Uma crise climática que pode gerar uma grande crise política

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O relatório da Chatam House, um centro de estudos estratégicos de Londres, revela que os
eventos climáticos podem gerar crises políticas, à medida que se tornam cada vez mais comuns suas situações extremas.

A segurança alimentar global depende do comércio de apenas quatro commodities: milho, trigo, arroz e soja.

As três primeiras respondem por 60% do consumo mundial de energia alimentar. O quarto item, a soja, é a maior fonte de proteína para alimentação animal, com participação de 65%. A produção se concentra em meia dúzia de países exportadores, incluindo Estados Unidos, Brasil e a região do Mar Negro.

Entre 2000 e 2015, o comércio mundial de alimentos cresceu 127%, chegando a 2,2 bilhões de toneladas – e a projeção é de que os índices continuarão subindo. Mas o escoamento das safras passa por apenas 14 rotas de transporte. Tal gargalo tem sido considerado perigoso, alerta este relato, que salienta o que poderia ocorrer se a colheita de trigo da Rússia fosse devastada por uma estiagem, como sucedeu em 2010, e acontecessem também em outros grandes produtores péssimas condições climáticas e safras frustradas.

Nos Estados Unidos, poderia ser uma temporada de enchentes que inundasse os canais de navegação ou sobrecarregasse os portos. No Brasil, respondendo por 17% das exportações de trigo, milho, arroz e soja, com estrutura rodoviária ruim, poderiam ser as chuvas torrenciais bloqueando rotas de transporte. Se isso acontecesse, simultaneamente a uma enchente nos Estados Unidos e uma estiagem na Rússia, haveria escassez mundial de alimentos, e possíveis revoltas e instabilidades políticas advindas de fome nas regiões dependentes de importações. Uma ruptura em qualquer desses gargalos é problema certo, mas, se vários sofrerem interferências de uma só vez, o resultado pode ser desastroso.

Com o aquecimento do planeta, é mais provável a ocorrência de eventos climáticos extremos. A crise global de alimentos entre 2007 e 2008 veio acompanhada por protestos em 61 países e por rebeliões em outros 23. Condições climáticas extremas e fluxos comerciais crescentes aumentam o risco decolapso. O McKinsey Global Institute avalia que cobrir o déficit mundial de investimentos em infraestrutura demandaria US$ 250 bilhões extras por ano, até 2040 (os Estados Unidos têm um dos maiores déficits entre os países do G20, segundo a Chatam House).

Uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, em 2016, descobriu que esses riscos são ignorados, mesmo nos países ricos. É necessária uma abordagem internacional coordenada. É necessário que os governos e instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos da ONU, criem normas para coordenar situações em que haja ruptura da segurança alimentar. Isso incluiria planos emergenciais para distribuir alimentos e estratégias mais inteligentes de armazenamento – em que os gargalos logísticos não mais possam interromper a chegada de ajuda.

Também são necessárias medidas preventivas, como a diversificação da produção, para que o mundo não fique tão dependente de meia dúzia de megaprodutores e exportadores de comida. Tudo isso requer planejamento de longo prazo.

Fonte: The Washington Post, dispnpivel no Informativo Conjuntural da Emater nro. 1492 de 08 de março de 2018.

Texto originalmente publicado em:
Emater
Autor: The Washington Post

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