.A. Sementes: produção, qualidade e inovações tecnológicas. Pelotas: Editora e Gráfica Universitária, p. 483-495, 2013.

PEDÓ, T.; MARTINAZZO, E.G.; AUMONDE, T.Z.; VILLELA, F.A. Princípios fisiológicos na produção de sementes. In: SCHUCH, L.O.B.; VIEIRA, J.F.; RUFINO, C.A.; JÚNIOR, J.S.A. Sementes: produção, qualidade e inovações tecnológicas. Pelotas: Editora Gráfica Universitária, 2013. PEREIRA, S. Sistema de produção de sementes de espécies forrageiras tropicais na visão da Sulpasto: pesquisa, comercialização e fiscalização. In: Informativo Abrates, vol. 23, n. 2, p. 40, 2013.

SOUZA, J.M.; MEDEIROS, R.B.; ZAMBRA, J.E.G., GIESELER, P., GUTH, O. Introdução e avaliação preliminar de gramíneas tropicais e subtropicais no Noroeste do Rio Grande do Sul. In: CARBONERA, R.; PEREIRA, T.F.P.; SEVERO, J.L.P.; VIAU, L.V.M. Pesquisa no Centro de Treinamento Cotrijuí. Ijuí: Cotrijuí, 1992. p. 143-156.

TRENNEPOHL, D. Avaliação de potencialidades econômicas para o desenvolvimento regional. Ijuí: Ed. Unijuí, 2011.

Informações dos autores:  

¹Estudante de Agronomia, Estagiário CIEE, Laboratório de Análise de Sementes, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Ijuí, RS;

2Analista, Laboratório de Análise de Sementes, UNIJUÍ;

3Professor, Departamento de Estudos Agrários, UNIJUÍ.

Disponível em: Anais do XXXVIII REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE AVEIA, Ijui – RS, Brasil, 2018.

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